No último dia 15 de Abril subi com a AAEUM aos Prados da Messe saindo de Portela de Leonte. Era a segunda actividade que organizávamos e não contava com tanta gente. É verdade que o tempo ajudou, mas a adesão também comprova o interesse que as actividades pedestres estão a despertar.
Entre os 35 caminheiros e caminheiras que responderam ao nosso convite havia diferentes experiências. Mas passo a passo o caminho fez-se. Fizemos a primeira paragem no Mourô para recuperar um pouco do esforço inicial. Há sempre quem procure forçar a marcha acima do seu ritmo e factura pode ser pesada. No trilho o grupo rapidamente se dividia em 3. E competia-me acompanhar o último, mais do que mostrar o caminho importava motivar. É o "já falta pouco" do costume. Na Freza, a paragem foi mais para deixar as pessoas admirar a paisagem sobre o Vale Teixeira. Começo a ter alguma dificuldade em nomear um local preferido na Serra do Gerês, mas recordo da sensação de deslumbramento que aquela paisagem me provocou na primeira vez. Foi alí, e um pouco mais à frente, na Lomba do Pau, os participantes começaram ter do Gerês uma ideia mais real. Ninguém pode pretender conhecê-lo sem subir à serra. O resto é só vê-lo por fora, sem o sentir. É como ler as formas das letras sem chegar a formar palavras.
As mochilas abriram-se no Conho para refeição mais completa e descansar um pouco. Fiquei um pouco a olhar as Fichinhas e a programar a caminhada de descoberta até Fafião. A ideia de descer aquele vale não me sai da cabeça. O caminho Prados da Messe foi rápido e na descida para a Costa Sabrosa decidimos fazer um desvio pelos Prados Caveiros. Em boa hora. O prado, que não conhecia, é muito bonito. O abrigo está derrubado e não há sinais de utilização há muito tempo. No livro sobre a Vilarinho das Furnas, Jorge Dias refere-se a este prado como sendo um dos prados de vacas da aldeia. Com o desaparecimento da aldeia de Vilarinho este prado poderá ter sido deixado ao abandono. Ou, sendo um dos mais afastados, o abandono poderia até ser anterior ao desaparecimento da aldeia com a diminuição do número de vacas.
Na saída deste prado, a vista que se alcança sobre a Ribeira de Monção e Mata da Albergaria justificaria só por si o pequeno desvio realizado. É preciso alguma atenção para o identificar porque as mariolas apenas se adivinham.
Subir a Costa Sabrosa é complicado mas descer não é mais fácil. Descer com sapatilhas pode ser mesmo muito complicado, como constartei em algumas das pessoas que acompanhava. Já estrada, caminhei de regresso à Portela de Lente. Foi a primeira vez que percorri a pé aquele pedaço da Mata da Albergaria. Imaginar ali um incêndio é assustador.
Mais tarde, ao descermos de Leonte para o Gerês, encontramos uma víbora no meio da estrada. Descemos do carro e ficamos a admirá-la. São muito mais pequenas do que as pessoas imaginam. Eu não gosto de cobras, mas entre a emoção de ver a minha primeira víbora em liberdade não senti qualquer medo ou repulsa. Aproveitava o calor do alcatrão no fim da tarde e não parecia interessada em sair de lá. Para evitar que algum carro a esmagasse, com a ajuda de um cajado, retiramo-la da estrada. Fechada no carro uma colega reclamava connosco. Fizemos o que deveríamos ter feito. Naquele local o seu destino seria ficar esmagada.
São apenas notas soltas sem qualquer compromisso de actualização. Como ao caminhar à beira mar onde os nossos passos não são mais importantes mas ficam registados entre duas ondas.
Tuesday, April 24, 2007
Portela de Leonte - Prados da Messe
Friday, April 13, 2007
Pela Serra Amarela nas pegadas de Miguel Torga
percurso imaginadoÀ cerca de 15 dias voltei à Serra Amarela numa caminhada com o UPB para percorrer os lugares que deslumbraram Miguel Torga. Não posso garantir que o pecurso realizado seja o por ele realizado , mas passámos por alguns dos locais que refere ter visitado em 24 Julho de 1945. Esta caminhada nasceu de uma outra, que fiz com o Tiago e com o Jota. Na altura, por razões de tempo, desistimos de continuar em direcção às antenas da Louriça e ficamos do alto da Serra a olhar para os montes a imaginar a "reparação" do insucesso. Apoiados numa carta antiga procuramos imaginar uma jornada pelas antigas "vezeiras" da aldeia na Serra Amarela. A preocupação não foi "reproduzir" o que o Torga poderia ter feito. A sua motivação teria sido a notícia da existência de um fojo e teria sido essa a indicação dada ao guia que então contratou. Nós queríamos também explorar a zona, passar pelas antenas na Louriça e retornar por sítio diferente. A caminhada serviria, ainda, como teste prático de GPS.
Com o Daniel apareceu com um amigo nascido em Vilarinho que batizamos de Furna. Não habitou Vilarinho mais do que curtos períodos de férias, onde residia o seu avô, mas conhecia bem a serra. Ao longo da caminhada foi-nos contando pequenas histórias sobre factos que desconhecíamos. Uma outra aprendizagem.
A ideia original era subir da aldeia em direcção às Casarotas e fojo, visitar as antenas da Louriça e descer depois por um antigo caminho. Só que para evitar o vento de frente alteramos o sentido de marcha. Eu tinha a memória de uns prados que já não existem. As minhas recordações de um dia ali passado no final da adolescência estavam também "submergidas". Não pelas águas da albufeira, mas sim pelo avançar do mato. Os poucos terrenos de aluvião do vale da Reibeira das Furnas não são de fácil passagem. Um moinho que recordava em campo aberto estava agora rodeado de arbustos. O problema é que o nosso caminho seguia por ali.
Por sugestão do Daniel, desviamos um pouco para a esquerda e seguimos por terrenos onde o mato não cresce. Um pouco à frente a primeira supresa do dia. Junto ao trilho uns garranos olhavam-nos com uma estranha imobilidade. Como eles não se desviavam, desviámo-nos nós. Só o macho, muito nervoso, se afastou. A fêmea manteve-se estranhamente inquieta mas estática. Sem máquina para registar o momento segui. O Daniel ,que ficou para trás, descobriu depois a razão do estranho comportamento. Um pequeno potro, ainda com vestígios do cordão umbilical, que a égua queria proteger e esconder.
É a partir dos 900 metros que a serra se começa a revelar. Há naquelas paisagens uma grandeza que parece vingar a nossa geografia. São montes nús, pedregosos, de uma magestade impoluta. Ali as poucas árvores só crescem nos locais onde algum solo se formou. O resto são fragas que apenas permitem uma vegetação rasteira. Um esqueleto de um garrano afirmava a presença de lobos e no trilho existem muitos vestígios das suas fezes. .
Por sugestão do Daniel evitámos uma subida complicada para as antenas da Louriça. Junto ao muro do termo de Vilarinho há um antigo caminho florestal que parou ali. O Furna contou-nos que este caminho deveria ter seguido para a fronteira da Portela do Homem. Deveria porque não seguiu. A população de Vilarinho impediu a sua progressão. Onde julgava encontrar terrenos baldios, os Serviços Florestais encontraram terrenos registados que ainda hoje pertencem aos herdeiros dos antigos habitantes. O registo dos baldios em nome dos mais velhos da aldeia foi a forma de evitar que, em nome do progresso florestal, perdessem os pastos que asseguravam a sua existência. Essa batalha ganharam, contra o plano hidrográfico nada puderam fazer. A barragem que submergiu a aldeia de Vilarinho serve, essencialmente, de reserva de água da albufeira de Caniçada, com a qual está ligada por um túnel. A água represada no Homem destina-se ao Cávado, mas, como descobri, também armazena água transferida de Caniçada durante a noite.
