Wednesday, April 19, 2006

O "pecado" da carne

Na passada sexta-feira aproveitei o feriado para caminhar com o Um par de Botas. Subimos ao Alto da Pedrada (Serra da Peneda) repetindo em parte o trilho que já tinha feito. O caminho começa junto ao Parque de Campismo da Travanca, onde há um pequeno largo para deixar os carros. A subida é por caminho antigo, em lajes de pedra, que pode não ser fácil de encontar pois a entrada está disfarçada pela vegetação. No final, passado um pequeno bosque, aproveitámos para uma paragem maior, necessária para retemperar as forças e reagrupar os caminhantes. Depois, saltando um pequeno muro de pedra, é seguir para a esquerda em direcção do Alto da Pedrada por caminhos de pé posto, na maioria das vezes pouco trilhados e por isso pouco visíveis. No regresso voltamos pelo mesmo percurso com uma inflexão para um prado que não conhecia, onde almoçamos. Não sei como se chama o local mas ando a procurar descobrir. Um dos companheiros de caminhadas baptizou-o de Vale Encantado, e é assim que é conhecido dentro do grupo. E o local merece o nome.

Por vestígios de ocupação humana, desconfio tratar-se de uma antiga branda. Entre diversas construções toscas dos pastores, umas cabanas de pedra solta, comuns nesta zona, existe uma casa em boas condições demonstrando que continua a ter ocupação. Não pude confirmar, mas penso que o local chama-se Branda de Cova e pertence ao povo de Soajo.

Junto à casa pastavam vacas e bois, penso que da raça barrosã, em liberdade absoluta. A carne de animais criados assim deve ter um sabor magnífico, um sabor a comida verdadeira. Carne para se comer na brasa, sem mais temperos dos que os necessários para nos abrir os sentidos. E apesar de ser Sexta-Feira Santa caí no "pecado da carne" por pensamentos. Se bem que o verdadeiro pecado é comer a outra carne. A dos supermercados, entenda-se.

Monday, February 13, 2006

De curral em curral





















Sábado fui explorar uma parte do Gerês que não conhecia. É uma zona mais agreste, com poucos vestígios de humanização. Os currais, os trilhos pisados, as mariolas que nos marcam os caminhos e antena de rádio no Borrageiro são as únicas marcas do homem na paisagem.
É uma zona de vales profundo, de uma natureza agreste que nos esmaga. Não será uma paisagem bucólica mas é bela na força que nos transmite. Num dos currais, junto à Rocalva, encontramos um caminheiro que nos ficou de guiar na travessia de Carris a Pitões. Esta travessia é dos nossos objectivos mais desejados, mas que apenas queremos fazer com a certeza do caminho. Na base da Rocalva, mostrou-nos, no horizonte, o caminho a percorrer. Fiquei com a sensação que é caminho a mais, mas não me diminui a vontade de tentar. Anda nisto faz mais de 20 anos e identifica cada recorte no horizonte pelo nome. Localizou-nos, um a um, os locais a visitar. Na sua memória existe toda a cartografia do Gerês. Um dia espero poder fazer o mesmo, mas ainda tenho muito para conhecer. Arrependo-me de não ter começado mais cedo. O Gerês que as pessoas conhecem é tão pequeno e as melhores coisas são estão disponíveis para quem aceitar sair da estrada.
No regresso aos carros passamos por diversos casais na Cascata do Arado, com a pavimentação da estrada até à Pedra Bela os carros chegam lá facilmente. O próximo Verão vai ser insuportável neste local. Eu não sou fundamentalista, percebo que as populações, mesmo a dos Parques Nacionais, tem direito ao conforto do progresso mas o verdadeiro progresso é bem diferente que banhistas no Verão. Se não tiverem mesmo cuidado que o PNPG teve na Mata da Albergaria, se deixarem transformar aquela zona num grande "piquenicão", é o primeiro passo para destruir o Parque.
Construam áreas de tampão, com zonas de banho, estacionamento, serviços, etc., nos limites do Parque, quem procurar uma zona de banhos não precisa de ir à Serra. Quem quiser ir deve puder, mas também se deve co-responsabilizar. Não seriam necessárias portagens, bastava que registassem a matrícula e pagassem uma taxa. A fiscalização só teria que percorrer o Parque e verificar se as matrículas estavam registadas, quando não estivessem bloqueavam-se. Este sistema permitiria ainda estabelecer limites de acessos. Os registos poderiam ser feitos em máquinas tipo multibanco espalhadas nos diversos locais de entrada sem necessidade de grandes custos. Complicado? Não me parece.
Mais tarde, quando pesquisava informação sobre a zona que percorremos, encontrei este recorte de um jornal local sobre os currais e da sua importância na vida das comunidades rurais.

