São apenas notas soltas sem qualquer compromisso de actualização. Como ao caminhar à beira mar onde os nossos passos não são mais importantes mas ficam registados entre duas ondas.
Friday, February 09, 2007
A estratégia
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez de alguns padres,
mas como não sou religioso,
também não liguei.
Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.
Bertolt Brecht
Este poema veio-me à memória quando escutei na rádio a notícia de que o Governo pretende reduzir as funções nucleares do Estado à defesa, segurança e diplomacia. Estou absolutamente convencido que a gestão da informação pelo actual Primeiro-ministro é um dos maiores exemplos eficiência. Em Portugal não deve haver um político tão hábil na gestão da informação. E não me admirava que no futuro a sua estratégia de comunicação fosse tema de teses universitárias.
A forma como gere a informação, na maioria das vezes a falta de informação, é absolutamente brilhante. Foi anterior governo que quis criar uma central de informação, mas foi este que a criou. E o episódio da trapalhada da anterior tentativa é bem paradigmático da eficiência de comunicação. É que uma coisa dessas não se anuncia.
E porque falo em eficiência? Porque os ciclos são geridos cirurgicamente. A informação é disponibilizada quando produz maior efeito ou menos dano. E lançar esta informação debaixo do "ruído" da campanha do referendo não é por simples acaso. É o momento escolhido para libertar a informação.
O poema é pelo "modus operandi" desta e doutras medidas. A táctica é simples e usada pela maioria dos predadores. Escolhe-se o alvo, procede-se ao seu isolamento e finalmente ataca-se. Foi assim com as farmácias, com os juízes, com os professores, etc.. Primeiro estimulou-se e promoveu-se os sentimentos de "mau vizinho" como a inveja e a mesquinhez. E depois lançaram-se os ataques esperando os restantes fiquem a assobiar para o lado ou mesmo a aplaudir a coragem.
O problema é que na busca da eficiência perde-se a noção do desígnio global. O projecto não nos é explicado porque a gestão da informação, na prática a falta dela, é vital para a estratégia. Vai-se é ficando com a impressão que o primeiro ataque é simplesmente para fazer correr a presa e a cansar. Só depois se dá o ataque.
Wednesday, February 07, 2007
Quase Carris

Thursday, January 18, 2007
Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945
Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945
Todo o dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada, que ou são túmulos de uma necrópele celta, ou habitações pastoris de verão, ou acampamento de tropas romanas, ou armadilhas que o diabo pôs ali para tentação de almas ignorantes. Não sei se alguém de saber já por lá passou e viu aquilo. Uma inscrição em caracteres estranho vai-se apagando no granito, os pastores vão atirando ao chão as lages que cobrem os dolmens ou as construções, e daqui a algum tempo não restará de todo o mistério nenhum sinal. Mas talvez seja melhor assim. Os mistérios são o alimento natural do tempo. E quando os anos os digerem, fica tudo em paz.
A Serra Amarela é um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores.É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão. O guia, um contrabandista celta, loiro e de olhinho azul, é um manancial de saber caseiro, a cultura autêntica de um povo.
- O Senhor já viu nascer cabelo nas unhas? – pergunta-me ele.
- Não.
- Pois se não é sítio dele!
Isto por causa dos excessos e das incompreensões dos serviços florestais, que estão a matar o pastoreio e a reduzir algumas terras montanhesas à miséria.
- Vemos Deus com olhos que não temos … - diz a respeito da sua crença.
E ainda estou a apurar se foi o cura que lhe ministrou a fórmula ou se é pessoal, e já vem esta prevenção salutar:
- Deite-se na pedra, que é melhor! Olhe que uma fraga não respira! Na terra apanha uma carga de reumático…
A hora do almoço chegara, e eu ia-me atirar exausto para o chão.
