Thursday, May 24, 2007

Barragem de Vilarinho da Furnas


Duas fotos da construção da Barragem de Vilarinho das Furnas (1968/1969), inaugurada 1972.


"Manuel Antunes, sociólogo e presidente da AFURNA, Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna, foi o último a sair da povoação. «Aproveitei as férias do Natal e vim para aqui. A minha tia estava a viver na aldeia e passámos a passagem de ano de 70 para 71. Éramos os únicos que estávamos na aldeia. No dia seguinte pegámos na trouxa às costas, as últimas coisas que ela tinha, e viemos». Nesse ano, em 1971, a aldeia já fica submersa, apesar da barragem ter sido somente inaugurada a 21 de Maio de 1972. Acabou Vilarinho da Furna.

João Barroso, técnico auxiliar do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, lembra-se de ir «lá à Páscoa, às festas, íamos tomar banho à ponte, ao rio Homem». Lembra-se que tudo mudou quando apareceu o pessoal para trabalhar na barragem. «As pessoas do Campo (aldeia de São Martinho do Campo do Gerês) tinham todas rebanhos e venderam tudo com medo de que lhes roubassem as coisas. Em cada corte dos animais estava uma família a viver, quatro ou cinco indivíduos que vieram para aqui em condições sub-humanas».

Manuel Antunes recorda que quando era pequenino — nasceu em 1946 — já se falava «que vinha uma barragem. Com essa história, nós brincávamos no rio a fazer barragens, mal sabíamos que era uma barragem que ia destruir a aldeia».Nos anos 50 tudo começa a tomar forma. Estudavam-se os terrenos, faziam-se furos. A barragem estava aí. Começa a ser construída em 67. Fecha em 71. Morre Vilarinho da Furna." retirado de http://www.serra-do-geres.com/


barragem já concluída


BARRAGEM DE VILARINHO DAS FURNAS
UTILIZAÇÕES
- Energia / Derivação

LOCALIZAÇÃO
DADOS GERAIS
Distrito - BragaConcelho - Terras do BouroLocal - S. João do Campo

Bacia Hidrográfica - Cávado Linha de Água - Rio Homem
Promotor - CPPE, Cª. Portuguesa de Produção de Electricidade, SADono de Obra (RSB) - CPPE
Projectista - Hidro Eléctrica do Cávado

Construtor - MAGOPEPAno de Projecto - 1966
Ano de Conclusão - 1972
CARACTERÍSTICAS HIDROLÓGICAS
Área da Bacia Hidrográfica - 77 km2
CARACTERÍSTICAS DA ALBUFEIRA

Área inundada ao NPA - 3460 x 1000m2Capacidade total - 117690 x 1000m3
Capacidade útil - 116080 x 1000m3
Nível de pleno armazenamento (NPA) - 569,5 m
Nível de máxima cheia (NMC) - 570 m
CARACTERÍSTICAS DA BARRAGEM
Betão - ArcoAltura acima da fundação - 94 m
Altura acima da fundação - 94 m
Cota do coroamento - 570 m
Comprimento do coroamento - 385 m
Fundação - Granito
Volume de betão - 294 x 1000 m3
DESCARREGADOR DE CHEIAS
Localização - Margem direita
Tipo de controlo - Controlado
Tipo de descarregador - Afogado lateral em poço
Comportas - 2 comportas vagão
Caudal máximo descarregado - 280 m3/s
Dissipação de energia - Trampolim
DESCARGA DE FUNDO
Localização - Talvegue
Tipo - Através da barragem
Secção da conduta - D 2,60
Caudal máximo - 180 m3/s
Controlo a jusante - Sim
Dissipação de energia - Jacto oco
CENTRAL HIDROELÉCTRICA
Tipo de central - Céu aberto
Nº de grupos instalados - 2
Tipo de grupos - Francis
Potência total Instalada - 125 MW
Energia produzida em ano médio - 225 GWh

fontes: http://www.serra-do-geres.com/ e http://cnpgb.inag.pt/

Tuesday, May 22, 2007

Novamente Serra Amarela


Domingo voltei à Serra Amarela para registar a ligação de Brufe às Casarotas e explorar na totalidade o caminho de Vilarinho aos prados debaixo da Louriça. Deixámos o jipe do Tiago um pouco antes de Brufe e começamos a fazer parte do Trilho Casarotas marcado pela CM Terras de Bouro. A entrada está muito bem sinalizada e um pouco acima da estrada existe um pequeno fojo de paredes convergentes. Os muros devem ter sido reparados recentemente mas as marcas do tempo são muito claras. Aos muros laterais e ao poço falta a dimensão que já devem ter tido. Na carta antiga a esta zona está designada por Colmeias do Pito e existem vestígios de várias silhas de ursos que protegeriam as colmeias.

