Monday, November 20, 2006

Minas a Minas




Há desafios a que é difícil responder não. A última caminhada foi um desses desafios. A persistência de uma tosse incomodativa aconselhava-me a um fim-de-semana de repouso mas o convite era tentador. A caminhada em si já era um bom desafio e fazia muito tempo que queria conhecer aquelas zonas. Por diversas vezes tinha estudado a carta 31 imaginando os trilhos a fazer.

Para aproveitar as horas de luz combinámos que às 7h00 já estaríamos na Portela do Homem. Parte de nós optou por ir dormir ao Parque de Campismo da Cerdeira. O frio e a chuva não aconselhavam o campismo mas o parque possui 4 alojamentos colectivos, num total de 24 camas, muito bons e úteis para estas actividades. Os restantes madrugaram e à hora marcada não faltava ninguém. O antigo edifício da fronteira está ser transformado em museu, seria engraçado voltar a ter uma café/bar naquela zona para apoio dos finais das caminhadas.

Umas centenas de metros depois dos carros iniciámos a caminhada com a subida da encosta do Vale da Sabrosa. Já tinha escutado e muito sobre ela, como é dura e difícil, agora fiquei a conhecer. Percebo porque me disseram uma vez no Gerês - Prados da Messe? Não conheço, tem-se que subir muito. E fazer a subida debaixo de chuva forte e nevoeiro não ajudou nada. Em pouco tempo as botas deram de si, os trilhos pareciam ribeiros e era impossível manter os pés secos. No final da subida estava verdadeiramente cansado. Continuámos a subir e perto dos Prados da Messe encontrámos as mariolas do trilho que procurávamos. O Gerês é uma enorme rede de trilhos marcados por pastores ao longo de gerações, com um bocado de experiência e conhecimento do terreno é quase impossível ficar perdido durante muito tempo. Claro que o nevoeiro não ajudava e por vezes a dúvida instalava-se.

Num local que identifiquei na carta como perto da Torrinheira, com a Fichinhas, a Rocalva e Sombrosa em frente o dia abriu mostrando uma paisagem magnífica. É por paisagens como aquelas que me considero um privilegiado por fazer estas caminhadas, é a justa recompensa por sair das estradas. Quem acha que o Gerês é bonito sem o conhecer assim não teria palavras para elogiar. Aquela é a montanha de que eu gosto. "Um nunca mais acabar de espinhanços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto dum postigo, acolhedor e fraterno", como Miguel Torga descreveu as paisagens serranas da Peneda a Pitões.

Com um ligeiro atraso no horário previsto, marcámos almoçar nas minas do Borrageiro. O caminho até lá foi fácil, todo marcado pelas sempre presentes mariolas, Corgo do Arrocela, Corgo das Mestras (li depois na carta) e rapidamente chegámos às ruínas das minas. Meia dúzia de restos de casas pequenas, toscas e pobres. Testemunhos de uma vida difícil. Após um almoço rápido, porque se arrefecia muito rapidamente, voltamos a caminhar. Um pouco à frente encontrámos o trilho que desce da ponte das Abrótegas atravessando os Cocões do Coucelinho em direcção às Lagoas do Marinho.

Este terreno já o conhecia, tinha-o feito com os Monte Acima e com a Jana e com a Fungo, duas companheiras do UPB desaparecidas das últimas caminhadas, em sentido inverso, descendo para Xertelo, num dia tórrido de Junho. Na subida o grupo dividiu-se em dois, uns continuariam em direcção às Minas da Sombra (Espanha) e outros desceriam o estradão dos Carris. Como queria conhecer a ligação para as Minas da Sombra segui no primeiro grupo.

Na Ponte das Abrótegas, com os dados de GPS do Rato do Campo e Lobo Mau seguimos em frente, ao estudar as cartas já tinha ficado com a sensação que o melhor caminho seria ir a "direito" para norte. O trilho escolhido confirmou essa leitura. A ligação foi fácil, menos de uma hora, e depois de um reforço alimentar rápido descemos até ao estradão que liga à fronteira. Quem já fez o sabe como é longo e desmoralizante. Em cada curva vislumbramos o caminho a fazer que parece nunca mais acabar. Chegámos à estrada apenas um pouco antes da luz do dia se extinguir. Depois foram uns penosos minutos de asfalto até à fronteira.

