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Tuesday, January 26, 2016

Toponímia da Serra - Borrageiro

 panorâmica do Vale Teixeira com o Borrageiro ao fundo


Recentemente, no grupo do FaceBook Gerês - Xerés, acompanhei uma troca de opiniões sobre como distinguir os Borrageiro existentes na serra do Gerês. Um topónimo, cuja explicação julgo ter encontrado Dulce Lima [1] e era um dos que tinha intenção de abordar aqui.

Os Borrageiro


Na Serra do Gerês existem diversos locais com o topónimo Borrageiro que, por vezes, aparece designados por outras formas. Na minha opinião, as formas de Borrageira, usada por Miguel Torga, nas entradas dos seus Diários em 25 de Julho de 1945, 15 de Agosto de 1952 e 12 de Agosto de 1955, ou Alto do Borrageiro, forma usada na delimitação do Perímetro Florestal do Gerês, referem-se ao local onde se encontra o marco geodésico do Borrageiro. Em 1909, no mapa inserto em Serra do Gerez, Estudos - Aspectos – Paisagens,  Tude de Sousa usa Borrageiro para o mesmo local.

Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945 “O pé do Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões, a Calcedónia parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens” Miguel Torga, Diário III 
Gerês, 15 de Agosto de 1952 – Despedida da serra. Quatro horas a trepar para chegar ao alto da Borrageira. Sobre o talefe, a 1433 metros, invadiu-me uma estranha sensação de que não estava a dizer um adeus provisório àqueles cumes, mas a perder para sempre um pedaço do mundo. Miguel Torga, Diário VI 
Gerês, 12 de Agosto de 1955 – Serra. Sempre que me encontro aqui, quando chega este dia, perco-me pelas fragas. Vou fazer anos à Calcedónia, ao Cabril ou à Borrageira – aos picos mais altos da Montanha. Que ao menos o espírito, que vai morrendo no corpo, tenha assim um vislumbre de ressurreição. Miguel Torga, Diário VII
Num relato de Camacho Pereira sobre uma excursão pela serra do Gerês, publicado no n.º 4 (Vol. II), Julho de 1935, a revista Latina, utiliza para o local a forma Borrageira,

Um novo cáos de predaria se desenrola, ao fundo na distância o Vale da Teixeira, para onde descemos; fecham o espaço o Junco e o Pé de Salgueiro; Garganta da Preza é p nome da passagem aberta ao vale. A prumo quási em frente a Borrageira para estar a um quarto de hora, porám quantas dobras de motanha!
A forma de Borrageiros (plural) seria usada para designar a região onde a cartografia mais antiga regista o Borrageiro 1º e Borrageiro 2º, onde se situam as ruínas das Minas do Borrageiro. Quanto à forma Borrageirinha, que Miguel Torga utilizou na entrada de 10 de Agosto de 1952, Rui Barbosa (blogue Carris), no Gerês-Xerés, referiu já ter escutado a referência Borrageirinho para o mesmo local. Ainda que não possa afirmar que seja referente ao cabeço junto às Minas do Borrageiro (Borrageiro 2º),  Maria Carronda (aka White Angel), a minha fonte preferida para esta área da serra, confirmou-me que conhecia as formas Borageiro 1, Borrageiro 2, do BorrageirinhoBorrageiras  ou Borrageirinhas para estes cabeços .


Se atendermos à entrada de 10 de Agosto de 1952, podemos considerar que o relato de Miguel Torga se adequa ao cabeço junto às Minas do Borrageiro:
    Gerês, 10 de Agosto de 1952 – Excursão à Borrageirinha, uma soberba meda de granito erguida numa paisagem lunar, que não descrevo. Há certos recantos da natureza para os quais não existem palavras nem tinta. Demais a mais quando as circunstâncias que nos aproximam deles são, como as de hoje, de tal modo propícias que os transformam e tornam quase irreais.
    Perfeitamente possesso da inexprimível grandeza que me envolvia, tirei-me da pequenez habitual e cometi naquele cenário imprevisto uma das loucuras mais bonitas da minha vida. Subi ao Fragão pelo seu lado menos acessível e mais perigoso. Os companheiros, aflitos escoravam-me com os olhares. Mas apetecia-me uma façanha digna de tamanha majestade. E ela do que arriscar a própria vida.
    Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalais do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali, conquistam-se nas barbas de Deus. Miguel Torga, Diário VI
A utilização de Borrageira e Borrageirinha, com apenas com 5 dias de diferença, se atendermos ao cuidado que Miguel Torga tinha na revisão dos seus livros, poderá ser também uma boa indicação que estaria a referir-se a locais diferentes. 

O topónimo


Sobre o topónimo, de acordo com Dulce Lima  [1], borrageiro, ou cabeço, são denominações locais para designar o Castle-Kopje (os "inselberg" de forma acastelada). Assim, a origem destes topónimos seriam referências ao relevo. Pequenas ilhas erguidas em oceanos de pedras.

localização dos diferentes Borrageiro na carta 31

Friday, January 16, 2015

Acerca do topónimo Cruz do Touro


vista para a Cruz do Touro

Uma publicação do Rui Barbosa no seu blogue Carris abordou as diferentes designações com que um mesmo local aparece em duas edições das cartas militares (Carta Militar de Portugal 1:25 000. Continente, série M888; fl. 30). De acordo com Rui Barbosa, primeira edição da carta, de 1949, designaria o local por Cruz do Louro (coordenadas 41º49'04''N; 08º09'57''O) e a 2ª edição, de 1996, designa-o por Cruz de Touro.

Sou um leitor atento do Rui Barbosa. Partilho com ele o interesse pelas serras do PNPG, que lamento frequentar de forma menos assídua, e gosto do que faz pela preservação das memórias destas serras. À área do PNPG falta um trabalho de arqueologia da paisagem como o que o arqueólogo Luís Fontes fez para a freguesia do Lindoso (Arqueologia, povoamento e construção de paisagens serranas. O termo de Lindoso, na Serra Amarela) e na falta desse trabalho científico é o trabalho de pessoas como o Rui Barbosa, e outros, que pode assegurar que a memória construída ao longo de muitas gerações não desapareça. 

Quanto às duas designações, dentro da comunidade de “geresistas”, estes topónimos alternativos são relativamente conhecidos e usados. Como uma das alternativas do topónimo ressoa o meu apelido paterno não foi coincidência que tenha escolhido este local para em Janeiro de 2011 para “lamber as feridas”.

Sobre esta questão, o Rui Barbosa concluiu, e bem, que o topónimo correcto será Cruz do Touro e para isso baseia-se na delimitação do Gerês Florestal de 1904 que refere o "marco triangulado da Cruz do Touro".

Como o Rui Barbosa, com alguma pena de perder o ressoar do meu apelido, julgo que o topónimo correcto é Cruz do Touro. Uma conclusão a que cheguei percorrendo um caminho diferente e, de certa forma, partindo de um “local” diferente". Um caminho que publico em complemento da conclusão publicada no blogue Carris e com o atrevimento de propor uma possível explicação para a sua origem.

Um ponto de partida diferente

A diferença no ponto de partida é numa leitura mais atenta percebi que a dúvida quanto ao topónimo não se deveria colocar entre a Cruz do Louro e Cruz do Touro, mas sim entre Cruz do Iouro e Cruz do Touro. Devo confessar que inicialmente também fiz a mesma leitura de Rui Barbosa. Um erro de simpatia fácil de compreender pois já conhecia a designação de Cruz do Louro antes da consulta da carta e só depois de consultar o Reportório Toponímico de Portugal (Carta 1/25.000) percebi o erro da minha leitura inicial.

Na carta de 1949, fazendo a comparação entre as grafias de Cruz de Iouro e Louro, uma vertente do Vale do Cabril adjacente ao local, é fácil de compreender a diferença. Algo que o Rui Barbosa terá em parte percebido:
“...o facto de na Carta 30 de 1949 surgir 'Cruz do louro' poderá dever-se simplesmente ao facto da parte superior do 'T' ter sido sobreposta pela delimitação da fronteira na carta topográfica; curiosamente, na Carta 30 de 1949 o texto surge ligeiramente deslocado para a esquerda para evitar o mesmo problema.”
Não, a diferença não se deve a qualquer sobreposição. A consulta do reportório toponímico permite confirmar que o topónimo escrito na carta de 1949 é mesmo Cruz do Iouro:
Cruz do Iouro REG 197 538 03 C6 30

Legenda

Cruz do Iouro - Designação
REG – Região
197; 583 – Coordenadas anteriores a 1965
03 – Continente
C6 – Carta, escala 1/25.000
30 – Nº da folha do documento cartográfico , dentro da respectiva série

Registe-se que, ao contrário do referido na delimitação do Gerês Florestal, o local no reportório é referido como sendo uma região e não como vértice ( VGF - para vértice geodésico fundamental ou de 1ª ordem; VG - para vértices de outras ordens ou auxiliares.

