Voltei recentemente a caminhar por uma das zonas mais bonitas do Gerês. É uma região bela e dura, cheia de testemunhos dos antigos pastores daqueles montes. A minha admiração pelos homens que retiravam o sustento naqueles montes não para de crescer. Imagino a vida dura e despojada que tiveram, eu sei que não a aguentaria. Ao passar por umas ruínas de um antigo abrigo comentei isso com os companheiros de trilho. Vida de solidão - alguém disse. Concordei e contei-lhes a proposta que um pastor fizera a uma caminheira do UPB dez minutos após a conhecer: casamento e um dote de largos milhares de contos. Não havia tempo a perder porque no monte não há muitas oportunidades.
Experimentei a navegação por carta e bússola e resultou. Tirei o azimute pretendido e fui confirmando o trilho marcado pelas mariolas até ao Borrageiro. Decidimos depois tentar a descida por uma garganta que nos parecia complicada. O terreno e a carta não indiciavam que fosse uma boa opção, mas a existência de umas mariolas foi o suficiente para ultrapassar os receio iniciais e descer por lá. Puro erro, era um terreno complicado, perigoso e fechado por mato como a carta indicava. Um esforço e risco desnecessários. Como com os erros também aprendemos não foi tempo perdido.
São apenas notas soltas sem qualquer compromisso de actualização. Como ao caminhar à beira mar onde os nossos passos não são mais importantes mas ficam registados entre duas ondas.
Monday, October 30, 2006
As mariolas também enganam
Tuesday, October 24, 2006
A gente vai continuar
Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
A gente vai continuar - letra e música de Jorge Palma
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
A gente vai continuar - letra e música de Jorge Palma
Monday, October 23, 2006
Estado bruto

Há muito tempo que não fazia uma destas. O corpo já não aguenta e as coisas agora tem outro sabor. Um sabor a decadência com música de Jorge Palma como banda sonora.
Aproveitei o propósito de encontrar "velhos" amigos para revisitar locais do passado. Na sede/bar dos "Passarinhos da Ribeira" tive um visão da realidade dois andares abaixo do "Portugal profundo". Um encontro com os sintomas da decadência que os cartazes turísticos procuram esconder. Comentei para o lado que aquilo seria o Porto e os "tripeiros" em estado puro. "Estado bruto" - corrigiram-me.
Uma pequena amostra do lado errado da noite, "Kilas" e aprendizes de outros ofícios. Prova que as cidades não se renovam por decreto. A decadência dos centros históricos das cidades é, antes de mais, social. Não adianta tratar das fachadas, fazer bonitos cartazes paras os turistas visitarem, sem resolver a questão das populações que os habitam. O Porto "Património Mundial" é como um espelho esquizofrénico onde a cidade apenas se contempla às vezes. Um local onde há sempre alguém pronto a "endrominar" os incautos. Um local onde se deve manter os sentidos em alerta. Um local para chegar de táxi e sair de táxi.
Wednesday, October 18, 2006
Investigações
Descobri algumas fontes bibliográficas sobre o Gerês que espero conseguir na Biblioteca Pública de Braga. São na sua maioria artigos de revistas e livros raros, publicações anteriores a 1950 com edições pequenas e impossíveis de encontrar. Um desses livros é uma publicação de um relato muito antigo sobre uma viagem de exploração ao Gerês a mando de D. Gaspar de Bragança, Arcebispo de Braga. Espero encontrar neles algumas indicações para futuras caminhadas.
Monday, October 16, 2006
Workshop de Orientação
Durante o último fim-de-semana fiz uma pequena formação em Orientação. São conhecimentos que espero me venham a ser úteis nas minhas caminhadas. A cartografia é uma coisa apaixonante, permite-me fazer um reconhecimento do terreno previamente e já me foi útil algumas vezes. Ganhei o hábito de consultar o site do IGEOE antes de realizar seja o que for. Ter uma ideia do terreno, por menor que seja, é sempre melhor que o total desconhecimento.
Ainda que ofenda os mais puristas fiquei deslumbrado com o GPS. No exercício prático tentei sempre fazer a utilização da carta e bússola, só que o GPS, quando funcionava era muito mais prático.
No grupo da formação reencontrei um caminheiro que conheci junto à Rocalva (PBPG) numa caminhada do UPB, estive a falar um pouco com ele. É impressionante a “pedalada” que tem. Faz travessias enormes dentro do PNPG, conhece tudo e não tem medo de ir sozinho.