O trilho segue em direcção a Brufe por uma portela até um pequeno planalto onde nos desviámos em direcção a Mata Porcos. Bem perto de nós andava o rebanho cabras de Cortinhas, um dos lugares de Brufe. Na última vez que passei por lá um dos habitantes disse-me que agora eram apenas 3 as pessoas que tinham animais. Este rebanho possui o certificado de agricultura biológica e é dele que saem os cabritos para o “Abocanhado”, o conhecido restaurante de Brufe.

O trilho marcado pela CM Terras de Bouro não visita as Casarotas, mas percebi que há nele uma espécie de convite para que os caminheiros mais aventureiros o façam. O convite de que falo é um pequeno desvio logo interrompido, mas que um pouco à frente segue com umas antigas marcações de um GR até às Casarotas. Com estas marcas e as mariolas é quase impossível não chegar ao local, marcado nas cartas modernas como Chã do Salgueiral. Sobre as Casarotas já escrevi na primeira vez que as visitei.

Acima dos 1100 metros a serra estava coberta por um manto nevoeiro pelo que continuámos o nosso caminho sem grandes paragens. Num ritmo não muito elevado seguimos até à Louriça onde almoçámos mais abrigados. Na descida para Vilarinho, no Sonhe, enquanto procurávamos a entrada para o “estradão”, encontrámos um pessoa que nos abordou com – “vocês vão-se perder”. De facto o nevoeiro estava cada vez mais cerrado e aconselhava muitos cuidados. Não fosse conhecermos o caminho, e termos o trilho registado no GPS, o melhor seria voltar para Brufe. Contou-nos algumas histórias de pessoas que se tinham perdido para nos aconselhar a não nos metermos ao monte, mas ficou mais sossegado quando lhe esclarecemos que já conhecíamos o caminho e tinhamos cartas, bússola e GPS. Pouco depois verificámos bem a dificuldade de orientação no meio do nevoeiro. Sem referências, apenas o GPS nos recolocava no percurso.

Descemos até Vilarinho sempre pelo antigo caminho e de facto na parte final a vegetação não ajuda. Bem no final encontrámos 3 estudantes checos em Erasmo na Universidade de Lisboa. Estavam também um pouco perdidos e ajudamo-nos mutuamente a sair do labirinto que a vegetação criou. No final tivemos uma boleia que nos deixou no local de partida e evitámos caminhar por estrada.

Tuesday, May 15, 2007

Espanha aqui tão perto

Participei recentemente num congresso em Espanha que me deu a oportunidade de constatar, mais uma vez, as diferenças e semelhanças entre os nossos dois povos. E aqui fico com um problema porque continuo a olhar Espanha como um todo. Só que Espanha por vezes insiste em mostrar-se por partes. Nas conversas informais ficava por vezes surpreendido com a natureza de algumas questões. Há no debate político e social em Espanha coisas que só dificilmente compreendo. O facto de ser de um país com uma identidade nacional com séculos de história dificulta-me o entendimento da questão basca, catalã ou galega. E já nem falo do terrorismo, mas sim dos pequenos episódios que estes nacionalismos despertam. Ver as grandes questões reduzidas aos pequenos nadas que afectam o nosso quotidiano, é ver as grandes questões reduzidas a pormenores burlescos.