Mas quando ele me assombra inteiramente, é à tardinha, ao cair da noite, no momento em que um grande rebanho comunitário de duas mil e quinhentas cabras entra na povoação, e do alto do fraguedo me mostra o espectáculo. Está tudo transfigurado. O Pé de Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões e a Calcedónia, ao longe parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens. O vale do Homem, no fundo fértil, verde e brilhante, com lagos de água cristalina a reluzir de onde em onde, parece a terra da promissão. Um silêncio preservado rodeia tudo de paz.E o meu contrabandista, então, perde-se no meio de tanta grandeza e de tanta liberdade, e monologa:
- Acredite que não trocava a minha vida pela de nenhum rei! Gosto tanto destas penedias, que se me tirassem um pedaço a uma, dava conta!
Wednesday, January 17, 2007
As Casarotas da Serra Amarela
trilho realizado (desenhado de memória)Já tinha lido em Miguel Torga várias referências às Casarotas e procurei mais informação sobre elas. Encontrei na Biblioteca Pública de Braga, num artigo de Jorge Dias, "As Casarotas da Serra Amarela - Construções megalíticas com uma inscrição", uma explicação que me pareceu mais satisfatória. Há em torno das Casarotas uma certa fantasia e mito que perdura. Antas, abrigos para defesa da fronteira são algumas das hipóteses avançadas, mas inclino-me mais para os que as consideram uma antiga branda de gado. Possivelmente podem até ter sido tudo isso, mas a mim parecem-me muito semelhantes às brandas existentes na Peneda.
Deixámos o carro em Cutelo e enveredámos por um caminho rural. Um pouco depois, junto a um curso de água, cortámos em direcção a Carvalhinha. A uma cota intermédia começamos a caminhar em direcção às antenas (Muro). O Tiago e o amigo já tinham feito este trilho e conheciam o caminho, ou melhor a direcção. A Serra Amarela é uma paisagem bem diferente da Serra do Gerês. É menos acidentada, com muito menos vegetação e menos humanizada. Demorámos cerca de 2h30 a chegar às Casarotas onde abandonámos o projecto inicial de continuar até às antenas. Almoçámos no local que aproveitámos para explorar. De seguida visitámos um fojo de lobo bem perto do local. As marcas do tempo são visíveis mas apesar de tudo ainda se mantém em grande parte intacto. Sabia da existência de um fojo de Vilarinho, Tude de Sousa fala nele em "Serra do Gerez", presumo que seja aquele. Miguel Torga fala em fojos pelo que não seria o único a existir. No regresso, junto a Cortinhas, encontrámos uma pastora que nos disse ainda ter participado em montarias ao lobo neste fojo - o de cima, o principal, mas indicou-nos um outro que não visitámos. Disse-nos também ter visto um lobo recentemente. Era bem perceptível que continuam a ser vistos como uma ameaça. Ali, a paz entre o homem e o lobo está longe de ser declarada.
Lá em cima as paisagens são magníficas. Aos nossos pés a Albufeira de Vilarinho das Furnas. Brufe, Cortinhas, Cutelo, S. João do Campo, Carvalheira e Covide ao alcance de um olhar. Fiquei algum tempo no exercício de identificar os recortes da montanha, alguns permanecem como objectivos por realizar. No regresso decidimos descer seguindo umas mariolas de grande dimensão. Encontramos algumas marcas de um trilho GR que suponho não pertencerem ao Trilho das Casarotas, recentemente marcado pela CM Terras de Bouro, que estranhamente não as visita. Possivelmente seriam marcas de uns trilhos para fazer a travessia Castro Laborreiro – Tourém agora desactivados.
Numa próxima oportunidade espero chegar às antenas e descer depois pelas encostas de Vilarinho das Furnas. Será uma caminhada mais longa e que me permita descobrir outras coisas.
fotos da caminhada
Tuesday, January 09, 2007
Trilho Corno do Bico e Trilho Alto dos Morrões
A ideia inicial era fazer o Trilho Corno do Bico, um PR da rede de trilhos da CM de Paredes de Coura, ao qual juntámos outro PR da mesma rede, o Trilho Alto dos Morrões. No total caminhámos uns 12 km num ritmo calmo de passeio.
