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Thursday, March 10, 2016

Ecce Homo
















Humanidade exposta
À varanda do mundo,
A mostrar,
Consumadas,
As horas cruciantes da paixão.
As chagas a sangrar
E as mãos atadas… 
Violência e prisão.
Semi-velado, o rosto
Não tem olhos,
Ou cobre-os o pudor
Da lucidez…
Alheio ao sol fortuito do poder
E à vencida aparência que lhe dê,
O penitente deixa-se apenas ver.
O que ele vê, não se vê… 
Miguel Torga

Thursday, May 23, 2013

Topónimos da Serra - Altar dos Cabrões


vista desde o Altar de Cabrões - http://bordejar.com/2009/03/altar-de-cabroes/

localização de Altar de Cabrões na antiga carta 31 (na linha de fronteira)

localização de Altar de Cabrões na moderna carta31 (em Espanha)

Altar de Cabrões, 9 de Agosto de 1944 – Estou a mil e quinhentos e trinta e seis metros, perto do céu, a ver o Barroso, o Marão, a Peneda, a serra Amarela e o Lindoso. Estou sentado num marco que separa Portugal de Espanha, mas o sítio chama-se Altar de Cabrões e foi, como se vê, o olimpo de majestades cornudas, a ara de alguns daqueles sagrados deuses lusitanos, de que só restam nomes e cascos. Cada vez sei menos de rezas e de santos. Mas quando pressinto pegada de velho Endovélico, tenho logo vontade de me prosternar e benzer. O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e água benta. Ora estes nossos patrícios deuses de chifres eram portadores de uma virilidade mágica, que não nega nem degrada a natureza. Nada de agonias lentas em madeiros de cedro. Água, frutos, sol, e uma divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas. Miguel Torga, “Diário III”


Uma entrada recente do Rui Barbosa no blogue Carris em que tratava o topónimo Iteiro de Ovos levou-me a voltar a uma referência biliográfica que confirmava a sua explicação para a origem do topónimo Iteiro. Diz o Rui que Iteiro é "uma variante dialectal de outeiro, oiteiro e eiteiro" (fonte), "pequena elevação de terreno. Normalmente um cerro/morro que se destaca como acidente de terreno. Em várias regiões serviam como limites, términos, marcos da confluência de diferentes territórios, em particular nas civilizações pré-romanas. É esse o significado toponímico de Itero em Castela e Leão" (fonte). Uma explicação que me parece lógica e que ainda recentemente tinha lido no livro "Montalegre" de José Dias Baptista: "É significativo que a povoação se aglomere sobre o Outeiro, Oiteiro, Eteiro, Iteiro, que tudo é um e significa o sítio do altarium, o altar". Concordando, que para o local, o topónimo mais certo derivará do relevo do que qualquer divinização pagã. Mesmo que por lá  também se sinta a "divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas" de que Torga falava.

Conecei depois a refletir no topónimo Altar dos Cabrões e, ainda que me pareça uma explicação demasiado erudita, talvez não seja de excluir que "altar"  tenha a mesma origem e não qualquer significado ligado ao "sagrado". Talvez seja apenas mais uma forma de refletir o relevo. De onde Altar dos Cabrões se explicaria por ter sido uma elevação onde seria normal encontrar os ditos.

Uma explicação que até estaria correcta com o que se sabe ter sido o antigo território das cabras selvagens (que agora estão novamente a reclamar para si).

Altar de Cabrões tem ainda outra curiosidade. Quem ler Miguel Torga e o confrontar com a moderna carta 31 não perceberá a sua localização na linha da fronteira. Eventualmente atribuirá o erro a uma liberdade do poeta que teria preferido localizar-lo no marco (o da fotografia) onde se sentava e fará a localização uns 400 metros a Norte, já em Espanha. Consultando a versão da mesma carta (31) numa data mais próxima do dia da escrita do Diário - a entrada corresponde ao dia de 9 de Agosto de 1944, pode-se comprovar que não foi assim. Miguel Torga terá simplesmente seguido as indicações do guia ou populares para designar o local.  Os critérios topográficos é que se alteraram e este é afinal mais um dos muitos exemplos da dinâmica da toponímica serrana. Vulgarmente é a este pico que se continuam a chamar Altar do Cabrões, até porque não faz sentido que haja um topónimo nacional para designar um local fora do território. Ainda que a linha de fronteira também foi ela sofreu alterações ao longo dos tempos e isso pudesse explicar a existência do topónimo.

Nota: sobre a linha de fronteira foi-me dito recentemente que a primeira das trincheiras do Gerês estaria localizada perto da Corga da Fecha. Uma informação que tentarei confirmar e voltar a ela mais tarde.

Tuesday, September 11, 2012

Na incerteza destes dias

Num deserto de areia ou de incerteza
O desejo desenha.
Fantasia um fantasma, que lhe venha
Acudir.
Qualquer Preste João,
Também cristão,
Mas rico e generoso,
Que, depois do mar largo e tormentoso,
Possa abrir
As arcas da canela e da pimenta
Aos seus irmãos,
Cristãos,
Que a terra natural já não sustenta.

Miguel Torga, A miragem (Poemas Ibéricos, 1965)

Já por aqui disse que um dos meus objectivos da vida é coleccionar os livros de Miguel Torga nas edições da Coimbra. Ainda que possua alguns livros de edições recentes, é nesses livros tipografados que quero ter toda a obra do autor. Uma colecção realizada ao ritmo de colector vagaroso e de oportunidade. Talvez para o fim me apresse, mas por agora faço-a a um ritmo incerto sem me preocupar com as datas edições que compro.

Há muito que não fazia qualquer compra, mas hoje recebi pelo correio 3 livros que comprei a um preço justo. Tenho outros identificados e talvez brevemente volte a enriquecer a minha estante. Como disse não tenho pressa.

O poema que publico retirei-o de um dos livros que recebi. Escolhi-o depois de ler as notícias de hoje. Talvez o nosso erro seja esperar que o Preste João nos acuda por razão de fé, talvez já não tenha tanta canela e pimenta, talvez não seja generoso, talvez não exista e tenhamos que encontrar sozinhos uma saída deste deserto de areia e de incerteza. Talvez seja melhor enterrar os nossos fantasmas e acreditar mais em nós.