É talvez aí que nos sentimos um pouco melhor porque no resto saímos sempre a perder. Sem querer ferir o orgulho pátrio, Espanha ganha-nos aos pontos em quase tudo. É um país mais moderno, menos preso aos formalismos e muito mais prático. Há um exemplo que pela sua actualidade merece ser citado. No último concurso de acesso ao ensino superior a maioria das universidades tinha já os cursos segundo Bolonha e até ao final deverão estar a totalidade nos novos currículos. Portugal é até apontado como um bom exemplo pela Comunidade Europeia. Espanha só em 2010 pretende passar para os novos currículos. Sem pressas, está a fazer uma revisão tranquila. Como "depressa e bem, há poucos quem" não é complicado imaginar quem fará melhor esta passagem. Portugal condicionou os currículos aos novos normativos sem discutir suficientemente as vantagens e inconvenientes das diversas opções. Simplesmente cortou e colou para a nova bitola. A Espanha, ao contrário, sem pressas, prepara e discute esta oportunidade. Se Portugal é o "bom aluno" da Declaração de Bolonha, é a Espanha que aprende com ela. É a diferença paroquial de ser o primeiro em oposição à opção de estar entre os melhores. A mim não me importa que Portugal seja pequeno, só me importa que seja pequenino.

Tuesday, April 24, 2007

Portela de Leonte - Prados da Messe

No último dia 15 de Abril subi com a AAEUM aos Prados da Messe saindo de Portela de Leonte. Era a segunda actividade que organizávamos e não contava com tanta gente. É verdade que o tempo ajudou, mas a adesão também comprova o interesse que as actividades pedestres estão a despertar.

Entre os 35 caminheiros e caminheiras que responderam ao nosso convite havia diferentes experiências. Mas passo a passo o caminho fez-se. Fizemos a primeira paragem no Mourô para recuperar um pouco do esforço inicial. Há sempre quem procure forçar a marcha acima do seu ritmo e factura pode ser pesada. No trilho o grupo rapidamente se dividia em 3. E competia-me acompanhar o último, mais do que mostrar o caminho importava motivar. É o "já falta pouco" do costume. Na Freza, a paragem foi mais para deixar as pessoas admirar a paisagem sobre o Vale Teixeira. Começo a ter alguma dificuldade em nomear um local preferido na Serra do Gerês, mas recordo da sensação de deslumbramento que aquela paisagem me provocou na primeira vez. Foi alí, e um pouco mais à frente, na Lomba do Pau, os participantes começaram ter do Gerês uma ideia mais real. Ninguém pode pretender conhecê-lo sem subir à serra. O resto é só vê-lo por fora, sem o sentir. É como ler as formas das letras sem chegar a formar palavras.

As mochilas abriram-se no Conho para refeição mais completa e descansar um pouco. Fiquei um pouco a olhar as Fichinhas e a programar a caminhada de descoberta até Fafião. A ideia de descer aquele vale não me sai da cabeça. O caminho Prados da Messe foi rápido e na descida para a Costa Sabrosa decidimos fazer um desvio pelos Prados Caveiros. Em boa hora. O prado, que não conhecia, é muito bonito. O abrigo está derrubado e não há sinais de utilização há muito tempo. No livro sobre a Vilarinho das Furnas, Jorge Dias refere-se a este prado como sendo um dos prados de vacas da aldeia. Com o desaparecimento da aldeia de Vilarinho este prado poderá ter sido deixado ao abandono. Ou, sendo um dos mais afastados, o abandono poderia até ser anterior ao desaparecimento da aldeia com a diminuição do número de vacas.

Na saída deste prado, a vista que se alcança sobre a Ribeira de Monção e Mata da Albergaria justificaria só por si o pequeno desvio realizado. É preciso alguma atenção para o identificar porque as mariolas apenas se adivinham.

Subir a Costa Sabrosa é complicado mas descer não é mais fácil. Descer com sapatilhas pode ser mesmo muito complicado, como constartei em algumas das pessoas que acompanhava. Já estrada, caminhei de regresso à Portela de Lente. Foi a primeira vez que percorri a pé aquele pedaço da Mata da Albergaria. Imaginar ali um incêndio é assustador.