Num local que as cartas assinalam como Sonhe há vestígios de uns muros que parecem ser de um estranho fojo sem cova. Os animais deveriam ser "empurrados" a precipitar-se numa queda fatal. No estradão que liga a antenas ao Lindoso avistam-se, nas encostas viradas ao Lima, os muros em V de um fojo de grandes dimensões. Seria este o que Torga procurou? Ou seria o de Vilarinho de menor dimensões? Como faz referência a "fojos" terá visitado os dois? Das antenas às Casarotas o percurso foi fácil e rápido. E é naquelas cumeadas, com a albufeira aos nossos pés, que a paisagem mais nos envolve. É como ganhar asas de águia e planar nas alturas.
As Casarotas continuam um mistério por resolver. Eu tenho para mim que serão abrigos de pastores. Possivelmente poderiam ter a dupla função de também serviram de abrigos para defesa da fronteira. Mas a hipótese de serem antigos monumento funerários é também defendida. Para abrigo dos pastores na vezeira bastaria uma ou duas cabanas e ali existem umas duas dezenas, diz quem defende a tese contrária aos abrigos de pastores. Só que também existem conjuntos do mesmo tamanho na Serra da Peneda/Soajo. As brandas de Poulo da Seida e Branda da Cova são apenas dois exemplos. Possivelmente a verdade poderá ter um pouco de todas as teses.
Descedemos depois para a Chã de Cima. Onde o Furna mostrou-nos provas de uma história pouco contada. Ali também se minerou vulfránio, mas a população escondeu a localização das minas. Durante 3 anos dedicaram-se à sua exploração às escondidas das autoridades. Ganhando alguma prosperidade que permitiu acender cigarros com notas.
Quando tudo parecia fácil demais, a última descida reservou-nos as maiores dificuldades. Depois de tentar descer para a Corga de Trás sem sucesso, voltámos ao plano inicial de descer em direcção a Vilarinho. Só que os caminhos não resistiram ao passar dos tempos e não foi fácil.
Mais uma ez, acabámos o dia em frente de um prato de sopa a trocar impressões sobre a caminhada. Numa próxima será melhor descer das Casarotas em direcção a Brufe. É uma descida fácil e evitam-se os sustos da parte final.

percurso relizado
Thursday, March 29, 2007
Aniversário do UPB
Fui celebrar o aniversário do UPB ao prado de Mouró. A ideia era subirmos em ritmo de passeio, almoçar e regressar. Só que depois de estarmos lá em cima foi complicado resistir ao apelo de continuar. E acabámos por subir até ao Borrageiro. Mas só depois de acrescentarmos uma quantas pedras à mariola UPB.
Vista do Borrageiro a Serra do Gerês é um imenso mar de pedra. Parece impossível que alguém dela possa viver. Mas durante anos muitos fizeram esse milagre. Conho, Curral da Pedra e Prados da Messe são alguns dos nomes desses milagres. Prados altos de onde retiravam sustento. Hoje as coisas são diferentes mas continua a haver algum gado pela serra.
Ao lanche encontrei o que menos gosto no Gerês. A falta de planeamento e ordenamento das povoações. O núcleo urbano das Termas do Gerês cresceu muito mal. As construções foram simplesmente plantadas na encosta. Agora falta-lhe uma unidade. A zona dos antigos hotéis era um bom começo que não quiseram terminar.
Não fiquei a conhecer a história do café onde lanchei, mas tinha sinais de alguém que procurou outros caminhos. O espaço é enorme, mesmo despropositado. No tecto umas bolas de espelhos, “muito disco”, convivem com um enorme aparador rústico. O café parece abrir mais para entretém dos donos, pouco interessa se há clientes. É o ocupar de uma reforma ganha ”lá fora” à espera dos filhos, que não regressaram ou partiram para a “cidade”.
Vista do Borrageiro a Serra do Gerês é um imenso mar de pedra. Parece impossível que alguém dela possa viver. Mas durante anos muitos fizeram esse milagre. Conho, Curral da Pedra e Prados da Messe são alguns dos nomes desses milagres. Prados altos de onde retiravam sustento. Hoje as coisas são diferentes mas continua a haver algum gado pela serra.
Ao lanche encontrei o que menos gosto no Gerês. A falta de planeamento e ordenamento das povoações. O núcleo urbano das Termas do Gerês cresceu muito mal. As construções foram simplesmente plantadas na encosta. Agora falta-lhe uma unidade. A zona dos antigos hotéis era um bom começo que não quiseram terminar.
Não fiquei a conhecer a história do café onde lanchei, mas tinha sinais de alguém que procurou outros caminhos. O espaço é enorme, mesmo despropositado. No tecto umas bolas de espelhos, “muito disco”, convivem com um enorme aparador rústico. O café parece abrir mais para entretém dos donos, pouco interessa se há clientes. É o ocupar de uma reforma ganha ”lá fora” à espera dos filhos, que não regressaram ou partiram para a “cidade”.
Wednesday, March 28, 2007
Pedrada
Domingo, 4 de Março
A primeira tentativa de explorar o percurso que queremos fazer com a AAEUM foi frustrada por um forte temporal, mas resultou em preciosas indicações. No Café Central (Rouças) estivemos a falar com algumas pessoas sobre o que queremos fazer. O caminho já só existe em parte, mas há gado a subir diariamente para prados que o vai mantendo aberto.
A ideia de realizar actividades de pedestrianismo já era antiga e resolvemos iniciar com uma caminhada em zona conhecida. Queremos associar à actividade uma componente cultural. Entre caminhadas com diferentes graus de dificuldade, queremos que sirvam para a descoberta de paisagens, património e tradições.
Escolhemos a Peneda porque permitia associar uma das mais belas paisagens minhotas com um património rico em construções e tradições. Com o Trilho das Brandas (um PR) como base, procuramos soluções que o enriquecesse e tornasse mais atractivo. Sabíamos que isso lhe aumentaria o grau de dificuldade, mas a intenção era também não defraudar os que gostam de caminhar. Traçamos o percurso com o apoio de uma carta antiga e a memória de relatos de trilhos tradicionais. Queremos subir pelo trilho marcado até ao fojo e daí continuar para a Pedrada. Descer depois para a Naia e voltar por um antigo caminho que parece já não existir. As descidas são acentuadas mas parecem possíveis. Do fojo à Pedrada não será complicado e existem relatos da ligação à Pedrada desde a Naia. Faltava apenas descobrir como descer para Rouças.
Como não pudemos caminhar, subimos por um estradão junto ao miradouro de Tibo. Só mesmo o jipe do Tiago poderia subir por ali. No final devemos estar a pouco mais de 2 kms da Pedrada, mas a uma cota muito inferior. O nevoeiro não nos permite ver nada. Nas fragas a água forma cascatas impressionantes. É um espectáculo de belo e puro. Só a natureza nos aproxima da verdade.
Aproveitamos para dar uma volta pela Serra da Peneda. Almoçámos na Branda da Aveleira onde existem marcas de um trilho PR. O Tiago quis ainda passar por Castro Laboreiro, o chamamento do sangue. Num café a senhora descobriu-lhe a ascendência e despede-se com um "traga mais gente". Apesar das novas construções há qualquer coisa que ali morre por dentro. Daí o chamamento em forma de apelo.