No final do exercício fomos comer um bacalhau ao Xico da Torre (Fiscal- Amares). O tasco está cada vez mais tasco mas o bacalhau sabe sempre bem. Deu-nos a provar um vinho “americano”. Não sei se é por falta de hábito mas pareceu-me muito mau. O Verde tinto também não era famoso e acabei numa cervejinha.
Monday, October 09, 2006
A Porta de Campo de Gerês

Passados dois anos da abertura da primeira porta a CM Terras de Bouro abriu a segunda das 5 inicialmente previstas. Tive a intenção de a visitar este fim de semana mas, como se encontra em instalação, preferi aguardar algum tempo para a puder visitar como deve ser. A minha experiência na Porta de Lamas de Mouro foi muito positiva e as comparações podiam ser injustas. É "normal" que existam alguns problemas no início dos projectos. Em Lamas de Mouro as coisas também terão começado menos bem. É a necessária aprendizagem.
No projecto das portas do PNPG há uma fragilidade evidente que resulta do afastamento do PNPG destas estruturas. Se a ideia é orientar os visitantes na entrada no parque nacional, se a ideia é acabar com a "anarquia" actual, não faz sentido que o PNPG não esteja presente. Só que os investimentos e os salários são suportados pelos municípios e por isso percebo que os queiram gerir. Não culpo as câmaras municipais culpo o estado que não dá condições ao único parque nacional. Espero é que haja bom senso para que pelo menos na formação dos recursos humanos seja assumida pelo PNPG. Essa, é para já a falha mais evidente desta nova porta.
Ao lado as obras para o museu da Geira estão avançadas. Um amigo tem sobre isto uma posição muito particular - "As pessoas que se deslocam para o Gerês não querem visitar museus, querem visitar a paisagem". Poderá ter razão, ainda que entenda que um verdadeiro museu faz sentido. Não percebo é o local escolhido. Espero é que não retirem o património do seu lugar para o esconder em salas.
Só que mais do que tudo isto preocupa-me a pressão turística que vejo crescer na zona do Campo do Gerês. Nos últimos anos vi multiplicaram-se na zona empresas de aventura com uma ética ambiental muito discutível. Não sou fundamentalista em questões ambientais, acredito que se deve garantir às populações o conforto de que necessitam. E aqui inclui-se a necessidade de prosperar. Quando visito alguma coisa ao fim de semana procuro não esquecer que ela existe também à semana. Só não percebo é porque se permite concentrar tanta coisa numa zona tão perto de zonas importantes e sensíveis como a mata da Albergaria. Essa é mais uma razão para que o Parque tivesse tido uma intervenção superior na instalação das portas. Não duvido que quisesse, não reuniu foi as condições. Quando as coisas correrem mal, se correrem, virá disciplinador e tarde. É assim, somos educados com excessos de disciplina e pouca pedagogia. Depois somos este modelo de cidadania.
No projecto das portas do PNPG há uma fragilidade evidente que resulta do afastamento do PNPG destas estruturas. Se a ideia é orientar os visitantes na entrada no parque nacional, se a ideia é acabar com a "anarquia" actual, não faz sentido que o PNPG não esteja presente. Só que os investimentos e os salários são suportados pelos municípios e por isso percebo que os queiram gerir. Não culpo as câmaras municipais culpo o estado que não dá condições ao único parque nacional. Espero é que haja bom senso para que pelo menos na formação dos recursos humanos seja assumida pelo PNPG. Essa, é para já a falha mais evidente desta nova porta.
Ao lado as obras para o museu da Geira estão avançadas. Um amigo tem sobre isto uma posição muito particular - "As pessoas que se deslocam para o Gerês não querem visitar museus, querem visitar a paisagem". Poderá ter razão, ainda que entenda que um verdadeiro museu faz sentido. Não percebo é o local escolhido. Espero é que não retirem o património do seu lugar para o esconder em salas.