Mais tarde, ao descermos de Leonte para o Gerês, encontramos uma víbora no meio da estrada. Descemos do carro e ficamos a admirá-la. São muito mais pequenas do que as pessoas imaginam. Eu não gosto de cobras, mas entre a emoção de ver a minha primeira víbora em liberdade não senti qualquer medo ou repulsa. Aproveitava o calor do alcatrão no fim da tarde e não parecia interessada em sair de lá. Para evitar que algum carro a esmagasse, com a ajuda de um cajado, retiramo-la da estrada. Fechada no carro uma colega reclamava connosco. Fizemos o que deveríamos ter feito. Naquele local o seu destino seria ficar esmagada.

Friday, April 13, 2007

Pela Serra Amarela nas pegadas de Miguel Torga

percurso imaginado

À cerca de 15 dias voltei à Serra Amarela numa caminhada com o UPB para percorrer os lugares que deslumbraram Miguel Torga. Não posso garantir que o pecurso realizado seja o por ele realizado , mas passámos por alguns dos locais que refere ter visitado em 24 Julho de 1945. Esta caminhada nasceu de uma outra, que fiz com o Tiago e com o Jota. Na altura, por razões de tempo, desistimos de continuar em direcção às antenas da Louriça e ficamos do alto da Serra a olhar para os montes a imaginar a "reparação" do insucesso. Apoiados numa carta antiga procuramos imaginar uma jornada pelas antigas "vezeiras" da aldeia na Serra Amarela. A preocupação não foi "reproduzir" o que o Torga poderia ter feito. A sua motivação teria sido a notícia da existência de um fojo e teria sido essa a indicação dada ao guia que então contratou. Nós queríamos também explorar a zona, passar pelas antenas na Louriça e retornar por sítio diferente. A caminhada serviria, ainda, como teste prático de GPS.

Com o Daniel apareceu com um amigo nascido em Vilarinho que batizamos de Furna. Não habitou Vilarinho mais do que curtos períodos de férias, onde residia o seu avô, mas conhecia bem a serra. Ao longo da caminhada foi-nos contando pequenas histórias sobre factos que desconhecíamos. Uma outra aprendizagem.

A ideia original era subir da aldeia em direcção às Casarotas e fojo, visitar as antenas da Louriça e descer depois por um antigo caminho. Só que para evitar o vento de frente alteramos o sentido de marcha. Eu tinha a memória de uns prados que já não existem. As minhas recordações de um dia ali passado no final da adolescência estavam também "submergidas". Não pelas águas da albufeira, mas sim pelo avançar do mato. Os poucos terrenos de aluvião do vale da Reibeira das Furnas não são de fácil passagem. Um moinho que recordava em campo aberto estava agora rodeado de arbustos. O problema é que o nosso caminho seguia por ali.
Por sugestão do Daniel, desviamos um pouco para a esquerda e seguimos por terrenos onde o mato não cresce. Um pouco à frente a primeira supresa do dia. Junto ao trilho uns garranos olhavam-nos com uma estranha imobilidade. Como eles não se desviavam, desviámo-nos nós. Só o macho, muito nervoso, se afastou. A fêmea manteve-se estranhamente inquieta mas estática. Sem máquina para registar o momento segui. O Daniel ,que ficou para trás, descobriu depois a razão do estranho comportamento. Um pequeno potro, ainda com vestígios do cordão umbilical, que a égua queria proteger e esconder.

É a partir dos 900 metros que a serra se começa a revelar. Há naquelas paisagens uma grandeza que parece vingar a nossa geografia. São montes nús, pedregosos, de uma magestade impoluta. Ali as poucas árvores só crescem nos locais onde algum solo se formou. O resto são fragas que apenas permitem uma vegetação rasteira. Um esqueleto de um garrano afirmava a presença de lobos e no trilho existem muitos vestígios das suas fezes. .

Por sugestão do Daniel evitámos uma subida complicada para as antenas da Louriça. Junto ao muro do termo de Vilarinho há um antigo caminho florestal que parou ali. O Furna contou-nos que este caminho deveria ter seguido para a fronteira da Portela do Homem. Deveria porque não seguiu. A população de Vilarinho impediu a sua progressão. Onde julgava encontrar terrenos baldios, os Serviços Florestais encontraram terrenos registados que ainda hoje pertencem aos herdeiros dos antigos habitantes. O registo dos baldios em nome dos mais velhos da aldeia foi a forma de evitar que, em nome do progresso florestal, perdessem os pastos que asseguravam a sua existência. Essa batalha ganharam, contra o plano hidrográfico nada puderam fazer. A barragem que submergiu a aldeia de Vilarinho serve, essencialmente, de reserva de água da albufeira de Caniçada, com a qual está ligada por um túnel. A água represada no Homem destina-se ao Cávado, mas, como descobri, também armazena água transferida de Caniçada durante a noite.