Sábado, 10 de Março
Voltei a Rouças para reconhecer a parte do percurso que desconheço. Comecei a caminhar tarde, já depois do almoço, pelo que sinalizei a minha presença no Café Central. Assim, sabiam para onde ia e a quando devia regressar. Vou caminhar a solo, coisa que detesto fazer por razões de segurança. Já ninguém usa o regularmente o caminho que vou fazer. Hoje é mais a ideia do percurso que resiste.
O caminho começa com uma forte inclinação e piso muito mau. Um pouco à frente comecei a seguir um caminho diferente. Avancei durante algum tempo a uma cota muito inferior à pretendida. Fui enganado pela existência de um outro caminho. Corrigi a rota pelo mato. Ao longe o fojo mostra-se. Decidi avançar até às 16h30. Pouco depois do final de um estradão encontrei um pequeno prado com um conjunto de cortelhos. No topo da encosta há uma enorme mariola que me indica o caminho para cima. A inclinação é grande e o terreno é de mato queimado. Efeitos do incêndio de Agosto. Da mariola à Pedrada serão pouco mais de 2000 metros. Depois de uma segunda mariola, no Outeiro Maior, desviei-me para a minha direita de forma a reconhecer o caminho para o fojo.
Desço pelo mesmo local. A orientação é agora mais fácil. A uma cota elevada podemos ir escolhendo o caminho. Numa zona de mato fechado segui gado que descia dos pastos. Quando se apercebem da minha presença simplemente param. Ultrapassei-os a uma distância segura e segui o caminho pelo mato. Nem sempre muito claro. Cheguei ao café perto da hora estimada onde faço um pequeno lanche. Estou cheio de dúvidas sobre o trajecto a realizar amanhã mas não me apetece voltar pelo mesmo local.
Domingo, 12 de Março
O local de encontro era nos Arcos, quando nos encontramos com o resto do grupo já era um pouco tarde. No total somos 18 pessoas com ritmos muito diferentes. O Tiago foi à frente e eu fui ficando com os últimos. Até a Gorbelas as dificuldades não são grandes. Custa um pouco a aquecer mas ao ritmo de cada um todos chegamos lá cima sem grandes problemas. A subida até ao Poulo da Seida é umas das partes mais bonitas. A parte inicial assusta, só que rapidamente se percebe que é curta. A vista sobre os campos em terraços é magnífica. O Poulo da Seida em conjunto com branda junto ao Guidão, que no UPB batizámos de “Vale Encantado”, e que eu desconfio tratar-se do Curral Cova, são as brandas de gado mais bonitas que conheço.
Depois do almoço seguimos para as Lamas do Vez e Fojo. O tamanho do fojo surpreende, o esforço realizado para a sua construção impressiona. É uma medida da “luta” travada pelos povos da montanha com o predador. Justificava-se? Não sei. Prefiro não julgar a história. A todos hoje nos é dificil imaginar a vida naquelas montanhas. Se hoje aquelas povoações são ainda locais ermos, o que seriam em tempos mais remotos, sem estradas, com um clima muito mais frio, com neves que perduravam até bem tarde.
Do fojo continuamos para a Pedrada e descobrimos que existem marcas PR que nos guiam. No Natal, quando fui comer o Bolo-Rei à Pedrada, já tinha detectado uma marca mas só agora confirmo que pertencem ao PR Trilho das Brandas.
Descemos atravessando a Corga da Baja em direção ao prado que agora sei chamar-se Muranho. Perto de Rufe, que seriam os prados altos de Tibo, o grupo separa-se em dois. Uns seguem por Topete e eu sigo com os restantes até à estrada. A inclinação da parte final, e o mau piso, poderia ser muito perigosa para os que não estavam de botas.
Juntamo-nos no Café Central para retemperar as forças e voltar a Braga. No café volto a recolher informações sobre percursos alternativos. No Muranho pareceu-me ser possível seguir para Gorbelas. Seria uma forma mais simples de terminar.
Wednesday, February 21, 2007
O outro relato
Procurei nos volumes da “A criação do Mundo”, uma referência de Miguel Torga a uma jornada na Serra Amarela, também relatada nos seus Diários, que já transcrevi anteriormente. Encontrei-a no quinto volume “O sexto dia”. Transcrevo-o para completar o anterior, mas também porque reencontrei nele a confirmação em como a pedestrianismo não é apenas uma actividade física. Caminhar e descobrir os antigos caminhos, as povoações mais esquecidas, os montes e serras, também uma actividade de cultura e profundo apreço pelo nosso património, seja ele ambiental, construído e humano.
“Sim, a vida profissional corria-me agora bem, até bem demais, por se tornar absorvente. Mas não tinha saúde. E via-me obrigado a procurá-la de todos os jeitos. Fiel devoto dos métodos naturais, mal chegava o Verão, era sobretudo junto das nascentes que me perdia e achava, mais seguro ali do que nas mãos dos colegas, por meus pecados sempre agressivas. Um a um, haviam-me já tirado vários órgãos combalidos. E, a fugir de uma tal sanha operatória, que me retalhava o corpo e a alma, acabei em estagiário da maior parte das termas de Portugal.
Essas prolongadas ausências do consultório eram nocivas ao médico, que entretanto perdia clientes, mas favoreciam o poeta. No intervalo dos tratamentos corria Seca e Meca, numa aprendizagem nunca acabava da realidade pátria, que descrevera já de mil maneiras e continuava a estudar incansavelmente. Precisava cada vez mais de enraizar no húmus nativo. O que escrevia ficava insípido sempre que lhe faltava o sal da terra. Eu próprio ficava espantado, ao fim de cada descoberta, das potencialidades de sugestão criativa contidas em pormenores aparentemente insignificativos, que podiam ser o pelico dum pastor alentejano, a faixa escarlate dum campino do Ribatejo, a copa sem porte de uma figueira algarvia. O menir erguido num planalto, a pintura rupestre num abrigo, o dólmen solitário num ermo, o castro desmoronado num outeiro, a inscrição ideográfico num penedo eram recados do passado que, mesmo enigmáticos enriqueciam o espírito. Até do pão e do vinho que se comiam e bebia em cada lugar se tiravam ensinamentos preciosos. Para já não falar na experiência de certos encontros ocasionais que nos revelam muitas vezes surpreendentes meandros da alma humana, mesmo quando de momento não se lhes descortina verdadeira significação, como aconteceu com o Feixa. A águas no Gerês, tive a notícia da existência de um velho fojo numa das lombas da Serra Amarela. Disposto a conhecê-lo, dirigi-me à aldeia mais próxima, Vilarinho das Furna, à procura de um guia que me havia sido indicado, pelos modos o maior contrabandista das redondezas. Bati-lhe à porta e veio abrir um celta atarracado, loquaz, de olhos azuis e grandes bigodes loiros. Era o próprio. Contratei-o, tomou conta da mochila do farnel e metemo-nos a caminho. Depois de o ouvir discretar por sentenças sobre os mais variados assuntos, tentei conhecer pormenores da sua vida arriscada, que sabia de aventuras. Jurou a pés juntos que eu estava enganado, que me tinham informado mal, que era um patriota, que nunca atravessara a raia com o valor de uma agulha, que o Anjo da Guarda o defendesse de prejudicar num real sequer o país em que nascera.
Desconcertado, mas com a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos os argumentos para decidir a falar. Fiz o rasgado elogio dos seus colegas de ofício e acrescentei que eu próprio me sentiria muito honrado se ele fosse um deles. Nada. Perdi o meu rico latim. O Feixa continuou a ser um cidadão exemplar.
