Monday, September 25, 2006

Pelas Terras do Barroso com o UPB


As Terras do Barroso são um território do maravilhoso, Éden transmontano como lhe chamava uma revista de viagens. – “Isolada pelas montanhas, barricada atrás de lagos sucessivos, abandonada pelas vias rápidas, envolta em nevoeiro, chuva e neve. A região do Barroso é um território de florestas misteriosas, onde os uivos do lobo não são um mito; de bruxas e feiticeiros que se juntam em encruzilhadas e estranhas. Não é terra para homens, mas também lá existem.”

Em Vilar de Perdizes o Padre Fontes terá pretendido dar relevo a este património cultural mas nos últimos tempos, por força de uma errada mediatização, perdeu terreno para os charlatães das tv´s e revistas. Abastardamento de que é exemplo o inqualificável Bruxo Alexandrino, presente na última edição do congresso de medicina popular como proto-candidato presidencial. É pena que assim seja. Apesar de descrer de misticismos, respeito os conhecimentos da "alquimia" popular e Vilar Perdizes podia ter um papel importante no estudo e divulgação desses conhecimentos, um diálogo entre o saber popular e o desenvolvimento da ciência

Pitões das Júnias não fica muito afastada do litoral, são uns escassos 90 km de Braga e 145 km do Porto. Só que, como toda a região transmontana, foi a uma região esquecida e isolada. Aldeia da raia seca, a fronteira unia-a mais do que separava da Galiza, por sua vez também abandonada por Espanha. Até às extinções das ordens religiosas em Espanha era o Mosteiro de Osseira (Espanha) que se responsabilizava pela paróquia. Hoje ainda é possível identificar muitos sinais desta relação, ainda que envenenada por episódios durante a Restauração. Encontrar, no centro de Pitões um bar/café chamado "Taverna Celta" é um testemunho claro desse relacionamento. É também um sinal da cultura de "druidas" que Vilar de Perdizes talvez tivesse podido festejar antes de derivar para a cultura de "doidos e doidas" mais interessados em tarot e amuletos.

Ao procurar informação da capela de S.João da Fraga, encontrei no "Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal uma pequena preciosidade sobre Pitões das Júnias: "Os costumes dos habitantes são geralmente bons, mas visinhos dos hespanhoes, aprenderam com elles a rogar medonhas pragas, contra os filhos, contra os animaes, e contra tudo que incommoda; são muito inclinados à gulla, no comer e no beber, seguindo-se por consequência necessária, a sensualidade desenfreada, que ali se nota em grande escala. Em razão d’esta freguezia ser curada por padres espanhoes, que pouco cuidavam dos deveres próprios do seu elevado ministério, viviam os fieis d’esta freguezia n’uma crassa ignorância da doutrina christan, e do cumprimento dos preceitos da nossa Santa Egreja ...". Fantástico, como nada mais se pudesse dizer, culpa-se os vizinhos das consequências do abandono. Fiquei é a perceber melhor a t´shirt de um colega de Montalegre dos tempos da universidade, que apunha, na simplicidade de umas letras garrafais, o orgulho da condição de "Touro Barrosão". Resquícios de uma "inclinação para a gula" é o que era.

Da Capela de S. João da Fraga não encontrei muita informação, mas acredito que alguém com mais conhecimentos poderia relacionar a sua existência no local onde se encontra, assim como estar dedicada a S. João Baptista, com cultos mais antigos do sol e do fogo celebrados pelo solstício de Verão. Mais um sinal de um certo "paganismo" tornado oficializado.

Também não encontrei muita informação de uma povoação antiga junto a Pitões das Júnias, Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez . que não tive tempo para a visitar. Fica para outra oportunidade. Quem sabe se para uma fria tarde de Inverno depois de comer um cozido na Casa do Preto. Pitões têm ainda as ruínas de um Mosteiro que vale a pena visitar. Originalmente Beneditino, mais tarde da Ordem de Cister, remonta ao século XII. Foi lá que, num dia calor,avistei um sardão com um porte e cores fantásticas que nunca esquecerei e só tenho pena de não ter fotografado.

A ideia da caminhada era explorar a ligação de Pitões às Minas de Carris pelos prados e corgos junto à capela. Tínhamos vários relatos de caminhadas idênticas mas desconhecíamos em absoluto o terreno. Era a aventura por completo. A zona é magnífica e transmite uma sensação única de liberdade e pureza. Em poucos lugares de Portugal haverá montanha tão pura.

