Saturday, January 21, 2006

Caminho


Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

António Machado
PROVERBIOS Y CANTARES - XXIX
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Friday, January 20, 2006

A derrota útil

Os jornais estão cheios de artigos de opinião de comentadores, dos diversos quadrantes políticos, que abordam a teoria da derrota útil de Mário Soares. Já são muitos que dão como certo que Sócrates prefere governar com Cavaco em Belém. E prefere-o a um socialista sendo-o líder do partido Socialista. Entre os vários argumentos ressaltam dois:

1) o da governação, será mais fácil governar com um Presidente como Cavaco que entenderá melhor algumas políticas difíceis e, como bónus, poderá servir de escudo e álibi para algumas das opções;

2) o do complexo de Édipo, com a derrota de Soares a sombra tutelar do fundador fica arrumada. Sócrates fica assim como única referência no campo socialista para os próximos 10 anos e cimentar a sua candidatura a Belém no pós-Cavaco.

Aparentemente, a gestão do calendário político e governativo parecem confirmar as teorias. E domingo poderá confirmar-se o desejo do Primeiro-ministro. Um eventual bom resultado de Alegre desde que não passe à segunda volta não será muito grave para ele. Se Alegre obrigar a uma segunda volta terá que assumir um outro papel. Sabe que com ele em Belém terá muitos problemas mas a esquerda vai reclamar que procure derrotar Cavaco. Então sim poderemos confirmar esta teoria. Eu, já não tenho muitas dúvidas da sua veracidade. Como o definiu um colega de partido "Sócrates é um cabide de ideias sem convicções", já revelou ser artificial e calculista e não morre de amores por Mário Soares. Sabe-se que o inverso também é verdade e a dúvida de muitos será porque é que Mário Soares se sujeitou a esta candidatura útil. Erro de análise, vaidade?

Tuesday, January 10, 2006

Minas de las Sombras - Gerês (Espanha)






No sábado passado subi às minas das Sombras na vertente espanhola da serra do Gerês. Já lá tinha estado há alguns anos. Aliás foi lá que comecei a fazer caminhadas. Há alguns anos deixei que me convencessem a fazer a travessia Portela-Sombras-Carris- Portela. Era Dezembro, chovia e chegámos já sem luz às minas espanholas, onde dormimos.

A última meia hora do caminho foi de sofrimento e raiva. Já não tinha luz, ia no rasto dos outros, e em cada 4 passos tombava. Quando cheguei à mina, os boxers eram a única peça de roupa que tinha seca. Para cúmulo tinha a mochila mais pesada e estava de rastos. Chegar à Mina foi uma sensação de vitória enorme, um bom ensinamento do valor do sofrimento para atingir uma meta.

Na manhã seguinte acordámos com chuva e assim fizemos a travessia para as Minas do Carris. Em Novembro último, tentei fazer o caminho inverso sem encontrar o trilho de ligação. Andei perdido, pois ao seguirmos as mariolas acabamos por fazer outro caminho.

Desta vez foi mais calmo, saímos de uma capela em Espanha (Senhora do Gerês) e subimos o vale de um curso de água. É um trilho marcado e muito bonito, ainda que com um nível algo exigente.

Valeu a pena pela paisagem e pelos (vestígios) de neve que encontrei, mas arrependi-me muitas vezes das rabanadas que comi no Natal.

Thursday, January 05, 2006

Ano novo, vida nova

Mesmo que a passagem de ano não signifique um recomeçar de zero, mesmo que não haja um botão de reset onde carregar, mesmo que seja apenas um ciclo legal, diferente dos que nos são verdadeiramente importantes, a mudança de ano não é apenas uma convenção legal, nem os seus feitos não são apenas dessa natureza.

É um momento de balanço, um momento de mudança, um momento de esperança. Não começámos uma vida nova, continuámos com a esperança de mudar algumas coisas mantendo o essencial. E o essencial talvez seja manter a esperança de mudar.

Thursday, December 15, 2005

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."

Miguel Torga - 1962

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in "Cancioneiro de Natal"

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
...
Álvaro Campos - Aniversário


No meu aniversário em lembrança de todos os que me fazem falta.

Marretas

Wednesday, December 14, 2005

Lições do passado

"A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro"
Miguel Cervantes - "Dom Quixote"

Frequentar um curso de história sobre a minha cidade foi uma das melhores decisões que tomei nos últimos tempos. Já reaprendi e reformulei muitas ideias que tinha por seguras. O mais engraçado é verificar as origens mais recônditas de muito dos problemas do presente. Portugal não conhece a sua história. No ensino, se exceptuarmos os períodos da Fundação e Descobrimentos, quase todo foi história universal. Como querem que haja cidadania se não nos conhecemos.

Tuesday, December 13, 2005

Debates

Ontem acompanhei parte do debate Manuel Alegre-Francisco Louçã, mais uma vez foi um debate sem grande interesse. Confesso que tenho alguma simpatia pelo candidato Manuel Alegre, não que vá votar nele mas há qualquer coisa de insegurança, de contraditório que o torna real. Falta-lhe, no entanto, a consistência de grande estadista. Pelo contrário, no Francisco Louçã, como no seu oposto Paulo Portas, há um evidente prazer pela retórica que me faz desconfiar da convicção das suas teses. Nas suas respostas há sempre sinais de deslumbramento pelo argumento, de cálculo e prazer prazer pela forma da resposta. O seu ar de superioridade moral irrita-me. Aparece-me um seminarista que quer ser padre porque gosta dos rituais da igreja mas que nunca se interrogou sobre a sua fé.