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Monday, July 30, 2012

De volta pela Serra

Recentemente interrompi a "licença" parental para partilhar com um amigo e convidados, todos praticantes de BTT, uma das minhas paisagens preferidas dentro do PNPG. A caminhada para além desse objectivo procurava demonstrar a impossibilidade de ligar o Porto da Laje a Fafião em BTT. Aceitando a minha opinião de que tal não era possível, dizia-me o meu amigo que no meio dos "bttistas" se falava nessa ligação e até haveriam relatos e notícias de traks pela net. Como não era fácil contrariar a vontade de fazer a "descoberta" dessa ligação, acabei por considerar que seria uma boa oportunidade para voltar a caminhar. Ainda que tivesse fundamentadas dúvidas sobre as minhas capacidades físicas actuais e noção que a conjugação da dificuldade do terreno e calor não me seria a mais favorável. Acrescido à falta de forma, o meu maior receio eram o excesso de formas acumuladas nestes meses de descoberta da parentalidade. Algo que a serra, como professora exigente, me recordou e castigou. Ao longo da caminhada os meus companheiros de jornada foram-se deliciando com a paisagem e concordando com minha opinião relativa à ligação em BTT. Ficaram com vontade de voltar e fazer a totalidade do trilho marcado pela Vezeira de Fafião, ou outros que fui mencionando. Seguindo o programado, a  partir da Touça abandonamos o trilho através do Rio Laço em direcção à cabana da Amarela e ponte da Matança.


















nota: Encontrei um dos tracks dos bttistas. Não era mito. Carregaram as bicletas ao longo de 3 kms. Eu que defendo a partilha de informação não deixo de me assustar com as coisas que se encontram na net. É verdade que o aviso estava lá - na partilha, mas a Pandora também recomendaram que não abrisse a caixa. Partilhar tudo será um bom critério?

Tuesday, August 30, 2011

Dois dias de Serra!



Já algum tempo que desisti de tentar descrever as paisagens por onde passo na serra. O mais importante é preservar as emoções que elas nos despertam e para o resto existem as máquinas fotográficas. Infelizmente, devido a uma traição tecnológica, dos dois dias de serra do último fim de semana poucas memórias fotográficas ficarão. Para já tenho apenas a foto que ilustra este post. Uma vista diferente do vale das Fichinhas.

O convite para esta caminhada veio de uma amiga que partilha da mesma paixão pelo PNPG. Na verdade, serei eu que partilho com a Dorita a mesma paixão. Poucas pessoas conhecerão tão bem a zona oriental do PNPG como ela. Os pastores e outros residentes foram-lhe transmitindo informações privilegiadas, pelo que caminhar com ela é sempre descobrir coisas novas. O pretexto era explorar Porta Ruivas - um local muito pouco visitado e normalmente identificado por Sombrosas - e serviria também para reencontrar o Fernando, um amigo que conheci, através dela, em condições que já descrevi aqui.

Com pena minha, os meus companheiros da “aventura” de Fevereiro não se puderam juntar destas vez, mas teriam gostado de estar presentes. Pela caminhada e para reencontrar o Fernando.

Esta caminhada serviu ainda para o Fernando iniciar a sua filha Verónica, de 12 anos, nestas coisas de montanha. Os avós viam sair a neta com alguma preocupação, mas podem ter orgulho na fibra que revelou e que deve vir do berço.

O grupo ficou constituído por mim, pela Dorita (White Angel), pelo Fernando, pela Verónica e pelo Leão – um pastor alemão belíssimo que já tinha acompanhado o Fernando em Fevereiro.

Se explorar Porta Ruivas era um dos atractivos da caminhada, o Fernando juntou-lhe outro ao propor irmos até ao local da dormida – lagoas do Marinho - por um trilho que há muito me despertava a curiosidade e que permitiu ainda conhecer os fojos de lobo de Pincães e de Alcântara.