Um caminho diferente

Para estudar o topónimo optei por seguir a delimitação da fronteira luso-espanhola que sendo anterior à da do Gerês Florestal poderia trazer esclarecimentos adicionais.

A delimitação junto a Lindoso originou um conflito diplomático e há muita informação que pode ser consultada na tese de doutoramento de Luís Fontes: Arqueologia, povoamento e construção de paisagens serranas. O termo de Lindoso, na Serra Amarela.

Não sendo importante para o caso em apreço, esta pesquisa ajudou-me  a perceber "a questão do Monte da Madalena" e que, apesar de ser das mais antigas e pacíficas da Europa, a delimitação exacta da fronteira luso-espanhola é relativamente recente (na realidade, devido à questão de Olivença, ela não está totalmente estabelecida). No futuro voltarei à questão dos conflitos fronteiriços no Lindoso e o realinhamento da fronteira.

As fontes


sobreposição do Mapa da fronteira de Lindoso, 1851 [1803] na moderna carta 30
(com ampliação da Cruz do Touro)

No Tratado de Limites entre Portugal e Espanha, assinado em 29 de Setembro de 1864 existem duas referências ao topónimo Cruz dos Touros:
“ARTIGO 4.º

A linha divisoria partindo do ponto designado no rio de Castro, continuará pela veia fluida d’este rio, e depois pelo rio Tibó ou Varzea, até á sua juncção com o Lima, pela corrente do qual subirá até um ponto equidistante entre a confluencia do rio Cabril e a Pedra de Bousellos. Do referido ponto subirá ao elevado rochedo da serra do Gerez chamado Cruz dos Touros. O terreno questionado entre os portuguezes de Lindoso, e os hespanhoes da freguezia de Manim, será dividido pela linha de fronteira em duas partes iguaes.”


“ARTIGO 5.º
Da Cruz dos Touros o limite internacional, voltando a sua direcção geral para nordeste, correrá pelos cumes das serras do Gerez e do Pisco, passando successivamente pela Portella do Homem, Alto da Amoreira, Pico da Nevosa, Portella da Cerdeirinha, Alto da Ourella do Carvalhinho, Côto de Fonte Fria, Pedra do Pisco, na Portella de Pitões, e Marco do Pisco. O terreno situado entre os dois ultimos pontos, pretendido por Guntomil e Pitões, será dividido pela raia em duas partes iguaes.”

Relativamente a delimitação da fronteira no local, Luís Fontes transcreve demarcação fronteiriça efectuada em 1538, num documento intitulado como “Demarcação fronteiriça de Lindoso, mandada fazer pelo rei João III (transcrição de certidão de 1856)” de que transcrevo:

“(...) no lugar onde começão partir com Galiza na cumeada da Serra das Eiras, chama-se aí a Cruz do Touro que é o lugar, onde chegou o limite de Vilarinho, e daí para diante vem o Termo de Lindoso partindo com Galiza e da Cruz do Touro vem a demarcação pela cumieira da Serra águas vertentes para Portugal e Galiza até a lagea do Cordainhos: E daí à Lobagueira da Mó, e dí à Portela da Velha, que é aí, (...) e do dito lugar descem pela Serra e Outeiro abaixo sempre águas vertentes até dar à Pedra de Bozelo, que é uma pedra tão alta como uma árvore - E daí passa a demarcação o rio, que vem de Galiza que se chama Lima, e corta direito além da dita Ribeira, e vai ao Castanheiro do Crasto, que é um lugar divisado, que tem o dito nome, porém aí não está nenhum castanheiro - Até aqui estão pacíficos, e que daqui para diante antigamente o seu Termo ia ter ao castanheiro do Crasto ó Esporão de Portela Serra acima. - E daí à Cruz da Travação, que é um lugar que tem o dito nome, e vão para junto dela dois caminhos - e daí vai ter à Portela do Couto, e daí vai ter aos portos da varzea (...) correndo por a Serra abaixo até dar na Ribeira dos Braços do Rio Tibo, que vem de Portugal já juntos, e parte daí para diante pelo dito rio sobredito acima, e concelho de Soajo, que é jurisdição sobre si com Galiza; (…)” 

Ainda com referência ao local, Luís Fontes transcreve um outro documento intitulado como 1574 - Tombo de bens móveis e de raiz da igreja de S. Mamede de Lindoso (extracto da transcrição de uma cópia certificada de 1863):

“...
Llymyte.
começa a comfromtação da dita igreja hao ryo da varzea dos pomtois dollellas hao esperão de portella e dahy ao castinheyro do gato e pasa ho ryo da pedra a portella dabelha has pedras que ahy estam dos assemtos e dahy ha llobagueira da moo e da lobbagueira da moo ao chão da portella a dahy a espiguado allto digo a espiguado coto e da espygado coto aguas vertemtes ao chão dos candyrynhos e dahy a llage das bestas e da llage das bestas a cruz dos touros sempre aguas vertemtes asy como estão os llymytes dos reynos de purtugall com galliza e da cruz dos touros vai partimdo com ho concelho de sequeyroos agoas vertemtes ao boqueiro do nazynho e do boqueiro do nazynho ao boqueiro do furto e dahy ha portella das ruyvas e da portella das ruyvas a portella do ramysquedo e dahy a portella do chão da fomte e dally ao coto do muro e do coto do muro agoas vertemtes e ally começa a partyr com ho couto davoym e do coto do muro apenas agoas vertemtes digo e do coto do muro a penas agudas e dahy a pedra pymta de penas agudas e dahy ao curral de costa bõa e dally ao marco de jovyde e do marco de jovyde a cumyeyra do olhadouro e dahy a portella da fraga da cabeça de moreas dabelheyra e dahy a portella do chão da fraga e da portella dochão da fraga pella veyga do mosteyroo ao sobreyro darmada ho quoall sobreyro jaa hy não estaa e tynha hûa pedra ao pee que dahy esta oje em dia que chamaão a amteyra da quoall pedra da amteyra vay daar hao coução de pedra furada que esta ha beira da estrada da parte debayxo e da dita pedra do coução de pedra furada vay pollo llombo abayxo dar a eyra de sequeyroo ha omde dizem que esta hua pedra pymta e da dita eyra de sequeyroo vay dar ao ryo da llymya agoas vertemtes para byrtello e llymdoso para hua parte e a outra e para o ryo por ser costa abayxo e do dito ryo da llymya vay por o meyo delle acyma ate omde emtra o ryo que vem da varzea e pello dito rio da varzea açima ate os pomtois dollellas
Este llemyte diseram elles homes bõos tomados por elles comysayros que era o lemmyte da dita freguezia e igreja e comcelho de llymdoso e destes llimmytes a demtro se pagou sempre os dizimos e direitos a dita igreja sem se no dito llemyte meter outra nenhûa demarcuação de igreja nem mosteiro gaspar çerqueira taballião escrevi”

A tese de doutoramento de Luís Fontes possui ainda um conjunto de documentos cartográficos antigos onde é possível encontrar o topónimo Cruz do Touro: Mapa da fronteira de Lindoso, 1803; Mappa do Distrito entre os Rios Douro e Minho, 1813; Mapa da fronteira de Lindoso, 1851 [1803].

A mesma conclusão

Assim, pela delimitação da fronteira luso-espanhola, é possível concluir com segurança que o topónimo do local será Cruz do Touro e que numa versão mais antiga terá assumido a forma de Cruz dos Touros. É ainda possível concluir que esse topónimo já é usado pelo menos desde o Sec. XVI.

Uma proposta de explicação

Fazer uma proposta de explicação é sempre um atrevimento e neste caso será um puro acto de especulação.

