Thursday, October 20, 2005

Lá em cima


"A vida não me larga
o mundo não me foge
a estrada é grande e larga
e eu levo o albornoz
Caminho à luz do dia
por campos e montanhas
e bebo a água fria
e a sede não me apanha
E o céu ali é lindo
azul, e eu não resisto
ao céu, ao céu profundo
distante,
e eu insisto
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã"

Amanhã - Os dias da Madre de Deus / Madre de Deus

Wednesday, October 19, 2005

Precisamos de acreditar

Não sei se é do tempo, as primeiras chuvas sempre tiveram em mim este efeito de tristeza, ou se é por outras razões, mas sinto-me invadido por um sentimento de vazio e tristeza. Ontem suspeitei que poderia ser febre, mas sei que não é. Sinto um cansaço, e uma certa mágoa, para o qual não consigo encontrar uma razão.

Estarei a ser contagiado pelo pessimismo dominante? É que nunca Portugal foi tanto um país de fado, parecemos todos contagiados por um sentimento de resignação. Não sei como mas precisamos de encontrar optimismo. Precisamos de nos oferecer optimismo. Precisamos de encontrar uma razão para acreditar. É que, como alguém escreveu, “o pessimismo, depois de se acostumar a ele, é tão agradável quanto o optimismo”.

Tuesday, October 11, 2005

Eu perdi em Felgueiras

No dia nove perdi e ganhei.

As vitórias são saborosas e foram algumas. No Porto a política foi reforçada na guerra de pressões com o futebol. Em Amarante a face mais negra do populismo foi derrotada. Em Sintra a oligarquia não venceu.

As derrotas foram amargas e mais pesadas. Perdi em Oeiras e Gondomar uma hipótese de regeneração da partidocracia mas essencialmente perdi em Felgueiras. A eleição de Fátima Felgueiras é uma sombra sobre a democracia portuguesa. Sempre ouvi dizer que os autarcas eram os "homens bons", expressão que julgo ter origem no municipalismo. Dificilmente poderia encontrar um exemplo tão contrário ao espírito desses "homens bons". O discurso de vitória foi uma coisa penosa de ouvir. Um insulto a quem quer continuar acreditar. É por isso que digo: eu perdi em Felgueiras.

Friday, October 07, 2005

Trabalho, glória e esgotamento

Recentemente cumpri um dos meus rituais anuais, ajudar a vindima de um familiar. Nasci e cresci numa quinta dentro de uma cidade da qual apenas resta uma sombra. Entre vias e prédios, não resistiu ao betão. Até aos 7/8 anos assisti às rotinas agrícolas realizadas a pouco mais de 5 minutos do centro da cidade. Exceptuando as recordações de subir às árvores de fruto para os saborear, dos animais de capoeira e dos muitos gatos que passeavam pela casa, não me restam muitas mais recordações dessa apenas aparente ruralidade.

O Miguel Torga glorificava o trabalho agrícola. De certa forma, considerava que era o único que enobreciam e desprezava os trabalhos de urbanos. Naturalmente não compartilho estes exageros literários, mas admiro-o tanto quanto ele. Quase tanto como ele.

Fiz praticamente toda a vindima ao lado de uma senhora com mais de 70 anos, que subiu e desceu a escadas continuamente, com uma resistência impressionante, mesmo que num ritmo mais lento que o nosso. Reconheci naquela senhora as heroínas de Miguel Torga. Gente anónima que se arrebentava em suor honesto.

Os tempos são outros. É bom saber que o país mudou e esses heróis e heroínas já não têm que se arrebentar nessa "glória". É bom saber que o nosso estado social, apesar das limitações, já lhes dá outras garantias. Na verdade, o esforço daquela senhora pareceu-me mais uma afirmação de ainda ser capaz fazer aquela vindima. O seu filho é o homem de confiança do meu tio e há entre eles laços mais fortes que os familiares.

Eu limitei-me terminar o dia esgotado mas não necessariamente mais nobre. Até porque fiz mais pausas das que gostava de admitir.

Tuesday, October 04, 2005

Não é preguiça é outra coisa

Por vezes falta-me assunto, outras vezes falta-me tempo. Tenho 2 ou 3 "posts" que quero publicar. Coisas sobre as quais quero escrever, tenho-os até mentalmente escritos mas ainda não tive os momentos de tranquilidade para os escrever.

Vou tentar aproveitar o feriado para escrever pelo menos um deles. Agora vi só deixar um link novo.

Thursday, September 29, 2005

Delicioso

Há qualquer coisa na infância que não sabemos definir que a torna quase mágica. E não são apenas as recordações de tempos felizes, porque mesmo nas crianças com infâncias infelizes essa magia está lá.

Não sei o que seja, mas também não sobre isso que quero escrever. A pedido de uma das responsáveis visitei o blog Netescrita( http://www.netescrita.blogspot.com/ ). São pequenos textos de miúdos e menos míudos. Coisas simples de um projecto bonito em defesa da língua e da leitura. Encontrei lá esta pérola:

"Quando estou a ler uns livros parece que estou a comer chocolate ou a lamber um gelado.(Pedro, E.B. 1 da Sé, Braga)"

Não é mágico? Onde é que perdemos esta simplicidade de dizer coisas grandes?

São Rosas, Senhor. São Rosas!

São Rosa Senhor, São Rosas!

De acordo com a fé de cada um, estas palavras estarão ligadas a um milagre de uma rainha. E, aparentemente, as sondagens eleitorais são isso mesmo “de acordo com a fé de cada um”. Vem isto a propósito da publicação nos dois jornais da cidade, em dias seguidos, numa estratégia de antecipação ou resposta, de duas sondagens sobre as próximas eleições locais com resultados diametralmente opostos. Em que cada uma delas parece reflectir os posicionamentos editoriais desses jornais, ainda que num dos casos o posicionamento seja mais evidente.

Fico com mesma a sensação de desconforto, de desconfiança metódica e avisada, que tenho relativamente às avaliações que correspondem ao resultado esperado.

Só que as sondagens, sendo realizados com bases científicas, ainda que sujeitos a um erro conhecido, deveriam ser de confiança. A sua credibilidade deveria ser absoluta. Pois, como nos ensina a fábula do Pedro e o lobo, a perda de confiança pode ter graves consequências.

De quem é a culpa? Naturalmente que as empresas de sondagens serão as maiores culpadas. Particularmente daquelas que gostam de ter na cama a mulher e a amante. O rigor, a ética, devia impedir que empresas de sondagens fizessem também serviços sócio-políticos como posicionamento de imagem de partidos e líderes, perfil de eleitores, motivações, estudos sobre gestão autárquica ou mais grave publicidade partidária em vésperas de eleições, entre outras coisas.

Infelizmente isso nem sempre é verdade. Há quem reserve o rigor científico para as grandes sondagens, as que podem dar uma capa de respeitabilidade à empresa. No restante, aceitam-se encomendas de estudos à medida, naturalmente sustentados em informação correctamente coligida. Só como todos já aprendemos as respostas que obtemos dependem das perguntas que fazemos e onde as fazemos.

Depois temos ainda os critérios editoriais que aceitam estas estratégias e dão cobertura à sua divulgação.