Nas lagoas encontramos alguns residentes e naturais que estavam a passar o dia na serra e me fizeram pensar nas velhas polémicas entre o Parque e a população. Na sua maioria trabalham ou trabalharam fora da aldeia, mas aproveitam o Verão para voltar à "sua" serra. Esta apropriação não é apenas imaterial, porque, para além dos outros que são propriedade colectiva, alguns dos terrenos foram ou são das suas famílias. Se a serra já não é, como foi, a sustentação económica das populações é uma parte fundamental da sua identidade cultural. Um valor que o Parque precisa de considerar e valorizar como os outros valores que motivaram a sua criação. Conseguir o equilíbrio entre eles foi o desafio identificado no artigo publicado no número de Agosto da revista National Geografic, mais propriamente o desafio de preservar os valores ambientais respeitando as populações. Eu tenho sérias dúvidas que essa tenha sido a prioridade do PNPG nos últimos anos.

Ao jantar tivemos ainda a companhia de mais 3 companheiros de Vila do Conde com quem confraternizamos até o cansaço nos vencer. Há quem apenas goste de dormir em bons hotéis, mas, apesar da dureza do “colchão”, mas não me faltaram estrelas lá em cima. Faltou-me a minha  "Ariane"que ficou em casa a carregar o sonho.

Acordar na serra é uma sensação especial que todos deviam experimentar pelo menos uma vez na vida e depois do pequeno-almoço foi cheios de curiosidade que iniciámos a marcha. O destino era alcançar Porta Ruivas pelo norte.

Seguindo o caminho pelas minas do Borrageiro - em direcção ao que os pastores chamam serra dos bois - tomamos o trilho que nos levaria até aos Prados da Messe. No Curral dos Bezerros desviamo-nos em direcção a sul e encontramos um trilho perfeitamente definido. Foi sem grandes dificuldades que chegamos a um pequeno curral - que identificamos como curral de Porta Ruivas - onde algumas vacas a pastavam livremente. A partir deste curral continuamos a seguir as mariolas que, embora perfeitamente visíveis e em grande número, nos levaram por um trilho complicado e fechado. Um pouco mais à nossa esquerda era visível um outro trilho que acredito ser mais fácil de seguir. Um trilho que julgo ter início no estradão de acesso ao Porto da Lage . Depois de uma paragem para refrescar no Porto da Lage seguimos o trilho que nos levou até Fafião.

Nota 1
Desde a publicação do POPNPG que me impus alguma reserva na descrição das caminhadas e pode parecer estranho que a tenha quebrado. Particularmente quando assumo uma dormida na serra. Faço-o porque na minha interpretação a actividade está perfeitamente legitimada. O POPNPG estabelece que a pernoita na serra é dormir ao relento abrigado em bivaque ou pequena tenda, mas eu dormi dentro de uma construção em pedra e alvenaria. A caminhada, considerando o nº de  participantes, ainda que em ambiente natural, também não necessitavam de qualquer autorização prévia. 

Nota 2
Relativamente à partilha do track GPS aqui confesso que mantenho as minhas dúvidas. No entanto, considerando que todo percurso está marcado por mariolas, não vejo razões para não o fazer. Trata-se de um trilho de elevado grau de dificuldade física, mas espectacular. A decisão de o realizar deve ser muito bem ponderada avaliando as nossas condições e as condições exteriores. Condições climatéricas adversas podem tornar este trilho muito perigoso.




Monday, January 03, 2011

Mata do Cabril


vale do Cabril fotografado desde Ruivas
Vale do Cabril (carta 30, a vermelho o local da minha foto))
Foto do incêndio (orientação norte/sul) realizada  desde Olelas – Entrimo – Concello de Ourense
blogue Bordejar
fotografia do Vale do Cabril antes do incêndio em 04.05.2010 (José Carlos Callixto)
fotografia do Vale do Cabril antes do incêndio em 04.05.2010 (José Carlos Callixto)

Um aspecto da Serra Amarela e do Vale do Rio Cabril visto após o Ramisquedo
(blogue Carris)

Ontem fui lamber as feridas para a serra. Há muito que sentia a necessidade de caminhar. Foi uma jornada curta e moderada (apesar da subida inicial) pelo que o corpo não se ressentiu da inactividade. Fui explorar uma parte da serra que há muito queria visitar: da Portela do Homem ao muro de Vilarinho da Furna.  Queria também satisfazer a curiosidade sobre as consequências do incêndio de Agosto. Mais concretamente, queria ver com os meus olhos os efeitos no vale do Cabril. Numa palavra: Devastador!