Monday, February 21, 2011

Uma aventura na Serra

Vivi na companhia de 2 amigos uma grande aventura na Serra quando uma linha de água intransponível tornou impossível a conclusão do trilho que estávamos a realizar. Sem meios de atravessar para a outra margem em segurança, e sem tempo de voltar no sentido inverso, tivemos que fazer opções que resultaram felizes. Sair da Serra foi um misto de sorte, instinto, experiência, equipamento e amizade. Sorte porque encontramos um trilho no momento em que ele era necessário. Instinto porque seguir o trilho quase sem luz e  depois em luz só foi possível graças a um instinto que nos levava a reencontrá-lo sempre que a noite o escondia. Experiência porque foram os muitos quilómetros e horas de Serra que desenvolveram o instinto de ler o terreno nos seus pormenores (o pisoteio, o aproveitar as curvas de nível para diminuir os esforços, etc.). Equipamento porque o GPS primeiro deu-nos tranquilidade e depois levou-nos ao trilho. Amizade porque sentimos sempre que do outro lado do telemóvel estavam pessoas que se preocupavam connosco e a quem poderíamos recorrer quando fosse necessário tal como o fizemos. Explicar porque um amigo de uma amiga se meteu à Serra ao nosso encontro e nos poupou os últimos e penosos quilómetros só é possível em nome de uma amizade desinteressada e um sentimento de responsabilização pelos seus "vizinhos", um sentimento que a “cidade” nos foi diminuindo. É o anonimato citadino que quebra os laços ancestrais de fraternidade mimetizados com amigos no facebook. Cada vez tenho mais a certeza que a livre comunhão e a desinteressada fraternidade  precisam dos pés presos ao chão. O Torga tinha razão e talvez por isso goste de o imitar nos "métodos de almocreve" e "ouvir apenas nas fragas, nos matagais, nos restolhos, nas areias e nas calçadas o eco dos meus próprios passos". Precisamos de estar em comunhão com o nosso lado telúrico para sermos mais autênticos.

Wednesday, November 17, 2010

Brandas de Sistelo



Gerês, 3 de Agosto de 1959 - Gosto de rever certas paisagens, ainda mais do que reler certos livros. São belas como eles, e nunca envelhecem. O tempo não degrada a linguagem que as exprime. Pelo contrário, enriquece-a, até, num esforço de perfeição constante que, embora involuntário, parece intencional.Faz alargar a copa a um carvalho, e reforça determinado volume; outaniça precocemente algumas folhas, e esbate um pouco a cor afogueada duma encosta; entoira um ribeiro e gera um lago onde se espeçha o perfil dos montes. E eu olho, olho, e não me canso de admirar uma placidez assim permanentemente movimentada. Pobre artista que sou, sei que é esse renovo ininterrupto que falta ás obras puramente humanas. Mesmo as geniais, são momentos vibráteis na qietude da eternidade, ilhas vulcânicas no mar morto do tempo. Agitam-se, mas dentro do seu anquilosamento histórico.

Miguel Torga, Diário VIII

Recordei-me desta entrada do Torga ao longo da caminhada do último Domingo pelas Brandas de Sistelo. É que se o  trilho já era conhecido, a paisagem estava diferente. As previsões meteorológicas do dia assustaran muitos dos interessados e, em consequência, a participação não foi elevada. É verdade que o dia cumpriu com o prometido, mas eu adoro caminhar à chuva. Só esses dias nos proporcionam a visão da serra no máximo da sua força. Por todo o lado rebentam águas e nos vales profundos as linhas de água correm com uma violência admirável. Há muito tempo que não caminhava num dia assim e valeu a pena.

A informação do trilho realizado encontra-se disponível no site da AAEUM. Voltaremos a este trilho mais algumas vezes.


Monday, April 26, 2010

Mãe

Em homenagem à dor de um amigo.

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

Wednesday, December 23, 2009

Um Conto de Natal - Miguel Torga

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas.Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José. 
Conto publicado por Miguel Torga em 1944 (Novos Contos da Montanha)

Saturday, January 17, 2009

Recordação do Poeta


Não sei porque diabo escolheste
Janeiro para morrer: a terra está tão fria.

É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.

Eu sei: tu querias durar.

Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal.
Paciência, querido, também Mozart morreu.

Só a morte é imortal.

Eugénio de Andrade (Escrito a 17 de Janeiro de 1995, dia da morte de Miguel Torga)
"Não sei" - do Sal da Língual



Tuesday, December 16, 2008


A partir de ontem tenho completa a colecção do Diário de Miguel Torga nas edições da Coimbra. Faltavam-me 3 livros que já tinha procurado em diversos locais. Recebi-os ontem como prenda e já estão, junto aos outros, na estante. Um deles é uma primeira edição. Pode não ser um livro dito raro, mas para mim era porque me faltava. Ainda que ter uma primeira edição seja uma alegria suplementar à de completar a colecção. Outro, mais antigo e já amarelecido pelo tempo, chegou-me às mãos ainda com os cadernos fechados - que eu valorizo ainda mais que as primeiras edições. Completar a colecção integral das obras de Miguel Torga, nas edições do autor, aquelas de capa de cartolina branca, é um dos projectos da minha vida. Algo que quero ir fazendo ao ritmo das descobertas de livros, cada vez mais raras e caras. Sei que não vai ser fácil, mas ontem alguém me ajudou a completar uma etapa. Um acto de amor.

Wednesday, May 21, 2008


Há 36 anos, 21 de Maio de 1972, foi oficialmente inaugurada a Barragem de Vilarinho da Furna. Não sou contra o progresso, mas não consigo deixar de pensar que as águas da albufeira não submergiram apenas campos e casas. Submergiu também o "o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida" que o Torga via nas suas visitas a Vilarinho. Tenho algumas dúvidas que, caso não tivesse sido submersa pelo progresso, Vilarinho permanecesse fiel a si mesma. Essa é a maior ironia da albufeira, destruiu a aldeia mas criou o mito. Como um herói, Vilarinho da Furna descansa no panteão para a posteridade. E só um herói morto é que não nos atraiçoa.