Manuel Azevedo Antunes, em "Vilarinho da Furna - Memórias do passado e do futuro", refere que os limites físicos dos terrenos de Vilarinho seriam feitos através de "marcas feitas de cruzes em grandes penedos" e a foto que o Rui Barbosa  publica mostra a existência de uma cruz gravada na rocha no local  "que é o lugar, onde chegou o limite de Vilarinho". Ainda que não possa assegurar a origem ou datação, devemos considerar que é plausível concluir que a cruz da foto é uma das referidas por Manuel Azevedo Antunes. Nas serras portuguesas não faltam locais assinalados cruzes similares marcando antigos territórios. Sejam eles de antigos concelhos, delimitação de zonas de pasto, etc. Ainda neste Verão o Rui França me mostrou algumas na Serra da Cabreira. Limites que só se podem compreender quando pensamos num território que nem sempre se organizou como hoje o conhecemos. 

Por sua vez, Jorge Dias, em "Vilarinho da Furna - Uma aldeia comunitária", explica que na vezeira os bois e vacas formavam dois rebanhos  e que as zonas de pastagem eram separadas. Este costume era explicado por apesar de castrados os bois continuarem a ter cio pelo que não deixavam as vacas pastar em paz. Entre os currais dos bois, Jorge Dias refere um designado por "Chão dos Toiros" que situa na fronteira. 

Assim a origem da Cruz do Touro seria a cruz talhada na rocha que estabeleceu em tempos os limites de Vilarinho da Furna e que ficaria próxima de um local utilizado pela vezeira dos bois. Um local para o qual Jorge Dias (na década de 1940) recolheu o topónimo de Chão dos Toiros.

Fontes:
[1] Reportório Toponímico de Portugal (Carta 1/25.000)
[2] Luís Fontes; Arqueologia, povoamento e construção de paisagens serranas. O termo de Lindoso, na Serra Amarela.
[3] Maria Helena Dias; Finis Portugalliae – Nos Confins de Portugal
[4] Manuel Azevedo Antunes; Vilarinho da Furna - Memórias do passado e futuro
[5] Jorge Dias; Vilarinho da Furrna - Uma aldeia comunitária




Adenda:
1) numa caminhada posterior percorri a linha de fronteira e verifiquei que existem muitas gravações semelhantes à talhada na base do marco fronteiriço de Cruz de Touro. Considerando que definição da linha de fronteira foi estabelecida pelo Tratado de Limites entre Portugal e Espanha, assinado em 29 de Setembro de 1864, estas gravações só podem ser posteriores ao tratado. Assim, acreditando que a explicação do topónimo a terá origem numa marca de termo, haverá algures outra cruz gravada.
2) No trilho interpretativo da Serra Amarela encontrei uma referência ao que julgo ser uma cruz semelhante à da hipótese que formulei: "...na margem esquerda do Rio da Cruz, à cota de 855 metros, existe uma gravura num afloramento. Trata-se de um cruciforme, cujos contornos se assemelham a uma cruz latina, que é o único motivo gravado. De datação desconhecida, poderá servir um propósito funcional, de divisão do espaço, talvez administrativo ou de pastoreio." Comprovando-se a hipótese, os topónimos Cruz do Touro e Ribeiro da Cruz teriam uma construção semelhante.
  
 
 

Thursday, December 18, 2014

Ainda sobre o topónimo Matança

 

Abrigados junto a um penedo na vertente norte, escutámos o Manuel António a ler alguma informação retirada do blogue Garcias – Montanhas de Portugal sobre a Penameda (ver aqui) de onde tínhamos acabado de descer. O dia não fora particularmente feliz para desde o “cume [...] admirar um fantástico panorama que estende para todas as direcções”. O nevoeiro tinha coberto a montanha e apenas a espaços permitiu alargar as vistas e vislumbrar os horizontes.

A leitura foi enunciando os topónimos dos locais que em dia aberto se avistam:
«A oeste e sudoeste é visível a Serra do Soajo culminando nos seus dois pontos mais altos, a Pedrada e a Peneda. A noroeste vemos o Fojo com o seu cume relativamente planáltico com as suas torres eólicas e mais abaixo a aldeia de Bouça dos Homens. Mais ao longe, surgindo no nosso campo de visão entre a montanha do Fojo e a do Outeiro Alvo podemos ver o Cabeço do Pico.
O cume rochoso do Outeiro Alvo surge muito perto de nós (fica situado no mesmo maciço que Penameda) encimado por uma torre de pedra.
A nordeste podemos observar ao longe na serra da Peneda o Vido e mais a sul no mesmo maciço a Aguieira/ Chã da Matança e o Couto do Osso.
Por detrás deste maciço vemos a imensidão do Planalto de Castro Laboreiro culminando no cabeço do Giestoso. Em direção a sudeste podemos notar o vale do rio Lima e do outro lado deste ao longe o Larouco e alguns dos picos principais do Gerês como, de leste para oeste, o Alto de Candal, a Fonte Fria, a Nevosa, o Pico do Sobreiro, Alto da Amoreira/ Laje do Sino, Coções do Concelinho, Alto das Albas, Borrageiro e até o topo do Pé de Cabril. Finalmente a sul podemos visualizar a Cruz do Touro e a Louriça na serra Amarela.»
A pausa era para retemperar as forças e, enquanto comia o que retirava da mochila e o que os meus companheiros de caminhada comigo compartiam, a conversa foi fluindo. Sobre a leitura partilhei com os meus companheiros de caminhada que achava curioso o topónimo ”matança” pois já o conhecia em outros locais e atendendo à sua repetição deveria ter outra origem das explicações algo fantasiosas normalmente associadas a episódios guerreiros (ver sobre Matança aqui, aqui e aqui).

Alguns dias mais tarde recebi do Manuel Moutinho (Calcorreando) um link para o blogue “Um blog sobre Algodres” que abordava à explicação do topónimo da freguesia de Matança, concelho de Fornos de Algordes (ver aqui).

Mais uma vez, uma das hipóteses repetia a explicação fantasiosa e guerreira. Só que outra, mais consentânea com a frequência do topónimo apontava para uma outra origem.

«Porém, um insígne estudioso da toponímia portuguesa, o saudoso A. de Almeida Fernandes, propõe uma explicação diferente, menos ligada ao sentido imediato – quase “falante” – do termo Matança: “(...) Creio que se trata de derivado de “matto”, como Matados, Matela, Matinho, Matagosa, Matosa, etc., com seus derivados e flexões.“»
O “Um blog sobre Algordes” concluía: “As terras da Matança terão sido assim, provavelmente, densos matagais que foram arroteados e povoados na época em que se fixou este topónimo, que não terá a ver com qualquer mortandade ali ocorrida.”

Seguindo esta hipótese, verifiquei a frequência do topónimo no “Reportório toponímico de Portugal – Continente (carta 1/25.000)”, uma publicação dos Serviço Cartográfico do Exército – Ministério do Exército (Fev – 1967) que comprei num alfarrabista e que em 3 volumes compila os 165.710 topónimos das cartas militares da escala 1/25.000 de Portugal continental publicadas até 1965.

Para Matança encontrei 7 referências e uma para Mantancinha. As de Matança correspondem a: casas (1), povoação não importante (1) região (2) sede de freguesia (1) vértices de outras ordens ou auxiliares (2). A de Mantancinha corresponde a uma povoação não importante.

Encontrei ainda outros topónimos muitos semelhantes como: Matadosa; Mataduços; Matagal; Matagosas; Matagosinha; Matagueira; Matama; Matanga; Matao; Matareu; Matarães e muitas referências para Mata(s). Há ainda uma curiosidade de na carta 330 haver um Matadouro que corresponde a um vértices de outras ordens ou auxiliares.

Quanto à dispersão geográfica do topónimo Matança, ela abrange as cartas militares: 384;137; 2; 340; 180; 9 e 31. Sendo que na carta 31, para além do vértice Matança (ver aqui) existe ainda a Ponte da Matança.

Numa primeira conclusão, a frequência do topónimo parece confirmar a hipótese de uma origem diferente da fantasiosa referência a uma mortandade.

Continuando as pesquisas sobre o topónimo, no blogue “toponímia galego-portuguesa e brasileira” (ver aqui) comprovo que: “alguns topónimos referem-se às características bravias da vegetação. são ou foram, em geral, matas ou matagais de onde o ser humano se afastava. aí só cresce ou crescia vegetação silvestre, mais ou menos densa, mais ou menos emaranhada. estes topónimos e seus derivados são muito frequentes em toda a Península, embora mais no norte, e, por isso, também em Portugal e na Galiza

Sobre o topónimo, este último blogue considera que «Matança (Pt.)/”Matanza" (Gz.); e Matancinha - diminut. de "Matança" derivam de "Mata" e não de "matar.»