Ainda que nem sempre o fogo seja negativo, pois pode até ter efeitos regeneradores. Custa compreender como uma das reservas integrais do PNPG não consegue ser protegida. Mais uma vez foi um fogo que começou nos limites e foi progredindo. De Agosto lembro-me das sucessivas declarações que se desmentiam (aqui, aqui e aqui ). Na Mta do Ramiscal também não foi muito diferente. A verdade, é que 2 das 3 reservas integrais arderam nos últimos anos. A verdade é que nos últimos anos na Mata da Albergaria o fogo esteve do outro lado da estrada.  A verdade é que no vale do Cabril é o segundo fogo em 10 anos. Isto não devia fazer pensar?

A caminhada serviu ainda para ver a Serra de perspectivas diferentes - que não consegui captar nas fotos - e para me reencontrar com amigos.

Mais uma curiosidade:
http://www.publico.pt/Local/cabrasmontes-da-mata-do-cabril-poderao-ter-fugido-do-fogo-para-espanha_1452247

Wednesday, November 17, 2010

Brandas de Sistelo



Gerês, 3 de Agosto de 1959 - Gosto de rever certas paisagens, ainda mais do que reler certos livros. São belas como eles, e nunca envelhecem. O tempo não degrada a linguagem que as exprime. Pelo contrário, enriquece-a, até, num esforço de perfeição constante que, embora involuntário, parece intencional.Faz alargar a copa a um carvalho, e reforça determinado volume; outaniça precocemente algumas folhas, e esbate um pouco a cor afogueada duma encosta; entoira um ribeiro e gera um lago onde se espeçha o perfil dos montes. E eu olho, olho, e não me canso de admirar uma placidez assim permanentemente movimentada. Pobre artista que sou, sei que é esse renovo ininterrupto que falta ás obras puramente humanas. Mesmo as geniais, são momentos vibráteis na qietude da eternidade, ilhas vulcânicas no mar morto do tempo. Agitam-se, mas dentro do seu anquilosamento histórico.

Miguel Torga, Diário VIII

Recordei-me desta entrada do Torga ao longo da caminhada do último Domingo pelas Brandas de Sistelo. É que se o  trilho já era conhecido, a paisagem estava diferente. As previsões meteorológicas do dia assustaran muitos dos interessados e, em consequência, a participação não foi elevada. É verdade que o dia cumpriu com o prometido, mas eu adoro caminhar à chuva. Só esses dias nos proporcionam a visão da serra no máximo da sua força. Por todo o lado rebentam águas e nos vales profundos as linhas de água correm com uma violência admirável. Há muito tempo que não caminhava num dia assim e valeu a pena.

A informação do trilho realizado encontra-se disponível no site da AAEUM. Voltaremos a este trilho mais algumas vezes.


Monday, March 01, 2010

A galinha dos ovos de ouro


Notícias recentes sobre actividades de clubes e grupos informais que organizam actividades de pedestrianismo parecem dar razão aos mais pessimistas. O emaranhado jurídico tecido em torno da realização de actividades pedestrianistas é cada vez mais complexo e são cada vez mais as dúvidas que as certezas.

O acto de caminhar, promovido por clubes, associações e, fundamentalmente, por grupos informais aparentemente foi qualificado como actividade de animação turística. Sendo esta actividade própria (leia-se exclusiva) das empresas de animação turística.