Gerês, 6 de Agosto de 1968 — Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da Furna, em vésperas de ser alagada, como tantas da região. Primeiro, o Estado, através dos Serviços Florestais, espoliou estes povos pastoris do espaço montanhês de que necessitavam para manter os rebanhos, de onde tiravam o melhor da alimentação — o leite, o queijo e a carne — e alicerçavam a economia — a lã, as crias e as peles; depois, o super-Estado, o capitalismo, transformou-lhes as várzeas de cultivo em albufeiras — ponto final das suas possibilidades de vida. E assim, progressivamente, foram riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato e colaboração. Talvez que o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida, com a correspondente cultura que ela implica, não interesse a uma época que prefere convívios de arregimentação embrutecida e produtiva, e dispõe de meios rápidos e eficientes para os conseguir, desde a lavagem do cérebro aos campos de concentração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de esperança nos outros e em mim.

Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me entenderia?
(Miguel Torga, Diário XI)

Monday, March 17, 2008

Sobre a voluptuosidade da fadiga e outros apontamentos


Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!
Miguel Torga - Diário
II


É a segunda vez que publico esta entrada do Diário. Publico-a novamente porque ela ilustra bem também a minha relação com a "paisagem" e o que experimentei ao percorrer mais uma vez o meu chão de eleição. O prazer de sentir a voluptuosidade da fadiga e depois descansar a olhar a paisagem ao nosso redor é coisa que não consigo explicar facilmente. Apenas os outros "geófagos", para usar a expressão do Torga, o compreendem. Os curtos minutos em que fiquei a olhar as Fichinhas e o vale do Rio da Touça foram simplesmente mágicos. Entro na montanha quase como quem entre num templo. É nela onde melhor me contemplo. É por isso que não a entendo sem estes momentos de reflexão. Depois foi descer e percorrer o mais bonito vale do PNPG. Um percurso tão bonito como duro e perigoso. Para mim a mais bonita ruga de Portugal.

Monday, December 10, 2007

Serra Amarela


Sábado, 8 de Dezembro, voltei à Serra Amarela. Este ano terá sido a quinta ou sexta vez que por lá andei. A chuva e o nevoeiro foram a companhia dos 30 caminheiros do UPB, de modo que não pudemos apreciar a Serra Amarela em toda a sua beleza.

Realizada em homenagem a Miguel Torga, connosco levamos o poeta e em alguns lugares fomos lendo textos e poemas. O Diário III relata uma jornada em 25 de Julho de 1945 pela Serra Amarela que em parte procuramos refazer. Então, para visitar um velho fojo, Miguel Torga contratou um pastor como guia em Vilarinho da Furna. Esse guia, o Fecha, viria a tornar-se um dos seus amigos no Gerês. Mais tarde, no volume 5 da "Criação do Mundo", este episódio seria recordado como um relato de Fecha de forma muito interessante. Ainda que Vilarinho já não exista, a serra está lá. Praticamente igual na sua “pureza essencial e granítica”. As antenas da Louriça são das poucas marcas na paisagem. De resto continua igual. Numa outra caminhada com o UPB, tive a sorte de termos como companheiro de caminhada um natural de Vilarinho (baptizado no UPB como Furna). Foi ele que nos explicou a história do estradão que começaria junto à Louriça e seguiria até à Portela do Homem. Um estradão que parou no muro com que aldeia demarcou o seu território. Esse projecto interrompido continua na serra como símbolo da força comunitária de Vilarinho da Furna. Mantendo-a praticamente sem estradas, como terra do “sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis”.

Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga - Diário II

Wednesday, October 17, 2007

Na montanha com Miguel Torga

Os Serviços de Documentação da Universidade do Minho (SDUM) realizaram no passado Sábado uma caminhada que me deu um enorme prazer. Realizada em ritmo de passeio, num percurso curto entre Campo do Gerês e a vila do Gerês, a caminhada associou a leitura de textos de Miguel Torga à montanha que ele percorreu.

Inserida nas actividades dos SDUM por ocasião do Centenário de Miguel Torga, a caminhada decalcou numa anterior realizada pela CM Terras de Bouro. O percurso acessível permitiu a participação caminheiros menos experimentados, mas não defraudou os mais experientes. Em locais determinados, com a colaboração do Sindicato da Poesia de Braga, foram lidos poemas e textos retirados do Diário de Miguel Torga. Escutados naquele enquadramento os textos ganharam uma outra dimensão. Não é segredo que Torga é o meu escritor favorito. Poeta era como ele se considerava, mas a sua obra é muito mais que poesia. A sua prosa não é inferior à sua poesia. O seu Diário, que comecei a ler mais tarde, é extraordinário. Reflexões diversas sobre quase tudo e com uma actualidade impressionante. A Criação do Mundo, ainda que na primeira pessoa, é um impressionante retrato de um país. Um retrato que nem sequer escondende algumas das contradições pessoais. Obra de um canibal, como chega a reconhecer. Miguel Torga amou como poucos a paisagem de Portugal. Amou-a com os seus defeitos e misérias. Não a amou porque a idolatrava, mas porque sentia que a ela pertencia. Não a venerava no altar da história e das glórias pátrias. Amava-a carnalmente.

Foram muitos os textos lidos e não posso transcrever todos. Deixo apenas dois que ilustram bem o que pretendi salientar.


"Castro Laboreiro, 6 de Agosto de 1948

Não, não terei a hipocrisia de dizer que seria aqui o meu paraíso, aqui que não há papel, nem tinta, nem cinema, nem livrarias, nem cafés, nem nehum dos tóxicos de que necessito. O homem põe, mas a vida dispõe. A cidade é como prostitutas: o seu amor é falso, mas vence o de qualquer mulher honrada. Agora que estas pedras, estes gados, estas alturas que vivem recalcadas no meu sangue, não há dúvida. Aquele desgraçado Boileau, que pouco ou nada sabia de poesia, disse uma verdade imorredoira:

Chassez le naturel, il revient au galop.