No Parque da Cerdeira com os restantes elementos retemperámos as forças. De acordo com o GPS do Lobo Mau - obrigado pelo mapa- tinha sido uma caminhada de 32 km com um desnível acumulado de 1400 metros e corpo queixava-se disso.

Monday, November 13, 2006

Brandas da Gavieira


No último fim-de-semana realizei com o UPB uma caminhada pelas brandas da freguesia da Gavieira (Arcos de Valdevez) que me permitiu juntar vários dos atractivos do pedestrianismo. Caminhar por antigos caminhos rurais e de montanha e conhecer um pouco melhor um Portugal esquecido. Visitámos várias brandas e um magnífico Fojo de Lobo. Numa encosta próxima era ainda possível deslumbrar o desenho de um outro, estive tentado a visitá-lo mas a noção da necessária disciplina horária foi mais forte que a curiosidade. Os fojos de lobo não me deixam de surpreender, o esforço colectivo necessário para a sua construção e manutenção marcam bem dura relação que o homem tinha com este predador.

Iniciámos a caminhada em Roucas, com uma subida acentuada até à branda de Gorbelas. Esta parte inicial da caminhada está marcada pela Adere-PG como Trilho das Brandas, um percurso de ir e voltar de 8 km e com uma ascensão de 600 metros. Eis a descrição do trilho:

“Este trilho realiza-se em plena Serra da Peneda e leva-nos a conhecer o modo de vida das populações pastoris da montanha. Partindo do lugar de Roucas, freguesia da Gavieira, tomando um caminho ladejado que ascende pelo lugar da aldeia. Seguindo as marcações de cor amarela e vermelha, vamos deixando a aldeia para trás a povoação e penetrando a montanha, subindo passo a passo, gradualmente e vencendo os desníveis.

Por este carreiro passavam os carros de bois de raça barrosã que ligavam o lugar de Roucas à Branda de Gorbelas. Após alcançarmos o estradão de terra viramos à esquerda e continuando a subir, para alcançarmos a Branda de Gorbelas, rodeada por campos de centeio fechados por belos muros de pedra solta. Desde aqui seguimos por um caminho de lajes que se abre entre a penedia, vencendo fortes declives e que nos conduzirá ao Poulo da Seida.

Trata-se de uma velha branda de gado, esquecida no tempo e na memória, a qual permitia uma pernoita mais segura aos pastores e aos rebanhos, de modo a protege-los do frio da noite e da ameaça do lobo. Daqui seguimos para o fojo do lobo, localizado entre o Alto da Pedrada (o ponto mais alto da Serra Peneda) e Lamas do Vez (o local onde nasce o Rio Vez).”


No Poulo da Seida, onde almoçámos, o grupo separou-se em grupos menores. Eu segui até à Corga do Enforcado/Lamas do Vez e acompanhei depois, a meia encosta, o muro do fogo. Junto ao fojo encontrámos um grupo de Roucas em pleno trabalho comunitário(melhorias numa fonte de água que abastece a Branda de Gorbelas). Trocámos algumas palavras sobre o fojo e sobre os lobos. Nos últimos dias teriam morto dois animais na zona. Alí perto, uma carcaça comprovava uma das mortes. Dissera-nos que no incêndio de Agosto teriam morrido alguns lobos na Mata do Ramiscal, mas acredito que tenham abandonado o vale antes do fogo o alcançar.

Após o almoço descemos a Gorbelas onde abandonámos o trilho em direcção à branda da Junqueira. Esta parte já não pertencia ao trilho da Adere-PG e tinha algumas zonas fechadas pela vegetação. Em Junqueira encontrámos um pastor com um bezerro com uns 3 dias, tinha nascido no monte sem a sua assistência pois julgava tardar mais alguns dias para o parto. Junqueira, como a anterior, é uma branda de cultivo e pasto com uma bonita envolvente, mas sem a beleza dos campos em solcalco de Gorbelas.

