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Tuesday, April 27, 2010

Cabreira



Depois de uma tentaiva frustada voltei à Serra da Cabreira guiado pelo Rui França. O meu plano original foi completamente alterado para evitar os estradões. Uma caminhada muito interessante e que valeu ainda pela descoberta de alguns lugares para uns bons banhos de Verão.

Wednesday, March 31, 2010

Lenda do Rio Ave



Não vou à procura das lágrimas da linda cabreira, mas a minha próxima caminhada será para conhecer mais uns segredos da Cabreira.

"Há muitos anos, há mesmo muitos, muitos anos, dezenas ou centenas de anos, chegou à Serra da Agra uma jovem, com um rebanho de cabras, vinda da Galiza. Sem ligar a fronteiras que, naquele tempo, não tinham a importância que hoje lhes damos, por ali andava a cabreira guardando o seu rebanho e admirando a paisagem que seduzia e encantava.

Por encostas e vales a jovem cabreira, bonita e formosa, ia contemplando a beleza local: os mantos verdes da vegetação, o azul transparente do céu, o amarelo cintilante do sol…. Nesta Serra do norte de Portugal, com 1200 metros de altitude, na passagem da província do Minho para a de Trás-os-Montes, reinava a paz. Os sons emitidos pelo rebanho, o chilrear das aves e o relinchar dos pequenos cavalos, os garranos, que habitavam a serra, eram uma melodia que sublimava as lindezas da natureza.

Mas um dia instalou-se a confusão. Cães que ladravam, cavalos que galopavam, homens que bradavam, trombetas que tocavam, setas e mais setas que assobiando cortavam o ar. Andavam caçadores pelas redondezas e a linda cabreira foi vista por um cavaleiro, também ele jovem, bonito e encantador. Deslumbrado com a sua formosura, o cavaleiro parou, admirou-a e com um grande sorriso, disse-lhe:


- Olá linda cabreira! Estou seduzido pela tua beleza. Os teus cabelos são como raios de sol, o teu olhar tem o brilho das estrelas e a tua doçura o reflexo do luar. Ela sentiu o mesmo encanto pelo cavaleiro e, envergonhada, respondeu-lhe:

- São os vossos olhos que me vêem assim. Senhor! Não mereço tanta admiração e o que me dizeis faz-me corar.

Vencido pela atracção que por ela sentia, o cavaleiro desceu da montada e deixou a caçada.

- Ouve, por ti, e só por ti, deixo os meus amigos e fico nesta serra só para te adorar!

E foi assim que começou, entre eles, uma linda história de amor. O cavaleiro e a cabreira esqueceram-se dos dias. Ali, sozinhos e felizes, sonharam, brincaram e fizeram juras, como se só eles existissem no Mundo. Mas, um dia, o cavaleiro sabendo que tinha trabalhos importantes a fazer e assuntos urgentes a tratar viu-se obrigado a partir.

- Ouve, minha princesa, eu vou ausentar-me, mas voltarei o mais depressa possível. Já não posso nem quero viver sem ti.

Suspirando de tristeza, a cabreira apenas confessou:

- Nem sei sequer quem és, nem tão pouco como te chamas.

O cavaleiro sorriu e abraçou-a, procurando dar-lhe confiança.

- Pouco importa, sou o homem de quem tu gostas e que também gosta muito de ti.

Mas digo-te que sou o Conde de uma vila próxima e em breve virei buscar-te para o meu palácio. Espera por mim!


Como numa jura, ela prometeu:

- Esperarei até ao fim da minha vida.

E esperou….

Os dias passaram, uns atrás dos outros, e a cabreira aguardava, impaciente, o seu amado. Recordava os dias felizes vividos com ele e não o vendo chegar ia entristecendo. Então, pensava:

- Preciso de o encontrar, de o ver, abraçá-lo, brincar e sonhar de novo… nem que para isso tenha de me transformar numa ave para sobrevoar as vilas mais próximas.

O tempo corria e o cavaleiro não voltava. Cada vez mais triste, quase morta de cansaço a cabreira começou a desesperar. As lágrimas inundaram-lhe os olhos e chorou. Chorou tanto, tanto, que as lágrimas foram formando um rio. As suas águas, que eram a dor e a mágoa da linda cabreira, percorreram as terras das redondezas.


Para ajudar este rio, a encontrar o cavaleiro, outros, mais pequenos vieram ao seu encontro. Da margem direita chegou o rio Pelhe que percorreu 20 quilómetros e o Este 52 Km. Da margem esquerda ocorreu o rio Selho que caminhou 21 quilómetros e o Vizela 47, trazendo consigo os rios Ferro e o Bugio.

Todos juntos, rios e riachos cobriram uma área de 1390 quilómetros quadrados. Correndo de nordeste para noroeste, o rio de lágrimas calcorreou 94 quilómetros. Com os rios mais pequenos banhou terras de Vieira do Minho, Povoa de Lanhoso, Fafe, Guimarães, Vizela, Santo Tirso, Lousado, Ribeirão e Trofa, espraiando-se em Vila do Conde, a terra do cavaleiro que jamais foi encontrado.

O povo comovido e entristecido com a malfadada história da jovem e linda cabreira, não quis que ela fosse esquecida. Assim passou a chamar-se à serra onde a cabreira e o cavaleiro se conheceram – Serra da Cabreira e ao rio de lágrimas – Rio Ave – Já que ela queria ser ave e voar.

Um dia, se puderes, visita a Serra da Cabreira e faz o percurso do Ave. Quem sabe … talvez ainda descubras as lágrimas da linda Cabreira."