Resolvi então ir às do cabo. E chamei-lhe cobarde, já que não tinha a coragem e a dignidade de assumir os próprios actos.
Emudeceu e não disse mais palavra todo o caminho.
Chegados ao local, examinei minuciosamente a ciclópica construção em V, que terminava num grande fosso onde as feras acabavam por cair e morrer às mãos dos batedores, admirei a tenacidade e a astúcia do homem montanhês e, como eram horas, junto de uma fonte que havia perto, sentámo-nos para almoçar.
Sempre calado, o Feixa tirou do bolso uma grande navalha de ponta e mola, abriu-a e pôs-se a cortar com ela o pão e o bife, a olhar-me de soslaio de vez em quando.
Findo o repasto, iniciámos o regresso, no mesmo silêncio pesado.
Subitamente, o meu companheiro quebrou a mudez. Sem mais preâmbulos, começou a contar. Que sim era contrabandista, que nunca tivera outro modo de vida, que fora ele que metera em Portugal todo o armamento dos monárquicos na altura das incursões do Norte, que chegava a passar para Espanha manadas inteiras de gado, que se gabava de a pregar na menina dos olhos ao mais pintado guarda fiscal. E ia-o provando de mil maneiras.
Ficámos amigos. Sempre que nos víamos era uma festa.
Alguns anos depois, seguia eu de automóvel na companhia de Jeanne pela estrada florestal da fronteira, quando o Feixa apareceu.
– Ó Feixa!
– Ó senhor doutor!
– Que anda você por aqui a fazer?
– A ver uns garranos que trago no pasto.
– Venha daí à Nevosa…
– Dessa está bem livre. O senhor já lá foi?
– Não. É a primeira vez.
– Então desista. Aquilo é uma geladeira. Morre-se de frio. E também ainda estou em jejum…
– Venha e come connosco.
Acabou por entrar no carro, subimos até aos Carris e depois fizemos a pé o resto da escalada.
No alto, abrigados no recôncavo de um penedo, sentámo-nos e a Jeanne pôs a mesa e repartiu a merenda. O Feixa tirou do bolso a sevilhana, abriu-a e ficou pensativo. Por fim, desabafou:
– Pois é verdade, senhor doutor, ávida tem que se lhe diga. Quando penso que somos tão amiguíssimos e já estive para o matar!
– A mim?! A sério?!
– A sério. Com esta navlha. Foi por um triz. Lembra-se do primeiro dia em que nos conhecemos?
– Claro.
– E recorda-se do que me chamou quando eu neguei que era contrabandista?
– Quis espicaçá-lo…
– Reparou que eu não disse mais palavra de aí em diante. É que ia a magicar: dou cabo dele ou não? À hora do almoço, assentei que sim, que o sangraria logo a seguir num sítio azado. Mas Deus teve mão em mim. Não, Feixa, pareceu-me ouvir, quando ia mesmo a perder-me. O homem só disse a verdade. És mesmo um covarde. Que outro nome merece quem se envergonha da sua condição? Cada qual é o que é e deve confessá-lo honradamente. Resolvi então contar-lhe tudo. E não me arrependi. O senhor era de confiança.
– E se não fosse?
– Voltava tudo ao princípio…Santa paciência…”
Ontem estive algum tempo a navegar por cartas antigas que me arranjaram, retratam a paisagem que Torga conheceu. Tentei imaginar que caminho teria feito para chegar ao Fojo saindo de Vilarinho da Furna. Nos próximos tempos vou tentar reconstruir esse caminho e aproveitar para conhecer um pouco melhor a Serra Amarela.
Friday, February 09, 2007
A estratégia
Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez de alguns padres,
mas como não sou religioso,
também não liguei.
Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.
Bertolt Brecht
Este poema veio-me à memória quando escutei na rádio a notícia de que o Governo pretende reduzir as funções nucleares do Estado à defesa, segurança e diplomacia. Estou absolutamente convencido que a gestão da informação pelo actual Primeiro-ministro é um dos maiores exemplos eficiência. Em Portugal não deve haver um político tão hábil na gestão da informação. E não me admirava que no futuro a sua estratégia de comunicação fosse tema de teses universitárias.
A forma como gere a informação, na maioria das vezes a falta de informação, é absolutamente brilhante. Foi anterior governo que quis criar uma central de informação, mas foi este que a criou. E o episódio da trapalhada da anterior tentativa é bem paradigmático da eficiência de comunicação. É que uma coisa dessas não se anuncia.
E porque falo em eficiência? Porque os ciclos são geridos cirurgicamente. A informação é disponibilizada quando produz maior efeito ou menos dano. E lançar esta informação debaixo do "ruído" da campanha do referendo não é por simples acaso. É o momento escolhido para libertar a informação.
O poema é pelo "modus operandi" desta e doutras medidas. A táctica é simples e usada pela maioria dos predadores. Escolhe-se o alvo, procede-se ao seu isolamento e finalmente ataca-se. Foi assim com as farmácias, com os juízes, com os professores, etc.. Primeiro estimulou-se e promoveu-se os sentimentos de "mau vizinho" como a inveja e a mesquinhez. E depois lançaram-se os ataques esperando os restantes fiquem a assobiar para o lado ou mesmo a aplaudir a coragem.
O problema é que na busca da eficiência perde-se a noção do desígnio global. O projecto não nos é explicado porque a gestão da informação, na prática a falta dela, é vital para a estratégia. Vai-se é ficando com a impressão que o primeiro ataque é simplesmente para fazer correr a presa e a cansar. Só depois se dá o ataque.
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez de alguns padres,
mas como não sou religioso,
também não liguei.
Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.
Bertolt Brecht
Este poema veio-me à memória quando escutei na rádio a notícia de que o Governo pretende reduzir as funções nucleares do Estado à defesa, segurança e diplomacia. Estou absolutamente convencido que a gestão da informação pelo actual Primeiro-ministro é um dos maiores exemplos eficiência. Em Portugal não deve haver um político tão hábil na gestão da informação. E não me admirava que no futuro a sua estratégia de comunicação fosse tema de teses universitárias.
A forma como gere a informação, na maioria das vezes a falta de informação, é absolutamente brilhante. Foi anterior governo que quis criar uma central de informação, mas foi este que a criou. E o episódio da trapalhada da anterior tentativa é bem paradigmático da eficiência de comunicação. É que uma coisa dessas não se anuncia.
E porque falo em eficiência? Porque os ciclos são geridos cirurgicamente. A informação é disponibilizada quando produz maior efeito ou menos dano. E lançar esta informação debaixo do "ruído" da campanha do referendo não é por simples acaso. É o momento escolhido para libertar a informação.
O poema é pelo "modus operandi" desta e doutras medidas. A táctica é simples e usada pela maioria dos predadores. Escolhe-se o alvo, procede-se ao seu isolamento e finalmente ataca-se. Foi assim com as farmácias, com os juízes, com os professores, etc.. Primeiro estimulou-se e promoveu-se os sentimentos de "mau vizinho" como a inveja e a mesquinhez. E depois lançaram-se os ataques esperando os restantes fiquem a assobiar para o lado ou mesmo a aplaudir a coragem.
O problema é que na busca da eficiência perde-se a noção do desígnio global. O projecto não nos é explicado porque a gestão da informação, na prática a falta dela, é vital para a estratégia. Vai-se é ficando com a impressão que o primeiro ataque é simplesmente para fazer correr a presa e a cansar. Só depois se dá o ataque.
