Friday, December 29, 2006

A esposa do Delfim

A propósito da esposa do Delfim (ver post anterior). Em 8 de Agosto de 1950, numa das suas estadias no Gerês, Miguel Torga regista uma cantiga que escutou a uma Minhota: “Da minha saia amarela / Fiz as calças do meu home / Com a alegria das calças / Há três dias que não come…” E comenta: “O matriarcado minhoto provado de A mais B. Em Trás-os-Montes, se uma mulher se atrevesse a cantar uma destas, caía redonda no chão, esfaqueada.”

Tuesday, December 26, 2006

Natal UPB

Fui, com o UPB, comer Bolo-rei ao Alto da Pedrada, o ponto mais alto do Alto Minho. O que é uma boa sucessão de altos para descrever a caminhada. O Alto da Pedrada (1416 metros), na Serra da Peneda, a quem outros preferem chamar Serra do Soajo, é um dos pontos mais elevados do PNPG. É um pico despido de vegetação, de fácil acesso, a que qualquer praticante de pedestrianismo acede sem muitas dificuldades. A vista que se observa do topo é, em “upbês” soberba e vale o esforço da subida. Lamentavelmente, em Agosto passado, a zona sofreu um fogo florestal e em certas zonas já não é tão agradável caminhar. A caminhada tinha ainda dois atractivos suplementares: celebrar condignamente o Natal com Bolo-rei e Porto num dos locais mais altos do PNPG e ser a 100ª caminhada do UPB.

A manhã estava fria, como testemunhava o gelo na estrada, que ainda me convidou a uma dança atrevida, e fui dos últimos a chegar à Travanca. Comecei a subida com um grupo mais pequeno e só encontrei os restantes mais tarde. A subida ao Alto da Pedrada foi a primeira caminhada que fiz com o UPB, e já a tinha repetido. Recordo-me da beleza do antigo caminho, em laje, que inicialmente ligaria a branda da Travanca às restantes brandas a cotas superiores. Uma subida realizada, numa primeira fase, na sombra protectora de uma mata muito bonita e depois em prado aberto. Digo recordo-me porque parte dela já não existe. O fogo de Agosto consumiu parte da mata protectora. Nos pontos de paragem, procurava nas minhas memórias as imagens de antes, mas não era fácil imaginá-las.

Com todo o grupo reunidos, que encontrámos no prado no sopé do Guidão, continuámos a subida. Ultrapassada a maior dificuldade da caminhada, uma curta mas intensa elevação, o grupo dirigiu-se ao ritmo das conversas para o destino final. O dia era de grande descontracção e dava tempo para tudo. No Alto da Pedrada, entre as fotos da praxe, o Bolo-rei e o Porto, ficámos um pouco a identificar os pontos no horizonte e a marcar os próximos destinos. Almoçámos no “Vale Encantado”, assim baptizado pelo Sherpa, uma antiga branda junto ao Guidão que suponho chamar-se Branda da Cova. Ficámos imenso tempo na conversa aproveitando o sol que se fazia sentir e no final o Águia-Real surpreendeu-nos com café.

Na descida aproveitei o facto de o fogo ter descoberto os cortiços da Branda Currais Velhos para a visitar mais demoradamente. Entrei num dos cortiços. É um dos maiores que conheço e possui uma porta de grandes dimensões. Já tinha reparado nele nas anteriores caminhadas mas agora está muito mais visível. No conjunto há muitos mais cortiços do que julgava. Esta branda é uma boa testemunha das mudanças que o plano de florestação introduziu nas populações de montanha. Os prados da zona deveriam ser baldios que foram depois florestados. Os efeitos nas populações devem ter sido enormes e as gerações mais velhas ainda devem ter disso ecos. Um amigo disse-me uma vez que essa era uma das causas ocultas dos fogos florestais. Eu não acredito. Parece-me demasiado desculpabilizante - "as populações não gostam da floresta". E o resto?