Só que mais do que tudo isto preocupa-me a pressão turística que vejo crescer na zona do Campo do Gerês. Nos últimos anos vi multiplicaram-se na zona empresas de aventura com uma ética ambiental muito discutível. Não sou fundamentalista em questões ambientais, acredito que se deve garantir às populações o conforto de que necessitam. E aqui inclui-se a necessidade de prosperar. Quando visito alguma coisa ao fim de semana procuro não esquecer que ela existe também à semana. Só não percebo é porque se permite concentrar tanta coisa numa zona tão perto de zonas importantes e sensíveis como a mata da Albergaria. Essa é mais uma razão para que o Parque tivesse tido uma intervenção superior na instalação das portas. Não duvido que quisesse, não reuniu foi as condições. Quando as coisas correrem mal, se correrem, virá disciplinador e tarde. É assim, somos educados com excessos de disciplina e pouca pedagogia. Depois somos este modelo de cidadania.
Monday, September 25, 2006
Pelas Terras do Barroso com o UPB

As Terras do Barroso são um território do maravilhoso, Éden transmontano como lhe chamava uma revista de viagens. – “Isolada pelas montanhas, barricada atrás de lagos sucessivos, abandonada pelas vias rápidas, envolta em nevoeiro, chuva e neve. A região do Barroso é um território de florestas misteriosas, onde os uivos do lobo não são um mito; de bruxas e feiticeiros que se juntam em encruzilhadas e estranhas. Não é terra para homens, mas também lá existem.”
Em Vilar de Perdizes o Padre Fontes terá pretendido dar relevo a este património cultural mas nos últimos tempos, por força de uma errada mediatização, perdeu terreno para os charlatães das tv´s e revistas. Abastardamento de que é exemplo o inqualificável Bruxo Alexandrino, presente na última edição do congresso de medicina popular como proto-candidato presidencial. É pena que assim seja. Apesar de descrer de misticismos, respeito os conhecimentos da "alquimia" popular e Vilar Perdizes podia ter um papel importante no estudo e divulgação desses conhecimentos, um diálogo entre o saber popular e o desenvolvimento da ciência
Pitões das Júnias não fica muito afastada do litoral, são uns escassos 90 km de Braga e 145 km do Porto. Só que, como toda a região transmontana, foi a uma região esquecida e isolada. Aldeia da raia seca, a fronteira unia-a mais do que separava da Galiza, por sua vez também abandonada por Espanha. Até às extinções das ordens religiosas em Espanha era o Mosteiro de Osseira (Espanha) que se responsabilizava pela paróquia. Hoje ainda é possível identificar muitos sinais desta relação, ainda que envenenada por episódios durante a Restauração. Encontrar, no centro de Pitões um bar/café chamado "Taverna Celta" é um testemunho claro desse relacionamento. É também um sinal da cultura de "druidas" que Vilar de Perdizes talvez tivesse podido festejar antes de derivar para a cultura de "doidos e doidas" mais interessados em tarot e amuletos.
Ao procurar informação da capela de S.João da Fraga, encontrei no "Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal uma pequena preciosidade sobre Pitões das Júnias: "Os costumes dos habitantes são geralmente bons, mas visinhos dos hespanhoes, aprenderam com elles a rogar medonhas pragas, contra os filhos, contra os animaes, e contra tudo que incommoda; são muito inclinados à gulla, no comer e no beber, seguindo-se por consequência necessária, a sensualidade desenfreada, que ali se nota em grande escala. Em razão d’esta freguezia ser curada por padres espanhoes, que pouco cuidavam dos deveres próprios do seu elevado ministério, viviam os fieis d’esta freguezia n’uma crassa ignorância da doutrina christan, e do cumprimento dos preceitos da nossa Santa Egreja ...". Fantástico, como nada mais se pudesse dizer, culpa-se os vizinhos das consequências do abandono. Fiquei é a perceber melhor a t´shirt de um colega de Montalegre dos tempos da universidade, que apunha, na simplicidade de umas letras garrafais, o orgulho da condição de "Touro Barrosão". Resquícios de uma "inclinação para a gula" é o que era.
Da Capela de S. João da Fraga não encontrei muita informação, mas acredito que alguém com mais conhecimentos poderia relacionar a sua existência no local onde se encontra, assim como estar dedicada a S. João Baptista, com cultos mais antigos do sol e do fogo celebrados pelo solstício de Verão. Mais um sinal de um certo "paganismo" tornado oficializado.