Eis as descrições dos trilhos segundo os folhetos da CM Paredes de Coura:
Trilho Corno do Bico
“Partimos do pequeno lugar de Túmio, precisamente onde a estrada de alcatrão é substituída pelo caminho empedrado de acesso ao centro do lugar que ainda conserva alguns aspectos interessantes da arquitectura tradicional do Alto Minho. Daqui, seguimos o caminho até desembocar numa bifurcação de caminhos em terra. Seguimos o caminho da esquerda, que nos levará ao interior da floresta do Corno de Bico, composta por uma vasta e densa mancha de carvalhos (Quercus robur). Durante o percurso constatamos a elevada diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas, que, no seu conjunto, constituem o habitat essencial para inúmeras espécies do reino animal. O Corno de Bico é um espaço emblemático para o concelho de Paredes de Coura e de grande importância para a região, considerado um pequeno santuário natural, espaço de rara beleza que o homem moldou de uma forma harmoniosa. Desde tempos remotos que jogou um papel fundamental, servindo de local de culto, de espaço de defesa, de linha de fronteira, de pastagens e de abrigo. Na década de 40 do Século XX, durante o período do Estado Novo, os serviços florestais desencadearam um processo de arborização e de valorização florestal de um espaço que, até então, era ermo pela excessiva actividade pastoril. Hoje, tem um papel importante ao nível da conservação da natureza, o que permitiu a sua inclusão como Sítio Classificado da Rede Europeia NATURA 2000 e na Rede de Áreas Protegidas de Portugal. A par desta classificação, é igualmente importante o património humano das comunidades rurais, que permitiram moldar este território.O caminho desemboca na estrada florestal, que percorreremos porpoucos metros, para depois seguirmos um caminho em terra que nos conduzirá pelo Alto do Espinheiro até ao culminar deste percurso no Corno de Bico, que ostenta um marco geodésico à cota de 883 metros. Deste miradouro natural, rodeado de blocos graníticos, podemos apreciar uma majestosa paisagem que se abre, quer para o Vale do Rio Coura, quer para os Vales dos Rios Vez e Lima. Depois de uma merecida paragem, continuamos por entre a floresta, até desembocarmos novamente na estrada florestal. Viramos à direita para, percorridos cerca de 2 km, virarmos à esquerda, pela Chã do Mouro. Pouco depois, estaremos no local onde teve início este percurso pela floresta da Paisagem Protegida do Corno de Bico.”
Trilho Alto dos Morrões
“Partindo da pequena ermida da Giesteira, iniciamos o percurso pelocaminho que se abre por entre campos murados que, pouco a pouco, vão dando lugar a bouças e campos abandonados cuja vegetação autóctone proliferou de forma espontânea, para nos embrenharmos por completo no extenso carvalhal da Paisagem Protegida. Este bosque de folhosas constitui um óptimo habitat para inúmeras espécies da flora e do reino animal. Aqui, deveremos parar por um pouco para nos instruirmos com a sabedoria da mãe natureza. Esta floresta, antes classificada como Mata Nacional, resultou da plantação levada a cabo no período do Estado Novo, pela Junta de Colonização Interna, no seu polémico Plano Florestal a Norte do Tejo. As espécies arbóreas resultam desta plantação ou da regeneração, destacando-se o carvalho (Quercus robur), o vidoeiro (Betula alba), o castanheiro (Castanea sativa), a faia (Fagus sylvatica), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o azevinho (Ilex aquifolium), entre muitas outras. Em tão rico e diversificado habitat, são inúmeros os animais que aqui encontram abrigo e alimento, destacando-se o lobo ibérico (Canis lúpus signatus), o corço (Capreolus capreolus), o esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), a toupeira-de-água (Gallemis pirennaicus), a águia de asa redonda (Buteo buteo). Para além das espécies do reino animal e do reino vegetal, também são de destacar, quer pela sua ampla variedade, quer pelo seu interessegastronómico, as inúmeras variedades do reino dos fungos, conhecidas vulgarmente porcogumelos. Depois de uma obrigatória, mas apreciada e atenta paragem, continuamos caminho pelo estradão florestal até chegar a uma casa florestal abandonada, no lugar daAtalaia. Seguimos um caminho em terra por entre um bosque de cedros de Oregon, que nos conduzirá ao pitoresco e bucólico lugar de Túmio.Aqui podemos observar alguns exemplos da arquitectura popular, desde os simples espigueiros às típicas casas das comunidades de montanha do território de Coura. Igualmente, fazem parte deste património construído os campos de cultivo, trabalhados em socalcos, regados por água acumulada em “poças” e conduzida por levadas em terra, rodeados por escultóricos muros de pedra solta, bordajados por azevinho. Passado algum tempo alcançamos o local onde teve início este pequeno passeio pelo território do Corno de Bico, que possui um elevado interesse, não só pela sua biodiversidade, como também pelos jogos de luz e cores da paisagem envolvente.”