Já nos carros decidimos que procurar uma “sopa”. Recordei-me de uma das minhas experiências mais engraçadas nos Arcos de Valdevez quando vim com uns amigos da universidade “contratar” o Delfim, célebre cantador ao desafio. Sendo o mais novo do grupo praxaram-me com umas malgas de verde e “iscas” que me alegraram a viagem até Braga. Ofereci-me como guia e com algumas indicações não foi complicado encontrar a tasca do Delfim. Infelizmente não estava, mas a esposa serviu de amostra. O local é um verdadeiro laboratório social do Minho. Vale a pena visitar.


fotos da caminhada

Thursday, December 14, 2006

O Senhor Cruz

Recentemente decidi procurar as velhas edições do Editora Coimbra do Miguel Torga. Gostava de conseguir ficar com as obras completas mas descobri que será muito complicado. Essas edições foram enviados para as feiras e agora apenas se encontram as edições da D. Quixote. Eu prefiro as outras. As de papel rude com os cadernos por cortar. Prefiro o prazer de os abrir com uma faca antes de os ler. Os livros assim parecem-me tesouros guardados. Percorri diversas livrarias na esperança que ainda os tivessem esquecidos em prateleiras. Fiquei com colecções incompletas que agora vou tentar completar em alfarrabistas. Só que lá só encontrarei livros abertos. Letras que outros já leram.

Numa das minhas buscas fui à Livraria Bertrand, que no centro de Braga ocupa agora as instalações da Livraria Cruz. Lá não consegui nenhum livro mas deram-me uma indicação. Nos andares superiores ainda existe o espólio da antiga livraria e é possível comprar livros. Basta tocar que o Sr. Cruz está normalmente lá para atender. Foi o que fiz no dia seguinte.

O Sr. Cruz é uma das figuras do Sec. XX em Braga. Tipografo, editor e livreiro é uma pessoa que vive entre livros. Acompanhou-me por diversas salas carregadas de estantes com livros, apesar da idade sabe onde estão sem a ajuda de computadores. É um símbolo de uma época que passou mas que deixa alguma nostalgia.

Na despedida a propósito das mudanças do tempos atirou-me com isto - "Na minha aldeia hoje não há uma vaca". Há neste desabafo um grito contra um tempo que gostava de contrariar. Lendo os planos para as novas superfícies a instalar em Braga percebo-o melhor. Há qualquer coisa de estranho que um país do sul tenha mais centros comerciais que os países do norte da Europa. Quem sabe se no futuro não haja quem diga - "No centro não há comércio".

Sunday, December 10, 2006

Fafião-Lagoas do Marinho

As botas ainda estavam húmidas quando as meti no carro. A caminhada do dia anterior ainda estava muito fresca mas a proposta do Medronho era demasiado atractiva para recusar. A encosta da Serra do Gerês virada para Montalegre é uma zona mais abrupta, mais despida de vegetação mas de uma beleza que começo agora a descobrir. Era uma oportunidade que não queria perder. Aparentemente as pernas também se recusavam a ceder e quase não sentia os efeitos da caminhada do dia anterior.

Encontramo-nos ao pequeno-almoço e aproveitei para me abastecer. Duas sandes, dois sumos, e os chocolates que trazia na mochila, comida a menos mas não queria ir muito carregado. Nas Cerdeirinhas encontrámos a Nogueira e uma amiga e seguimos para Fafião.

No total éramos 10. O nosso guia seria o Águia-Real - Os Manos, o Urso Solitário, que conheci com o UPB na primeira vez que fui à Rocalva, onde também estava a almoçar no meio de uma caminhada solitária, a "caloira" Bouça, uma amiga da Nogueira, e os restantes UPB's (Medronho, Passo Largo, Milhafre, Capreolus, Cebolinho, Nogueira e eu).

Começamos a caminhar pelas 10h00, algo tarde para extensão do percurso porque agora os dias são curtos. A parte inicial do caminho foi relativamente fácil, mas cumprida a um bom ritmo. O dia estava muito bom e permitia ver ao longe, na Serra da Cabreira e Pitões, como as zonas mais altas estavam cobertas por um manto branco. Provavelmente encontraríamos neve nas zonas mais elevadas da caminhada. A zona é muito bonita para explorar, mesmo a cotas menos altas há paisagens soberbas. Como a conheço mal tive alguma dificuldade em navegar depois pelas cartas e identificar os locais. É por esta razão que gostava de ter um GPS, para poder registar os percursos para memória futura. No monte normalmente é mais fácil seguir outras indicações. Mas quando tentei depois refazer o trilho do Águia-Real no IGeoE-SIG fiquei com algumas dúvidas. Percebi que subimos até às lagoas por uns vales a sul/suldeste de um pico identificado na carta como Fojo de Alcântara, mas fico com "brancas" em partes do caminho.