"São consideradas actividades próprias das empresas de animação turística, a organização e a venda de actividades recreativas, desportivas ou culturais, em meio natural ou em instalações fixas destinadas ao efeito, de carácter lúdico e com interesse turístico para a região em que se desenvolvam"

Ainda que as actividades que não envolvam venda continuem possíveis às "associações, fundações, misericórdias, mutualidades, instituições privadas de solidariedade social, institutos públicos, clubes e associações desportivas, associações ambientalistas, associações juvenis e entidades análogas" a regulamentação conexa acaba por dificultar a sua organização.

É que todas as entidades que promovem, ou venham a promover, com carácter esporádico e sem natureza comercial, aquilo que é qualificado como animação turística dificilmente conseguirão cumprir os requisitos fixados. Ou, na complexidade dos processos e custos acessórios, acabarão por desistir da sua organização.

A dúvida sobre se não se trata de uma estratégia de preservar o mercado aos operadores turísticos é cada vez mais legítima. Facto que dá um outro enquadramento às taxas que o ICNB pretendeu/pretende cobrar.

Friday, January 29, 2010

Sair da prateleira

As botas já deviam estranhar tanta calmaria. Nunca estiveram tanto tempo remetidas à prateleira e deviam sentir a falta da poeira dos caminhos. De qualquer forma, no último Sábado baldei-me para o cursos sobre a história de Braga que estou a frequentar e meti-me aos caminhos com o UPB. Teria gostado mais de escrever “meti-me à serra”, mas ainda não foi desta. Apesar de tudo o trilho realizado, o PR12 de Terras de Bouro - "Moinhos de Santa Isabel do Monte", foi uma agradável surpresa. Terras de Bouro tem tudo para se tornar num dos melhores destinos de pedestrianismo em Portugal. A uma paisagem diversificada entre a montanha e a ribeira, ao PNPG, à história, à gastronomia junta-se uma rede de trilhos que se vai alargando de uma forma muito interessante. É verdade que troco qualquer trilho marcado por um daqueles que fui descobrindo com os companheiros de caminhas. A alegria de seguir as mariolas, descobrindo a serra por trilhos de sempre, é muito superior à de caminhar por trilhos homologados. Nos primeiros há um pouco de aventura. O esforço exigido é superior. É novamente o "subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga (...) e depois olhar" que Torga tão bem explicou. É por isso que compreendo a revolta em torno da Portaria n.º 1245/2009 de 13 de Outubro. Não sei o que farei se me impedirem de continuar a percorrer Gerês. Será que o ICNB possui vigilantes que chegue para a desobediência cívica que antevejo?

Wednesday, December 30, 2009

Projectos para 2010 e outras reflexões

algures no trilho do Refugio Goriz ao Monte Perdido

O ano 2009 está quase terminado e 2010 é já depois de amanhã. No ano que termina caminhei muito pouco. Foram várias as razões que me afastaram de uma actividade que me dá tanto prazer e da qual necessito para equilíbrio interno. Espero conseguir caminhar mais em 2010, ainda que pesa sobre os meus locais preferidos uma ameaça terrível. As taxas que o ICNB quer implementar ameaçam todos os que gostam de caminhar pelo PNPG. É mais que lógico que ninguém pagará 200 € para pedir uma autorização para caminhar. Mais ainda desconfiando que não terá essa autorização. Já fiz todas as tentativas para perceber a racionalidade destas taxas, mas não consigo. Simplesmente não consigo. Não sou por princípio contra a regulamentação das caminhadas em espaços naturais. Não posso é aceitar que em nome dessa regulamentação se queira simplesmente acabar com as actividades.

Recebi este Natal o livro Os Mais Belos Passeios na Montanha. São caminhadas duras e longas atravessando algumas delas parques naturais. São, na sua maioria, caminhadas com um grau de dificuldade técnico e físico muito superior ao que poderia realizar. Sem qualquer surpresa são quase todas completamente livres e sem qualquer taxa. Uma delas, a mais próxima, decorre parcialmente no PARQUE NACIONAL ORDESA - MONTE PERDIDO onde me foi tirada a foto acima. Um local ao qual pretendo voltar para completar o que não consegui na altura. Espero ter a oportunidade de contemplar a "escupidera" e conquistar o Monte Perdido. Para 2010 decidi subir a uma montanha e para já esta é a escolhida. O projecto começa por perder uns bons quilitos.