Wednesday, February 07, 2007
Quase Carris

Recentemente subi aos Carris saindo de Xertelo numa caminhada do UPB. Mais uma vez, o nosso guia foi o Águia-Real que conhece como poucos a zona de Montalegre do PNPG. A caminhada coincidia em parte com o percurso de outra que fiz com os Monte-Acima, mas desta vez tinha a vantagem de estar um tempo mais razoável e não ter que carregar com os mais de 15 kg.
A nossa expectativa era encontrar muita neve. No ano passado um grupo do UPB tinha encontrado locais com mais de 70 cm de neve, numa daquelas caminhadas que de tão extremas se tornam mitos. E havia em todos nós a esperança de reencontrar essas condições. Claro que foi uma esperança que se foi esvanecendo à medida que a semana ìa avançando. Até ficar claro que seria diferente. Ainda assim, a uma caminhada anunciada com muito difícil, apareceram 24 "botistas".
Começamos a caminhar e fui ficando para trás, não de uma forma forma propositada mas porque me apetecia um ritmo calmo e porque tinha sentido umas pontadas num tendão que queria proteger. Razão pela qual a subida acabou por ser feita um pouco em "solitário", afastado do grande grupo, que só reencontrei numa paragem no Espigão da Lama de Pau, para o "perder" pouco depois do marco do Castanheiro, distraído, com o Tiago, com umas pegadas de lobo. Nunca tinha encontrado prova tão visível da existência de lobos e, aparentemente, seriam de mais do que um.
A ideia original seria cruzar a Ribeira das Negras, contornando a norte o Pico da Mantaça, e subir aos Carris pelo Pulo do Lobo. Junto à Ribeira das Negras percebemos que o grupo subia para os currais da Ribeira das Negras e continuámos a segui-los a uns 7/8 minutos. Aparentemente teriam optado por evitar o Pulo do Lobo subindo pela Ribeira das Negras. Para trás ficavam ainda o J Preguiçoso (Jota) e a Cenourinha com os quais íamos mantendo contacto visual. Mais perto percebemos que a ideia seria subir por um trilho que o Tiago já me tinha referenciado. O grupo ia subindo com cuidados e a visão era impressionante, aparentemente não parecia existir caminho. O trilho ficava numa encosta à sombra e parecia haver gelo debaixo da neve. Com o Tiago, que já tinha subido por aquele local, preferi continuar pela Ribeira das Negras. O Jota e Cenourinha, que entretanto tinham chegado, foram connosco. Pouco depois tentámos subir pela ribeira do açude da Mina dos Carris. Um erro. A ribeira desce por uma garganta que se tornou complicada e começamos a pensar de valeria a pena continuar. O Jota subiu mais um pouco e procurámos um local mais resguardado do frio para comer qualquer coisa. A Cenourinha acabou por seguir o Jota, deixando-nos um pequeno sentimento de culpa por não os seguirmos. Nenhum de nós faziam questão de visitar a Mina e já se estava a tornar tarde. Subir pela Ribeira das Negras implicaria descer o Pulo do Lobo, optamos por descer e esperar o grupo no Corgo de Lamalonga.
O Corgo de Lamalonga deve ser a paisagem mais alterada pela mina. O que, não devendo ter existido no local grande actividade mineira, pode parecer estranho. Só que as águas do edifício da lavagem da mina corriam para aquele vale e, por acção da erosão dos terrrenos, ou por efeito químico das águas, o planalto ficou transformado numa imenso deserto. E não seria assim como o atesta a existência de diversos currais. Num desses currais constatei como os pastores calafetavam os currais cobrindo-o com terra que colmatava as fendas.
Descemos seguindo um trilho de mariolas em direcção à Lage dos Bois e Lage dos Infernos. A subida pelo Castanheiro é bem mais suave e percebi porque o Águia-Real tinha medo de apanhar gelo na Lage dos Bois. Com gelo teria sido uma descida muito complicada e difícil, a obrigar a muita atenção. Chegamos a Xertelo já sem luz e corremos para o restaurante da ponte de Cabril onde nos serviram uma excelente sopa. Há uns anos, nesse mesmo restaurante, comi numa quente noite de Agosto, na varanda sobre o pequeno braço da albufeira de Salamonde, uma das melhoras trutas da minha vida. E Cabril ficou para mim com esse sabor.
Thursday, January 18, 2007
Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945
A caminhada de Domingo fez-me recordar uma entrada no Diário de Miguel Torga. Ao reler o diário pareceu-me que o devia transcrever por inteiro. Julgo que Miguel Torga se refere também a este dia num dos volumes da Criação do Mundo. Há pelo menos um relato de um encontro com este pastor, julgo que numa ida dele ao Pico da Nevosa, que merece ser lido em conjunto e que transcreverei mais tarde.
Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945
Todo o dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada, que ou são túmulos de uma necrópele celta, ou habitações pastoris de verão, ou acampamento de tropas romanas, ou armadilhas que o diabo pôs ali para tentação de almas ignorantes. Não sei se alguém de saber já por lá passou e viu aquilo. Uma inscrição em caracteres estranho vai-se apagando no granito, os pastores vão atirando ao chão as lages que cobrem os dolmens ou as construções, e daqui a algum tempo não restará de todo o mistério nenhum sinal. Mas talvez seja melhor assim. Os mistérios são o alimento natural do tempo. E quando os anos os digerem, fica tudo em paz.
A Serra Amarela é um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores.É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão. O guia, um contrabandista celta, loiro e de olhinho azul, é um manancial de saber caseiro, a cultura autêntica de um povo.
- O Senhor já viu nascer cabelo nas unhas? – pergunta-me ele.
- Não.
- Pois se não é sítio dele!
Isto por causa dos excessos e das incompreensões dos serviços florestais, que estão a matar o pastoreio e a reduzir algumas terras montanhesas à miséria.
- Vemos Deus com olhos que não temos … - diz a respeito da sua crença.
E ainda estou a apurar se foi o cura que lhe ministrou a fórmula ou se é pessoal, e já vem esta prevenção salutar:
- Deite-se na pedra, que é melhor! Olhe que uma fraga não respira! Na terra apanha uma carga de reumático…
A hora do almoço chegara, e eu ia-me atirar exausto para o chão.
Mas quando ele me assombra inteiramente, é à tardinha, ao cair da noite, no momento em que um grande rebanho comunitário de duas mil e quinhentas cabras entra na povoação, e do alto do fraguedo me mostra o espectáculo. Está tudo transfigurado. O Pé de Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões e a Calcedónia, ao longe parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens. O vale do Homem, no fundo fértil, verde e brilhante, com lagos de água cristalina a reluzir de onde em onde, parece a terra da promissão. Um silêncio preservado rodeia tudo de paz.E o meu contrabandista, então, perde-se no meio de tanta grandeza e de tanta liberdade, e monologa:
- Acredite que não trocava a minha vida pela de nenhum rei! Gosto tanto destas penedias, que se me tirassem um pedaço a uma, dava conta!
Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945
Todo o dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada, que ou são túmulos de uma necrópele celta, ou habitações pastoris de verão, ou acampamento de tropas romanas, ou armadilhas que o diabo pôs ali para tentação de almas ignorantes. Não sei se alguém de saber já por lá passou e viu aquilo. Uma inscrição em caracteres estranho vai-se apagando no granito, os pastores vão atirando ao chão as lages que cobrem os dolmens ou as construções, e daqui a algum tempo não restará de todo o mistério nenhum sinal. Mas talvez seja melhor assim. Os mistérios são o alimento natural do tempo. E quando os anos os digerem, fica tudo em paz.