Assim, sem excluir que alguns dos topónimos possam assinalar alguma mortandade ocorrida, parece-me que na maioria dos casos, senão em todos, na origem estará a características da cobertura vegetal.

Ainda sobre Mantança/Matanza, a casa onde a poetisa Galega Rosalia de Castro viveu os últimos anos da sua vida, e hoje a sua Casa-Museu, designa-se "Casa da Matanza".


sobre a Penemeda:

sobre o topónimo Matança (Forno de Algordes)


sobre o topónimo Matança


sobre a caminhada com os Calcorreando

Friday, November 14, 2014

Mariolas, uma hipótese para o nome

mariola do Trilho da Vezeira - Fafião

O blogue Nomes do Pais sugere para os topónimos Mariola, Marta e Martim a seguinte explicação,

«Os três casos, Mariola, Marta e Martim, apresentam uma raiz IE *mar- que resulta variante do tema *mor-. Esse tema, *mor-, tem ocorrência em galego-português no substantivo morro, que significa penedio, rochedo, pequena elevação ou outeiro suave. Com *mor-, e muito provavelmente com esse significado, temos o nome de comarca do Morraço, e também Morrão, Morreira e Morreiras, como lugares com vários morros; ou ainda Morro a funcionar como topónimo, nomeadamente no Brasil, importado pelos portugueses em formas de “Morro de...”. Porém, a variante *mar- é talvez mais comum, e sobre ela aparecem formas mais variadas, como Marão, Maranhiz, Mariocos, Marofa, Marouquim, Marranços, Marrazes, Marroços e Marrotes, e também os nossos Mariola, Marta, Marim e Martim, quando Marim e Martim não forem antropónimos.» in Nome do Pais

Aceitando-a, devemos também considerá-la como uma boa pista para a explicação da designação do sistema de marcação dos trilhos usado pelo pastores. Aliás, a maioria das pessoas descreveria as mariolas como um monticulo de pedras sobrepostas e quem já caminhou com miúdos sabe que para eles são os montinhos.

fonte:
http://nomesdopais.blogspot.pt/2011/12/lugares-com-falso-nome-de-pessoa-ii.html

Toponímia do Gerês: Chã de Susana

Chã de Susama representada nas antigas cartas topográficas (carta 31)



Existem topónimos que, numa primeira análise, não suscitam grandes dúvidas sobre a sua origem. Chã de Susana, situada junto à aldeia de Xertelo- Montalegre, poderia ser um desses locais. Aqui, dir-se-ia, a curiosidade seria descobrir quem teria sido a Susana e qual teria sido a natureza da sua relação com esta chã. Seria uma antiga pastora de beleza marcante ou de feitos heroicos? Seria uma antiga proprietária? Quem seria e porque ficou imortalizada na toponímia do Gerês?

A leitura dos blogue Nomes do Pais e Toponimia Lusitana sugere uma explicação diferente e que se adequa ao local.

Segundo essa explicação, o topónimo Susana não seria um nome próprio e teria origem na localização da chã a uma cota superior,
«"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.» in toponimialusitana.blogspot.pt
Assim, validando a proposição, a origem de Chã de Susana não será mais do que "chã de cima" e não é afinal, necessário andar à procura da tal Susana e fabular outras explicações.O que comprova que por vezes, as coisas evidentes escondente a sua verdadeira origem.

fontes:

Friday, November 07, 2014

Ainda sobre os topónimos Gerês e Geira


Uma conversa numa caminhada fez-me recordar que tinha pendente a questão da origem topónimos Gerês e Geira e voltei ao rascunho onde tinha interrompido a questão. Em minha defesa devo dizer que o adormecimento desta questão se deve essencialmente ao facto da informação compilada se ter tornado demasiadamente académica e árida. Digamos que tive receio de parecer um papagaio a repetir coisas que não compreendia.

Em "A Criação do Mundo", o romance autobiográfico de Miguel Torga, o poeta faz uma descrição de uma namorada que o lia sem o entender. Uma descrição que recordei quando comecei a pensar se esta questão não seria “muita areia para a minha camioneta”. É que, sem conhecimentos de etimologia, filologia e latim para ter uma leitura crítica das fontes, temi ficar pelo redondo das letras. É que, volto a dizer, pela enésima vez, nestas coisas sou apenas um curioso com prazer de descobrir pequenos segredos.

Ainda assim arrisco afirmar que nas fontes que consultei há um certo consenso quanto à origem dos topónimos Gerês e Geira a partir de um topónimo pré-romano. O estudo da inscrição epigráfica da ara votiva de S. João de Campo e dos topónimos Aquae Ocerenses, ou Aquae Originae (Aquis Originis), atribuídos à mansione da via romana XVIII de Braga a Astorga, situada em Baños de Río Caldo (Lobios, Ourense), parecem confirmar esse facto.

Arrisco ainda dizer que a hipótese da origem latina proposta por José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2003) e a hipótese de origem árabe proposta por Frías Conde, em “O elemento árabe en galego”, Revista Galega de Filoloxía, não devem ser consideradas.

Da mesma forma devemos desconsiderar a fantasiosa explicação que o Padre Diogo Martins Pereira deixou registada no seu manuscrito. Aliás a documentação medieval do Mosteiro de Celanova permite estabelecer que no sec. XI a serra seria designada por Ugeres.

Sem me atrever a tratar a informação compilada sobre a questão, transcrevo da excelente monografia editada pela CMTB em 2013 "A Via Nova na Serra do Gerês - Trajecto entre as milhas XII e XXXVIII (Bracara Augusta - Aquis Originis",

"Entre o conjunto de vias, que formavam a rede viária do Nordeste da Hispania destaca-se a Via Nova, entre Bracara Augusta e Asturica Augusta. Também é designada por Via XVIII, devido ser esta a sua ordem no testo da edição holandesa do Intinerário de Antonino, impressa por P. Wesseling, em 1735, sob o título de Vetera Romanorum Itineraria. Geira ou Jeira. [...] O nome Geira teve origem na possível designação proto-histórica da Serra do Gerês, tendo ambas as palavras derivado de Ocaere, um teónimo registado numa ara recolhida em Campo do Gerês."

Quanto à ara votiva de S. João de Campo gostava de a ver exposta no Museu da Geira. Além do simbólico regresso ao local do seu achamento, a sua exibição permitiria fazer a explicação dos topónimos Gerês e Geira aos visitantes. Atrevo-me a dizer que no mínimo o museu deveria ter uma réplica em exibição. Espero que um dia a CM de Terras de Bouro e os herdeiros do Dr. Manuel António Braga da Cruz possam chegar a um entendimento para o seu empréstimo, ou cedência.




Nota: para os que desejarem aprofundar este tema deixo algumas das fontes consultadas

Wednesday, June 18, 2014

A ara de S. João do Campo (Gerês)


Enquanto não trato a informação sobre o topónimo Gerês, partilho um interessante texto de Manuel Braga da Cruz, que descobri em Histórias de Braga (2014, Cruz Editores), originalmente publicado em Revista de Guimarães, vol LXXXII (1972).

O texto, para além do interesse de tratar da inscrição epigráfica na base de uma das hipóteses para a interpretação do topónimo, tem ainda o interesse de esclarecer sobre as voltas que a ara deu desde a sua descoberta. 

Atendendo-se à vasta bibliografia que refere a ara de S. João de Campo, já o era 1972, e comprovando-se a importância da ara para interptretar os topónimos Gerês e Geira, este caso deve servir  para reflexão sobre a importância relativa a que dámos às coisas. Afinal, uma "pedra"  pode ser muito mais do que isso. Razão para não perceber os argumentos, alegadamente, invocadas pela AFURNA para não permitir a salvaguarda  da pedra que será parte de um marco miliário da milha XXIX (1).

 Texto de Manuel Braga da Cruz,

«Foi na raina freguesia de S. João do Campo, do concelho de Terras de Bouro, a qual abrange a conhecida "Portela do Homem" bem como o lugar de Vilarinho da Furna, que, no século XVIII, apareceu esta curiosa ara. Ali a vi, há cerca de 30 anos, no quintal do proprietário Sr. Manuel Pires de Freitas que, posteriormente, ma ofereceu, encontrando-se actualmente no átrio da minha residência, depois de ter demorado vários anos no parque dum dos Hotéis do Gerês.

É vasta a bibliografia relativa à inscrição desta pedra granítica mas, por falta de uma exame directo, que dadas as condições de isolamento do local em que se encontrava, em vários casos foram consideradas reproduções mais ou menos deturpadas.