Seguimos para a Branda da Busgalinhas onde a nossa caminhada voltou a coincidir com um trilho da Adere-PG, o “Pertinho do Céu”. Busgalinhas, mais uma branda de cultivo e pasto, de todas é a que tem um casario mais bonito. Na Branda de S. Bento do Cando, famosa pela romaria, abandonámos o trilho da Adere e descemos até Gavieira, e dai até Roucas, por antigos caminhos rurais. O grupo estava cansado, uma das colegas apresentava dores num joelho, as sombras avançava rapidamente e a tarde arrefecia.

Em Roucas estivemos a falar um pouco uma senhora que nos disse ir todos os dias até à branda onde estão os seus animais. Faça sol, chuva ou neve, são quase 8 quilómetros diários. Na Peneda, a proximidade das brandas da Peneda com os lugares fazia com que, normalmente, não fossem habitadas. O fenómeno de transumância característico de Castro Laboreiro não se repetiu aqui. Explicou-nos que tinha algum desgosto de não ser um pouco mais forte mas a sua constituição seca era sinal de uma resistência impressionante. Mais um sinal da diferença entre o urbano e o rural, ali a “gordura ainda é formosura” ser “cheiinha” é ainda um ideal de beleza. As novas gerações já não serão assim.

Nota: na madrugada de Domingo um dos colegas da caminhada teve um problema de saúde complicado. No UPB todos esperámos que se recupere depressa.

Tuesday, November 07, 2006

Um bom exemplo

Encontrei recentemente um site de um grupo de pedestrianismo que é um exemplo de um verdadeiro serviço prestado à comunidade. Muitas vezes falámos de serviço público sem conseguir perceber de que falámos. Este site é um verdadeiro serviço público e nota-se uma verdadeira preocupação em dar o máximo de informação.

O site chama-se Naturezas (http://naturezas.com/index.htm) e está repleto de informação útil como: mapas, fotos e pontos de GPS. Como os próprios afirmam o site " pretende ser o sítio onde poderemos dar a conhecer novos trilhos e dar opinião sobre os que conhecemos. Tornando assim mais fácil a chegada de novos caminheiros."

Pela minha parte agradeço e recomendo uma visista.

Monday, October 30, 2006

As mariolas também enganam


Voltei recentemente a caminhar por uma das zonas mais bonitas do Gerês. É uma região bela e dura, cheia de testemunhos dos antigos pastores daqueles montes. A minha admiração pelos homens que retiravam o sustento naqueles montes não para de crescer. Imagino a vida dura e despojada que tiveram, eu sei que não a aguentaria. Ao passar por umas ruínas de um antigo abrigo comentei isso com os companheiros de trilho. Vida de solidão - alguém disse. Concordei e contei-lhes a proposta que um pastor fizera a uma caminheira do UPB dez minutos após a conhecer: casamento e um dote de largos milhares de contos. Não havia tempo a perder porque no monte não há muitas oportunidades.

Experimentei a navegação por carta e bússola e resultou. Tirei o azimute pretendido e fui confirmando o trilho marcado pelas mariolas até ao Borrageiro. Decidimos depois tentar a descida por uma garganta que nos parecia complicada. O terreno e a carta não indiciavam que fosse uma boa opção, mas a existência de umas mariolas foi o suficiente para ultrapassar os receio iniciais e descer por lá. Puro erro, era um terreno complicado, perigoso e fechado por mato como a carta indicava. Um esforço e risco desnecessários. Como com os erros também aprendemos não foi tempo perdido.