Mal apanho uma aberta, sou como um galgo pelos montes acima. Não posso dizer o que sinto, nem o que procuro. Mas as pedras parecem-me fofas debaixo dos pés. A parte mais íntima de mim encontra-se e expande-se. Citadino e perdido, sou na verdade uma montanha comprimida."


"Coimbra, 7 de Dezembro de 1949

Não é por nacionalismo que seria uma tolice. É por funda necessidade cultural que peregrino a pátria. A realidade telúrica dum país, descoberta pelos métodos dum almocreve, é muito mais instrutiva do que trinta calhamaços de história, botânica ou economia. Sem acrescentar que é com o seu próprio corpo que o homem mede o berço e o caixão...

Eça falhou n'A Cidade e as Serras porque nunca calcorreou as serras. Camilo é muito mais autêntico porque atolava os pés no barro que moldava.

Temos que conhecer a nossa terra. Mas conhecê-la por dentro, sem preconceitos de nenhuma ordem. Amá-la, sim, mas objectivar-lhe tanto quanto possível os defeitos e as virtudes, para que o nosso afecto seja fecundo e progressivo.

Portugal tem sido visto ou por arqueólogos ou por obececados. São horas de tentar compreendê-lo doutro modo. Nem o cisco dos cacos, nem o delírio histórico. Uma radiografia profunda, que revele a solidez do esqueleto sobre o qual todo o corpo se mantém."


Há caminhadas que simplesmente me atraem como actividade física. Ir mais longe, mais alto. Há caminhadas que valem pela companhia, por uma vista, por uma pedra. Esta valeu por ter escutado Miguel Torga como não saberia ler.

Tuesday, October 09, 2007

O novo período albufeirozoico

Barragem da Paradela, Outubro de 2007

"Paradela do Rio, 1 de Julho de 1956

Estes tempos de barragens são uma verdadeira era nova do mundo. Qualquer dia na escola, o mestre aponta o mapa e diz:

- Antes do período Albufeirozoico aqui era o Barroso.

Miguel Torga - Diário"


Passaram mais de 50, mas o recente anúncio do novo Plano Nacional de Barragens demonstra-nos como as receitas de hoje se parecem com as receitas do Portugal de ontem. O que interessa é anunciar a "era nova" com toda a pompa. Parece que estamos condenados a ter todas as barragens possíveis e uma torre eólica no cimo de cada monte sem fazer um debate sério sobre as opções energéticas. Antes de afogar o país em albufeiras devia haver coragem para promover esse debate.

Wednesday, September 12, 2007

Jornada dupla pelo Gerês

Fim-de-semana de jornada dupla mas as pernas não se queixaram. E no Sábado pude finalmente refrescar-me numa das pequenas piscinas do Vale Teixeira. A água, fria à entrada, é, depois, um bálsamo fantástico para o esforço.

No Sábado desci com o UPB desde os Prados da Messe ao Gerês. No grupo havia alguns iniciantes e subir a Costa Sabrosa não é fácil. Algumas paragens e num ritmo leve chegamos facilmente ao Conho, onde almoçámos. Ao subirmos para o Borrageiro encontrámos um grupo de geresianos que percorriam o trilho em sentido inverso. Deveriam ter começado na Portela de Leonte. Ficámos um pouco a conversar com alguns deles. A trocar informações sobre trilhos e plantas.

Descemos para o Vale Teixeira pela Chã da Presa. É trilho muito bonito, mas deixou algumas marcas nos menos experientes. Um bom calçado é fundamental para o conforto na montanha. As sapatilhas não são normalmente uma boa opção e a descer nem “todos os santos ajudam”. Pelo menos o “santo” dos caminheiros não ajuda muito sem um calçado aderente.

Num dos currais do Vale Teixeira encontrámos dois pastores da povoação Ermida. Estivemos um pouco a conversar sobre várias coisas. É escusado tentar fazer as pazes entre eles e o lobo. É uma coexistência que nunca será pacífica. Depois a geração deles a vezeira vai acabar, os filhos já não querem saber do gado senão no prato. Perder estas actividades tradicionais é uma das maiores ameaças que paira sobre o PNPG. Eu sei que em parte faz parte de uma dinâmica social normal. Cada vez haverá menos gente nas actividades do sector primário. Mas também não deixa de ser resultado de opções que fizeram do homem uma parte do problema e não parte da solução. Permanece uma tensão por resolver entre as populações e o PNPG. Eu, por muito que lhes reconheça a tendência para o erro, a merecer vigilância e regra, cada vez mais percebo o ponto de vista das poluções.

Saímos do Vale Teixeira directamente para o PR Trilho dos Currais por um trilho que não conhecia. Depois descer até às termas foi a pior parte da caminhada. O declive é demasiado acentuado e o piso, quase todo ele em estradão, é monótono e escorregadio. Eu apenas o tinha subido e não pretendo voltar a descê-lo.

No Gerês descobri que no dia seguinte havia uma festa de encerramento da vezeira entre os pastores. Fiz-me convidado e não me negaram – Apareça que chega para todos.


O Domingo estava destinado à exploração de uma variante de um trilho da CM Terras de Bouro para uma actividade dos Serviços de Documentação da Universidade do Minho (SDUM) no âmbito do 100º aniversário do Miguel Torga. O director dos serviços, Eloy Rodrigues, é também um entusista do pedestrianismo e não há melhor forma de homenagear o poeta que se definiu a si mesmo como “geófago”. O percurso decalca uma actividade da CM Terras de Bouro, mas importava reconhecer o terreno e verificar se seria acessível a todos.