Contador de Argote, em 1974, nas suas Memórias da História Eclesisástica do Arcebispado de Braga (tomo III, pag XX), descreve assim o seu aparecimento: "... no ano de 1742, reedificando-se a Sacristia da Igreja Matriz de S. João do Campo, se descobriu no alicerce da esquina da dita Sacristia uma pedra quadrada de dous palmos de largo, em cada face, e quatro de alto, com seu friso e moldura..." Reproduz a inscrição mas inclui nela um ponto (.) entre o C e o A de OCAERE, que nela não se enontra,  e que levou a uma interpretação defeituosa da sua leitura.

Levy Jordão, o futuro Visconde de Paiva Manso, em 1859, na sua obra Portugalliae Inscriptiones Romanas (pág. 33 nº97) reproduz a inscrição com o mesmo erro de Argote. Emílio Hubner, pág. 96 das Notícias Arqueológicas de Portugal, escritas em 1861 e publicadas (em português) em 1971; e em 1869 no II vol, do Corpus Inscriptionum Latinarum (pág 345, nº 2458) estudou também a inscrição. Modificou-a por sua conta, na 1ª linha apresentando ARQUII onde estava ARQULI mas, na parte que respeita à divindade, fez  obra positiva, arfimando: "In OCAERE nomem dei ignotur  videtur latere, quamquam interpositum est formulae dedicatoriae vocabulis admodum insolenter", isto é, OCAERE parece esconder o nome de uma devindade desconhecida, conquanto, absolutamente contra o costume, tenha sido interposto nas palavras da fórmula votiva.

Leite de Vasconcelos ocupa-se da ara no vol. II de Religiões da Luisitânia, publicado em 1905, a pág. 344, divulgando o ponto de vista apresentado por Hubner. Ao reproduzir a inscrição põe SOMVIT em vez de SOLVIT.

A inscrição da ara de S. João do Campo foi também considerada nas obras seguintes: no tomo VI (1933-34), a pág. 355, dos Arquivos do Seminário de Estudos Galegos; por Vicente Risco, a pág. 22 da sua História de Galicia (1952); por Cuevillas, a pág. 437 da sua obra La Civilizacion Celtica en Galicia (1953); por Blasquez Martinez, no 1º vol. de Religiones Primitivas de Hispania (1962) a pág. 214; e ainda, por José de Encarnação, na sua tese de licenciatura com o título Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal, em 1969, a pág 208.

A ara e a sua inscrição estão, duma maneira geral, bem conservadas. Uma das faces adjacentes à da inscrição foi regularizada a pico, possivelmente na ocasião de ser incorpurada na parede da Igreja onde foi encontrada, mas sem prejudicar a inscrição.

O "focus" foi também alterado, aumentando-se as suas dimensões para que pudesse comportar plantas decorativas; assim mo arfimou o anterior proprietário da ara, confessando ter sido o autor desta operação.

A inscrição, como se pode verificar na gravura, é a seguinte:
ANICIU // S. ARQULI // VOTUM // OCAERE // SOLVIT

e a interpretação mais provável parece ser:
ANICIUS (filho de) ARQUILIUS DEDICOU (a ara)  COM SATISFAÇAO A OCAERE (deusa?).

V. Risco, na obra e passagem atrás citadas, refer como um dos "dioces de los clanes o de los castros" a divindade OCERE, o que me levou a admitir a existência doutra inscrição. Porém, nenhum dos vols. já publicados das Inscriptiones Romanas de Galicia refere OCERE ou OCAERE. Posteriormente, recebi informação idónea de que a citação de V. Risco se referia à ara de S. João do Campo.

O exame das anomalias que possam notar na inscrição (dativo em E por AE, etc) não é para mim, mas para quem, com mais conhecimentos de latim e de epigrafia se queira dedicar ao seu estudo.

A mim só me resta agradecer aos Ex.mos Srs. Coronel  Mário Cardoso, Doutor d'Ors, e Dr. José Cardoso, os auxílios que me prestaram para elaborar esta notícia."


(1) após a publicação da descoberta neste blogue (aqui) dei a notícia à CMTB e à AFURNA e foi-me dito depois que a AFURNA não autorizava que a deslocação da pedra que estará novamente submersa.

Tuesday, June 03, 2014

O topónimo Gerês – uma fantasia e duas hipóteses



 Cutelo de Pias - Serra do Gerês

Uma publicação recente do Rui Barbosa no blogue Carris relativamente ao topónimo Matança na Serra do Gerês republicou uma passagem de um manuscrito de 1744, do Padre Diogo Martins Pereira, que se encontra numa biblioteca particular de uma casa da aldeia de Pincães, na freguesia de Cabril – Montalegre.

A explicação do topónimo parece-me algo fantasiosa e já a tinha tratado aqui em 2012 para a contrapor com uma outra explicação em considero mais credível encontrada nas Memórias Paroquiais.

No entanto a publicação do Rui Barbosa fez-me refletir sobre a explicação do topónimo Gerês que o Padre Diogo Martins Pereira relacionada com o episódio em causa.

«...E seria na ocasião que o príncipe Dom Pelágio, se viu favor vindo do Céu nas Covas de Oviedo, quando as setas que contra ele aos seus atiravam os mouros, as mesmas que atiraram e se feriam e matavam e aos muito mouros que ali escapavam se viriam com esta serra em paradeiro fazendo nela redutos e cateteres no áspero da mesma serra, donde os cristãos os expulsaram e fizeram  retroceder até Matança, onde lhe deram batalha, e que por isso lhe deram o nome de Matança pelos muitos que ali mataram, donde não puderam entrar nesta freguesia, a qual tinham extremado ódio, sendo esse ódio comum contra toda a cristandade que vivia nas Espanhas, venha a ser especial contra os povos que viviam nesta freguesia tão extensa, e lhe fazia tanto dano como se viu nesta batalha da Matança e dizem que juraram os mouros vencer ou morrer como morreram os mais deles, e também dizem que deste solene juramento que fizeram no Gerês, tomara a serra este nome de Gerês, e então se não deve escrever Gerês, mas sim Jurês

Uma explicação do topónimo Gerês que tenho muita dificuldade em aceitar por a considerar igualmente fantasiosa.

Recordei-me então do que tinha lido no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa aquando de uma polémica sobre o topónimo Geira que segundo José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2003) terá origem no latim Caesaria:

«Do lat. Caesaria, -area, "imperial", "de César". O nome-título figura, como de costume, nos marcos miliários, o que levaria a popularizar a designação. Cf. top. esp. Jerez Caesaris, genitivo de Caesar. O top. port. Gerês terá a mesma origem. O s.f. port. jeira, tal como o cast. jera, deve-se ao lat. diaria [...].»
Existindo no entanto outra proposta de Amílcar Guerra ("Algumas questões de toponímia pré-romana do Ocidente peninsular"

«relaciona Geira e Gerês com as formas pré-romanas atestadas na epigrafia latina Ocaera e Ocaerensis, respetivamente (o resultado medieval da segunda forma aparece atestado como «alpes Ugeres» ou «Ogeres»). É, pois, possível que Geira [e Gerês] tenha origem numa língua indígena pré-romana.»

Sendo que Jorge de Alarcão em “Notas de arqueologia, epigrafia e toponímia – VI” considera que «a leitura Ocaere não só é segura, como explica os nomes da serra do Gerês e da estrada da Geira.»

Assim, parece óbvio que a explicação do Padre Diogo Martins Pereira não seria mais do uma fantasia. Eventualmente iniciada com o objetivo de estabelecer uma ligação legitimadora do povoamento da serra do Gerês com Pelágio e a Batalha de Covadonga.

Aceitando as explicações científicas, o topónimo Gerês terá origem no vocábulo latino «caesaria», na explicação etimológico, ou em «Ocaere» de uma língua indígena pré-romana, na explicação dos arqueólogos. Explicações que certamente serão muito menos atrativas de contar junto ao crepitar de uma lareira.

Em tempo:
Sobre o topónimo Gerês/Xurés já descobri mais informação, mas vou precisar de tempo para a tratar a toda a informação recolhida. Em futuras entradas darei notícia dessas informações.

Thursday, May 29, 2014

Sobre a origem do topónimo Lindoso



O meu interesse pela toponímia dos lugares por onde passo no PNPG surgiu-me por acaso e como parte de querer saber mais sobre esses lugares. Uma curiosidade despertada por uma pedra, uma conversa, etc.