"Domingo, bem cedo, ao nascer do dia, passam 30 minutos das 6 da madrugada, os populares de Fafião reunem-se no centro da aldeia carregados de mochilas, instrumentos para remover a terra e duas dezenas de carvalhos.Sai-se da aldeia em grande algazarra com a carrinha apinhada de gente e numa estrada de terra batida lá se vai em direcção a Malhadoira. A estrada acaba, mas continua-se a pé, por entre nascentes, arvore-dos e regatos mansos, carregando instrumentos, árvores e boa disposição.

Chega-se a Pinhô, depois de mais de uma hora de caminho, passando por pastores, vacas, cabras, pássaros madrugadores e a neblina macia da matina. É hora de “matar o bicho”, descansar e organizar o trabalho para o dia. Entre copas de Gerupiga e pão da terra, decidem-se em assembleia as tarefas, a hora e o ponto de encontro. Formam-se grupos de 3 pessoas, divididos pelos vários currais onde serão plantadas as árvores. O mesmo é feito para a limpeza de carreiros, caminhos e matas, prevenindo os incêndios e conservando o património que muitos dias do ano se confunde com o seu lar.Pousada, Amarela, Vidoirinho, Iteiro D’ovos, Padrolã, Rocalva, são os nomes dados aos currais por onde passa a vezeira do gado. Localizados no coração da serra do Gerês, estes lugares contam histórias deste povo nativo, que desde o início da formação da aldeia percorreu as serras agrestes do Gerês, ora pelo calor abrasador do Verão, ora pelo frio e pela neve do inverno, semeando centeio, pastoreando vacas e cabras, trazendo contrabando da vizinha Galiza...Os currais são lugares situados em zonas planas, verdejantes e quase sempre com água; autênticos oásis no meio da montanha, com cabanas construidas em granito, onde os pastores pernoitam durante a época do pastoreio. As árvores são plantadas nesses lugares e à sua volta é construida uma pequena muralha com pedras, para que os animais não lhe comam as folhas. «Os antigos faziam o mesmo, e queremos manter a tradição, para que os nossos netos não esqueçam os seus antepassados e o seu modo de vida.»

No início da tarde ouvem-se os primeiros sinais por detrás dos cumes e vales amontoados de pedra e vegetação serrana. Regressam ao ponto de encontro os primeiros populares que entoam sinais sonoros, na linguagem da serra, bem entendida pelos pastores e viajantes daqueles lados.

Chegam cansados na hora do calor, depois do trabalho e da valente caminhada. É hora de acender a fogueira e fazer o almoço para que esteja pronto quando estiverem todos.É servido o almoço e em festa e convívio caloroso, descansa-se e conversa-se até à hora de regressar, já no final da tarde. Descendo a montanha até à malhadoira, na alegria e farra que caracteriza este povo serrano, encontram-se os vezeireiros, guardando pacificamente dezenas de vacas, próximos da cabana onde estão os mantimentos. Mais dois dedos de conversa e regressa-se à aldeia, à mesma hora que os rebanhos de cabras atravessam o rio.O exemplo destes populares mostra como é possível e inevitável a preservação da natureza, mantendo os costumes e tradições comunitárias, caracterizadas pela proximidade ao meio natural, gerindo o património e tomando decisões sem intermediários
."

Tuesday, February 07, 2006

Falhar um objectivo, estar preparado para o imprevisto


Recentemente fiz uma caminhada com o objectivo de chegar ao Pé de Cabril - um dos pontos mais altos do Gerês - passando pela fenda da Calcedónia. Era uma caminhada que me pareceu exigente e fui com algumas dúvidas sobre o trajecto e sobre minha forma física. O Pé de Cabril era, e é, um dos locais que sinalizei como objectivo quando comecei com as caminhadas. É uma das glórias da Serra do Gerês, como o descreve Miguel Torga, e uma fase final de difícil acesso.

A subida à Calcedónia foi feita em bom ritmo e mais uma vez senti os efeitos de inactividade. À entrada é sempre a mesma coisa, receios em entrar e como o grupo era grande demorámos muito tempo. Fui ficando para último e acabei por ter que ajudar um colega que fez uma luxação num ombro. Não foi fácil sair da fenda com ele, mas com calma e graças à sua capacidade de sofrimento foi possível levá-lo até à estrada. Aí fomos socorridos pelos Bombeiros Voluntários de Terras de Bouro que o trouxeram para o Hospital de Braga. Não foi nada de grave mas veio provar a importância de estarmos preparados para o imprevisto e pequenos pormenores demonstraram que não estávamos. Na aflição de socorrer, um de nós desceu a encosta até Covide até encontrar um pastor - a nossa ideia era ir buscar um dos nossos carros - quando teria sido tão fácil telefonar directamente aos Bombeiros.