Também não encontrei muita informação de uma povoação antiga junto a Pitões das Júnias, Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez . que não tive tempo para a visitar. Fica para outra oportunidade. Quem sabe se para uma fria tarde de Inverno depois de comer um cozido na Casa do Preto. Pitões têm ainda as ruínas de um Mosteiro que vale a pena visitar. Originalmente Beneditino, mais tarde da Ordem de Cister, remonta ao século XII. Foi lá que, num dia calor,avistei um sardão com um porte e cores fantásticas que nunca esquecerei e só tenho pena de não ter fotografado.
A ideia da caminhada era explorar a ligação de Pitões às Minas de Carris pelos prados e corgos junto à capela. Tínhamos vários relatos de caminhadas idênticas mas desconhecíamos em absoluto o terreno. Era a aventura por completo. A zona é magnífica e transmite uma sensação única de liberdade e pureza. Em poucos lugares de Portugal haverá montanha tão pura.
As previsões meteorológicas eram muito desfavoráveis, ameaçando chuva forte e trovoada. E esta última assustava. Caminhar e trovoadas não ligam. Só que o dia não cumpriu totalmente as previsões.
O local de encontro foi o café do costume em Braga, de onde partimos em direcção a Pitões. A estrada aconselhava algumas cautelas na condução e retardou a hora de início da caminhada. Acordámos avançar até às 14h00 e nessa altura iniciar o regresso Pitões. Era importante garantir luz para regressar.
Começámos a caminhar em direcção à capela de S. João e logo um cão se juntou a nós. Aparentava ser novo, brincalhão e muito curioso, um companheiro inesperado e divertido. Nos cursos de água que atravessámos entretinha-se com um estranha brincadeira, quase como se estivesse a pescar, abocanhando a água.
Sinto um prazer que não sei explicar em caminhar à chuva, prazer que descobri partilhar com mais gente que gosta de caminhar. Há certas paisagens que só se revelam em toda a sua força e beleza quando as águas rebentam. Linhas de água e cascatas que nos mostram uma natureza fora do período de adormecimento estival. Os dias quentes são bons para uma banhoca numa lagoa, não são os melhores para caminhar. Exigem de nós um esforço suplementar que não compensa.
Caminhámos por entre mato, subimos, descemos e poucas vezes encontrámos trilhos abertos. À hora acordada não estávamos longe do Pico da Nevosa e dos Carris mas havia ainda o caminho de regresso para fazer.
Regressamos por um caminho diferente, mais curto e mais fácil. A navegação estava facilitada porque, para além do conhecimento do terreno adquirido, a capela de S. João da Fraga era um óptimo ponto de orientação. A capela é uma pequena construção rústica caiada de branco no cimo de uma fraga imponente. Acede-se a ela por uns degraus talhados na rocha que depois desci a medo devido à chuva. Lá em cima a vista é avassaladora.
No final da caminhada retemperámos forças na Casa do Preto. Sopa, presunto e um tinto transmontano sem pedigree mas de bom paladar. Antes de voltar a Braga comprei no forno comunitário da aldeia uma broa de centeio acabada de cozer. A padaria da aldeia, que distribui até Braga e por Espanha, coze lá todos os dias.
O objectivo da caminhada não tinha sido cumprido mas poucas caminhadas me deram tanto prazer. Tinha as botas encharcadas, mas nada disso importava pois tinha experimentado uma sensação de liberdade única. Citando um transmontano a quem uma companheira de caminhadas chama poeta padroeiro do UPB: “Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali conquistam-se nas barbas de Deus.” – Miguel Torga; Diário VI, 10 de Agosto de 1952.
ver fotos da caminhada
Monday, September 18, 2006
O Minho e outras histórias

Este fim-de-semana reencontrei-me com amigos numa descida de rafting no do Rio Minho. Ainda que tenha uma auréola radical esta descida é essencialmente um momento de lazer. Foi a terceira vez que desci, ainda que desta vez num percurso ligeiramente diferente dos anteriores devido ao baixo caudal do rio. Por uma estranha coincidência fiz sempre a descida com o mesmo monitor. Um antigo marinheiro brincalhão e muito sabedor nos relacionamentos. No meu raft desceram 3 participantes que não conhecia mas antes de entrarmos na água já funcionávamos como equipa.
Na descida, entre dois rápidos, aproveitava para nos dar informações sobre o Rio Minho. É impressionante verificar como o homem interagiu com a natureza durante séculos mantendo os ecossistemas em equilíbrio. As margens do Rio Minho são testemunhas privilegiadas dessa relação. Perde-se a conta às pesqueiras existentes nas suas margens para a pesca da lampreia, sável e salmão. Não sei quantas delas são ainda usadas mas aprendi que essas construções são prédios rústicos, com donos conhecidos que delas pagam taxas e outros impostos. Eu que sempre julguei serem património colectivo.