"Escupidera" com gelo e neve (Inverno) este ponto possui os maiores registos de mortalidade
da cordilheira pirinaica, com bom tempo dizem-me ser "fácil". No topo fica o 3º ponto mais elevado dos Pirinéus.

Tuesday, October 07, 2008

Nevosa

ao fundo a Fonte Fria
Pico da Nevosa visto do Sul

Ontem voltei a subir ao Pico da Nevosa. Foi a terceira vez que lá fui e pela primeira vez subi ao topo pelo Sul. Na primeira preferi não subir, a aventura pareceu-me demasiado arriscada. Fiquei, com a maioria do grupo que me acompanhava, a ver as subidas/escalada dos outros. No final ainda houve uma pequena troca de argumentos por aquilo que parecia ser um temeridade. Na segunda subimos pelo Norte e descobri então que havia um acesso fácil. Desta vez, ao seguir os companheiros mais destemidos, acabei por arrastar comigo um pequeno grupo. Não é muito complicada, mas numa passagem tive algum receio. Por mim e pelos companheiros que involuntariamente arrastei. É nestas alturas que percebo melhor os limites a que me impus na montanha. Ainda que perceba o prazer do "risco", ainda que goste da adrenalina que as condições de "stress" provocam, prefiro ir por onde me levam as minhas pernas. É por isso que modalidades de montanha não me atraem da mesma forma. Comecei tarde e há viagens para as quais já não posso/devo comprar o bilhete. Lá em cima o deslumbramento de sempre.

Mais tarde, num dos inúmeros prados, uma companheira de montanha, guia de serviço, desafiou-nos a uns exercícios de Yoga (não sei se com ou sem acento - já me explicaram que é muito diferente, ainda que não tenha percebido em quê - mas para o caso não é importante). Foram apenas curtos exercícios de respiração, mas souberam muito bem. A massagem também ajudou.

Os momentos mais altos foram, no entanto, o avistamento de fauna normalmente mais esquiva. Ainda que mantivessem as distâncias seguras, por momentos senti-me num episódio da BBC Vida Selvagem.

o grupo a relaxar (foto da White Angel)

Tuesday, July 15, 2008

Caminhada na Serra Amarela

No último Domingo (1) voltei à Serra Amarela repetindo a caminhada que idealizámos para homenagear Miguel Torga. Em 2007 as condições climatéricas reduziram a caminhada a um pequeno grupo de corajosos caminheiros. Nessa ocasião fizemos toda a cumeada debaixo de um denso nevoeiro e só o bom conhecimento do trilho (e o seu registo no GPS) não nos fez regressar. Nasceu assim o desejo de voltar num dia melhor. Depois com o UPB não tive melhor sorte. Desta vez o dia estava claro, excelente para caminhar e aproveitar a paisagem a que Torga chamou "Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica".


Margot Dias, Miguel Torga, André Rocha, Jorge Dias(2) e José Fecha(3) fotografados nos montes de Vilarinho

Em 25 de Julho de 1945 Miguel Torga percorreu a Serra Amarela na companhia de um habitante de Vilarinho da Furna porque queria ver um fojo de que tinha tido notícia. Procurou um guia e foi-lhe indicado José Fecha, pastor, contrabandista e profundamente conhecedor da serra. A jornada está perfeitamente descrita no Diário e na Criação do Mundo. Dois relatos perfeitos sobre o carácter do poeta e do seu amor pela serra e pelos serranos