Saímos desde as Porta do Parque em S. João do Campo e no marco miliário junto à estrada, depois cruzeiro, entramos num pequeno estradão de terra. Este caminho seria a antiga ligação de S. João de Campo a Lamas e, suponho, daí a Vilar da Veiga e Gerês. O caminho é fácil de seguir e possui parte lajeadas. Junto a uma pequena ponte vedada com arame farpado seguimos em frente. Na verdade não seguimos, mas tivemos que corrigir o erro. Num zig-zag pela serra, o caminho segue a direcção de uma linha de tensão até se encontrar com a actual estrada. Bem perto passa o estradão que segue para a Junceda. Paramos a descansar à sombra acolhedora de carvalhos milenários mas rapidamete seguimos. O almoço seria no Gerês e o apetite começava a despontar. Na estrada seguimos em direcção ao Gerês até ao entroncamento de Lamas. Aí seguimos para o miradouro da Boneca - nos primeiros sinais do PR-Trilho dos Miradouros - deve-se ter a atenção ao sentido da direcção em que estamos a caminhar.

O miradouro da Boneca, em conjunto com a Pedra Bela, são as duas melhores vistas sobre o vale do Rio Gerês. O miradouro da Boneca tem ainda a vantagem de permitir ver apenas o melhor das Termas do Gerês. Com excepção do Hotel do Parque, cuja degradação ofende algumas das minhas recordações de infância, o que de menos bonito existe fica fora campo de visão.

A descida para o miradouro da Fraga Negra requer alguma atenção, mas é fácil de seguir. A diferença de cotas é elevada, mas a descida não é complicada. Apenas mesmo ao chegar ao miradouro da Fraga Negra existe uma passagem um pouco mais escorregadia.

Chegamos ao Gerês um pouco mais tarde do que imaginava e já não pude ir aproveitar o “convite” para a festa do encerramento da vezeira. Também não encontramos um restaurante aberto e ficámos por umas sandes. Para quem fez os últimos metros na ilusão de um cabritinho poderia saber a pouco, mas o menu do dia tinha sido serra. Ainda que algo domesticada, tinha sido um bom “cheirinho de serra.

"Gerês, 17 de Agosto de 1958
Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, atiro-me às serranias como broa de infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase me sinto depois uma província suplementar de Portugal. Uma província ainda mais pobre que as outras, que apenas produz uns magros e tristes versos.

Miguel Torga , Diário VIII"

detalhe de uma carta antiga com caminho, a actual estrada ainda não aparece indicada

Friday, August 24, 2007

Miguel Torga e o Minho

Miguel Torga não gostava do Minho. Esta afirmação possui algum fundamento, pois por diversas vezes ele o escreveu. São diversas as entradas no seu Diário que reflectem esta antipatia. Só que foi claramente uma relação de amor/ódio.

Miguel Torga era um homem da montanha. Um homem com raízes nas fragas e dava-se mal com o verde o Minho. De certa forma foi uma relação marcada pelo eterno conflito do homem da montanha com o homem da ribeira. Para ele as "cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro", as festas "encandeavam a lucidez dos sentidos" e não partilhava da religiosidade de um povo "a cantar o Avé atrás do cura da freguesia".

No documentário que a RTP exibiu António Barreto disse que tinha conhecimento que o Miguel Torga teria dito coisas boas sobre Coimbra, onde escolheu viver, e sobre a Universidade de Coimbra, onde se formou, mas que nunca as tinha escutado ou lido. Pelo contrário, são conhecidas algumas opiniões bastante azedas sobre ambas. Do Minho sabemos que por cá passou diversas temporadas e que o percorreu. Um dos maiores capítulos do seu livro Portugal é mesmo sobre o Minho. Maior somente o capítulo sobre o seu Reino Maravilhoso: Trás-os-Montes.

Como minhoto teria naturalmente preferido escritos mais simpáticos, mas há que reconhecer que pelo menos em parte teria razão.

Como convite à leitura fica um pequeno excerto do Portugal de Miguel Torga:

"Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.

A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.

Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quandochegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.

– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.

– É legitimo este cão?
– É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...

– A Peneda?

A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram- se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso.Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.

Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes. As pernas de granito dum velho fojo abriam-se num grande V, como as dum gigante no sono da sesta. E saltou-me vivo à lembrança o instantâneo de Joaquim Vicente Araújo, quando no seu Diário Filosófico da Viagem ao Gerês fala duma batida aos lobos, que presenciou, e em que toda a população masculina do lugar colaborara: «Era cousa de ver a má catadura duns e a presteza de todos, que descalços, outros de socos, armados desciam pelas fragas». Sem a coragem dos avós, agora os habitantes comunitârios de Vilarinho da Furna atacavam as alcateias a estricnina e caçavam corças furtivamente. Mas mesmo assim nao faziam má figura ao lado do rio Homem, que, talvez a querer justificar um nome que a etimologia lhe nega, parecia um lavrador numa leira de pedras, tenaz em todo o percurso, e sempre límpido, a espelhar o céu. Na margem de lá, o Pé do Cabril, solene, esperava a abraço duma ascensão. E coma a desafiar aquela pétrea majestade, arrogante e lustroso, o toira do lugar roncou de uma chã. Símbolo tangível da virilidade e da fecundação, nenhum outro deus, ali, tinha forças para o destronar. Plenitude encarnada do instinto natural de preservação da seiva capaz de se multiplicar em cada acto de amor, era ele o pólo de todos os cultos cuItos e desvelos. Rei já no tempo das casarotas megalíticas que me rodeavam, continuava a sê-lo ainda no presente por exigência e graça da própria vida.

Atravessada a ponte em corcova, galgados os muros ciclópicos da Calcedónia, numa erudiçao feita à custa dos pés, e guiado pelos miliários imperiais, segui a geira romana até chegar à Portela do Homem, onde as legiões invasoras pareciam aquarteladas. Mas foi a guarda fiscal, vigilante, que me recebeu.

A uma sombra tutelar, pouco depois, num minuto de descanso, a Historia recente da Pátria avivou-se.

– Uma das incursoes monarquicas foi por aqui...
– Tentaram... Tentaram...
– Este Minho! Este Minho!...
– Tem uma costela talassa, tem...