Foi uma caminhada fácil de fazer, adequada ao período de recobro das festas e dos efeitos das rabanadas em excesso. Iniciámos a caminhada no lugar de Túmio, seguindo o Trilho Corno do Bico, em direcção à floresta do Corno do Bico. O dia estava chuvoso e um pouco à frente encontrámos um nevoeiro que nos dificultou a orientação e nos impediu de desfrutar totalmente da paisagem. O trilho foi realizado em grande parte por estradões florestais, com desníveis pouco acentuados, e pelo interior de uma mata de rara beleza. O contraste dos tons de cobre e verde dava à floresta um ar mágico. Recorrendo a uma imagem que recentemente li, havia qualquer coisa de encanto maternal, uma floresta grávida de futuras Primaveras. Será da idade mas cada mais prefiro a maturidade dos tons de cobre.
A Paisagem Protegida do Corno de Bico resultou do plano de florestação da década de 40 e, apesar de ter consciência dos dramas que o mesmo plano originou em muitas das populações, devemos reconhecer que nos legou uma boa herança. Espero que se mantenha a salvo dos fogos de Verão porque seria uma enorme perda.
Abandonámos o trilho junto da casa florestal do Alto da Atalaia, mais um exemplo de um património abandonado, e começámos a fazer o Trilho do Alto dos Morrões, no sentido inverso ao do marcado no folheto, em direcção a Túmio. A paisagem é muito semelhante e só próximo do lugar de Giesteira se modifica. Nos antigos caminhos, entre os campos murados que recortam os bosques, o verde dos campos em descanso contrastava, ainda mais, com o cobre das copas. Quem está habituado a ver suceder as estações, quem está habituado aos ciclos naturais, quem ainda não rompeu completamente as raízes com a terra e seus ensinamentos, resiste melhor à mudança de humores e sabe que os fins são apenas prenúncios de novos inícios. Para iniciar um novo ano não havia melhor caminhada a fazer.
fotos da caminhada
Friday, December 29, 2006
A esposa do Delfim
Tuesday, December 26, 2006
Natal UPB
A manhã estava fria, como testemunhava o gelo na estrada, que ainda me convidou a uma dança atrevida, e fui dos últimos a chegar à Travanca. Comecei a subida com um grupo mais pequeno e só encontrei os restantes mais tarde. A subida ao Alto da Pedrada foi a primeira caminhada que fiz com o UPB, e já a tinha repetido. Recordo-me da beleza do antigo caminho, em laje, que inicialmente ligaria a branda da Travanca às restantes brandas a cotas superiores. Uma subida realizada, numa primeira fase, na sombra protectora de uma mata muito bonita e depois em prado aberto. Digo recordo-me porque parte dela já não existe. O fogo de Agosto consumiu parte da mata protectora. Nos pontos de paragem, procurava nas minhas memórias as imagens de antes, mas não era fácil imaginá-las.