Tuesday, October 24, 2006

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

A gente vai continuar - letra e música de Jorge Palma

Monday, October 23, 2006

Estado bruto


Há muito tempo que não fazia uma destas. O corpo já não aguenta e as coisas agora tem outro sabor. Um sabor a decadência com música de Jorge Palma como banda sonora.
Aproveitei o propósito de encontrar "velhos" amigos para revisitar locais do passado. Na sede/bar dos "Passarinhos da Ribeira" tive um visão da realidade dois andares abaixo do "Portugal profundo". Um encontro com os sintomas da decadência que os cartazes turísticos procuram esconder. Comentei para o lado que aquilo seria o Porto e os "tripeiros" em estado puro. "Estado bruto" - corrigiram-me.
Uma pequena amostra do lado errado da noite, "Kilas" e aprendizes de outros ofícios. Prova que as cidades não se renovam por decreto. A decadência dos centros históricos das cidades é, antes de mais, social. Não adianta tratar das fachadas, fazer bonitos cartazes paras os turistas visitarem, sem resolver a questão das populações que os habitam. O Porto "Património Mundial" é como um espelho esquizofrénico onde a cidade apenas se contempla às vezes. Um local onde há sempre alguém pronto a "endrominar" os incautos. Um local onde se deve manter os sentidos em alerta. Um local para chegar de táxi e sair de táxi.

Wednesday, October 18, 2006

Investigações

Descobri algumas fontes bibliográficas sobre o Gerês que espero conseguir na Biblioteca Pública de Braga. São na sua maioria artigos de revistas e livros raros, publicações anteriores a 1950 com edições pequenas e impossíveis de encontrar. Um desses livros é uma publicação de um relato muito antigo sobre uma viagem de exploração ao Gerês a mando de D. Gaspar de Bragança, Arcebispo de Braga. Espero encontrar neles algumas indicações para futuras caminhadas.

Monday, October 16, 2006

Workshop de Orientação


Durante o último fim-de-semana fiz uma pequena formação em Orientação. São conhecimentos que espero me venham a ser úteis nas minhas caminhadas. A cartografia é uma coisa apaixonante, permite-me fazer um reconhecimento do terreno previamente e já me foi útil algumas vezes. Ganhei o hábito de consultar o site do IGEOE antes de realizar seja o que for. Ter uma ideia do terreno, por menor que seja, é sempre melhor que o total desconhecimento.

Ainda que ofenda os mais puristas fiquei deslumbrado com o GPS. No exercício prático tentei sempre fazer a utilização da carta e bússola, só que o GPS, quando funcionava era muito mais prático.

No grupo da formação reencontrei um caminheiro que conheci junto à Rocalva (PBPG) numa caminhada do UPB, estive a falar um pouco com ele. É impressionante a “pedalada” que tem. Faz travessias enormes dentro do PNPG, conhece tudo e não tem medo de ir sozinho.

No final do exercício fomos comer um bacalhau ao Xico da Torre (Fiscal- Amares). O tasco está cada vez mais tasco mas o bacalhau sabe sempre bem. Deu-nos a provar um vinho “americano”. Não sei se é por falta de hábito mas pareceu-me muito mau. O Verde tinto também não era famoso e acabei numa cervejinha. Posted by Picasa

Monday, October 09, 2006

A Porta de Campo de Gerês


Passados dois anos da abertura da primeira porta a CM Terras de Bouro abriu a segunda das 5 inicialmente previstas. Tive a intenção de a visitar este fim de semana mas, como se encontra em instalação, preferi aguardar algum tempo para a puder visitar como deve ser. A minha experiência na Porta de Lamas de Mouro foi muito positiva e as comparações podiam ser injustas. É "normal" que existam alguns problemas no início dos projectos. Em Lamas de Mouro as coisas também terão começado menos bem. É a necessária aprendizagem.

No projecto das portas do PNPG há uma fragilidade evidente que resulta do afastamento do PNPG destas estruturas. Se a ideia é orientar os visitantes na entrada no parque nacional, se a ideia é acabar com a "anarquia" actual, não faz sentido que o PNPG não esteja presente. Só que os investimentos e os salários são suportados pelos municípios e por isso percebo que os queiram gerir. Não culpo as câmaras municipais culpo o estado que não dá condições ao único parque nacional. Espero é que haja bom senso para que pelo menos na formação dos recursos humanos seja assumida pelo PNPG. Essa, é para já a falha mais evidente desta nova porta.

Ao lado as obras para o museu da Geira estão avançadas. Um amigo tem sobre isto uma posição muito particular - "As pessoas que se deslocam para o Gerês não querem visitar museus, querem visitar a paisagem". Poderá ter razão, ainda que entenda que um verdadeiro museu faz sentido. Não percebo é o local escolhido. Espero é que não retirem o património do seu lugar para o esconder em salas.