Conforme íamos subindo, e vislumbrando o caminho a fazer, ficou claro que a neve esperava por nós. Um pouco antes de chegarmos às Lagoas do Marinho já enterravamos os pés e ela continuava a cair. Em certas momentos foi até um bom desafio e tivemos que ter alguns cuidados.

Almoçamos num abrigo junto às lagoas e recomeçamos a caminhar. O trilho seguia por um estradão escondido debaixo do manto de neve. Tínhamos a consciência que já era tarde e começamos a apertar o passo. Nevava e a progressão nem sempre era fácil. A uma cota mais baixa, passado o nevão, o manto de neve permitia ver as pegadas de um pequeno animal, possivelmente uma raposa. Seguimos em estradão por um vale muito bonito - o Corgo da Mão de Cavalo - até à Albufeira do Porto da Laje . Nas margens, as marcas recentes testemunham a força das chuvas de Novembro. O vale é uma enorme rede de linhas de água, dos adjacentes vales profundos e ravinosos, que alimentam o Rio Fafião e em dias de chuvas fortes devem recolher um enorme caudal.

A partir da Albufeira o trilho passou a pé posto. Um trilho de dificuldade elevada mas de enorme beleza. Num certo obstáculo senti mesmo algum receio. Abandonámos o trilho pouco tempo antes de anoitecer e fizémos parte do estradão final já sem luz. Chegámos ao café, onde nos esperavam às17h00, pelas 18h30. Um pouco mais e teriam comunicado às autoridades que estávamos a demorar. No total devemos ter feito uns 23 Kms, num misto de estradão e trilhos de pé posto. Uma caminhada de elevada dificuldade mas que me deu um enorme prazer. Uma das melhores que realizei.

O Águia-real tinha encomendado uma sopa que comemos na mesma sala onde jantavam os donos do café. O dono do café quis saber por onde andámos e fez comentários sobre outros trilhos. Contou-nos algumas histórias da sua infância, com pouco mais de 12 anos vinha com mais 20 kgs desde o Porto da Laje onde tinham colmeias. Às sopa seguiram-se os tradicionais bolos e ficámos um bom bocado a conversar. Depois de duas caminhadas sentiam-me bastante bem, só na parte final, em algumas zonas mais inclinadas do estradão, senti os músculos dos joelhos. Em dois dias devia ter feito quase 40 kms de alguma dificuldade mas não sentia grandes efeitos. Tinham sido duas boas provas para as novas botas que se revelaram confortáveis. Uma boa compra.


fotos em: Caminhadas

Ermida del Xurés-Minas das Sombras-Fronteira



Esta caminhada ficou de certa forma estabelecida na caminhada Portela-Minas. Ao fazermos o estradão em direcção à fronteira o Tiago manifestou interesse em fazer este trilho, cujo desenho na encosta oposta fomos acompanhando à distância, pensamos que também era uma oportunidade de trazer mais gente e acordamos em marcar uma data.

Por diversas razões, más previsões meteorológicas, jantares de “Natal”, "isto e aquilo", preguiça matinal e acabamos sem os novos “caminheiros”. Começámos a caminhar pelas 11h00, um pouco tarde, mas resolvemos começar já junto à capela. Sempre se recuperava algum tempo (+/- 3 km) e a subida desde Vilameá pouco acrescenta ao trilho.

O nosso objectivo era fazer a “Ruta de la mina de las Sombras”, marcada pelo Parque Natural Baixa Limia-Xurés (Espanha) e continuar até ao Pico dos Carris. Como o dia estava chuvoso e esperávamos neve nas zonas mais elevadas, antes de sair acordamos que nas minas das Sombras faríamos uma refeição rápida e avaliaríamos o objectivo inicial.

Na subida encontramos alguns obstáculos. O maior deles foi encontrar uma ponte pela metade, derrubada, imagino eu, pela força das águas. O caudal da ribeira estava forte e não ajudou a encontrar uma solução, só que ficou claro que o caminho inverso seria mais complicado. Os restantes obstáculos foram mais fáceis de passar e quase todos eles originados por linhas de água com mais caudal que o normal.

Na subida final para as minas passamos a encontrar neve. Abrigados do vento e da neve nas ruínas do Posto Gerador das Minas das Sombras, fizemos uma pequena refeição e quando quisemos avaliar o que fazer em seguida percebemos que não tínhamos relógio. Eu e o Tiago tínhamos deixado os telemóveis no carro, um erro básico. Sem puder confiar muito no relógio da máquina fotográfica não sabíamos quantas horas ainda teríamos de luz. Decidimos assumir a hora da máquina que nos daria mais umas 3h30 até ao anoitecer. Já não daria para chegar ao Pico dos Carris mas dava para chegar ao marco da fronteira e regressar em segurança.