Fonte: Livro "A Lenda do Rio Ave e da Serra da Cabreira"

Tuesday, January 22, 2008

O fósforo do Teotónio Louvadeus

“Não interessa! A Aldeia tal como se acha hoje com um atraso de muito séculos sobre o mundo civilizado, queda indiferente à aventura. Para o serrano, com a sua casa de colmo ou telha-vã, tamancos de amieiro couraçados de seteiras de ferro, metido dentro da cachupa de burel, que, espécie de saco descosido, deve ser o feio e prático manto do turdetano, isto é, do aborígene, assoando-se para o chão com o premir uma venta e depois outra, e limpando-se ao canhão da vestia, dormindo na promiscuidade de cama de barqueiro, com o pesado carro céltico de rodas fixas, panelas de barro em vez de potes de ferro, creosene em vez de luz eléctrica, o que condiz é a serra como está, Doutro modo, para ele é um contra-senso... Na minha opinião humilde e desambiciosa, opinião de quem vê o homem através da sua humanidade, o que há a fazer é plantar a civilização nas aldeias, uma civilização digna do século XX, antes de pensar ir para a serra mudar-lhe a natureza.”
...
“...è pena que Vossas Excelências queira entrever o problema somente pelo lado do aproveitamento. Ainda por este lado há muito que se lhe diga. Mas pois que o lado moral, diremos psicológico, não lhes interessa, essa ignorância é muito susceptível de lhes causar grandes amargos de boca.”
...
“Ora essa! – respondeu o Dr. Rigoberto. – A minha opinião e, salvo seja, a do meu constituinte é que a serra renderia, no futuro, economicamente dez, vinte vezes mais do que está, abandonada à lei das estações, rapada hoje pelas sacholas dos roçadores, espontada de vegetação nova, na Primavera, pelos gados. Mas havia de ser o povo, guiado pelos Serviços Florestais, assistindo em tudo do Estado, que deveria proceder arborização, sem o obrigarem a perder o sentimento de liberdade que ali se desfruta. Condicionassem o aproveitamento das madeiras e mais indústria silvícola, deixassem-no ficar, ao menos nominalmente, o dono dela. Ou, então elevassem os povos a um grau tal de desenvolvimento que essa circunstância se tornasse menos um conquista sobre a pobreza dos serranos do que uma necessidade ou encontro com uma vida melhorada e progressiva. No estado em que a população se acha, rude, penurienta, de nível de vida baixíssimo, a serra é-lhe absolutamente indispensável porque só assim corresponde ao seu atraso.”
Quando os lobos uivam - Aquilino Ribeiro


planta do projecto de florestação da Serra da Cabreira


Eu nunca tinha caminhado na Serra da Cabreira mais do que pequenos percursos. Apesar de a ter tão perto, é uma serra que não ainda conheço. No Sábado passado a caminhada com o UPB deu-me a oportunidade para lá caminhar. Tinha uma ideia do percurso e, como não gosto muito de caminhar por estradões, as minhas expectativas não eram muito elevadas. Confesso que me surpreendi e fiquei com vontade de lá voltar. A vista desde o Talefe é surpreendente. Umas das melhores sobre o PNPG.

Na caminhada duas coisa despertaram a minha curiosidade: umas ruínas de uma casa dos Serviços Florestais perto do Talefe e uma conversa no café da aldeia à hora da “sopa”. Numas chãs praticamente despidas de árvores, a casa chamara-me a atenção pela contradição. No café, na tal conversa com algumas pessoas da aldeia, confirmei as minhas suspeitas. Dois grandes incêndios, nas décadas de 70 e 80, teriam deixado aquelas chãs praticamente sem vegetação.

Recordei-me então do que li sobre a Serra d’Arga. Recordei-me do “Quando os lobos uivam” do Aquilino Ribeiro, a quem fui buscar as citações. Recordei-me das histórias da revolta dos povos do Gerês contra os Serviços Florestais nos finais do século XIX. Recordei-me do amigo que um dia me surpreendeu ao dizer-me que, para ele, a história da florestação tinha sido um erro enorme, um erro muitas das vezes vingado pelo fogo.

A casa e a conversa levaram-me a reflectir sobre a floresta e como ela foi plantada. É verdade que após um longo processo histórico desflorestação Portugal precisou de inverter a situação. Não apenas por uma boa gestão dos recursos florestais, mas fundamentalmente para evitar os fenómenos erosivos. Nos finais do século XIX Portugal teria um coberto vegetal inferior a 25% do actual. Foi essa a preocupação que presidiu à criação dos Serviços Florestais em 1886, com o início dos trabalhos de arborização nas serras do Gerês e da Estrela em 1888. Só que o processo de arborização nem sempre foi o mais feliz. E foi muitas das vezes feito contra as populações. Não falta quem afirme que a florestação foi um processo mal concretizado, mal amado e que apenas nos deixou os montes cheios de pinheiros. Contribuindo dessa forma para o abandono dos espaços rurais. Outros salientam a dimensão da obra realizada e atribuem a maior responsabilidade da expansão do pinheiro aos pequenos proprietários. O maior equilíbrio da opinião dos segundos fará mais sentido. Mas todos concordam que temos uma floresta mal organizada, que desperdiçamos recursos e que a floresta deveria ser uma das formas de fixar as populações rurais. É por isso que me pergunto se não sabemos aprender com os erros cometidos. Seja porque continuamos a marginalizar as populações . Seja porque continuamos a não saber ordenar a floresta.

Não conseguiremos evitar todos os fogos florestais, mas poderemos evitar que o “velho Teotónio Louvadeus” do Aquilino acenda o fósforo. E sempre que não ordenamos, sempre que não limpamos, sempre abandonamos ao destino a floresta, há nisso um pouco do gesto do "Teotónio Louvadeus" a acender o fósforo. Todos somos Teotónio Louvadeus.