Após o almoço continuamos. O trilho a fazer era diferente do que esperava. A ideia era fazer um trilho que cortava por dentro do mato, só que, ou pelo trilho estar fechado, ou por outra razão perdemo-nos e tivemos que improvisar uma ligação. Dei por mim em locais complicados e com a noção que não havia outro remédio que andar em frente. Mais que pedestrianismo fizemos escalada, subindo uma pendente sobre a vila do Gerês. Com o incidente da manhã fresco na memória, só pedia que ninguém se aleijasse porque seria um sarilho dos grandes. Com 22 pessoas, algumas com pouca preparação, o trilho que estávamos a fazer era muito complicado. Atingido o topo, encontrámos rapidamente o trilho mas já tínhamos perdido demasiado tempo. A tarde já não garantia luz suficiente para ir ao Pé de Cabril e numa pequena reunião decidimos descer. Decisão que se revelou acertada porque depois de chegarmos aos carros só tivemos mais meia hora de luz.

Falhei o objectivo, mas já sei como lá chegar e não tenho dúvidas que lá voltarei em breve. Ainda não foi desta que subi ao Pé de Cabril mas espero não ter falhado a lição da necessidade de um bom planeamento. Os "imprevisto" devem estar todos preparados. Nos próximos tempos vou fazer um seguro.

Saturday, January 21, 2006

Caminho


Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

António Machado
PROVERBIOS Y CANTARES - XXIX
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Friday, January 20, 2006

A derrota útil

Os jornais estão cheios de artigos de opinião de comentadores, dos diversos quadrantes políticos, que abordam a teoria da derrota útil de Mário Soares. Já são muitos que dão como certo que Sócrates prefere governar com Cavaco em Belém. E prefere-o a um socialista sendo-o líder do partido Socialista. Entre os vários argumentos ressaltam dois:

1) o da governação, será mais fácil governar com um Presidente como Cavaco que entenderá melhor algumas políticas difíceis e, como bónus, poderá servir de escudo e álibi para algumas das opções;

2) o do complexo de Édipo, com a derrota de Soares a sombra tutelar do fundador fica arrumada. Sócrates fica assim como única referência no campo socialista para os próximos 10 anos e cimentar a sua candidatura a Belém no pós-Cavaco.

Aparentemente, a gestão do calendário político e governativo parecem confirmar as teorias. E domingo poderá confirmar-se o desejo do Primeiro-ministro. Um eventual bom resultado de Alegre desde que não passe à segunda volta não será muito grave para ele. Se Alegre obrigar a uma segunda volta terá que assumir um outro papel. Sabe que com ele em Belém terá muitos problemas mas a esquerda vai reclamar que procure derrotar Cavaco. Então sim poderemos confirmar esta teoria. Eu, já não tenho muitas dúvidas da sua veracidade. Como o definiu um colega de partido "Sócrates é um cabide de ideias sem convicções", já revelou ser artificial e calculista e não morre de amores por Mário Soares. Sabe-se que o inverso também é verdade e a dúvida de muitos será porque é que Mário Soares se sujeitou a esta candidatura útil. Erro de análise, vaidade?

Tuesday, January 10, 2006

Minas de las Sombras - Gerês (Espanha)






No sábado passado subi às minas das Sombras na vertente espanhola da serra do Gerês. Já lá tinha estado há alguns anos. Aliás foi lá que comecei a fazer caminhadas. Há alguns anos deixei que me convencessem a fazer a travessia Portela-Sombras-Carris- Portela. Era Dezembro, chovia e chegámos já sem luz às minas espanholas, onde dormimos.

A última meia hora do caminho foi de sofrimento e raiva. Já não tinha luz, ia no rasto dos outros, e em cada 4 passos tombava. Quando cheguei à mina, os boxers eram a única peça de roupa que tinha seca. Para cúmulo tinha a mochila mais pesada e estava de rastos. Chegar à Mina foi uma sensação de vitória enorme, um bom ensinamento do valor do sofrimento para atingir uma meta.

Na manhã seguinte acordámos com chuva e assim fizemos a travessia para as Minas do Carris. Em Novembro último, tentei fazer o caminho inverso sem encontrar o trilho de ligação. Andei perdido, pois ao seguirmos as mariolas acabamos por fazer outro caminho.

Desta vez foi mais calmo, saímos de uma capela em Espanha (Senhora do Gerês) e subimos o vale de um curso de água. É um trilho marcado e muito bonito, ainda que com um nível algo exigente.

Valeu a pena pela paisagem e pelos (vestígios) de neve que encontrei, mas arrependi-me muitas vezes das rabanadas que comi no Natal.

Thursday, January 05, 2006

Ano novo, vida nova

Mesmo que a passagem de ano não signifique um recomeçar de zero, mesmo que não haja um botão de reset onde carregar, mesmo que seja apenas um ciclo legal, diferente dos que nos são verdadeiramente importantes, a mudança de ano não é apenas uma convenção legal, nem os seus feitos não são apenas dessa natureza.

É um momento de balanço, um momento de mudança, um momento de esperança. Não começámos uma vida nova, continuámos com a esperança de mudar algumas coisas mantendo o essencial. E o essencial talvez seja manter a esperança de mudar.

Thursday, December 15, 2005

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."

Miguel Torga - 1962

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in "Cancioneiro de Natal"