As previsões meteorológicas eram muito desfavoráveis, ameaçando chuva forte e trovoada. E esta última assustava. Caminhar e trovoadas não ligam. Só que o dia não cumpriu totalmente as previsões.

O local de encontro foi o café do costume em Braga, de onde partimos em direcção a Pitões. A estrada aconselhava algumas cautelas na condução e retardou a hora de início da caminhada. Acordámos avançar até às 14h00 e nessa altura iniciar o regresso Pitões. Era importante garantir luz para regressar.

Começámos a caminhar em direcção à capela de S. João e logo um cão se juntou a nós. Aparentava ser novo, brincalhão e muito curioso, um companheiro inesperado e divertido. Nos cursos de água que atravessámos entretinha-se com um estranha brincadeira, quase como se estivesse a pescar, abocanhando a água.

Sinto um prazer que não sei explicar em caminhar à chuva, prazer que descobri partilhar com mais gente que gosta de caminhar. Há certas paisagens que só se revelam em toda a sua força e beleza quando as águas rebentam. Linhas de água e cascatas que nos mostram uma natureza fora do período de adormecimento estival. Os dias quentes são bons para uma banhoca numa lagoa, não são os melhores para caminhar. Exigem de nós um esforço suplementar que não compensa.

Caminhámos por entre mato, subimos, descemos e poucas vezes encontrámos trilhos abertos. À hora acordada não estávamos longe do Pico da Nevosa e dos Carris mas havia ainda o caminho de regresso para fazer.

Regressamos por um caminho diferente, mais curto e mais fácil. A navegação estava facilitada porque, para além do conhecimento do terreno adquirido, a capela de S. João da Fraga era um óptimo ponto de orientação. A capela é uma pequena construção rústica caiada de branco no cimo de uma fraga imponente. Acede-se a ela por uns degraus talhados na rocha que depois desci a medo devido à chuva. Lá em cima a vista é avassaladora.

No final da caminhada retemperámos forças na Casa do Preto. Sopa, presunto e um tinto transmontano sem pedigree mas de bom paladar. Antes de voltar a Braga comprei no forno comunitário da aldeia uma broa de centeio acabada de cozer. A padaria da aldeia, que distribui até Braga e por Espanha, coze lá todos os dias.

O objectivo da caminhada não tinha sido cumprido mas poucas caminhadas me deram tanto prazer. Tinha as botas encharcadas, mas nada disso importava pois tinha experimentado uma sensação de liberdade única. Citando um transmontano a quem uma companheira de caminhadas chama poeta padroeiro do UPB: “Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali conquistam-se nas barbas de Deus.” – Miguel Torga; Diário VI, 10 de Agosto de 1952.

ver fotos da caminhada

Monday, September 18, 2006

O Minho e outras histórias



Este fim-de-semana reencontrei-me com amigos numa descida de rafting no do Rio Minho. Ainda que tenha uma auréola radical esta descida é essencialmente um momento de lazer. Foi a terceira vez que desci, ainda que desta vez num percurso ligeiramente diferente dos anteriores devido ao baixo caudal do rio. Por uma estranha coincidência fiz sempre a descida com o mesmo monitor. Um antigo marinheiro brincalhão e muito sabedor nos relacionamentos. No meu raft desceram 3 participantes que não conhecia mas antes de entrarmos na água já funcionávamos como equipa.

Na descida, entre dois rápidos, aproveitava para nos dar informações sobre o Rio Minho. É impressionante verificar como o homem interagiu com a natureza durante séculos mantendo os ecossistemas em equilíbrio. As margens do Rio Minho são testemunhas privilegiadas dessa relação. Perde-se a conta às pesqueiras existentes nas suas margens para a pesca da lampreia, sável e salmão. Não sei quantas delas são ainda usadas mas aprendi que essas construções são prédios rústicos, com donos conhecidos que delas pagam taxas e outros impostos. Eu que sempre julguei serem património colectivo.