Como a memória do trilho ainda estava muito fresca não foi complicado, só que muita da navegação foi mesmo por memória porque a neve e o nevoeiro escondiam as mariolas. No marco da fronteira encontrámos um nevoeiro que tudo escondia e mesmo que estivéssemos com tempo não aconselhava tentar chegar até ao Pico dos Carris.

Descemos o mais rápido que os necessários cuidados recomendavam. Nas zonas mais expostas ao vento quase que não podíamos tirar os olhos do chão. Chegados às minas das Sombras comemos um chocolate e continuamos. Transpor a “ponte” no regresso foi mais complicado, espero que o Parque Natural de Baixa Limia-Xurés a recupere rapidamente porque senão o melhor é “fechar” o trilho. Chegamos aos carros com pouco mais de 20 minutos de luz.

Foi uma boa caminhada. Realizada um ritmo elevado quase sem paragens, mas com o atractivo de ter sidoo primeiro encontro com a neve. Caminhar com chuva pode ter algo de desconfortável mas permite sentir a serra de uma forma diferente. Eu gosto cada vez mais deste tempo para caminhar.


Monday, November 20, 2006

Minas a Minas




Há desafios a que é difícil responder não. A última caminhada foi um desses desafios. A persistência de uma tosse incomodativa aconselhava-me a um fim-de-semana de repouso mas o convite era tentador. A caminhada em si já era um bom desafio e fazia muito tempo que queria conhecer aquelas zonas. Por diversas vezes tinha estudado a carta 31 imaginando os trilhos a fazer.

Para aproveitar as horas de luz combinámos que às 7h00 já estaríamos na Portela do Homem. Parte de nós optou por ir dormir ao Parque de Campismo da Cerdeira. O frio e a chuva não aconselhavam o campismo mas o parque possui 4 alojamentos colectivos, num total de 24 camas, muito bons e úteis para estas actividades. Os restantes madrugaram e à hora marcada não faltava ninguém. O antigo edifício da fronteira está ser transformado em museu, seria engraçado voltar a ter uma café/bar naquela zona para apoio dos finais das caminhadas.

Umas centenas de metros depois dos carros iniciámos a caminhada com a subida da encosta do Vale da Sabrosa. Já tinha escutado e muito sobre ela, como é dura e difícil, agora fiquei a conhecer. Percebo porque me disseram uma vez no Gerês - Prados da Messe? Não conheço, tem-se que subir muito. E fazer a subida debaixo de chuva forte e nevoeiro não ajudou nada. Em pouco tempo as botas deram de si, os trilhos pareciam ribeiros e era impossível manter os pés secos. No final da subida estava verdadeiramente cansado. Continuámos a subir e perto dos Prados da Messe encontrámos as mariolas do trilho que procurávamos. O Gerês é uma enorme rede de trilhos marcados por pastores ao longo de gerações, com um bocado de experiência e conhecimento do terreno é quase impossível ficar perdido durante muito tempo. Claro que o nevoeiro não ajudava e por vezes a dúvida instalava-se.

Num local que identifiquei na carta como perto da Torrinheira, com a Fichinhas, a Rocalva e Sombrosa em frente o dia abriu mostrando uma paisagem magnífica. É por paisagens como aquelas que me considero um privilegiado por fazer estas caminhadas, é a justa recompensa por sair das estradas. Quem acha que o Gerês é bonito sem o conhecer assim não teria palavras para elogiar. Aquela é a montanha de que eu gosto. "Um nunca mais acabar de espinhanços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto dum postigo, acolhedor e fraterno", como Miguel Torga descreveu as paisagens serranas da Peneda a Pitões.

Com um ligeiro atraso no horário previsto, marcámos almoçar nas minas do Borrageiro. O caminho até lá foi fácil, todo marcado pelas sempre presentes mariolas, Corgo do Arrocela, Corgo das Mestras (li depois na carta) e rapidamente chegámos às ruínas das minas. Meia dúzia de restos de casas pequenas, toscas e pobres. Testemunhos de uma vida difícil. Após um almoço rápido, porque se arrefecia muito rapidamente, voltamos a caminhar. Um pouco à frente encontrámos o trilho que desce da ponte das Abrótegas atravessando os Cocões do Coucelinho em direcção às Lagoas do Marinho.