No Domingo iniciámos a caminhada em Brufe, porque Vilarinho da Furna já não existe, e procurámos os locais visitados em 25 de Julho de 1945. Aos fojos, às casarotas, às vezeiras, juntamos as silhas, o muro de Vilarinho, a Louriça de onde decidimos descer para Vilarinho. Desta vez tivemos ainda a sorte de conseguir visitar a famosa "Casa das Neves", que os Arcebispos de Braga fizeram construir no alto Serra para abastecimento de gelo, da qual já tinha lido algumas referências mas nunca tinha encontrado elementos suficientes para a localizar. Dela não restam mais que 3 paredes enterradas numa chã, mas foi a "cereja em cima do bolo" desta caminhada. Como o poeta gosto de descobrir os "recados do passado". Descoberta que não teria sido possível sem a colaboração da CMTB e que não posso deixar de agradecer

Deixo para outra oportunidade informações sobre as Casarotas, a Casa das Neves e Vilarinho da Furna. Na preparação desta caminhada descobri ainda uma evidência de Miguel Torga ter caminhado mais do que uma vez pela Serra Amarela. As fotos que ilustram o artigo de Jorge Dias sobre as casarotas (1946), apesar da má qualidade das cópias que possuo, identificam claramente o Miguel Torga junto das construções. E como elas não terão sido realizadas em 25 de Julho de 1945, comprovam que pelo menos outra vez voltou lá. Possivelmente na mesma data em que Jorge Dias e Miguel Torga foram fotografados na companhia das esposas e José Fecha perto de Vilarinho. Da monografia de Jorge Dias tenciono ainda utilizar outras informações. As férias estão a chegar e terei algum tempo para os escrever.

(1) A caminhada foi organizada no Domingo pela AAEUM com aparticipação do UPB. No dia anterior o UPB fez praticamente a mesma caminhada em sentido inverso
(2) Jorge Dias, etnólogo português autor de "Vilarinho da Furna, uma aldeia comunitária" (tese de doutoramento de 1944) e de "As Casarotas na Serra da Amarela: construções megalíticas com uma inscrição"(1946)
(3) Habitante de Vilarinho da Furna, guia de Miguel Torga em 25 de Julho de 1945
fotos da caminhada

Monday, May 26, 2008

Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez

vista sobre o carvalhal que esconde a aldeia

Foi numa pesquisa sobre Pitões das Júnias que soube da existência da Aldeia Velha do Juriz. A vontade de a procurar foi imediata, mas nem sempre as caminhadas por aquela zona me permitiram abandonar o percurso. Por duas vezes aventurei-me sozinho em rápidas incursões pelo carvalhal de Beredo. Por duas vezes não a encontrei, apesar das cartas militares identificarem um local como castelo. Na segunda tentativa ainda deslumbrei a cruz de pedra que os populares de Pitões me davam como referência, mas atrás chamavam-me para o trilho.

à lareira na Taverna Celta

Encontrei-a, finalmente, na tarde do último Sábado. O dia tinha amanhecido chuvoso e depois do pequeno-almoço ficámos na Taberna Celta à lareira. Lá fora, dia não estava para caminhadas e foi difícil abandonar o conforto do fogo. Em volta da lareira, tivemos ainda a sorte e oportunidade de trocar informações com um cliente habitual da taverna. Sobre o carvalhal havia um denso manto de nevoeiro que apenas a espaços abria. Pousadas numa mesa, umas cartas militares da zona permitiam-me recordar as caminhadas que já fiz por ali, mas essencialmente recordavam-me as por fazer e a aldeia por descobrir.


ruínas de uma casa de planta quadrangular

Após o almoço tardio o tempo parecia querer abrir e, após uma rápida visita ao pólo de Ecomuseu de Barroso, decidimos procurar a aldeia. O caminho começa perfeitamente marcado mas desaparece depois no meio da vegetação. Após algumas hesitações, fomos avançando e finalmente encontrámos a aldeia. Percebi então que tinha estado muito perto dela nas pesquisas anteriores. Numa delas teria estado a menos de 50 metros. Da aldeia pouco mais resta que alguns muros e vestígios de arruamentos. Só que a sua integração no carvalhal transmite uma certa magia ao local. Espero que o Ecomuseu a torne visitável e facilite a sua interpretação. É um património que merece ser valorizado e conhecido. Mesmo estando já em pleno PNPG não se compreenderá que fique escondido. Se, como diz o arqueólogo Luís Fontes, a aldeia é fundamental para conhecer a evolução do povoamento medieval do maciço geresiano devem ser criadas as condições que permitam a sua visitação.