O dia tinha começado com chuvas fortes mas quando o sol abriu transformou-se numa manhã magnífica. Só que na margem espanhola as águas dessa chuva testemunhavam o drama dos incêndios de Verão. Com elas arrastavam para o rio cinzas que sujavam a margem direita e, por incrível que pareça, conseguimos, num momento, sentir o cheiro a queimado. Já terá sido pior disse-nos o monitor, mas confesso que foi uma surpresa ter ali mais um testemunho dos incêndios florestais.

O momento mais radical da descida foi um salto para a água de uma altura de 7 a 8 metros. Mais uma vez não resisti ao desafio inicial. Lá em cima, depois de olhar o abismo, hesitei. Só que depois de subir ao penedo não havia outro remédio que não fosse precipitar-me para o Minho. Um segundo de angústia, um outro de inconsciência, seguido pela percepção de, já no ar, alguém gritar - Agora fecha. E eu acho que fechei os braços. Apenas um pouco antes das águas me receberem e de o colete me ter devolvido à superfície. Este salto é bem maior, e mais assustador, que o do percurso a montante. Sou Minhoto, e o salto é mais que um salto para um rio, é um salto para o Minho. É também esse lado simbólico que me faz aceitar sempre o desafio e vencer o medo.

O dia foi também pretexto para recordar velhas histórias. Pequenas patifarias inocentes que correram bem. É engraçado o monte de recordações que acumulámos e como nos admirámos quando contámos os anos que já se passaram. A propósito dos ritmos do tempo um dos meus amigos disse-me algo espantoso – Nada nos esclarece melhor da passagem do tempo como assistir ao primeiro ano de um filho. O ritmo das mudanças é tão grande que nos chama atenção para as nossas e da nossa errada percepção que estamos na mesma. Posted by Picasa

Sunday, September 10, 2006

Caminho de Santiago


Ontem fez 4 anos que completei o Caminho Português de Santiago. Parti de Braga e demorei 7 dias até Santiago em etapas de diferentes distâncias.

Do grupo que começámos a formar partimos três e concluímos dois. As nossas motivações foram essencialmente de lazer e culturais, mas caminhar, dias seguidos, em direcção a algo transforma-se sempre uma experiência também espiritual. Mais tarde ofereceram-me o livro do Paulo Coelho sobre o Caminho de Santiago, não gostei. Nunca mais pretendo ler nada dele, é muita fantasia, um misticismo de que não partilho nem consigo perceber.

Concluir, chegar a Santiago de Compostela, foi uma enorme sensação de superação. Retirei alguns ensinamentos mas ninguém se transforma no caminho. Quanto muito pode conhecer-se melhor durante caminho. Chegar mais dentro de si. Admito que cada um viva a experiência de formas diferentes. Há diferentes pontos de chegada e diferentes pontos de partida. Entre eles, existem muitos caminhos possíveis.

Thursday, September 07, 2006

Bancada lateral


Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou

atirar para ganhar
vou rematar

e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais

vamos jogar

Quando tu me vires no music-hall
estarei no palco
cabeça do sol
ao sol da noite das luzes
à espera dum outro sol
e que os teus olhos os uses
como quem usa um farol
não me olhes só dessa frisa lateral
desce pela cortina e acompanha-me em cena
vamos dar à perna como gente que se ama
e até não se poder maisvamos bailar

Quando tu me vires na televisão
estarei no écran
pés assentes no chão
a fazer publicidade
mas desta vez da verdade
mas desta vez da alegriad
e duas mãos agarradas
mão a mão no dia a dia
não me olhes só desse maple estofado

desce pela antena e vem comigo ao programa
vem falar à gente como gente que se ama

e até não se poder mais
vamos cantar

E quandoà minha casa fores dar
vem devagar
e apaga-me a luz

que a luz destrouta ribalta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta.

Sérgio Godinho - Espectáculo


O futebol é uma coisa engraçada. Num momento em que os jornais relatam o lado mais negro, um dos rostos de uma geração aceita dar a cara enquanto adepto. Acho que não faz falta perguntar "que força é essa, amigo".

É uma pena que esta força esteja prisioneira de tantos interesses. Para já fico na bancada lateral, esperando o remate que nos liberte desta sede.

Wednesday, September 06, 2006

O trilho de S. Bento




O Trilho do São Bento, de âmbito cultural e paisagístico, apresenta-se como um percurso pedestre de pequena rota (PR), tem uma extensão de aproximadamente 10,5 km, com um tempo de duração de 4 horas, sendo o grau de dificuldade médio, com alguns desníveis acentuados.