Mas recusei-me a reintegrar, por simples razões partidárias, aquelas viris penedias no planisfério verdurengo de onde a própria natureza as libertara. Tranquei as portas da memória e, pela margem do rio, subi aos Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos e carvalhos centenários acompanharam-me quase todo o caminho. Só desistiram quando me aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raizes, tenta levantar voo.

Agora, sim! Agora podia, em perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a portuguesa Galiza percorrida. Pano de fundo, o mar de terras baixas era apenas um cenário esfumado; à boca do palco reflectiam-se nas várias albufeiras do Cávado a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia também dentro de mim. Embora através da magia agreste dos relevos, talvez por contraste, impunha-se-me com outra significação a abundância dos canastros, o optimismo dos semeadores e a própria embriaguez que anestesiava cada acto, no fundo necessária à saúde dos corpos individuais e colectivos. Integrava o alegrete perpétuo no meu caleidoscópio telúrico. Bem vistas as coisas, se ele não existisse faria falta no arranjo final do ramalhete corográfico português.

Em acção de graças por esta conclusão pacificadora, rezei orações pagãs no Altar de Cabrões, antes de subir à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria a experimentar como se tremem maleitas em pleno Agosto.

Estava exausto, mas o corpo recusava-se a parar. Pitões acenava-me lá longe, de tectos colmados e de chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os ossos nos tomentos de Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer. Quem me garantia a mim que, mesmo alcandorado nos carrapitos doirados da Borrajeira, não voltaria a ter pela noite fora um pesadelo verde?"

Sunday, August 12, 2007

Legado











O que eu espero , não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado
De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegase
O teu pai do Brasil,
A tua mãe, do céu,
O teu melhor amigo, da cadeia.
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abraçar toda a luz que te rodeia.
Não perguntes por que tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver
Uns têm a sina de sonhar a vida,
Outros a de a colher


Miguel Torga, Cântico do Homem

Friday, April 13, 2007

Pela Serra Amarela nas pegadas de Miguel Torga

percurso imaginado

À cerca de 15 dias voltei à Serra Amarela numa caminhada com o UPB para percorrer os lugares que deslumbraram Miguel Torga. Não posso garantir que o pecurso realizado seja o por ele realizado , mas passámos por alguns dos locais que refere ter visitado em 24 Julho de 1945. Esta caminhada nasceu de uma outra, que fiz com o Tiago e com o Jota. Na altura, por razões de tempo, desistimos de continuar em direcção às antenas da Louriça e ficamos do alto da Serra a olhar para os montes a imaginar a "reparação" do insucesso. Apoiados numa carta antiga procuramos imaginar uma jornada pelas antigas "vezeiras" da aldeia na Serra Amarela. A preocupação não foi "reproduzir" o que o Torga poderia ter feito. A sua motivação teria sido a notícia da existência de um fojo e teria sido essa a indicação dada ao guia que então contratou. Nós queríamos também explorar a zona, passar pelas antenas na Louriça e retornar por sítio diferente. A caminhada serviria, ainda, como teste prático de GPS.

Com o Daniel apareceu com um amigo nascido em Vilarinho que batizamos de Furna. Não habitou Vilarinho mais do que curtos períodos de férias, onde residia o seu avô, mas conhecia bem a serra. Ao longo da caminhada foi-nos contando pequenas histórias sobre factos que desconhecíamos. Uma outra aprendizagem.

A ideia original era subir da aldeia em direcção às Casarotas e fojo, visitar as antenas da Louriça e descer depois por um antigo caminho. Só que para evitar o vento de frente alteramos o sentido de marcha. Eu tinha a memória de uns prados que já não existem. As minhas recordações de um dia ali passado no final da adolescência estavam também "submergidas". Não pelas águas da albufeira, mas sim pelo avançar do mato. Os poucos terrenos de aluvião do vale da Reibeira das Furnas não são de fácil passagem. Um moinho que recordava em campo aberto estava agora rodeado de arbustos. O problema é que o nosso caminho seguia por ali.
Por sugestão do Daniel, desviamos um pouco para a esquerda e seguimos por terrenos onde o mato não cresce. Um pouco à frente a primeira supresa do dia. Junto ao trilho uns garranos olhavam-nos com uma estranha imobilidade. Como eles não se desviavam, desviámo-nos nós. Só o macho, muito nervoso, se afastou. A fêmea manteve-se estranhamente inquieta mas estática. Sem máquina para registar o momento segui. O Daniel ,que ficou para trás, descobriu depois a razão do estranho comportamento. Um pequeno potro, ainda com vestígios do cordão umbilical, que a égua queria proteger e esconder.

É a partir dos 900 metros que a serra se começa a revelar. Há naquelas paisagens uma grandeza que parece vingar a nossa geografia. São montes nús, pedregosos, de uma magestade impoluta. Ali as poucas árvores só crescem nos locais onde algum solo se formou. O resto são fragas que apenas permitem uma vegetação rasteira. Um esqueleto de um garrano afirmava a presença de lobos e no trilho existem muitos vestígios das suas fezes. .

Por sugestão do Daniel evitámos uma subida complicada para as antenas da Louriça. Junto ao muro do termo de Vilarinho há um antigo caminho florestal que parou ali. O Furna contou-nos que este caminho deveria ter seguido para a fronteira da Portela do Homem. Deveria porque não seguiu. A população de Vilarinho impediu a sua progressão. Onde julgava encontrar terrenos baldios, os Serviços Florestais encontraram terrenos registados que ainda hoje pertencem aos herdeiros dos antigos habitantes. O registo dos baldios em nome dos mais velhos da aldeia foi a forma de evitar que, em nome do progresso florestal, perdessem os pastos que asseguravam a sua existência. Essa batalha ganharam, contra o plano hidrográfico nada puderam fazer. A barragem que submergiu a aldeia de Vilarinho serve, essencialmente, de reserva de água da albufeira de Caniçada, com a qual está ligada por um túnel. A água represada no Homem destina-se ao Cávado, mas, como descobri, também armazena água transferida de Caniçada durante a noite.