Não tendo formação científica, vou-me satisfazendo com a partilha do que encontro e das poucas hipóteses que formulo ao ritmo do que vou encontrando. Também ao longo dos tempos fui descobrindo como é fácil que uma simples repetição fantasiosa se sobreponha a qualquer outra explicação, como é o exemplo das ruínas da cabana do D. Carlos nos Prados da Messe, possivelmente a minha entrada mais antiga sobre este tema.

A explicação sobre o topónimo Lindoso escutei-a de Luís Fontes na apresentação do seu livro “Lindoso. Uma Paisagem com História” que adapta a tese de doutoramento na Universidade do Minho, em 2012, intitulada “Arqueologia, Povoamento e Construção de Paisagens Serranas. O Termo de Lindoso, na Serra Amarela“.

Contrariando a lenda, o topónimo Lindoso deriva de Limitosum (Limesitis) e não de Lindo, como fantasiosamente se afirma. É um topónimo de origem portuguesa, nome do mesmo lugar, freguesia e castelo, cujos idos remotam aos de 1250, em plena Idade Média e terá aparecido pela primeira vez nas inquirições de 1258.

Uma explicação que naturalmente não é tão poética como a que conta que o rei de Portugal D. Dinis "tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou".

Sobre o livro de Luís Fontes devo ainda dizer que devia ser de leitura obrigatório para os que se interessam pela paisagem do PNPG.

Thursday, May 23, 2013

Topónimos da Serra - Altar dos Cabrões


vista desde o Altar de Cabrões - http://bordejar.com/2009/03/altar-de-cabroes/

localização de Altar de Cabrões na antiga carta 31 (na linha de fronteira)

localização de Altar de Cabrões na moderna carta31 (em Espanha)

Altar de Cabrões, 9 de Agosto de 1944 – Estou a mil e quinhentos e trinta e seis metros, perto do céu, a ver o Barroso, o Marão, a Peneda, a serra Amarela e o Lindoso. Estou sentado num marco que separa Portugal de Espanha, mas o sítio chama-se Altar de Cabrões e foi, como se vê, o olimpo de majestades cornudas, a ara de alguns daqueles sagrados deuses lusitanos, de que só restam nomes e cascos. Cada vez sei menos de rezas e de santos. Mas quando pressinto pegada de velho Endovélico, tenho logo vontade de me prosternar e benzer. O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e água benta. Ora estes nossos patrícios deuses de chifres eram portadores de uma virilidade mágica, que não nega nem degrada a natureza. Nada de agonias lentas em madeiros de cedro. Água, frutos, sol, e uma divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas. Miguel Torga, “Diário III”


Uma entrada recente do Rui Barbosa no blogue Carris em que tratava o topónimo Iteiro de Ovos levou-me a voltar a uma referência biliográfica que confirmava a sua explicação para a origem do topónimo Iteiro. Diz o Rui que Iteiro é "uma variante dialectal de outeiro, oiteiro e eiteiro" (fonte), "pequena elevação de terreno. Normalmente um cerro/morro que se destaca como acidente de terreno. Em várias regiões serviam como limites, términos, marcos da confluência de diferentes territórios, em particular nas civilizações pré-romanas. É esse o significado toponímico de Itero em Castela e Leão" (fonte). Uma explicação que me parece lógica e que ainda recentemente tinha lido no livro "Montalegre" de José Dias Baptista: "É significativo que a povoação se aglomere sobre o Outeiro, Oiteiro, Eteiro, Iteiro, que tudo é um e significa o sítio do altarium, o altar". Concordando, que para o local, o topónimo mais certo derivará do relevo do que qualquer divinização pagã. Mesmo que por lá  também se sinta a "divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas" de que Torga falava.

Conecei depois a refletir no topónimo Altar dos Cabrões e, ainda que me pareça uma explicação demasiado erudita, talvez não seja de excluir que "altar"  tenha a mesma origem e não qualquer significado ligado ao "sagrado". Talvez seja apenas mais uma forma de refletir o relevo. De onde Altar dos Cabrões se explicaria por ter sido uma elevação onde seria normal encontrar os ditos.

Uma explicação que até estaria correcta com o que se sabe ter sido o antigo território das cabras selvagens (que agora estão novamente a reclamar para si).

Altar de Cabrões tem ainda outra curiosidade. Quem ler Miguel Torga e o confrontar com a moderna carta 31 não perceberá a sua localização na linha da fronteira. Eventualmente atribuirá o erro a uma liberdade do poeta que teria preferido localizar-lo no marco (o da fotografia) onde se sentava e fará a localização uns 400 metros a Norte, já em Espanha. Consultando a versão da mesma carta (31) numa data mais próxima do dia da escrita do Diário - a entrada corresponde ao dia de 9 de Agosto de 1944, pode-se comprovar que não foi assim. Miguel Torga terá simplesmente seguido as indicações do guia ou populares para designar o local.  Os critérios topográficos é que se alteraram e este é afinal mais um dos muitos exemplos da dinâmica da toponímica serrana. Vulgarmente é a este pico que se continuam a chamar Altar do Cabrões, até porque não faz sentido que haja um topónimo nacional para designar um local fora do território. Ainda que a linha de fronteira também foi ela sofreu alterações ao longo dos tempos e isso pudesse explicar a existência do topónimo.

Nota: sobre a linha de fronteira foi-me dito recentemente que a primeira das trincheiras do Gerês estaria localizada perto da Corga da Fecha. Uma informação que tentarei confirmar e voltar a ela mais tarde.

Thursday, February 21, 2013

Porque não uma Wiki para a memória da serra?


localização dos abrigos da Vezeira usados pela vezeira da Ribeira

Descobrir mais dos locais por onde passo é um dos prazeres que retiro das caminhadas que faço. Raramente volto da serra sem trazer uma curiosidade, uma ideia ou um objectivo para novas caminhadas. Podem ser coisas tão simples como umas mariolas em que nunca tinha reparado, a curiosidade de explorar as zonas adjacentes às percorridas, uma informação escutada ou então o encontro com algumas, infelizmente poucas, fontes bibliográficas. Além do prazer físico, a que Torga, recordando Unamuno, chamou voluptuosidade da fadiga, da temperança que retiro da serra, gosto de descobrir os pequenos “segredos” que o tempo e o abandono escondeu. Fazer a memória da serra seria um trabalho interessante a que não me importava de associar. Algo que poderia ser mais facilmente realizado num esforço colectivo e colaborativo dos diferentes baldios, de associações locais como A Vezeira (Fafião), ARCCA (Campo do Gerês), AFURNA, Lírios do Gerês (Vilar da Veiga), etc., mas também da comunidade de montanhistas e apaixonados pelo Gerês. Descobrir um nome de um curral derrubado e esquecido no meio da serra, seguir as indicações escutadas a um pastor, seguir umas mariolas derrubadas pelo tempo isoladamente não garante que a memória da última geração que viveu e trabalhou na serra seja mantida. Nos últimos 150 anos as serras do PNPG assistiram a grandes mudanças que se iniciaram com a reflorestação nos finais do século XIX. De lá para cá são cada vez menos os que as trabalham e a memória dos locais, trilhos e nomes vai-se perdendo e abastardando. É fácil nomear exemplos recentes como das cascatas do Tahiti, topónimo que quase se institucionalizou em detrimento de Fecha das Barjas. Julgo até que muitos geresianos não saberiam já indicar as cascatas senão pelo novo topónimo. Da mesma forma, poucos geresianos saberão que a Pedra Bela seria originalmente Pedra Vela, por ser um lugar de onde os pastores “velavam” os seus rebanhos, e que o topónimo acabou fixado assim por Tude de Sousa [Gerez - Notas Etnográficas, Arqueológicas e Histórica].