A Serra Amarela é um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores.É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão. O guia, um contrabandista celta, loiro e de olhinho azul, é um manancial de saber caseiro, a cultura autêntica de um povo.
- O Senhor já viu nascer cabelo nas unhas? – pergunta-me ele.
- Não.
- Pois se não é sítio dele!
Isto por causa dos excessos e das incompreensões dos serviços florestais, que estão a matar o pastoreio e a reduzir algumas terras montanhesas à miséria.
- Vemos Deus com olhos que não temos … - diz a respeito da sua crença.
E ainda estou a apurar se foi o cura que lhe ministrou a fórmula ou se é pessoal, e já vem esta prevenção salutar:
- Deite-se na pedra, que é melhor! Olhe que uma fraga não respira! Na terra apanha uma carga de reumático…
A hora do almoço chegara, e eu ia-me atirar exausto para o chão.
Mas quando ele me assombra inteiramente, é à tardinha, ao cair da noite, no momento em que um grande rebanho comunitário de duas mil e quinhentas cabras entra na povoação, e do alto do fraguedo me mostra o espectáculo. Está tudo transfigurado. O Pé de Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões e a Calcedónia, ao longe parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens. O vale do Homem, no fundo fértil, verde e brilhante, com lagos de água cristalina a reluzir de onde em onde, parece a terra da promissão. Um silêncio preservado rodeia tudo de paz.E o meu contrabandista, então, perde-se no meio de tanta grandeza e de tanta liberdade, e monologa:
- Acredite que não trocava a minha vida pela de nenhum rei! Gosto tanto destas penedias, que se me tirassem um pedaço a uma, dava conta!
Wednesday, January 17, 2007
As Casarotas da Serra Amarela
trilho realizado (desenhado de memória)No último fim-de-semana “perdi-me” pela Serra Amarela numa caminhada de exploração. Perdi-me não é certamente o termo mais correcto porque o Tiago, um dos companheiros desta caminhada, conhecia o percurso e tinha uma carta militar pela qual nos orientámos sempre que necessário. É um "perdi-me"no sentido de ter caminhado com a liberdade que só a montanha permite. Marcar um rumo e ir fazendo o caminho ao ritmo dos nossos passos.
Já tinha lido em Miguel Torga várias referências às Casarotas e procurei mais informação sobre elas. Encontrei na Biblioteca Pública de Braga, num artigo de Jorge Dias, "As Casarotas da Serra Amarela - Construções megalíticas com uma inscrição", uma explicação que me pareceu mais satisfatória. Há em torno das Casarotas uma certa fantasia e mito que perdura. Antas, abrigos para defesa da fronteira são algumas das hipóteses avançadas, mas inclino-me mais para os que as consideram uma antiga branda de gado. Possivelmente podem até ter sido tudo isso, mas a mim parecem-me muito semelhantes às brandas existentes na Peneda.
Deixámos o carro em Cutelo e enveredámos por um caminho rural. Um pouco depois, junto a um curso de água, cortámos em direcção a Carvalhinha. A uma cota intermédia começamos a caminhar em direcção às antenas (Muro). O Tiago e o amigo já tinham feito este trilho e conheciam o caminho, ou melhor a direcção. A Serra Amarela é uma paisagem bem diferente da Serra do Gerês. É menos acidentada, com muito menos vegetação e menos humanizada. Demorámos cerca de 2h30 a chegar às Casarotas onde abandonámos o projecto inicial de continuar até às antenas. Almoçámos no local que aproveitámos para explorar. De seguida visitámos um fojo de lobo bem perto do local. As marcas do tempo são visíveis mas apesar de tudo ainda se mantém em grande parte intacto. Sabia da existência de um fojo de Vilarinho, Tude de Sousa fala nele em "Serra do Gerez", presumo que seja aquele. Miguel Torga fala em fojos pelo que não seria o único a existir. No regresso, junto a Cortinhas, encontrámos uma pastora que nos disse ainda ter participado em montarias ao lobo neste fojo - o de cima, o principal, mas indicou-nos um outro que não visitámos. Disse-nos também ter visto um lobo recentemente. Era bem perceptível que continuam a ser vistos como uma ameaça. Ali, a paz entre o homem e o lobo está longe de ser declarada.
Lá em cima as paisagens são magníficas. Aos nossos pés a Albufeira de Vilarinho das Furnas. Brufe, Cortinhas, Cutelo, S. João do Campo, Carvalheira e Covide ao alcance de um olhar. Fiquei algum tempo no exercício de identificar os recortes da montanha, alguns permanecem como objectivos por realizar. No regresso decidimos descer seguindo umas mariolas de grande dimensão. Encontramos algumas marcas de um trilho GR que suponho não pertencerem ao Trilho das Casarotas, recentemente marcado pela CM Terras de Bouro, que estranhamente não as visita. Possivelmente seriam marcas de uns trilhos para fazer a travessia Castro Laborreiro – Tourém agora desactivados.
Numa próxima oportunidade espero chegar às antenas e descer depois pelas encostas de Vilarinho das Furnas. Será uma caminhada mais longa e que me permita descobrir outras coisas.
fotos da caminhada
Já tinha lido em Miguel Torga várias referências às Casarotas e procurei mais informação sobre elas. Encontrei na Biblioteca Pública de Braga, num artigo de Jorge Dias, "As Casarotas da Serra Amarela - Construções megalíticas com uma inscrição", uma explicação que me pareceu mais satisfatória. Há em torno das Casarotas uma certa fantasia e mito que perdura. Antas, abrigos para defesa da fronteira são algumas das hipóteses avançadas, mas inclino-me mais para os que as consideram uma antiga branda de gado. Possivelmente podem até ter sido tudo isso, mas a mim parecem-me muito semelhantes às brandas existentes na Peneda.
Deixámos o carro em Cutelo e enveredámos por um caminho rural. Um pouco depois, junto a um curso de água, cortámos em direcção a Carvalhinha. A uma cota intermédia começamos a caminhar em direcção às antenas (Muro). O Tiago e o amigo já tinham feito este trilho e conheciam o caminho, ou melhor a direcção. A Serra Amarela é uma paisagem bem diferente da Serra do Gerês. É menos acidentada, com muito menos vegetação e menos humanizada. Demorámos cerca de 2h30 a chegar às Casarotas onde abandonámos o projecto inicial de continuar até às antenas. Almoçámos no local que aproveitámos para explorar. De seguida visitámos um fojo de lobo bem perto do local. As marcas do tempo são visíveis mas apesar de tudo ainda se mantém em grande parte intacto. Sabia da existência de um fojo de Vilarinho, Tude de Sousa fala nele em "Serra do Gerez", presumo que seja aquele. Miguel Torga fala em fojos pelo que não seria o único a existir. No regresso, junto a Cortinhas, encontrámos uma pastora que nos disse ainda ter participado em montarias ao lobo neste fojo - o de cima, o principal, mas indicou-nos um outro que não visitámos. Disse-nos também ter visto um lobo recentemente. Era bem perceptível que continuam a ser vistos como uma ameaça. Ali, a paz entre o homem e o lobo está longe de ser declarada.
Lá em cima as paisagens são magníficas. Aos nossos pés a Albufeira de Vilarinho das Furnas. Brufe, Cortinhas, Cutelo, S. João do Campo, Carvalheira e Covide ao alcance de um olhar. Fiquei algum tempo no exercício de identificar os recortes da montanha, alguns permanecem como objectivos por realizar. No regresso decidimos descer seguindo umas mariolas de grande dimensão. Encontramos algumas marcas de um trilho GR que suponho não pertencerem ao Trilho das Casarotas, recentemente marcado pela CM Terras de Bouro, que estranhamente não as visita. Possivelmente seriam marcas de uns trilhos para fazer a travessia Castro Laborreiro – Tourém agora desactivados.