Este percurso estende-se ao longo da encosta sudoeste do vale do Rio Caldo sendo interceptado, em dois locais, pelo troço da E.N 304, que liga as freguesias de Rio Caldo e Covide. O seu traçado caracteriza-se por locais de interesse histórico-cultural, de cariz religioso, que despertam curiosidade ao pedestrianista e visitante. Um dos principais atractivos deste trilho são os antigos fornos de fabrico de carvão, denominados de furnas, o fojo do lobo - locais de captura do animal e as rochas graníticas com as pegadas de Santa Eufémia, representando vestígios que remetem às tradições e mitologias da freguesia de Rio Caldo. O fojo do lobo e a furna são estruturas que demonstram e confirmam a relação de coexistência vivencial, com benefícios e malefícios, entre o homem e determinados animais, inclusive o urso e o lobo.


Fonte: Trilhos Pedestres na senda de Miguel Torga – Trilho de São Bento (CMTB)

Ao fim-de-semana, e mais ainda no Verão, há sempre muita gente em S. Bento. Como minhoto conheço bem a importância deste santuário no Baixo Minho, mais ainda porque parte das minhas raízes são do vizinho concelho de Amares.

Cresci com histórias de romagens a S. Bento e fui também várias vezes desafiado para a fazer. Fiquei sempre com a ideia que, além das questões de fé, a romaria tinha, também, uma forte carga iniciática. Tratava-se de provar já ser capaz de “ir até”.

Das histórias que escutei da minha mãe e tias ficou-me muito mais uma ideia da festa, e pouco dos sacrifícios mortificadores. Talvez por isso sempre tive dificuldade para os aceitar e perceber. Assistir aos devotos de joelhos em torno da Igreja nunca me causou grande comoção. Pelo contrário sempre me pareceu excessivo e sem sentido. Percebo pois o efeito que terá motivado Miguel Torga a registar no seu diário, em 13 de Agosto de 1966:

“Não direi como se chama, nem o nome interessa. Vale a pena, sim registar a natureza da promessa que fez: vir aqui todos os anos, enquanto tiver saúde, e deitar meia-dúzia de foguetes à chegada. Pequenino, vivaço, de cigarro acesso na mão, enquanto vagas sucessivas de romeiros, num rodopio penitente, ensanguentavam com os joelhos abertos a faixa que a compaixão canónica aplainou na aspereza do adro.”

Hoje, serão menos os penitentes mas, como pude constatar no regresso, ainda há que faça o percurso desde as pontes de Rio Caldo de joelhos.

Reunido o grupo, abastecidos de água, cautela necessário num trilho sem fontes de água, começámos a subir. O trilho, apesar da acentuada inclinação inicial, foi relativamente fácil de fazer. O calor acrescentou uma dificuldade adicional atenuada pela falsa sensação de facilidade de caminhar por estradão. Eu prefiro caminhar por caminhos de pé posto, gosto de sentir o monte não a monotonia da estrada.

Depois do fojo subimos um pouco mais até um miradouro natural sobre a encosta. Parámos a descansar e a admirar o vale que desce desde Covide até se afogar na albufeira. Ao longe identificámos no recorte do horizonte a Roca Alva, a Roca Negra, o Borrageiro, o Pico daNevosa e o Pé de Cabril. Junto a nós um rebanho de cabras pastava livremente.

Troquei algumas palavras com o pastor. É uma vida dura, acentuado com a repentina perda dos familiares num acidente deixando-lhe toda a responsabilidade de um rebanho de 300 animais. Havia uma certa mágoa contida pela ausência e solidão na forma como me contou isso, quase os culpa: “quiseram ir os 3 ver o Douro”.

Fiz-lhe algumas perguntas sobre o rebanho. Contou-me que perdera no último ano 6 animais com os lobos. Não se ofendeu quando lhe perguntei se tinha a certeza que tinham sido lobos e não cães assilvitrados . Disse-me que ainda no dia anterior lhe tinham desaparecido 3, agora restava-lhe esperar pelo seu regresso ou procurar a carcaça. Procedimento necessário para que o PNPG o compensar.

Quando lhe perguntei sobre o preço de um cabrito comprovei, mais uma vez, que poucos pastores matam os seus animais. Escolhem desde cedo os que vão morrer e os que se vão criar, só que matá-los é outra história. Eu até podia comprar o animal em carcaça mas seria outro a matar. Não ele.