No entanto, há que ter em consideração que a toponímia da serra não é estática e que é normal que um lugar possa ter diferentes designações por razões diversas. Exemplo disso são as informações que recolhi recentemente ao procurar esclarecer os nomes de locais visitados. Num artigo publicado na revista GEOPLANUM [que já publiquei aqui] tinha recolhido algumas informações sobre o nome de currais utilizados pela vezeira da Ribeira (alguns deles utilizados também pelas vezeiras da Ermida e Fafião) e que não são totalmente coincidentes com as designações recolhidas em outras fontes. Suspeito que aqui não se trata do fenómeno de dupla designação, mas que antes se trata de uma substituição por razões que seria interessante investigar. Concretamente julgo que isso terá acontecido com o curral da Tribela [Curral dos Portos, que outras fontes designam de Potro] e com o Curral da Malhadoura (que outras fontes designam de Curriscada). Sobre isto, a minha amiga Maria Carronda (White Angel, blogue Alma de Montanhista), uma apaixonada pelo Gerês com quem aprendo muito, ouviu do último guarda florestal que habitou na Malhadoura que o curral da Tribela seria no local que hoje se conhece como “casa do médico”- por lá ter sido construído a dita casa nos finais dos anos 60, e que o curral da Malhadoura terá sido destruído pela construção da casa florestal da Malhadoura cujos os vestígios seriam ainda visíveis até à pouco tempo. Dois exemplos que demonstram como afinal a toponímia possui camadas complexas e muito ricas que seria uma pena perder. Razão pelo que volto à questão de fazer a memória da serra e para perguntar porque não não avançar com uma Wiki?


Monday, January 07, 2013

Carris da Maceira - uma hipótese para o topónimo e sua explicação

A questão não é nova, pois julgo que já terá sido tratada por Rui Barbosa (blogue http://www.carris-geres.blogspot.pt/). Ainda que nunca me tivesse despertado muita curiosidade, este Domingo um companheiro de caminhada fez-me voltar a nela. Estávamos junto aos “Carris da Maceira” e questionou-se se haveria alguma ligação entre estes e as minas dos Carris. Eu fiquei a pensar que característica partilhariam e trouxe da serra a motivação para procurar a resposta. Procurando no “Reportório toponímico de Portugal” dos serviços cartográficos do exército descobri que no continente listados 21 lugares para “Carris” e ainda há um “Carris Brancos”. Se tivermos em atenção que esta listagem nem sequer é completa (1), deverão existir muitos mais lugares com este topónimo. Assim, julgo que na sua origem deverá existir alguma função ou característica relativamente comum. Não possuo nem o tempo nem os meios cartográficos para investigar cada um dos diferentes lugares assinalados no reportório, mas avanço com uma proposta. Se considerarmos que carris é o plural de carril (2), que também pode significar carreiro ou caminho, a origem pode ser a confluência de diversos carreiros no local. Algo que melhor se compreende em Carris da Maceira pois fica na confluência de diversos carreiros de travessia para o Curral da Maceira.  Assim Carris da Maceira, teria origem na existência de diversos caminhos para a Maceira (curral ou ribeira). Julgo até que esta também será uma das diversas propostas do Rui Barbosa.



(1)  só na carta 31, que no reportório só assinala 1, existem 3 lugares diferentes: Carris (vértice geodésico); Minas dos Carris e Carris da Maceira.

(2) carril (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
s. m.s. m.

1. Rasto.Rastro que deixam as rodas do carro. = RODEIRA
2. Caminho estreito em que só pode passar um carro.
3. [Regionalismo] [Regionalismo] Carreiro, caminho.
4. Barra de ferro sobre que se movem veículos. = TRILHO
5. Carreta da charrua.
6. [Botânica] [Botânica] Variedade de pêra.pera.

Sunday, February 26, 2012

Toponímia da Serra do Gerês: Pedra Bela


Não é que tenha intenção de procurar estudar a etimologia dos topónimos da serra do Gerês, mas uma entrada do blogue Carris recordou-me que já tinha lido algures sobre o topónimo Pedra Bela. Seguindo as indicações recolhidas voltei à estante em busca dessa explicação e no Gerez (Notas Etnográficas, Arqueológicas e Históricas) de Tude de Sousa reencontrei o que pode ser uma interessante explicação. Segundo uma opinião do Padre Martins Capela, que Tude de Sousa publica, Pedra Bela seria uma corrupção de Pedra de Vela, um local onde os pastores velavam o gado.


"A tal Pedra Bela, muito conhecida nas Caldas suponho não ter jus a tal epíteto: há-de ser Pedra de Vela, donde os pastores velavam a caça ou as mandas pelo vale." Padre Martins Capela, revista Estudos sociais, nº 3, de Junho de 1910 

Thursday, February 23, 2012

Sobre a possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês

Já tratei aqui sobre uma possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês quando partilhei uma leitura das memórias paroquiais da freguesia de Outeiro (Montalegre). A hipótese então avançada pode ser consultada aqui e apontava para um dos muitos reencontros na altura da Restauração. Época em que Pitões da Júnia terá sido incendiada, as pontes da Geira derrubadas e durante vários anos terão existido diversos conflitos fronteiriços.

Tal como esclareci então, considero que são estas pequenas coisas que ajudam a enriquecer os que gostam de andar pela serra por razões diferentes da, usando uma expressão de Unamuno aprendida no Torga, mera voluptuosidade da fadiga. Gosto de partilhar com os companheiros de caminhada o que vou descobrindo sobre a serra e os seus segredos.

Na leitura da monografia de Pincães (ver aqui) encontrei uma outra hipótese que aponta para uma justificação diferente e muito mais anterior do topónimo Matança. Com efeito, o livro Aldeia de Pincães transcreve parcialmente um manuscrito de 1744, do Padre Diogo Martins Pereira, no qual se pode ler:

"...
34º Estes três acima repartidos no grande distrito e âmbito desta freguesia fariam guerra aos sarracenos e mouros que infesteram quase toda a Espanha, e nesta freguesia lhe era fácil a defesa junto com os mais cristão que povoaram aquelas montanhas da serra do Gerês, como em toda esta serra ainda hoje se veêm, foi antigamente cultivada tudo aquilo que podia dar fruto para sustentar os perseguidos e ainda esta casa da Freira tem naquela serra várias propriedades em que se colhia e colhe bom centeio como é o Pêro, curral das mangas, dois em Lagoa, um no Pássaro e outro em Rocalva e muitos desertos que ninguém cultiva, e naquele tempo se cultivaram para remédio dos viventes.
35º E que foi certa batalha que os cristãos ali deram aos mouros, como sediz desta batalha, tomaram o nome de Matança pelos muitos que, os cristãos ali mataram se haviam de achar, a ela, os três referidos com toda a mais cristandade que havia por aquela serra ou os seus descendentes que não havia degeneras daquela aperto dos seus antepassados, e assim serviu esta freguesia  naquele tempo de Valha Couto e baluarte da cristandade  como seria na referida batalha da Matança a qual fica vindo da parte de  Pitões para o meio do Gerês adiante, dos Currais de Lamalonga, limites desta freguesia de Cabril.
36º E seria na ocasião que o príncipe Dom Pelágio, se viu favor vindo do Céu nas Covas de Oviedo, quando as setas que contra ele aos seus atiravam os mouros, as mesmas que atiraram e se feriam e matavam e aos muito mouros que ali escapavam se viriam com esta serra em paradeiro fazendo nela redutos e cateteres no áspero da mesma serra, donde os cristãos os expulsaram e fizeram  retroceder até Matança, onde lhe deram batalha, e que por isso lhe deram o nome de Matança pelos muitos que ali mataram, donde não puderam entrar nesta freguesia, a qual tinham extremado ódio, sendo esse ódio comum contra toda a cristandade que vivia nas Espanhas, venha a ser especial contra os povos que viviam nesta freguesia tão extensa, e lhe fazia tanto dano como se viu nesta batalha da Matança e dizem que juraram os mouros vencer ou morrer como morreram os mais deles, e também dizem que deste solene juramento que fizeram no Gerês, tomara a serra este nome de Gerês, e então se não deve escrever Gerês, mas sim Jurês.
..."

Parece-me óbvio que estamos a falar do mesmo local e, sendo assim, pelo menos uma das explicações para o topónimo estará errada. Ainda que não queira tomar partido por nenhuma das possíveis explicações, devo esclarecer que me parece mais credível a que encontrei nas Memórias Paroquiais. Fundamento a minha opinião em duas grandes razões.

A primeira porque são conhecidos os muitos conflitos fronteiriços que ocorreram na Restauração, a que o manuscrito também faz referência, e me custa acreditar num reencontro entre cristão e mouros num local tão elevado e afastado dos locais naturais para atravessamento da serra. Mais ainda quando relaciona esse reencontro com Pelágio e a Batalha de Covadonga (o que situa esse reencontro por volta de 721).

A segunda porque me questionei sobre a etimologia da vocábulo Matança e descobri uma provável, apesar de não confirmada e controversa, origem árabe (ver aqui). Ora, confirmando-se a origem , seria muito estranho que os critãos nomeassem o local da batalha com um vocábulo de origem árabe (1).