vestígios da limpeza efectuada recentemente

Na zona mais elevada da aldeia encontrámos sinais de uma limpeza recente conforme nos tinham referido na aldeia. Como foi feita pelos bombeiros, julgo que terá sido feita como prevenção contra incêndios. No entanto pode ser também sinal que a sua visitação está mais próxima. O tempo chuvoso não nos deixou apreciar toda a beleza da aldeia, mas subimos ao alto dos blocos de granito que serão o chamado castelo. No alto encontramos a famosa cruz de pedra e umas inscrições. Não ficamos muito tempo, as nuvens sobre a capela de S. João anunciavam a chuva que rapidamente nos alcançou. Espero voltar lá com mais tempo e investigar outros caminhos.

pequena cruz de pedra no alto do castelo

entalhes na rocha da pequena atalaia (?)

Descrição arqueológica* : Povoado abandonado com arruamentos lajeados e vestígios de cerca de 40 casas, de planta geralmente quadrangular e paredes de blocos graníticos mais ou menos aparelhadas, muitas ainda com umbrais e soleiras das entradas. Poderá tratar-se da aldeia medieval de Sancti Vincencii de Gerez referida nas "Inquirições Afonsinas" de 1258, provavelmente abandonada no século XV, tempo de fomes, pestes e guerras. Nunca mais seria reocupada, podendo aceitar-se que tenha sido substituída pela aldeia de Pitões das Júnias. O lugar encontra-se actualmente coberto por um frondoso carvalhal espontâneo, com a vegetação a conferir às ruínas uma beleza pouco vulgar. No extremo setentrional do povoado, no topo de um pequeno outeiro coroado por caos de blocos graníticos, a que a população chama "castelo", identificam-se alguns rasgos que desenham uma planta quadrangular com cerca de 2 metros de lado, vestígios que poderão corresponder a uma pequena atalaia. Um pouco mais longe, cerca de 1,5 km para Sudeste, fica o mosteiro de Santa Maria das Júnias. Em termos arqueológicos conserva-se tudo em bom estado.

Interesse : Trata-se de um monumento de inegável significado histórico regional e excepcional valor científico e patrimonial, cujo estudo é fundamental para o conhecimento da evolução do povoamento medieval na vertente nascente do maciço geresiano. As ruínas desta aldeia abandonada enriquecem-se ainda com a paisagem envolvente, marcada por exuberante cobertura vegetal e relevos vigorosos. No Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi proposta a classificação do "Povoado de Juriz" como Monumento Nacional.

*fonte: Luis Fontes

PS: após publicação deste "post" tive a informação que o acesso mais tradicional à aldeia velha não seria pelo carvalhal. Esta nova informação confirma as minhas suspeitas, que não procurei esclarecer com receio de ser surpreendido por chuva forte. É mais uma coisa a investigar.

Monday, March 17, 2008

Sobre a voluptuosidade da fadiga e outros apontamentos


Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!
Miguel Torga - Diário
II


É a segunda vez que publico esta entrada do Diário. Publico-a novamente porque ela ilustra bem também a minha relação com a "paisagem" e o que experimentei ao percorrer mais uma vez o meu chão de eleição. O prazer de sentir a voluptuosidade da fadiga e depois descansar a olhar a paisagem ao nosso redor é coisa que não consigo explicar facilmente. Apenas os outros "geófagos", para usar a expressão do Torga, o compreendem. Os curtos minutos em que fiquei a olhar as Fichinhas e o vale do Rio da Touça foram simplesmente mágicos. Entro na montanha quase como quem entre num templo. É nela onde melhor me contemplo. É por isso que não a entendo sem estes momentos de reflexão. Depois foi descer e percorrer o mais bonito vale do PNPG. Um percurso tão bonito como duro e perigoso. Para mim a mais bonita ruga de Portugal.