Um pouco acima encontrámos um bosque que nos proporcionou uma sombra acolhedora. Apetecia mesmo ficar lá.

Na descida parámos junto ao fojo do lobo. Foi recentemente mutilado pela abertura do estradão. É um fojo de paredes convergentes que terminava num fosso de 3 metros de altura e 5 metros de diâmetro. A batida ao lobo seria feita com os batedores de Rio Caldo de um lado e do outro os batedores do lugar de Freitas, que fechando os animais no fojo eram empurrados até ao fosso. Haveria ainda um segundo fojo na zona.

Cruzada a EN304, o trilho seguiu por um bosque até a uma praia fluvial sobre o Rio Caldo onde nos refrescámos. O trilho continuava para umas antigas furnas de carvão a que resolvemos não ir por o mato estar muito fechado. Regressámos aos carros e fomos refrescar os corpos na albufeira da Caniçada. No final ainda tivemos os bolitos de chocolate dos novatos do UPB. Nesta caminhada tivemos, entre outros, dois “botistas” de Lisboa. Ficaram de voltar em novas iniciativas do UPB.

Regressei a casa depois de um dia bem passado. É um trilho engraçado, o fojo e o bosque acima merecem uma visita mais demorada. Visto na carta parecem muito perto de Campos dos Abades. É uma boa base para futuras explorações.

Nota: no dia seguinte à caminhada do UPB ardeu uma das encostas junto a S. Bento. Algumas fontes falam em fogo posto. Não consigo perceber. Simplesmente não consigo perceber.

Thursday, August 31, 2006

Trilho Castrejo


O dia começou relativamente cedo, mas as tarefas de deixar o parque de campismo e tomar o pequeno-almoço levaram o seu tempo. Quando chegámos a Castro Laboreiro já deviam passar das 10h. Estacionámos os carros e começámos a preparar as mochilas.

Na saída encontrei algumas pessoas conhecidas que se preparavam para fazer um percurso de canyoning pelo Rio Laboreiro. É uma actividade que gostava de experimentar. Aproveitei para verificar as condições de segurança da actividade. Conheço a empresa, Escola Rafting do Atlântico, assim como alguns dos monitores e monitoras, antigos alunos da universidade, que já encontrei algumas vezes nas viagens da neve da Universidade do Minho.

O Trilho Castrejo é um PR homologado, marcado originalmente pela CIMO (Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação) em 1999. O desdobrável era de 2001 e como iríamos descobrir nem sempre era fácil de seguir os “antigos caminhos que ligavam as Brandas às Inverneiras e no caso de estes estarem marcados decorre por caminhos alternativos. São caminhos que remontam à idade média dos quais ainda restam algumas pedras de calçadas, pontes de arco, antigos.”

Iniciámos o trilho, bem mais tarde do que pretendíamos, por um estradão não muito bonito de fazer (não seria errado pensar numa alternativa a esta marcação). As marcas também não são fáceis de seguir e acabámo-nos por nos desviar uns 200 a 300 metros do trilho marcado. O terreno era complicado e perdemos algum tempo. Voltámos a encontrar as marcações junto a uma pequena represa um pouco antes da inverneira Barreiro. A partir daqui seguimos numa uma calçada por bosque bonito. Encontrámos muitas casas abandonadas o que confirmava a informação que a maioria dos castrejos se fixou as suas casas das brandas, onde habitavam mais tempo. Em algumas das casas haviam ainda vestígios dos tradicionais telhados em colmo.

Tínhamos decidido almoçar na ponte depois da Assureira (inverneira), mas optámos por seguir para Curveira (inverneira) porque lá teríamos uma fonte de água. Tendo em conta a hora, depois do Bico do Patelo abandonámos o trilho em direcção a Cainheiras (inverneira), evitando as brandas Seara e Padrousouro. No regresso a casa ainda queríamos ir a umas piscinas naturais depois a Sra da Peneda, e não queríamos chegar lá muito tarde. A subida até ao Bico do Patelo é dura, e a hora a que a fizemos complicou um pouco mais. Lá de cima a vista é magnífica, vale bem a subida.