Ainda assim, não quero afirmar definitivamente qualquer uma das explicações para o topónimo. Que cada um seja livre para escolher uma das duas. Ou faça como eu, relate ambas e deixe para terceiros a decisão sobre elas.

(1) há quem defenda que a origem da palavra é “matar”, do Latim MACTARE, “imolar, sacrificar aos deuses”. Aparentemente o verbo significava, no início, o ato de elevar o objeto de sacrifício ao ar, em direção ao céu. Depois se estendeu ao ato de tirar a vida da oferenda (ver aqui).


Monday, July 25, 2011

O Curral Obsedo (Obecedo) - uma hipótese para outro topónimo e sua explicação

imagem do curral


Há na Serra do Gerês vários lugares fantásticos e um deles é um pequeno curral perdido num dos lugares mais inacessíveis da serra. Esse pequeno curral vale não só pela espectacularidade da sua localização, mas também como pelo percurso que é preciso fazer para o alcançar. É um daqueles lugares que parecem existir para nos recordar que não é só o destino que importa. A viagem deve ser sempre também parte do fascínio. Esse curral chama-se Curral do Obsedo, mas no final deste post perceberão que afinal se pode chamar outra coisa.
Há algum tempo atrás participei numa interessante busca do seu topónimo através do blogue Carris, de Rui Barbosa. Essa pequena busca pode ser consultada aqui. Na altura chegámos à conclusão que o curral se chamaria Obsedo (ainda que também apareça grafado como Obecedo). A fonte mais conclusiva foi um mapa, inserto no livro “Serra do Gerez: estudos, aspectos, paisagens” de Tude de Sousa (1909), que ilustra este post. Eu tinha encontrado duas ilustrações mais recentes em “Formas e depósitos glaciários e periglaciários da Serra do Geres-Xurés (Portugal; Galiza) Levantamento cartográfico” - Cuaderno Lab. Xeolóxico de Laxe. Coruña. 1992. Vol. 17, pp. 121-135, e em “Los Tills de la Serra de Geres-Xueres y la gaciacion pleistocena (Minho, Portugal - Orense, Galicia)” – Cuaternario e Geomorfologia, 4 (1990), pp 13-25, e depois confirmado em Tude de Sousa. As imagens podem ser encontradas aqui. O Rui Barbosa tinha recolhido a informação oralmente e depois confirmado em Tude de Sousa.
Um comentário de 17 de Junho no blogue Carris esclarecia que havia um erro na nossa leitura. Afinal no mapa devia-se ler “Absedo” e não “Obsedo”: «o nome inscrito no mapa do livro "Serra do Gerês" de 1909 de Tude de Sousa, do qual possuo um exemplar (sortudo),é na realidade "Curral do Absedo"».
O erro teria sido originado porque: «o ”A" maiúsculo parece um "O" maiúsculo, mas confrontando com outras palavras iniciadas com "A" maiúsculo, como "Curral de Albergaria" e com outra iniciada por "O" maiúsculo, como "Observatório", no canto inferior esquerdo do mapa, verifica-se que de facto o nome correcto é "Curral do Absedo"». Consultado o mapa, e feita a leitura comparada, a explicação parece correcta. Aceitando esta leitura, é possível que o mesmo erro tenha originado as designações usadas nas outras fontes que citei. Assim, o topónimo correcto seria Curral do Absedo.

Movido de curiosidade procurei verificar um possível significado de “absedo”. Num golpe de sorte encontrei num documento de Mirandés um significado possível. Absedo, sinónimo de abexedo, seria um local virado a norte ou sítio desabrigado. Dá-se o facto de o local poder ser assim considerado, pelo que esta pode ser uma hipótese para o significado do topónimo. Seria interessante perceber se existe algum fundamento para ela, mas por agora apenas funciona como uma provocação da curiosidade.

mapa de Tude de Sousa
leitura comparada dos topónimos

post script 1:

Em ARQUEOLOGIA - TOPONÍMIA RÚSTICA DO CONCELHO DE MACEDO DE CAVALEIROS encontrei uma outra possível justificação para o topónimo deste curral:

Abessada [36]- (ver abessedo)
Abessedo [22;29]- Gír., lado do monte não soalheiro; onde não bate o sol; de abessana, junta de bois esp. Para puxar o arado; o primeiro sulco que aberto, num campo arado, serve de referência para os demais.
Abexedo [21]- Corrup. de abessedo; (ver, abessedo)
Absedo [28;29]- Corrup. de abessedo ( ver, abessedo)

Se tivermos em consideração que a encosta oposta do vale do Homem se chama Encosta do Sol, por oposição, a encosta esquerda seria a encosta onde não bate o sol e poderia ser esta a origem de Absedo.

Wednesday, March 02, 2011

O Curral Obsedo (Obecedo)

Participei (aqui)  no blogue Carris,  de Rui Barbosa, que leio regularmente,  numa troca de comentários sobre um topónimo da Serra do Gerês. Estas são as imagens se que me socorri e que publico para conhecimento dos intervenientes. Talvez mais tarde tenha oportunidade de voltar ao tema. Há uma terceira imagem que não publico, mas que pode ser consultada no Tude de Sousa.

Monday, July 26, 2010

O nome das coisas e outras memórias - O Batateiro



Numa conversa interessante, cheia de informações sobre como era viver na zona de Lamas de Mouro os anos 50, relataram-me o que parece ser a origem do topónimo Batateiro junto à Bouça dos Homens (Peneda). O nome poderá ter tido origem numas plantações de batata feitas na zona. Assim o topónimo será relativamente recente (possivelmente do período do pós-guerra, década de 40). Terão sido ainda estas plantações que motivaram a abertura da estrada desde Lamas de Mouro, local onde eram armazenadas num curioso sistema de silos.

Nessa época, e quase até finais de 50, a rede viária seria praticamente inexistente e feita essencialmente pelos caminhos de carros de bois e trilhos de pé posto que agora percorremos. Depois os serviços florestais que foram abrindo as estradas numa política de satisfazer as suas necessidades e compensar as populações pelos montes. A minha fonte, filho de um antigo guarda-florestal, recorda que na sua infância a estrada terminava nos viveiros dos Serviços Florestais, actuais Portas do PNPG de Lamas de Mouro. Relatou-me que numa ruptura da barragem da Meadinha as águas terão destruído casas no Santuário da Sra. da Peneda e morto pelo menos 2 pessoas, mas o socorro não terá conseguindo chegar de jipe mais longe do que a Portela do Lagarto. Esta era a realidade do nosso território que todos os que posuem mais 60 anos nos podem relatar. Apesar de tudo em 3 gerações o salto foi enorme.

Thursday, March 25, 2010

Os nomes dos lugares - Matança



Quando caminhamos pela serra muitas vezes perguntamo-nos a origem dos nomes dos locais. Algumas são fáceis de compreender, outras permanecem um mistério por desvendar até que alguém nos dá uma pista.

Uma conversa fez-me recordar um daqueles achados felizes em que tropecei. Nunca consegui cruzar a informação com outras fontes e nem sei se as haverá. Com alguma sorte ainda haverá quem tenha escutado estas histórias à lareira. Não sei. Decidi partilhar esta informação porque sei como todos coleccionamos estas pequenas curiosidades. Pelo menos todos os que gostam de correr a Serra do Gerês mais pela busca dos seus segredos e menos pelo exercício físico.

Esta pode ser uma explicação para o topónimo Matança, o mesmo que na carta 31 dos anos 50 identifica uma elevação junto a Lamalonga.

"Dizem ter o privilegio das Arraias e que no tempo da sempre feliz e ditosa Aclamação vindo hum corpo de homens da galiza a furtar os gados de Portugal aos pastores e serra do Gerês acudiram os desta freguesia e mais alguns armados e foi ferido o combate que escaparam da morte mui poucos galegos excedendo em grande numero aos portugueses e destes mui poucos perderam a vida, cujo sittio concerva hoje a gloria e memoria de se chamar Matança que hé na ditta e onde chamam o Castinheiro e onde chamam as Lamas de Corrichão" Memórias Paroquiais de 1758 - Outeiro (1)

É natural que o topónimo anteriormente identificasse um local diferente, mas o combate deverá ter ocorrido algures por ali. O alto do Castanheiro é também identificado e junto aos Cornos de Candela existe um local chamado Currachã.

(1) As freguesias do Distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758; Viriato Capela, José; Borralheiro, Rogério; Matos, Henrique