Numa próxima oportunidade espero chegar às antenas e descer depois pelas encostas de Vilarinho das Furnas. Será uma caminhada mais longa e que me permita descobrir outras coisas.
fotos da caminhada
Tuesday, January 09, 2007
Trilho Corno do Bico e Trilho Alto dos Morrões
No passado Domingo realizei com o UPB a primeira caminhada de 2007. Fazia já algum tempo que queria caminhar na zona de Paredes de Coura e uma notícia sobre a abertura de um centro de interpretação renovou-me o interesse. Por sugestão do Medronho, vi-me transformado em “guia” num território que desconhecia por completo, mas com a ajuda de todos não foi complicado seguir as indicações dos trilhos escolhidos.
A ideia inicial era fazer o Trilho Corno do Bico, um PR da rede de trilhos da CM de Paredes de Coura, ao qual juntámos outro PR da mesma rede, o Trilho Alto dos Morrões. No total caminhámos uns 12 km num ritmo calmo de passeio.
Eis as descrições dos trilhos segundo os folhetos da CM Paredes de Coura:
Trilho Corno do Bico
“Partimos do pequeno lugar de Túmio, precisamente onde a estrada de alcatrão é substituída pelo caminho empedrado de acesso ao centro do lugar que ainda conserva alguns aspectos interessantes da arquitectura tradicional do Alto Minho. Daqui, seguimos o caminho até desembocar numa bifurcação de caminhos em terra. Seguimos o caminho da esquerda, que nos levará ao interior da floresta do Corno de Bico, composta por uma vasta e densa mancha de carvalhos (Quercus robur). Durante o percurso constatamos a elevada diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas, que, no seu conjunto, constituem o habitat essencial para inúmeras espécies do reino animal. O Corno de Bico é um espaço emblemático para o concelho de Paredes de Coura e de grande importância para a região, considerado um pequeno santuário natural, espaço de rara beleza que o homem moldou de uma forma harmoniosa. Desde tempos remotos que jogou um papel fundamental, servindo de local de culto, de espaço de defesa, de linha de fronteira, de pastagens e de abrigo. Na década de 40 do Século XX, durante o período do Estado Novo, os serviços florestais desencadearam um processo de arborização e de valorização florestal de um espaço que, até então, era ermo pela excessiva actividade pastoril. Hoje, tem um papel importante ao nível da conservação da natureza, o que permitiu a sua inclusão como Sítio Classificado da Rede Europeia NATURA 2000 e na Rede de Áreas Protegidas de Portugal. A par desta classificação, é igualmente importante o património humano das comunidades rurais, que permitiram moldar este território.O caminho desemboca na estrada florestal, que percorreremos porpoucos metros, para depois seguirmos um caminho em terra que nos conduzirá pelo Alto do Espinheiro até ao culminar deste percurso no Corno de Bico, que ostenta um marco geodésico à cota de 883 metros. Deste miradouro natural, rodeado de blocos graníticos, podemos apreciar uma majestosa paisagem que se abre, quer para o Vale do Rio Coura, quer para os Vales dos Rios Vez e Lima. Depois de uma merecida paragem, continuamos por entre a floresta, até desembocarmos novamente na estrada florestal. Viramos à direita para, percorridos cerca de 2 km, virarmos à esquerda, pela Chã do Mouro. Pouco depois, estaremos no local onde teve início este percurso pela floresta da Paisagem Protegida do Corno de Bico.”
Trilho Alto dos Morrões
“Partindo da pequena ermida da Giesteira, iniciamos o percurso pelocaminho que se abre por entre campos murados que, pouco a pouco, vão dando lugar a bouças e campos abandonados cuja vegetação autóctone proliferou de forma espontânea, para nos embrenharmos por completo no extenso carvalhal da Paisagem Protegida. Este bosque de folhosas constitui um óptimo habitat para inúmeras espécies da flora e do reino animal. Aqui, deveremos parar por um pouco para nos instruirmos com a sabedoria da mãe natureza. Esta floresta, antes classificada como Mata Nacional, resultou da plantação levada a cabo no período do Estado Novo, pela Junta de Colonização Interna, no seu polémico Plano Florestal a Norte do Tejo. As espécies arbóreas resultam desta plantação ou da regeneração, destacando-se o carvalho (Quercus robur), o vidoeiro (Betula alba), o castanheiro (Castanea sativa), a faia (Fagus sylvatica), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o azevinho (Ilex aquifolium), entre muitas outras. Em tão rico e diversificado habitat, são inúmeros os animais que aqui encontram abrigo e alimento, destacando-se o lobo ibérico (Canis lúpus signatus), o corço (Capreolus capreolus), o esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), a toupeira-de-água (Gallemis pirennaicus), a águia de asa redonda (Buteo buteo). Para além das espécies do reino animal e do reino vegetal, também são de destacar, quer pela sua ampla variedade, quer pelo seu interessegastronómico, as inúmeras variedades do reino dos fungos, conhecidas vulgarmente porcogumelos. Depois de uma obrigatória, mas apreciada e atenta paragem, continuamos caminho pelo estradão florestal até chegar a uma casa florestal abandonada, no lugar daAtalaia. Seguimos um caminho em terra por entre um bosque de cedros de Oregon, que nos conduzirá ao pitoresco e bucólico lugar de Túmio.Aqui podemos observar alguns exemplos da arquitectura popular, desde os simples espigueiros às típicas casas das comunidades de montanha do território de Coura. Igualmente, fazem parte deste património construído os campos de cultivo, trabalhados em socalcos, regados por água acumulada em “poças” e conduzida por levadas em terra, rodeados por escultóricos muros de pedra solta, bordajados por azevinho. Passado algum tempo alcançamos o local onde teve início este pequeno passeio pelo território do Corno de Bico, que possui um elevado interesse, não só pela sua biodiversidade, como também pelos jogos de luz e cores da paisagem envolvente.”
Foi uma caminhada fácil de fazer, adequada ao período de recobro das festas e dos efeitos das rabanadas em excesso. Iniciámos a caminhada no lugar de Túmio, seguindo o Trilho Corno do Bico, em direcção à floresta do Corno do Bico. O dia estava chuvoso e um pouco à frente encontrámos um nevoeiro que nos dificultou a orientação e nos impediu de desfrutar totalmente da paisagem. O trilho foi realizado em grande parte por estradões florestais, com desníveis pouco acentuados, e pelo interior de uma mata de rara beleza. O contraste dos tons de cobre e verde dava à floresta um ar mágico. Recorrendo a uma imagem que recentemente li, havia qualquer coisa de encanto maternal, uma floresta grávida de futuras Primaveras. Será da idade mas cada mais prefiro a maturidade dos tons de cobre.
A Paisagem Protegida do Corno de Bico resultou do plano de florestação da década de 40 e, apesar de ter consciência dos dramas que o mesmo plano originou em muitas das populações, devemos reconhecer que nos legou uma boa herança. Espero que se mantenha a salvo dos fogos de Verão porque seria uma enorme perda.