Num local que as cartas assinalam como Sonhe há vestígios de uns muros que parecem ser de um estranho fojo sem cova. Os animais deveriam ser "empurrados" a precipitar-se numa queda fatal. No estradão que liga a antenas ao Lindoso avistam-se, nas encostas viradas ao Lima, os muros em V de um fojo de grandes dimensões. Seria este o que Torga procurou? Ou seria o de Vilarinho de menor dimensões? Como faz referência a "fojos" terá visitado os dois? Das antenas às Casarotas o percurso foi fácil e rápido. E é naquelas cumeadas, com a albufeira aos nossos pés, que a paisagem mais nos envolve. É como ganhar asas de águia e planar nas alturas.

As Casarotas continuam um mistério por resolver. Eu tenho para mim que serão abrigos de pastores. Possivelmente poderiam ter a dupla função de também serviram de abrigos para defesa da fronteira. Mas a hipótese de serem antigos monumento funerários é também defendida. Para abrigo dos pastores na vezeira bastaria uma ou duas cabanas e ali existem umas duas dezenas, diz quem defende a tese contrária aos abrigos de pastores. Só que também existem conjuntos do mesmo tamanho na Serra da Peneda/Soajo. As brandas de Poulo da Seida e Branda da Cova são apenas dois exemplos. Possivelmente a verdade poderá ter um pouco de todas as teses.

Descedemos depois para a Chã de Cima. Onde o Furna mostrou-nos provas de uma história pouco contada. Ali também se minerou vulfránio, mas a população escondeu a localização das minas. Durante 3 anos dedicaram-se à sua exploração às escondidas das autoridades. Ganhando alguma prosperidade que permitiu acender cigarros com notas.

Quando tudo parecia fácil demais, a última descida reservou-nos as maiores dificuldades. Depois de tentar descer para a Corga de Trás sem sucesso, voltámos ao plano inicial de descer em direcção a Vilarinho. Só que os caminhos não resistiram ao passar dos tempos e não foi fácil.
Mais uma ez, acabámos o dia em frente de um prato de sopa a trocar impressões sobre a caminhada. Numa próxima será melhor descer das Casarotas em direcção a Brufe. É uma descida fácil e evitam-se os sustos da parte final.

percurso relizado

Thursday, March 29, 2007

Aniversário do UPB

Fui celebrar o aniversário do UPB ao prado de Mouró. A ideia era subirmos em ritmo de passeio, almoçar e regressar. Só que depois de estarmos lá em cima foi complicado resistir ao apelo de continuar. E acabámos por subir até ao Borrageiro. Mas só depois de acrescentarmos uma quantas pedras à mariola UPB.

Vista do Borrageiro a Serra do Gerês é um imenso mar de pedra. Parece impossível que alguém dela possa viver. Mas durante anos muitos fizeram esse milagre. Conho, Curral da Pedra e Prados da Messe são alguns dos nomes desses milagres. Prados altos de onde retiravam sustento. Hoje as coisas são diferentes mas continua a haver algum gado pela serra.

Ao lanche encontrei o que menos gosto no Gerês. A falta de planeamento e ordenamento das povoações. O núcleo urbano das Termas do Gerês cresceu muito mal. As construções foram simplesmente plantadas na encosta. Agora falta-lhe uma unidade. A zona dos antigos hotéis era um bom começo que não quiseram terminar.

Não fiquei a conhecer a história do café onde lanchei, mas tinha sinais de alguém que procurou outros caminhos. O espaço é enorme, mesmo despropositado. No tecto umas bolas de espelhos, “muito disco”, convivem com um enorme aparador rústico. O café parece abrir mais para entretém dos donos, pouco interessa se há clientes. É o ocupar de uma reforma ganha ”lá fora” à espera dos filhos, que não regressaram ou partiram para a “cidade”.