Só que mais do que tudo isto preocupa-me a pressão turística que vejo crescer na zona do Campo do Gerês. Nos últimos anos vi multiplicaram-se na zona empresas de aventura com uma ética ambiental muito discutível. Não sou fundamentalista em questões ambientais, acredito que se deve garantir às populações o conforto de que necessitam. E aqui inclui-se a necessidade de prosperar. Quando visito alguma coisa ao fim de semana procuro não esquecer que ela existe também à semana. Só não percebo é porque se permite concentrar tanta coisa numa zona tão perto de zonas importantes e sensíveis como a mata da Albergaria. Essa é mais uma razão para que o Parque tivesse tido uma intervenção superior na instalação das portas. Não duvido que quisesse, não reuniu foi as condições. Quando as coisas correrem mal, se correrem, virá disciplinador e tarde. É assim, somos educados com excessos de disciplina e pouca pedagogia. Depois somos este modelo de cidadania.

Monday, September 25, 2006

Pelas Terras do Barroso com o UPB


As Terras do Barroso são um território do maravilhoso, Éden transmontano como lhe chamava uma revista de viagens. – “Isolada pelas montanhas, barricada atrás de lagos sucessivos, abandonada pelas vias rápidas, envolta em nevoeiro, chuva e neve. A região do Barroso é um território de florestas misteriosas, onde os uivos do lobo não são um mito; de bruxas e feiticeiros que se juntam em encruzilhadas e estranhas. Não é terra para homens, mas também lá existem.”

Em Vilar de Perdizes o Padre Fontes terá pretendido dar relevo a este património cultural mas nos últimos tempos, por força de uma errada mediatização, perdeu terreno para os charlatães das tv´s e revistas. Abastardamento de que é exemplo o inqualificável Bruxo Alexandrino, presente na última edição do congresso de medicina popular como proto-candidato presidencial. É pena que assim seja. Apesar de descrer de misticismos, respeito os conhecimentos da "alquimia" popular e Vilar Perdizes podia ter um papel importante no estudo e divulgação desses conhecimentos, um diálogo entre o saber popular e o desenvolvimento da ciência

Pitões das Júnias não fica muito afastada do litoral, são uns escassos 90 km de Braga e 145 km do Porto. Só que, como toda a região transmontana, foi a uma região esquecida e isolada. Aldeia da raia seca, a fronteira unia-a mais do que separava da Galiza, por sua vez também abandonada por Espanha. Até às extinções das ordens religiosas em Espanha era o Mosteiro de Osseira (Espanha) que se responsabilizava pela paróquia. Hoje ainda é possível identificar muitos sinais desta relação, ainda que envenenada por episódios durante a Restauração. Encontrar, no centro de Pitões um bar/café chamado "Taverna Celta" é um testemunho claro desse relacionamento. É também um sinal da cultura de "druidas" que Vilar de Perdizes talvez tivesse podido festejar antes de derivar para a cultura de "doidos e doidas" mais interessados em tarot e amuletos.

Ao procurar informação da capela de S.João da Fraga, encontrei no "Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal uma pequena preciosidade sobre Pitões das Júnias: "Os costumes dos habitantes são geralmente bons, mas visinhos dos hespanhoes, aprenderam com elles a rogar medonhas pragas, contra os filhos, contra os animaes, e contra tudo que incommoda; são muito inclinados à gulla, no comer e no beber, seguindo-se por consequência necessária, a sensualidade desenfreada, que ali se nota em grande escala. Em razão d’esta freguezia ser curada por padres espanhoes, que pouco cuidavam dos deveres próprios do seu elevado ministério, viviam os fieis d’esta freguezia n’uma crassa ignorância da doutrina christan, e do cumprimento dos preceitos da nossa Santa Egreja ...". Fantástico, como nada mais se pudesse dizer, culpa-se os vizinhos das consequências do abandono. Fiquei é a perceber melhor a t´shirt de um colega de Montalegre dos tempos da universidade, que apunha, na simplicidade de umas letras garrafais, o orgulho da condição de "Touro Barrosão". Resquícios de uma "inclinação para a gula" é o que era.