Abandonámos o trilho junto da casa florestal do Alto da Atalaia, mais um exemplo de um património abandonado, e começámos a fazer o Trilho do Alto dos Morrões, no sentido inverso ao do marcado no folheto, em direcção a Túmio. A paisagem é muito semelhante e só próximo do lugar de Giesteira se modifica. Nos antigos caminhos, entre os campos murados que recortam os bosques, o verde dos campos em descanso contrastava, ainda mais, com o cobre das copas. Quem está habituado a ver suceder as estações, quem está habituado aos ciclos naturais, quem ainda não rompeu completamente as raízes com a terra e seus ensinamentos, resiste melhor à mudança de humores e sabe que os fins são apenas prenúncios de novos inícios. Para iniciar um novo ano não havia melhor caminhada a fazer.
fotos da caminhada
A ideia inicial era fazer o Trilho Corno do Bico, um PR da rede de trilhos da CM de Paredes de Coura, ao qual juntámos outro PR da mesma rede, o Trilho Alto dos Morrões. No total caminhámos uns 12 km num ritmo calmo de passeio.
Eis as descrições dos trilhos segundo os folhetos da CM Paredes de Coura:
Trilho Corno do Bico
“Partimos do pequeno lugar de Túmio, precisamente onde a estrada de alcatrão é substituída pelo caminho empedrado de acesso ao centro do lugar que ainda conserva alguns aspectos interessantes da arquitectura tradicional do Alto Minho. Daqui, seguimos o caminho até desembocar numa bifurcação de caminhos em terra. Seguimos o caminho da esquerda, que nos levará ao interior da floresta do Corno de Bico, composta por uma vasta e densa mancha de carvalhos (Quercus robur). Durante o percurso constatamos a elevada diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas, que, no seu conjunto, constituem o habitat essencial para inúmeras espécies do reino animal. O Corno de Bico é um espaço emblemático para o concelho de Paredes de Coura e de grande importância para a região, considerado um pequeno santuário natural, espaço de rara beleza que o homem moldou de uma forma harmoniosa. Desde tempos remotos que jogou um papel fundamental, servindo de local de culto, de espaço de defesa, de linha de fronteira, de pastagens e de abrigo. Na década de 40 do Século XX, durante o período do Estado Novo, os serviços florestais desencadearam um processo de arborização e de valorização florestal de um espaço que, até então, era ermo pela excessiva actividade pastoril. Hoje, tem um papel importante ao nível da conservação da natureza, o que permitiu a sua inclusão como Sítio Classificado da Rede Europeia NATURA 2000 e na Rede de Áreas Protegidas de Portugal. A par desta classificação, é igualmente importante o património humano das comunidades rurais, que permitiram moldar este território.O caminho desemboca na estrada florestal, que percorreremos porpoucos metros, para depois seguirmos um caminho em terra que nos conduzirá pelo Alto do Espinheiro até ao culminar deste percurso no Corno de Bico, que ostenta um marco geodésico à cota de 883 metros. Deste miradouro natural, rodeado de blocos graníticos, podemos apreciar uma majestosa paisagem que se abre, quer para o Vale do Rio Coura, quer para os Vales dos Rios Vez e Lima. Depois de uma merecida paragem, continuamos por entre a floresta, até desembocarmos novamente na estrada florestal. Viramos à direita para, percorridos cerca de 2 km, virarmos à esquerda, pela Chã do Mouro. Pouco depois, estaremos no local onde teve início este percurso pela floresta da Paisagem Protegida do Corno de Bico.”
Trilho Alto dos Morrões
“Partindo da pequena ermida da Giesteira, iniciamos o percurso pelocaminho que se abre por entre campos murados que, pouco a pouco, vão dando lugar a bouças e campos abandonados cuja vegetação autóctone proliferou de forma espontânea, para nos embrenharmos por completo no extenso carvalhal da Paisagem Protegida. Este bosque de folhosas constitui um óptimo habitat para inúmeras espécies da flora e do reino animal. Aqui, deveremos parar por um pouco para nos instruirmos com a sabedoria da mãe natureza. Esta floresta, antes classificada como Mata Nacional, resultou da plantação levada a cabo no período do Estado Novo, pela Junta de Colonização Interna, no seu polémico Plano Florestal a Norte do Tejo. As espécies arbóreas resultam desta plantação ou da regeneração, destacando-se o carvalho (Quercus robur), o vidoeiro (Betula alba), o castanheiro (Castanea sativa), a faia (Fagus sylvatica), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o azevinho (Ilex aquifolium), entre muitas outras. Em tão rico e diversificado habitat, são inúmeros os animais que aqui encontram abrigo e alimento, destacando-se o lobo ibérico (Canis lúpus signatus), o corço (Capreolus capreolus), o esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), a toupeira-de-água (Gallemis pirennaicus), a águia de asa redonda (Buteo buteo). Para além das espécies do reino animal e do reino vegetal, também são de destacar, quer pela sua ampla variedade, quer pelo seu interessegastronómico, as inúmeras variedades do reino dos fungos, conhecidas vulgarmente porcogumelos. Depois de uma obrigatória, mas apreciada e atenta paragem, continuamos caminho pelo estradão florestal até chegar a uma casa florestal abandonada, no lugar daAtalaia. Seguimos um caminho em terra por entre um bosque de cedros de Oregon, que nos conduzirá ao pitoresco e bucólico lugar de Túmio.Aqui podemos observar alguns exemplos da arquitectura popular, desde os simples espigueiros às típicas casas das comunidades de montanha do território de Coura. Igualmente, fazem parte deste património construído os campos de cultivo, trabalhados em socalcos, regados por água acumulada em “poças” e conduzida por levadas em terra, rodeados por escultóricos muros de pedra solta, bordajados por azevinho. Passado algum tempo alcançamos o local onde teve início este pequeno passeio pelo território do Corno de Bico, que possui um elevado interesse, não só pela sua biodiversidade, como também pelos jogos de luz e cores da paisagem envolvente.”
Foi uma caminhada fácil de fazer, adequada ao período de recobro das festas e dos efeitos das rabanadas em excesso. Iniciámos a caminhada no lugar de Túmio, seguindo o Trilho Corno do Bico, em direcção à floresta do Corno do Bico. O dia estava chuvoso e um pouco à frente encontrámos um nevoeiro que nos dificultou a orientação e nos impediu de desfrutar totalmente da paisagem. O trilho foi realizado em grande parte por estradões florestais, com desníveis pouco acentuados, e pelo interior de uma mata de rara beleza. O contraste dos tons de cobre e verde dava à floresta um ar mágico. Recorrendo a uma imagem que recentemente li, havia qualquer coisa de encanto maternal, uma floresta grávida de futuras Primaveras. Será da idade mas cada mais prefiro a maturidade dos tons de cobre.
A Paisagem Protegida do Corno de Bico resultou do plano de florestação da década de 40 e, apesar de ter consciência dos dramas que o mesmo plano originou em muitas das populações, devemos reconhecer que nos legou uma boa herança. Espero que se mantenha a salvo dos fogos de Verão porque seria uma enorme perda.
Abandonámos o trilho junto da casa florestal do Alto da Atalaia, mais um exemplo de um património abandonado, e começámos a fazer o Trilho do Alto dos Morrões, no sentido inverso ao do marcado no folheto, em direcção a Túmio. A paisagem é muito semelhante e só próximo do lugar de Giesteira se modifica. Nos antigos caminhos, entre os campos murados que recortam os bosques, o verde dos campos em descanso contrastava, ainda mais, com o cobre das copas. Quem está habituado a ver suceder as estações, quem está habituado aos ciclos naturais, quem ainda não rompeu completamente as raízes com a terra e seus ensinamentos, resiste melhor à mudança de humores e sabe que os fins são apenas prenúncios de novos inícios. Para iniciar um novo ano não havia melhor caminhada a fazer.
fotos da caminhada
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