Wednesday, March 28, 2007

Pedrada


Domingo, 4 de Março

A primeira tentativa de explorar o percurso que queremos fazer com a AAEUM foi frustrada por um forte temporal, mas resultou em preciosas indicações. No Café Central (Rouças) estivemos a falar com algumas pessoas sobre o que queremos fazer. O caminho já só existe em parte, mas há gado a subir diariamente para prados que o vai mantendo aberto.

A ideia de realizar actividades de pedestrianismo já era antiga e resolvemos iniciar com uma caminhada em zona conhecida. Queremos associar à actividade uma componente cultural. Entre caminhadas com diferentes graus de dificuldade, queremos que sirvam para a descoberta de paisagens, património e tradições.

Escolhemos a Peneda porque permitia associar uma das mais belas paisagens minhotas com um património rico em construções e tradições. Com o Trilho das Brandas (um PR) como base, procuramos soluções que o enriquecesse e tornasse mais atractivo. Sabíamos que isso lhe aumentaria o grau de dificuldade, mas a intenção era também não defraudar os que gostam de caminhar. Traçamos o percurso com o apoio de uma carta antiga e a memória de relatos de trilhos tradicionais. Queremos subir pelo trilho marcado até ao fojo e daí continuar para a Pedrada. Descer depois para a Naia e voltar por um antigo caminho que parece já não existir. As descidas são acentuadas mas parecem possíveis. Do fojo à Pedrada não será complicado e existem relatos da ligação à Pedrada desde a Naia. Faltava apenas descobrir como descer para Rouças.

Como não pudemos caminhar, subimos por um estradão junto ao miradouro de Tibo. Só mesmo o jipe do Tiago poderia subir por ali. No final devemos estar a pouco mais de 2 kms da Pedrada, mas a uma cota muito inferior. O nevoeiro não nos permite ver nada. Nas fragas a água forma cascatas impressionantes. É um espectáculo de belo e puro. Só a natureza nos aproxima da verdade.

Aproveitamos para dar uma volta pela Serra da Peneda. Almoçámos na Branda da Aveleira onde existem marcas de um trilho PR. O Tiago quis ainda passar por Castro Laboreiro, o chamamento do sangue. Num café a senhora descobriu-lhe a ascendência e despede-se com um "traga mais gente". Apesar das novas construções há qualquer coisa que ali morre por dentro. Daí o chamamento em forma de apelo.

Sábado, 10 de Março

Voltei a Rouças para reconhecer a parte do percurso que desconheço. Comecei a caminhar tarde, já depois do almoço, pelo que sinalizei a minha presença no Café Central. Assim, sabiam para onde ia e a quando devia regressar. Vou caminhar a solo, coisa que detesto fazer por razões de segurança. Já ninguém usa o regularmente o caminho que vou fazer. Hoje é mais a ideia do percurso que resiste.

O caminho começa com uma forte inclinação e piso muito mau. Um pouco à frente comecei a seguir um caminho diferente. Avancei durante algum tempo a uma cota muito inferior à pretendida. Fui enganado pela existência de um outro caminho. Corrigi a rota pelo mato. Ao longe o fojo mostra-se. Decidi avançar até às 16h30. Pouco depois do final de um estradão encontrei um pequeno prado com um conjunto de cortelhos. No topo da encosta há uma enorme mariola que me indica o caminho para cima. A inclinação é grande e o terreno é de mato queimado. Efeitos do incêndio de Agosto. Da mariola à Pedrada serão pouco mais de 2000 metros. Depois de uma segunda mariola, no Outeiro Maior, desviei-me para a minha direita de forma a reconhecer o caminho para o fojo.

Desço pelo mesmo local. A orientação é agora mais fácil. A uma cota elevada podemos ir escolhendo o caminho. Numa zona de mato fechado segui gado que descia dos pastos. Quando se apercebem da minha presença simplemente param. Ultrapassei-os a uma distância segura e segui o caminho pelo mato. Nem sempre muito claro. Cheguei ao café perto da hora estimada onde faço um pequeno lanche. Estou cheio de dúvidas sobre o trajecto a realizar amanhã mas não me apetece voltar pelo mesmo local.