Com todo o grupo reunidos, que encontrámos no prado no sopé do Guidão, continuámos a subida. Ultrapassada a maior dificuldade da caminhada, uma curta mas intensa elevação, o grupo dirigiu-se ao ritmo das conversas para o destino final. O dia era de grande descontracção e dava tempo para tudo. No Alto da Pedrada, entre as fotos da praxe, o Bolo-rei e o Porto, ficámos um pouco a identificar os pontos no horizonte e a marcar os próximos destinos. Almoçámos no “Vale Encantado”, assim baptizado pelo Sherpa, uma antiga branda junto ao Guidão que suponho chamar-se Branda da Cova. Ficámos imenso tempo na conversa aproveitando o sol que se fazia sentir e no final o Águia-Real surpreendeu-nos com café.
Na descida aproveitei o facto de o fogo ter descoberto os cortiços da Branda Currais Velhos para a visitar mais demoradamente. Entrei num dos cortiços. É um dos maiores que conheço e possui uma porta de grandes dimensões. Já tinha reparado nele nas anteriores caminhadas mas agora está muito mais visível. No conjunto há muitos mais cortiços do que julgava. Esta branda é uma boa testemunha das mudanças que o plano de florestação introduziu nas populações de montanha. Os prados da zona deveriam ser baldios que foram depois florestados. Os efeitos nas populações devem ter sido enormes e as gerações mais velhas ainda devem ter disso ecos. Um amigo disse-me uma vez que essa era uma das causas ocultas dos fogos florestais. Eu não acredito. Parece-me demasiado desculpabilizante - "as populações não gostam da floresta". E o resto?
Já nos carros decidimos que procurar uma “sopa”. Recordei-me de uma das minhas experiências mais engraçadas nos Arcos de Valdevez quando vim com uns amigos da universidade “contratar” o Delfim, célebre cantador ao desafio. Sendo o mais novo do grupo praxaram-me com umas malgas de verde e “iscas” que me alegraram a viagem até Braga. Ofereci-me como guia e com algumas indicações não foi complicado encontrar a tasca do Delfim. Infelizmente não estava, mas a esposa serviu de amostra. O local é um verdadeiro laboratório social do Minho. Vale a pena visitar.
fotos da caminhada
Thursday, December 14, 2006
O Senhor Cruz
Numa das minhas buscas fui à Livraria Bertrand, que no centro de Braga ocupa agora as instalações da Livraria Cruz. Lá não consegui nenhum livro mas deram-me uma indicação. Nos andares superiores ainda existe o espólio da antiga livraria e é possível comprar livros. Basta tocar que o Sr. Cruz está normalmente lá para atender. Foi o que fiz no dia seguinte.
O Sr. Cruz é uma das figuras do Sec. XX em Braga. Tipografo, editor e livreiro é uma pessoa que vive entre livros. Acompanhou-me por diversas salas carregadas de estantes com livros, apesar da idade sabe onde estão sem a ajuda de computadores. É um símbolo de uma época que passou mas que deixa alguma nostalgia.
Na despedida a propósito das mudanças do tempos atirou-me com isto - "Na minha aldeia hoje não há uma vaca". Há neste desabafo um grito contra um tempo que gostava de contrariar. Lendo os planos para as novas superfícies a instalar em Braga percebo-o melhor. Há qualquer coisa de estranho que um país do sul tenha mais centros comerciais que os países do norte da Europa. Quem sabe se no futuro não haja quem diga - "No centro não há comércio".
Sunday, December 10, 2006
Fafião-Lagoas do Marinho
As botas ainda estavam húmidas quando as meti no carro. A caminhada do dia anterior ainda estava muito fresca mas a proposta do Medronho era demasiado atractiva para recusar. A encosta da Serra do Gerês virada para Montalegre é uma zona mais abrupta, mais despida de vegetação mas de uma beleza que começo agora a descobrir. Era uma oportunidade que não queria perder. Aparentemente as pernas também se recusavam a ceder e quase não sentia os efeitos da caminhada do dia anterior.