Da Capela de S. João da Fraga não encontrei muita informação, mas acredito que alguém com mais conhecimentos poderia relacionar a sua existência no local onde se encontra, assim como estar dedicada a S. João Baptista, com cultos mais antigos do sol e do fogo celebrados pelo solstício de Verão. Mais um sinal de um certo "paganismo" tornado oficializado.

Também não encontrei muita informação de uma povoação antiga junto a Pitões das Júnias, Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez . que não tive tempo para a visitar. Fica para outra oportunidade. Quem sabe se para uma fria tarde de Inverno depois de comer um cozido na Casa do Preto. Pitões têm ainda as ruínas de um Mosteiro que vale a pena visitar. Originalmente Beneditino, mais tarde da Ordem de Cister, remonta ao século XII. Foi lá que, num dia calor,avistei um sardão com um porte e cores fantásticas que nunca esquecerei e só tenho pena de não ter fotografado.

A ideia da caminhada era explorar a ligação de Pitões às Minas de Carris pelos prados e corgos junto à capela. Tínhamos vários relatos de caminhadas idênticas mas desconhecíamos em absoluto o terreno. Era a aventura por completo. A zona é magnífica e transmite uma sensação única de liberdade e pureza. Em poucos lugares de Portugal haverá montanha tão pura.

As previsões meteorológicas eram muito desfavoráveis, ameaçando chuva forte e trovoada. E esta última assustava. Caminhar e trovoadas não ligam. Só que o dia não cumpriu totalmente as previsões.

O local de encontro foi o café do costume em Braga, de onde partimos em direcção a Pitões. A estrada aconselhava algumas cautelas na condução e retardou a hora de início da caminhada. Acordámos avançar até às 14h00 e nessa altura iniciar o regresso Pitões. Era importante garantir luz para regressar.

Começámos a caminhar em direcção à capela de S. João e logo um cão se juntou a nós. Aparentava ser novo, brincalhão e muito curioso, um companheiro inesperado e divertido. Nos cursos de água que atravessámos entretinha-se com um estranha brincadeira, quase como se estivesse a pescar, abocanhando a água.

Sinto um prazer que não sei explicar em caminhar à chuva, prazer que descobri partilhar com mais gente que gosta de caminhar. Há certas paisagens que só se revelam em toda a sua força e beleza quando as águas rebentam. Linhas de água e cascatas que nos mostram uma natureza fora do período de adormecimento estival. Os dias quentes são bons para uma banhoca numa lagoa, não são os melhores para caminhar. Exigem de nós um esforço suplementar que não compensa.

Caminhámos por entre mato, subimos, descemos e poucas vezes encontrámos trilhos abertos. À hora acordada não estávamos longe do Pico da Nevosa e dos Carris mas havia ainda o caminho de regresso para fazer.

Regressamos por um caminho diferente, mais curto e mais fácil. A navegação estava facilitada porque, para além do conhecimento do terreno adquirido, a capela de S. João da Fraga era um óptimo ponto de orientação. A capela é uma pequena construção rústica caiada de branco no cimo de uma fraga imponente. Acede-se a ela por uns degraus talhados na rocha que depois desci a medo devido à chuva. Lá em cima a vista é avassaladora.

No final da caminhada retemperámos forças na Casa do Preto. Sopa, presunto e um tinto transmontano sem pedigree mas de bom paladar. Antes de voltar a Braga comprei no forno comunitário da aldeia uma broa de centeio acabada de cozer. A padaria da aldeia, que distribui até Braga e por Espanha, coze lá todos os dias.

O objectivo da caminhada não tinha sido cumprido mas poucas caminhadas me deram tanto prazer. Tinha as botas encharcadas, mas nada disso importava pois tinha experimentado uma sensação de liberdade única. Citando um transmontano a quem uma companheira de caminhadas chama poeta padroeiro do UPB: “Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali conquistam-se nas barbas de Deus.” – Miguel Torga; Diário VI, 10 de Agosto de 1952.

ver fotos da caminhada