Domingo, 12 de Março

O local de encontro era nos Arcos, quando nos encontramos com o resto do grupo já era um pouco tarde. No total somos 18 pessoas com ritmos muito diferentes. O Tiago foi à frente e eu fui ficando com os últimos. Até a Gorbelas as dificuldades não são grandes. Custa um pouco a aquecer mas ao ritmo de cada um todos chegamos lá cima sem grandes problemas. A subida até ao Poulo da Seida é umas das partes mais bonitas. A parte inicial assusta, só que rapidamente se percebe que é curta. A vista sobre os campos em terraços é magnífica. O Poulo da Seida em conjunto com branda junto ao Guidão, que no UPB batizámos de “Vale Encantado”, e que eu desconfio tratar-se do Curral Cova, são as brandas de gado mais bonitas que conheço.

Depois do almoço seguimos para as Lamas do Vez e Fojo. O tamanho do fojo surpreende, o esforço realizado para a sua construção impressiona. É uma medida da “luta” travada pelos povos da montanha com o predador. Justificava-se? Não sei. Prefiro não julgar a história. A todos hoje nos é dificil imaginar a vida naquelas montanhas. Se hoje aquelas povoações são ainda locais ermos, o que seriam em tempos mais remotos, sem estradas, com um clima muito mais frio, com neves que perduravam até bem tarde.

Do fojo continuamos para a Pedrada e descobrimos que existem marcas PR que nos guiam. No Natal, quando fui comer o Bolo-Rei à Pedrada, já tinha detectado uma marca mas só agora confirmo que pertencem ao PR Trilho das Brandas.

Descemos atravessando a Corga da Baja em direção ao prado que agora sei chamar-se Muranho. Perto de Rufe, que seriam os prados altos de Tibo, o grupo separa-se em dois. Uns seguem por Topete e eu sigo com os restantes até à estrada. A inclinação da parte final, e o mau piso, poderia ser muito perigosa para os que não estavam de botas.

Juntamo-nos no Café Central para retemperar as forças e voltar a Braga. No café volto a recolher informações sobre percursos alternativos. No Muranho pareceu-me ser possível seguir para Gorbelas. Seria uma forma mais simples de terminar.

Wednesday, February 21, 2007

O outro relato

Procurei nos volumes da “A criação do Mundo”, uma referência de Miguel Torga a uma jornada na Serra Amarela, também relatada nos seus Diários, que já transcrevi anteriormente. Encontrei-a no quinto volume “O sexto dia”. Transcrevo-o para completar o anterior, mas também porque reencontrei nele a confirmação em como a pedestrianismo não é apenas uma actividade física. Caminhar e descobrir os antigos caminhos, as povoações mais esquecidas, os montes e serras, também uma actividade de cultura e profundo apreço pelo nosso património, seja ele ambiental, construído e humano.