O dia tinha começado com chuvas fortes mas quando o sol abriu transformou-se numa manhã magnífica. Só que na margem espanhola as águas dessa chuva testemunhavam o drama dos incêndios de Verão. Com elas arrastavam para o rio cinzas que sujavam a margem direita e, por incrível que pareça, conseguimos, num momento, sentir o cheiro a queimado. Já terá sido pior disse-nos o monitor, mas confesso que foi uma surpresa ter ali mais um testemunho dos incêndios florestais.
O momento mais radical da descida foi um salto para a água de uma altura de 7 a 8 metros. Mais uma vez não resisti ao desafio inicial. Lá em cima, depois de olhar o abismo, hesitei. Só que depois de subir ao penedo não havia outro remédio que não fosse precipitar-me para o Minho. Um segundo de angústia, um outro de inconsciência, seguido pela percepção de, já no ar, alguém gritar - Agora fecha. E eu acho que fechei os braços. Apenas um pouco antes das águas me receberem e de o colete me ter devolvido à superfície. Este salto é bem maior, e mais assustador, que o do percurso a montante. Sou Minhoto, e o salto é mais que um salto para um rio, é um salto para o Minho. É também esse lado simbólico que me faz aceitar sempre o desafio e vencer o medo.
O dia foi também pretexto para recordar velhas histórias. Pequenas patifarias inocentes que correram bem. É engraçado o monte de recordações que acumulámos e como nos admirámos quando contámos os anos que já se passaram. A propósito dos ritmos do tempo um dos meus amigos disse-me algo espantoso – Nada nos esclarece melhor da passagem do tempo como assistir ao primeiro ano de um filho. O ritmo das mudanças é tão grande que nos chama atenção para as nossas e da nossa errada percepção que estamos na mesma.
Sunday, September 10, 2006
Caminho de Santiago

Ontem fez 4 anos que completei o Caminho Português de Santiago. Parti de Braga e demorei 7 dias até Santiago em etapas de diferentes distâncias.
Do grupo que começámos a formar partimos três e concluímos dois. As nossas motivações foram essencialmente de lazer e culturais, mas caminhar, dias seguidos, em direcção a algo transforma-se sempre uma experiência também espiritual. Mais tarde ofereceram-me o livro do Paulo Coelho sobre o Caminho de Santiago, não gostei. Nunca mais pretendo ler nada dele, é muita fantasia, um misticismo de que não partilho nem consigo perceber.
Concluir, chegar a Santiago de Compostela, foi uma enorme sensação de superação. Retirei alguns ensinamentos mas ninguém se transforma no caminho. Quanto muito pode conhecer-se melhor durante caminho. Chegar mais dentro de si. Admito que cada um viva a experiência de formas diferentes. Há diferentes pontos de chegada e diferentes pontos de partida. Entre eles, existem muitos caminhos possíveis.
Thursday, September 07, 2006
Bancada lateral

Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar
Quando tu me vires no music-hall
estarei no palco
cabeça do sol
ao sol da noite das luzes
à espera dum outro sol
e que os teus olhos os uses
como quem usa um farol
não me olhes só dessa frisa lateral
desce pela cortina e acompanha-me em cena
vamos dar à perna como gente que se ama
e até não se poder maisvamos bailar
Quando tu me vires na televisão
estarei no écran
pés assentes no chão
a fazer publicidade
mas desta vez da verdade
mas desta vez da alegriad
e duas mãos agarradas
mão a mão no dia a dia
não me olhes só desse maple estofado
desce pela antena e vem comigo ao programa
vem falar à gente como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos cantar
E quandoà minha casa fores dar
vem devagar
e apaga-me a luz
que a luz destrouta ribalta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta.
Sérgio Godinho - Espectáculo
O futebol é uma coisa engraçada. Num momento em que os jornais relatam o lado mais negro, um dos rostos de uma geração aceita dar a cara enquanto adepto. Acho que não faz falta perguntar "que força é essa, amigo".
É uma pena que esta força esteja prisioneira de tantos interesses. Para já fico na bancada lateral, esperando o remate que nos liberte desta sede.
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