Em Varziela (inverneira), onde alguns dos UPB’s tinham ficado alojados na caminhada com a Ecotura, o trilho passa por uma ponte sobre uma ribeira que cria uma bonita piscina de águas cristalinas. Há muito tempo que sonhávamos com um pouco de água e vê-la tão perto despertou ainda mais o desejo.

Chegámos a Castro Laboreiro pelas 17h, cerca de 6 horas depois, sem muito consenso quanto aos quilómetros caminhados. O trilho terá na totalidade uns 17 a 18 km, mas não devemos ter caminhado mais do que 14 km. O dia quente, as férias e algumas hesitações no trilho justificam a média baixa. É um trilho exigente mas muito bonito, ainda que esteja mal marcado em certos locais. Não visitámos as brandas que ficam para uma outra vez.

A procura das piscinas revelou-se complicada e acabámos por nos refrescar na praia fluvial de Arcos de Valdevez. Um banho merecido. O corpo já não está a habituado a ser castigado desta forma. As férias deixam as suas marcas e o calor era muito.

Fonte: PR3 Trilho Castrejo
Fotos: http://caminhadas.myphotoalbum.com/

Tuesday, August 29, 2006

Trilho interpretativo de Lamas de Mouro



Este trilho interpretativo é um percurso pedestre circular que se desenvolve ao longo dos principais lugares da freguesia de Lamas de Mouro (Melgaço), em plena entrada da mais antiga e importante área protegida do nosso país – o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).

O percurso permite a compreensão da estrutura territorial desta localidade, localizada nos interstícios da majestosa serrada Peneda, bem como o reconhecimento dos seus principais valores naturais, culturais e paisagísticos.

As marcas de ocupação humana estão ainda bem presentes, destacando-se a pitoresca ponte, o histórico moinho de água, o forno comunitário e a secular igreja de estilo românico.

No coração deste trilho surge a porta de Lamas de Mouro. Trata-se de uma estrutura da Câmara Municipal de Melgaço, vocacionada para a recepção, recreio, informação e educação ambiental dos visitantes do PNPG.

Para conhecer um pouco melhor a história bem como o uso e a ocupação espacial desta multifacetada área serrana é praticamente obrigatória a visita, já na recta final do trilho, à exposição “Ordenamento do Território” patente na Oficina Temática da Porta de Lamas de Mouro.”

Fonte: Trilho interpretativo de Lamas de Mouro – Porta de Lamas de Mouro


É um trilho fácil de seguir, com uma extensão de 4,5 km e duração estimada de 2 horas. A diferença de quotas não ultrapassa os 80 metros. Um trilho para relaxar e recomeçar a temporada.

Comecei o trilho no bar/esplanada da Porta de Lamas de Mouro, instalado na antiga Casa Florestal, em direcção do antigo canil do cão de Castro Laboreiro. As marcas estão frescas e foram muito fáceis de seguir. Após cruzar a estrada (para Arcos-Gavieira) junto a uma ponte (há uma outra devoluta junto à ponte mais moderna), segui para a Ponte do Porto Ribeiro. Pouco depois, cruzada a E.M. existe um bonito Moinho de Água que deve ter sido recuperado recentemente, conforme se pode constatar pelo estado da levada.

Um pouco acima do moinho, fui ruidosamente chamado à razão por uma cadela Castro Laboreiro para que deixasse passar um rebanho de ovelhas. Sinal de que estamos em terras de lobos, a cadela usava uma coleira de pregos. Respeitosamente, deixei que o rebanho passasse e no final troquei algumas palavras com a pastora. Era uma senhora idosa e disse-me que ia levar o rebanho para uns campos e deixava-o depois entregue à guarda da cadela.

Na aldeia, o trilho seguiu pelos currais, por um relógio de sol, um forno comunitário e por uma igreja com vestígios românicos. Num sinal claro da emigração na aldeia, havia vestígios de uma festa fora do calendário. Sendo Agosto o mês de regresso, celebra-se também em Agosto o padroeiro S. João Baptista. A festa teria sido realizada na quarta, na noite de 23 para 24.

O trilho seguiu depois para uns campos da aldeia, numa zona de lameiro, em direcção à Porta de Lamas de Mouro. Junto à porta encontrei um grupo de garranos, que por estarem habituados ao homem, não se intimidaram com a minha presença. Expectantes, deixaram-se fotografar. No final do trilho visitei a exposição permanente com o tema “Ordenamento do Território". A Porta de Lamas de Mouro foi uma agradável surpresa e merece uma visita.