Encontramo-nos ao pequeno-almoço e aproveitei para me abastecer. Duas sandes, dois sumos, e os chocolates que trazia na mochila, comida a menos mas não queria ir muito carregado. Nas Cerdeirinhas encontrámos a Nogueira e uma amiga e seguimos para Fafião.
No total éramos 10. O nosso guia seria o Águia-Real - Os Manos, o Urso Solitário, que conheci com o UPB na primeira vez que fui à Rocalva, onde também estava a almoçar no meio de uma caminhada solitária, a "caloira" Bouça, uma amiga da Nogueira, e os restantes UPB's (Medronho, Passo Largo, Milhafre, Capreolus, Cebolinho, Nogueira e eu).
Começamos a caminhar pelas 10h00, algo tarde para extensão do percurso porque agora os dias são curtos. A parte inicial do caminho foi relativamente fácil, mas cumprida a um bom ritmo. O dia estava muito bom e permitia ver ao longe, na Serra da Cabreira e Pitões, como as zonas mais altas estavam cobertas por um manto branco. Provavelmente encontraríamos neve nas zonas mais elevadas da caminhada. A zona é muito bonita para explorar, mesmo a cotas menos altas há paisagens soberbas. Como a conheço mal tive alguma dificuldade em navegar depois pelas cartas e identificar os locais. É por esta razão que gostava de ter um GPS, para poder registar os percursos para memória futura. No monte normalmente é mais fácil seguir outras indicações. Mas quando tentei depois refazer o trilho do Águia-Real no IGeoE-SIG fiquei com algumas dúvidas. Percebi que subimos até às lagoas por uns vales a sul/suldeste de um pico identificado na carta como Fojo de Alcântara, mas fico com "brancas" em partes do caminho.
Conforme íamos subindo, e vislumbrando o caminho a fazer, ficou claro que a neve esperava por nós. Um pouco antes de chegarmos às Lagoas do Marinho já enterravamos os pés e ela continuava a cair. Em certas momentos foi até um bom desafio e tivemos que ter alguns cuidados.
Almoçamos num abrigo junto às lagoas e recomeçamos a caminhar. O trilho seguia por um estradão escondido debaixo do manto de neve. Tínhamos a consciência que já era tarde e começamos a apertar o passo. Nevava e a progressão nem sempre era fácil. A uma cota mais baixa, passado o nevão, o manto de neve permitia ver as pegadas de um pequeno animal, possivelmente uma raposa. Seguimos em estradão por um vale muito bonito - o Corgo da Mão de Cavalo - até à Albufeira do Porto da Laje . Nas margens, as marcas recentes testemunham a força das chuvas de Novembro. O vale é uma enorme rede de linhas de água, dos adjacentes vales profundos e ravinosos, que alimentam o Rio Fafião e em dias de chuvas fortes devem recolher um enorme caudal.
A partir da Albufeira o trilho passou a pé posto. Um trilho de dificuldade elevada mas de enorme beleza. Num certo obstáculo senti mesmo algum receio. Abandonámos o trilho pouco tempo antes de anoitecer e fizémos parte do estradão final já sem luz. Chegámos ao café, onde nos esperavam às17h00, pelas 18h30. Um pouco mais e teriam comunicado às autoridades que estávamos a demorar. No total devemos ter feito uns 23 Kms, num misto de estradão e trilhos de pé posto. Uma caminhada de elevada dificuldade mas que me deu um enorme prazer. Uma das melhores que realizei.