Este terreno já o conhecia, tinha-o feito com os Monte Acima e com a Jana e com a Fungo, duas companheiras do UPB desaparecidas das últimas caminhadas, em sentido inverso, descendo para Xertelo, num dia tórrido de Junho. Na subida o grupo dividiu-se em dois, uns continuariam em direcção às Minas da Sombra (Espanha) e outros desceriam o estradão dos Carris. Como queria conhecer a ligação para as Minas da Sombra segui no primeiro grupo.

Na Ponte das Abrótegas, com os dados de GPS do Rato do Campo e Lobo Mau seguimos em frente, ao estudar as cartas já tinha ficado com a sensação que o melhor caminho seria ir a "direito" para norte. O trilho escolhido confirmou essa leitura. A ligação foi fácil, menos de uma hora, e depois de um reforço alimentar rápido descemos até ao estradão que liga à fronteira. Quem já fez o sabe como é longo e desmoralizante. Em cada curva vislumbramos o caminho a fazer que parece nunca mais acabar. Chegámos à estrada apenas um pouco antes da luz do dia se extinguir. Depois foram uns penosos minutos de asfalto até à fronteira.

No Parque da Cerdeira com os restantes elementos retemperámos as forças. De acordo com o GPS do Lobo Mau - obrigado pelo mapa- tinha sido uma caminhada de 32 km com um desnível acumulado de 1400 metros e corpo queixava-se disso.

Monday, November 13, 2006

Brandas da Gavieira


No último fim-de-semana realizei com o UPB uma caminhada pelas brandas da freguesia da Gavieira (Arcos de Valdevez) que me permitiu juntar vários dos atractivos do pedestrianismo. Caminhar por antigos caminhos rurais e de montanha e conhecer um pouco melhor um Portugal esquecido. Visitámos várias brandas e um magnífico Fojo de Lobo. Numa encosta próxima era ainda possível deslumbrar o desenho de um outro, estive tentado a visitá-lo mas a noção da necessária disciplina horária foi mais forte que a curiosidade. Os fojos de lobo não me deixam de surpreender, o esforço colectivo necessário para a sua construção e manutenção marcam bem dura relação que o homem tinha com este predador.

Iniciámos a caminhada em Roucas, com uma subida acentuada até à branda de Gorbelas. Esta parte inicial da caminhada está marcada pela Adere-PG como Trilho das Brandas, um percurso de ir e voltar de 8 km e com uma ascensão de 600 metros. Eis a descrição do trilho:

“Este trilho realiza-se em plena Serra da Peneda e leva-nos a conhecer o modo de vida das populações pastoris da montanha. Partindo do lugar de Roucas, freguesia da Gavieira, tomando um caminho ladejado que ascende pelo lugar da aldeia. Seguindo as marcações de cor amarela e vermelha, vamos deixando a aldeia para trás a povoação e penetrando a montanha, subindo passo a passo, gradualmente e vencendo os desníveis.

Por este carreiro passavam os carros de bois de raça barrosã que ligavam o lugar de Roucas à Branda de Gorbelas. Após alcançarmos o estradão de terra viramos à esquerda e continuando a subir, para alcançarmos a Branda de Gorbelas, rodeada por campos de centeio fechados por belos muros de pedra solta. Desde aqui seguimos por um caminho de lajes que se abre entre a penedia, vencendo fortes declives e que nos conduzirá ao Poulo da Seida.

Trata-se de uma velha branda de gado, esquecida no tempo e na memória, a qual permitia uma pernoita mais segura aos pastores e aos rebanhos, de modo a protege-los do frio da noite e da ameaça do lobo. Daqui seguimos para o fojo do lobo, localizado entre o Alto da Pedrada (o ponto mais alto da Serra Peneda) e Lamas do Vez (o local onde nasce o Rio Vez).”


No Poulo da Seida, onde almoçámos, o grupo separou-se em grupos menores. Eu segui até à Corga do Enforcado/Lamas do Vez e acompanhei depois, a meia encosta, o muro do fogo. Junto ao fojo encontrámos um grupo de Roucas em pleno trabalho comunitário(melhorias numa fonte de água que abastece a Branda de Gorbelas). Trocámos algumas palavras sobre o fojo e sobre os lobos. Nos últimos dias teriam morto dois animais na zona. Alí perto, uma carcaça comprovava uma das mortes. Dissera-nos que no incêndio de Agosto teriam morrido alguns lobos na Mata do Ramiscal, mas acredito que tenham abandonado o vale antes do fogo o alcançar.