Porta de Lamas de Mouro


"Os visitantes do Parque Natural da Peneda-Gerês dispõem, a partir de hoje, de uma porta de entrada em Lamas de Mouro, Melgaço, que lhes disponibiliza informações sobre trilhos e riquezas naturais. A medida pretende dar uma orientação e acabar com a anarquia nas visitas. Orçada em 1,6 milhões de euros, aquela porta é a primeira de uma série de cinco que vão ser criadas em cada um dos concelhos abrangidos pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), para pôr fim à anarquia nas visitas àquele espaço natural. "O parque é anualmente visitado por milhares de pessoas mas estas, quando lá chegam, não têm qualquer estrutura que as oriente, pelo que as visitas são feitas de forma perfeitamente anárquica e é para acabar com esta situação que vão ser criadas as portas de entrada", explicou fonte do PNPG.
No total, as cinco portas custarão cerca de dez milhões de euros e serão desenvolvidas pelas câmaras municipais e pela Associação de Desenvolvimento das Regiões do Parque Nacional da Peneda- Gerês (ADERE Peneda-Gerês).
As outras portas nascerão no Mezio (Arcos de Valdevez), São Miguel de Entre Ambos os Rios (Ponte da Barca), São João de Campo (Terras de Bouro) e Cambezes (Montalegre). Cada porta estará relacionada com as características do território onde se insere, aludindo a de Melgaço à "História e Ocupação do Território".
A escolha deveu-se às provas de uma antiquíssima ocupação humana, desde os tempos proto-históricos, existindo vestígios megalíticos, célticos, romanos e medievais, que atestam uma contínua e organizada utilização deste espaço.
A porta de Arcos de Valdevez vai ter como tema a "Fauna e a Flora" e a de Ponte da Barca a "Geologia e Água", enquanto as de Terras de Bouro e de Montalegre aludirão, respectivamente, à "História e Civilizações" e "Interpretação e Paisagem".
Entretanto, hoje abriu também o Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, em Melgaço, que resultou da recuperação de uma antiga fábrica de chocolates. Visando a perpetuação da história, tradição e costumes de Castro Laboreiro - uma das mais típicas freguesias de Melgaço -, este núcleo museológico é constituído por um edifício com duas zonas de exposição e uma sala de tratamento de espólio, e ainda por uma antiga casa colmada. Estes espaços estão relacionados com a transumância dos pastores e riqueza arqueológica da freguesia, nomeadamente os monumentos pré-históricos existentes no planalto."
15-05-2004 - Lusa
Passados 2 anos ainda só funciona uma das portas e é uma pena. O ordenamento do PNPG ganharia muito com estas estruturas. São um grande apoio para os visitantes e permitem fazer um trabalho com as escolas e outros grupos organizados. Ainda que não possa avaliar o trabalho realizado pela Porta de Lamas de Moura (http://www.cm-melgaco.pt/cmm_portalamas.php), a minha experiência foi muito positiva. Os técnicos eram pessoas interessadas, simpáticas e prestativas.
Na visita à exposição pareceram-me preparados e fiquei positivamente impressionado. Parece-me apenas que se deve ter o cuidado de não transformarem as portas em parques de merendas. Em Lamas de Mouro percebe-se que seja um pouco assim pelas romarias à Sra da Peneda. Nos outros locais deve-se ter mais cuidado. Julgo que a ideia é ordenar, não desordenar. Os parques de merenda, que devem existir, podem ser criados em zonas mais afastadas para que não provoquem uma pressão sobre o PNPG.

Monday, August 28, 2006

Noites de Verão ao Luar


Um mau cálculo do tempo de viagem, associado ao enorme cortejo de um casamento em que me vi envolvido, fez-me chegar atrasado ao local de encontro Como na zona não há rede de móvel não havia forma de me contactarem, assim como eu avisar do meu atraso. Eu queria subir ao castelo e tinha a ideia, errada, que seriam uns 2o minutos a subir.