Num local que as cartas assinalam como Sonhe há vestígios de uns muros que parecem ser de um estranho fojo sem cova. Os animais deveriam ser "empurrados" a precipitar-se numa queda fatal. No estradão que liga a antenas ao Lindoso avistam-se, nas encostas viradas ao Lima, os muros em V de um fojo de grandes dimensões. Seria este o que Torga procurou? Ou seria o de Vilarinho de menor dimensões? Como faz referência a "fojos" terá visitado os dois? Das antenas às Casarotas o percurso foi fácil e rápido. E é naquelas cumeadas, com a albufeira aos nossos pés, que a paisagem mais nos envolve. É como ganhar asas de águia e planar nas alturas.

As Casarotas continuam um mistério por resolver. Eu tenho para mim que serão abrigos de pastores. Possivelmente poderiam ter a dupla função de também serviram de abrigos para defesa da fronteira. Mas a hipótese de serem antigos monumento funerários é também defendida. Para abrigo dos pastores na vezeira bastaria uma ou duas cabanas e ali existem umas duas dezenas, diz quem defende a tese contrária aos abrigos de pastores. Só que também existem conjuntos do mesmo tamanho na Serra da Peneda/Soajo. As brandas de Poulo da Seida e Branda da Cova são apenas dois exemplos. Possivelmente a verdade poderá ter um pouco de todas as teses.

Descedemos depois para a Chã de Cima. Onde o Furna mostrou-nos provas de uma história pouco contada. Ali também se minerou vulfránio, mas a população escondeu a localização das minas. Durante 3 anos dedicaram-se à sua exploração às escondidas das autoridades. Ganhando alguma prosperidade que permitiu acender cigarros com notas.

Quando tudo parecia fácil demais, a última descida reservou-nos as maiores dificuldades. Depois de tentar descer para a Corga de Trás sem sucesso, voltámos ao plano inicial de descer em direcção a Vilarinho. Só que os caminhos não resistiram ao passar dos tempos e não foi fácil.
Mais uma ez, acabámos o dia em frente de um prato de sopa a trocar impressões sobre a caminhada. Numa próxima será melhor descer das Casarotas em direcção a Brufe. É uma descida fácil e evitam-se os sustos da parte final.

percurso relizado

Wednesday, February 21, 2007

O outro relato

Procurei nos volumes da “A criação do Mundo”, uma referência de Miguel Torga a uma jornada na Serra Amarela, também relatada nos seus Diários, que já transcrevi anteriormente. Encontrei-a no quinto volume “O sexto dia”. Transcrevo-o para completar o anterior, mas também porque reencontrei nele a confirmação em como a pedestrianismo não é apenas uma actividade física. Caminhar e descobrir os antigos caminhos, as povoações mais esquecidas, os montes e serras, também uma actividade de cultura e profundo apreço pelo nosso património, seja ele ambiental, construído e humano.