O Águia-real tinha encomendado uma sopa que comemos na mesma sala onde jantavam os donos do café. O dono do café quis saber por onde andámos e fez comentários sobre outros trilhos. Contou-nos algumas histórias da sua infância, com pouco mais de 12 anos vinha com mais 20 kgs desde o Porto da Laje onde tinham colmeias. Às sopa seguiram-se os tradicionais bolos e ficámos um bom bocado a conversar. Depois de duas caminhadas sentiam-me bastante bem, só na parte final, em algumas zonas mais inclinadas do estradão, senti os músculos dos joelhos. Em dois dias devia ter feito quase 40 kms de alguma dificuldade mas não sentia grandes efeitos. Tinham sido duas boas provas para as novas botas que se revelaram confortáveis. Uma boa compra.
fotos em: Caminhadas
Ermida del Xurés-Minas das Sombras-Fronteira
Esta caminhada ficou de certa forma estabelecida na caminhada Portela-Minas. Ao fazermos o estradão em direcção à fronteira o Tiago manifestou interesse em fazer este trilho, cujo desenho na encosta oposta fomos acompanhando à distância, pensamos que também era uma oportunidade de trazer mais gente e acordamos em marcar uma data.
Por diversas razões, más previsões meteorológicas, jantares de “Natal”, "isto e aquilo", preguiça matinal e acabamos sem os novos “caminheiros”. Começámos a caminhar pelas 11h00, um pouco tarde, mas resolvemos começar já junto à capela. Sempre se recuperava algum tempo (+/- 3 km) e a subida desde Vilameá pouco acrescenta ao trilho.
O nosso objectivo era fazer a “Ruta de la mina de las Sombras”, marcada pelo Parque Natural Baixa Limia-Xurés (Espanha) e continuar até ao Pico dos Carris. Como o dia estava chuvoso e esperávamos neve nas zonas mais elevadas, antes de sair acordamos que nas minas das Sombras faríamos uma refeição rápida e avaliaríamos o objectivo inicial.
Na subida encontramos alguns obstáculos. O maior deles foi encontrar uma ponte pela metade, derrubada, imagino eu, pela força das águas. O caudal da ribeira estava forte e não ajudou a encontrar uma solução, só que ficou claro que o caminho inverso seria mais complicado. Os restantes obstáculos foram mais fáceis de passar e quase todos eles originados por linhas de água com mais caudal que o normal.
Na subida final para as minas passamos a encontrar neve. Abrigados do vento e da neve nas ruínas do Posto Gerador das Minas das Sombras, fizemos uma pequena refeição e quando quisemos avaliar o que fazer em seguida percebemos que não tínhamos relógio. Eu e o Tiago tínhamos deixado os telemóveis no carro, um erro básico. Sem puder confiar muito no relógio da máquina fotográfica não sabíamos quantas horas ainda teríamos de luz. Decidimos assumir a hora da máquina que nos daria mais umas 3h30 até ao anoitecer. Já não daria para chegar ao Pico dos Carris mas dava para chegar ao marco da fronteira e regressar em segurança.
Como a memória do trilho ainda estava muito fresca não foi complicado, só que muita da navegação foi mesmo por memória porque a neve e o nevoeiro escondiam as mariolas. No marco da fronteira encontrámos um nevoeiro que tudo escondia e mesmo que estivéssemos com tempo não aconselhava tentar chegar até ao Pico dos Carris.
Descemos o mais rápido que os necessários cuidados recomendavam. Nas zonas mais expostas ao vento quase que não podíamos tirar os olhos do chão. Chegados às minas das Sombras comemos um chocolate e continuamos. Transpor a “ponte” no regresso foi mais complicado, espero que o Parque Natural de Baixa Limia-Xurés a recupere rapidamente porque senão o melhor é “fechar” o trilho. Chegamos aos carros com pouco mais de 20 minutos de luz.
Foi uma boa caminhada. Realizada um ritmo elevado quase sem paragens, mas com o atractivo de ter sidoo primeiro encontro com a neve. Caminhar com chuva pode ter algo de desconfortável mas permite sentir a serra de uma forma diferente. Eu gosto cada vez mais deste tempo para caminhar.