Encontreios-os numa esplanada junto ao miradouro para o castelo. Apresentadas as desculpas, tive tempo para visitar o castelo. A subida é muito mais rápida do que eu imaginava e ainda tive a companhia da Jana. Ela queria telefonar e tinha descoberto que lá em cima tinha melhor rede. A subida demora uns 10 minutos. É fácil, ainda que tenha alguns obstáculos que não são para todas as idades. Lá em cima a vista é soberba. Um ninho de águia inexpugnável.

Encontramo-nos com o Pedro Alarcão na zona de lazer da Várzea, onde a Ecotura possui as box para os cavalos. Lá estava mais 3 participantes de Lisboa. Uma delas era uma realizadora de BD que estava a prepara uma animação sobre o lobo. Saímos, ainda nos nossos carros, para uma branda onde começamos a caminhar.

Ao longo do percurso o Pedro ia dando explicações sobre a zona e as suas tradições. Naturalmente, o lobo era uma das nossas grandes curiosidades. Foi-nos relatando pormenores do seu trabalho, episódios da gravação do documentário para a RTP e não só.

Os relatos contadas nem sempre são alegres. Já perdeu animais devido ao veneno, mas é uma pessoa empenhada em mudar pela positiva. Quer fazer com que as pessoas aceitem o lobo. Está empenhado, defende que o Ecoturismo é a grande oportunidade para a defesa da alcateia. Ele e a esposa apostaram numa mudança de vida radical.

A primeira paragem foi numa pedra com gravuras rupestres, em que o Andarilho ajudou na explicação científica. O Planalto de Laboreiro tem vestígios de ocupação humana muito antigos só que a paisagem foi pouco modificada pelo homem. Alguns muros e nada mais. É magnífico.

Ao caminhar foi-nos explicando o funcionamento das alcateias, a sua organização social, estratégias de caça, etc. É surpreendente a semelhança da sua estrutura familiar com a do homem. Explicou-nos também as razões do mito do lobo como animal feroz. Há poucos relatos de ataques de lobos ao homem, mas ele continua a ser o lobo feroz. As causas são muitas. É naturalmente um animal selvagem mas não é perigoso para o homem.

Pouco antes do local do jantar, encontrámos garranos em liberdade. Eram animais muito bonitos, em conjunto com um grupo que avistei perto do Cocões de Coucelinho (Gerês), foram os garranos mais bonitos e musculados que vi. Nada parecidos com os cavalos de ventre inchado a que associámos os garranos. O Pedro explicou-nos que isso deve-se à sua alimentação e exercício. Na sua opinião o garrano é um excelente cavalo. A Ecotura praticamente só tem garranos e num futuro próximo pretende reforçar essa aposta.

No cimo da colina a esposa de Pedro, Anabela Moedas, esperava-nos com a mesa posta. A visão foi magnífica, demorámo-nos um pouco a saborear os petiscos. Foi a primeira vez que tive uma refeição destas no meio de uma caminhada. É uma boa experiência.

Depois dos petiscos veio a”aula” de astronomia dada por Pedro e Anabela. Observar as estrelas pode ser algo engraçado. Eu não tenho esse hábito e tive alguma dificuldade em algumas constelações mas foi divertido.

De seguida visitámos mais uma anta e iniciámos o regresso. Junto aos carros ainda ficámos a conversar até depois das 3 da manhã. No regresso meti mais uma vez pela Peneda. A estrada de noite é impressionante. Avistei uma raposa e dois animais que depois identifiquei como ginetas. O regresso foi complicado por causa do sono mas valeu a pena. Numa próxima fico a dormir por lá.

Um exemplo ao contrário


Poucos dias antes do incêndio que afectaria o Mezio fiz, com alguns amigos do UPB, uma caminhada diferente. Foi um email que me fez conhecer um exemplo positivo. Um exemplo que me faz continuar a acreditar. O casal Pedro Alarcão e Anabela Moedas, são dois jornalistas que transformaram a sua vida ao iniciarem um estudo sobre o Lobo Ibérico na zona da Peneda. Hoje vivem com dois filhos em Castro Laboreiro e exploram uma empresa de ecoturísmo http://www.ecotura.com/. É pena serem um exemplo ao contrário. Largaram a capital Lisboa pelos montes de Castro Laboreiro. Uma zona tão descentrada, e tão particular que produziu uma organização territorial única de Brandas e Inverneiras.

Esta caminhada foi uma das coisas mais engraçadas que realizei nos últimos tempos. Fiquei de lá voltar para dar uma volta de garranos.