Após o almoço descemos a Gorbelas onde abandonámos o trilho em direcção à branda da Junqueira. Esta parte já não pertencia ao trilho da Adere-PG e tinha algumas zonas fechadas pela vegetação. Em Junqueira encontrámos um pastor com um bezerro com uns 3 dias, tinha nascido no monte sem a sua assistência pois julgava tardar mais alguns dias para o parto. Junqueira, como a anterior, é uma branda de cultivo e pasto com uma bonita envolvente, mas sem a beleza dos campos em solcalco de Gorbelas.

Seguimos para a Branda da Busgalinhas onde a nossa caminhada voltou a coincidir com um trilho da Adere-PG, o “Pertinho do Céu”. Busgalinhas, mais uma branda de cultivo e pasto, de todas é a que tem um casario mais bonito. Na Branda de S. Bento do Cando, famosa pela romaria, abandonámos o trilho da Adere e descemos até Gavieira, e dai até Roucas, por antigos caminhos rurais. O grupo estava cansado, uma das colegas apresentava dores num joelho, as sombras avançava rapidamente e a tarde arrefecia.

Em Roucas estivemos a falar um pouco uma senhora que nos disse ir todos os dias até à branda onde estão os seus animais. Faça sol, chuva ou neve, são quase 8 quilómetros diários. Na Peneda, a proximidade das brandas da Peneda com os lugares fazia com que, normalmente, não fossem habitadas. O fenómeno de transumância característico de Castro Laboreiro não se repetiu aqui. Explicou-nos que tinha algum desgosto de não ser um pouco mais forte mas a sua constituição seca era sinal de uma resistência impressionante. Mais um sinal da diferença entre o urbano e o rural, ali a “gordura ainda é formosura” ser “cheiinha” é ainda um ideal de beleza. As novas gerações já não serão assim.

Nota: na madrugada de Domingo um dos colegas da caminhada teve um problema de saúde complicado. No UPB todos esperámos que se recupere depressa.

Tuesday, November 07, 2006

Um bom exemplo

Encontrei recentemente um site de um grupo de pedestrianismo que é um exemplo de um verdadeiro serviço prestado à comunidade. Muitas vezes falámos de serviço público sem conseguir perceber de que falámos. Este site é um verdadeiro serviço público e nota-se uma verdadeira preocupação em dar o máximo de informação.

O site chama-se Naturezas (http://naturezas.com/index.htm) e está repleto de informação útil como: mapas, fotos e pontos de GPS. Como os próprios afirmam o site " pretende ser o sítio onde poderemos dar a conhecer novos trilhos e dar opinião sobre os que conhecemos. Tornando assim mais fácil a chegada de novos caminheiros."

Pela minha parte agradeço e recomendo uma visista.

Monday, October 30, 2006

As mariolas também enganam


Voltei recentemente a caminhar por uma das zonas mais bonitas do Gerês. É uma região bela e dura, cheia de testemunhos dos antigos pastores daqueles montes. A minha admiração pelos homens que retiravam o sustento naqueles montes não para de crescer. Imagino a vida dura e despojada que tiveram, eu sei que não a aguentaria. Ao passar por umas ruínas de um antigo abrigo comentei isso com os companheiros de trilho. Vida de solidão - alguém disse. Concordei e contei-lhes a proposta que um pastor fizera a uma caminheira do UPB dez minutos após a conhecer: casamento e um dote de largos milhares de contos. Não havia tempo a perder porque no monte não há muitas oportunidades.

Experimentei a navegação por carta e bússola e resultou. Tirei o azimute pretendido e fui confirmando o trilho marcado pelas mariolas até ao Borrageiro. Decidimos depois tentar a descida por uma garganta que nos parecia complicada. O terreno e a carta não indiciavam que fosse uma boa opção, mas a existência de umas mariolas foi o suficiente para ultrapassar os receio iniciais e descer por lá. Puro erro, era um terreno complicado, perigoso e fechado por mato como a carta indicava. Um esforço e risco desnecessários. Como com os erros também aprendemos não foi tempo perdido.

Tuesday, October 24, 2006

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

A gente vai continuar - letra e música de Jorge Palma