“Sim, a vida profissional corria-me agora bem, até bem demais, por se tornar absorvente. Mas não tinha saúde. E via-me obrigado a procurá-la de todos os jeitos. Fiel devoto dos métodos naturais, mal chegava o Verão, era sobretudo junto das nascentes que me perdia e achava, mais seguro ali do que nas mãos dos colegas, por meus pecados sempre agressivas. Um a um, haviam-me já tirado vários órgãos combalidos. E, a fugir de uma tal sanha operatória, que me retalhava o corpo e a alma, acabei em estagiário da maior parte das termas de Portugal.
Essas prolongadas ausências do consultório eram nocivas ao médico, que entretanto perdia clientes, mas favoreciam o poeta. No intervalo dos tratamentos corria Seca e Meca, numa aprendizagem nunca acabava da realidade pátria, que descrevera já de mil maneiras e continuava a estudar incansavelmente. Precisava cada vez mais de enraizar no húmus nativo. O que escrevia ficava insípido sempre que lhe faltava o sal da terra. Eu próprio ficava espantado, ao fim de cada descoberta, das potencialidades de sugestão criativa contidas em pormenores aparentemente insignificativos, que podiam ser o pelico dum pastor alentejano, a faixa escarlate dum campino do Ribatejo, a copa sem porte de uma figueira algarvia. O menir erguido num planalto, a pintura rupestre num abrigo, o dólmen solitário num ermo, o castro desmoronado num outeiro, a inscrição ideográfico num penedo eram recados do passado que, mesmo enigmáticos enriqueciam o espírito. Até do pão e do vinho que se comiam e bebia em cada lugar se tiravam ensinamentos preciosos. Para já não falar na experiência de certos encontros ocasionais que nos revelam muitas vezes surpreendentes meandros da alma humana, mesmo quando de momento não se lhes descortina verdadeira significação, como aconteceu com o Feixa. A águas no Gerês, tive a notícia da existência de um velho fojo numa das lombas da Serra Amarela. Disposto a conhecê-lo, dirigi-me à aldeia mais próxima, Vilarinho das Furna, à procura de um guia que me havia sido indicado, pelos modos o maior contrabandista das redondezas. Bati-lhe à porta e veio abrir um celta atarracado, loquaz, de olhos azuis e grandes bigodes loiros. Era o próprio. Contratei-o, tomou conta da mochila do farnel e metemo-nos a caminho. Depois de o ouvir discretar por sentenças sobre os mais variados assuntos, tentei conhecer pormenores da sua vida arriscada, que sabia de aventuras. Jurou a pés juntos que eu estava enganado, que me tinham informado mal, que era um patriota, que nunca atravessara a raia com o valor de uma agulha, que o Anjo da Guarda o defendesse de prejudicar num real sequer o país em que nascera.
Desconcertado, mas com a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos os argumentos para decidir a falar. Fiz o rasgado elogio dos seus colegas de ofício e acrescentei que eu próprio me sentiria muito honrado se ele fosse um deles. Nada. Perdi o meu rico latim. O Feixa continuou a ser um cidadão exemplar.
Resolvi então ir às do cabo. E chamei-lhe cobarde, já que não tinha a coragem e a dignidade de assumir os próprios actos.
Emudeceu e não disse mais palavra todo o caminho.
Chegados ao local, examinei minuciosamente a ciclópica construção em V, que terminava num grande fosso onde as feras acabavam por cair e morrer às mãos dos batedores, admirei a tenacidade e a astúcia do homem montanhês e, como eram horas, junto de uma fonte que havia perto, sentámo-nos para almoçar.
Sempre calado, o Feixa tirou do bolso uma grande navalha de ponta e mola, abriu-a e pôs-se a cortar com ela o pão e o bife, a olhar-me de soslaio de vez em quando.
Findo o repasto, iniciámos o regresso, no mesmo silêncio pesado.
Subitamente, o meu companheiro quebrou a mudez. Sem mais preâmbulos, começou a contar. Que sim era contrabandista, que nunca tivera outro modo de vida, que fora ele que metera em Portugal todo o armamento dos monárquicos na altura das incursões do Norte, que chegava a passar para Espanha manadas inteiras de gado, que se gabava de a pregar na menina dos olhos ao mais pintado guarda fiscal. E ia-o provando de mil maneiras.
Ficámos amigos. Sempre que nos víamos era uma festa.
Alguns anos depois, seguia eu de automóvel na companhia de Jeanne pela estrada florestal da fronteira, quando o Feixa apareceu.
– Ó Feixa!
– Ó senhor doutor!
– Que anda você por aqui a fazer?
– A ver uns garranos que trago no pasto.
– Venha daí à Nevosa…
– Dessa está bem livre. O senhor já lá foi?
– Não. É a primeira vez.
– Então desista. Aquilo é uma geladeira. Morre-se de frio. E também ainda estou em jejum…
– Venha e come connosco.
Acabou por entrar no carro, subimos até aos Carris e depois fizemos a pé o resto da escalada.
No alto, abrigados no recôncavo de um penedo, sentámo-nos e a Jeanne pôs a mesa e repartiu a merenda. O Feixa tirou do bolso a sevilhana, abriu-a e ficou pensativo. Por fim, desabafou:
– Pois é verdade, senhor doutor, ávida tem que se lhe diga. Quando penso que somos tão amiguíssimos e já estive para o matar!
– A mim?! A sério?!
– A sério. Com esta navlha. Foi por um triz. Lembra-se do primeiro dia em que nos conhecemos?
– Claro.
– E recorda-se do que me chamou quando eu neguei que era contrabandista?
– Quis espicaçá-lo…
– Reparou que eu não disse mais palavra de aí em diante. É que ia a magicar: dou cabo dele ou não? À hora do almoço, assentei que sim, que o sangraria logo a seguir num sítio azado. Mas Deus teve mão em mim. Não, Feixa, pareceu-me ouvir, quando ia mesmo a perder-me. O homem só disse a verdade. És mesmo um covarde. Que outro nome merece quem se envergonha da sua condição? Cada qual é o que é e deve confessá-lo honradamente. Resolvi então contar-lhe tudo. E não me arrependi. O senhor era de confiança.
– E se não fosse?
– Voltava tudo ao princípio…Santa paciência…”
Ontem estive algum tempo a navegar por cartas antigas que me arranjaram, retratam a paisagem que Torga conheceu. Tentei imaginar que caminho teria feito para chegar ao Fojo saindo de Vilarinho da Furna. Nos próximos tempos vou tentar reconstruir esse caminho e aproveitar para conhecer um pouco melhor a Serra Amarela.

Thursday, January 18, 2007

Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945

A caminhada de Domingo fez-me recordar uma entrada no Diário de Miguel Torga. Ao reler o diário pareceu-me que o devia transcrever por inteiro. Julgo que Miguel Torga se refere também a este dia num dos volumes da Criação do Mundo. Há pelo menos um relato de um encontro com este pastor, julgo que numa ida dele ao Pico da Nevosa, que merece ser lido em conjunto e que transcreverei mais tarde.

Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945

Todo o dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada, que ou são túmulos de uma necrópele celta, ou habitações pastoris de verão, ou acampamento de tropas romanas, ou armadilhas que o diabo pôs ali para tentação de almas ignorantes. Não sei se alguém de saber já por lá passou e viu aquilo. Uma inscrição em caracteres estranho vai-se apagando no granito, os pastores vão atirando ao chão as lages que cobrem os dolmens ou as construções, e daqui a algum tempo não restará de todo o mistério nenhum sinal. Mas talvez seja melhor assim. Os mistérios são o alimento natural do tempo. E quando os anos os digerem, fica tudo em paz.

A Serra Amarela é um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores.É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão. O guia, um contrabandista celta, loiro e de olhinho azul, é um manancial de saber caseiro, a cultura autêntica de um povo.
- O Senhor já viu nascer cabelo nas unhas? – pergunta-me ele.
- Não.
- Pois se não é sítio dele!
Isto por causa dos excessos e das incompreensões dos serviços florestais, que estão a matar o pastoreio e a reduzir algumas terras montanhesas à miséria.
- Vemos Deus com olhos que não temos … - diz a respeito da sua crença.
E ainda estou a apurar se foi o cura que lhe ministrou a fórmula ou se é pessoal, e já vem esta prevenção salutar:
- Deite-se na pedra, que é melhor! Olhe que uma fraga não respira! Na terra apanha uma carga de reumático…
A hora do almoço chegara, e eu ia-me atirar exausto para o chão.
Mas quando ele me assombra inteiramente, é à tardinha, ao cair da noite, no momento em que um grande rebanho comunitário de duas mil e quinhentas cabras entra na povoação, e do alto do fraguedo me mostra o espectáculo. Está tudo transfigurado. O Pé de Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões e a Calcedónia, ao longe parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens. O vale do Homem, no fundo fértil, verde e brilhante, com lagos de água cristalina a reluzir de onde em onde, parece a terra da promissão. Um silêncio preservado rodeia tudo de paz.E o meu contrabandista, então, perde-se no meio de tanta grandeza e de tanta liberdade, e monologa:
- Acredite que não trocava a minha vida pela de nenhum rei! Gosto tanto destas penedias, que se me tirassem um pedaço a uma, dava conta!