“Sim, a vida profissional corria-me agora bem, até bem demais, por se tornar absorvente. Mas não tinha saúde. E via-me obrigado a procurá-la de todos os jeitos. Fiel devoto dos métodos naturais, mal chegava o Verão, era sobretudo junto das nascentes que me perdia e achava, mais seguro ali do que nas mãos dos colegas, por meus pecados sempre agressivas. Um a um, haviam-me já tirado vários órgãos combalidos. E, a fugir de uma tal sanha operatória, que me retalhava o corpo e a alma, acabei em estagiário da maior parte das termas de Portugal.
Essas prolongadas ausências do consultório eram nocivas ao médico, que entretanto perdia clientes, mas favoreciam o poeta. No intervalo dos tratamentos corria Seca e Meca, numa aprendizagem nunca acabava da realidade pátria, que descrevera já de mil maneiras e continuava a estudar incansavelmente. Precisava cada vez mais de enraizar no húmus nativo. O que escrevia ficava insípido sempre que lhe faltava o sal da terra. Eu próprio ficava espantado, ao fim de cada descoberta, das potencialidades de sugestão criativa contidas em pormenores aparentemente insignificativos, que podiam ser o pelico dum pastor alentejano, a faixa escarlate dum campino do Ribatejo, a copa sem porte de uma figueira algarvia. O menir erguido num planalto, a pintura rupestre num abrigo, o dólmen solitário num ermo, o castro desmoronado num outeiro, a inscrição ideográfico num penedo eram recados do passado que, mesmo enigmáticos enriqueciam o espírito. Até do pão e do vinho que se comiam e bebia em cada lugar se tiravam ensinamentos preciosos. Para já não falar na experiência de certos encontros ocasionais que nos revelam muitas vezes surpreendentes meandros da alma humana, mesmo quando de momento não se lhes descortina verdadeira significação, como aconteceu com o Feixa. A águas no Gerês, tive a notícia da existência de um velho fojo numa das lombas da Serra Amarela. Disposto a conhecê-lo, dirigi-me à aldeia mais próxima, Vilarinho das Furna, à procura de um guia que me havia sido indicado, pelos modos o maior contrabandista das redondezas. Bati-lhe à porta e veio abrir um celta atarracado, loquaz, de olhos azuis e grandes bigodes loiros. Era o próprio. Contratei-o, tomou conta da mochila do farnel e metemo-nos a caminho. Depois de o ouvir discretar por sentenças sobre os mais variados assuntos, tentei conhecer pormenores da sua vida arriscada, que sabia de aventuras. Jurou a pés juntos que eu estava enganado, que me tinham informado mal, que era um patriota, que nunca atravessara a raia com o valor de uma agulha, que o Anjo da Guarda o defendesse de prejudicar num real sequer o país em que nascera.
Desconcertado, mas com a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos a curiosidade ainda mais aguçada, recorri a todos os argumentos para decidir a falar. Fiz o rasgado elogio dos seus colegas de ofício e acrescentei que eu próprio me sentiria muito honrado se ele fosse um deles. Nada. Perdi o meu rico latim. O Feixa continuou a ser um cidadão exemplar.
Resolvi então ir às do cabo. E chamei-lhe cobarde, já que não tinha a coragem e a dignidade de assumir os próprios actos.
Emudeceu e não disse mais palavra todo o caminho.
Chegados ao local, examinei minuciosamente a ciclópica construção em V, que terminava num grande fosso onde as feras acabavam por cair e morrer às mãos dos batedores, admirei a tenacidade e a astúcia do homem montanhês e, como eram horas, junto de uma fonte que havia perto, sentámo-nos para almoçar.
Sempre calado, o Feixa tirou do bolso uma grande navalha de ponta e mola, abriu-a e pôs-se a cortar com ela o pão e o bife, a olhar-me de soslaio de vez em quando.
Findo o repasto, iniciámos o regresso, no mesmo silêncio pesado.
Subitamente, o meu companheiro quebrou a mudez. Sem mais preâmbulos, começou a contar. Que sim era contrabandista, que nunca tivera outro modo de vida, que fora ele que metera em Portugal todo o armamento dos monárquicos na altura das incursões do Norte, que chegava a passar para Espanha manadas inteiras de gado, que se gabava de a pregar na menina dos olhos ao mais pintado guarda fiscal. E ia-o provando de mil maneiras.
Ficámos amigos. Sempre que nos víamos era uma festa.
Alguns anos depois, seguia eu de automóvel na companhia de Jeanne pela estrada florestal da fronteira, quando o Feixa apareceu.
– Ó Feixa!
– Ó senhor doutor!
– Que anda você por aqui a fazer?
– A ver uns garranos que trago no pasto.
– Venha daí à Nevosa…
– Dessa está bem livre. O senhor já lá foi?
– Não. É a primeira vez.
– Então desista. Aquilo é uma geladeira. Morre-se de frio. E também ainda estou em jejum…
– Venha e come connosco.
Acabou por entrar no carro, subimos até aos Carris e depois fizemos a pé o resto da escalada.
No alto, abrigados no recôncavo de um penedo, sentámo-nos e a Jeanne pôs a mesa e repartiu a merenda. O Feixa tirou do bolso a sevilhana, abriu-a e ficou pensativo. Por fim, desabafou:
– Pois é verdade, senhor doutor, ávida tem que se lhe diga. Quando penso que somos tão amiguíssimos e já estive para o matar!
– A mim?! A sério?!
– A sério. Com esta navlha. Foi por um triz. Lembra-se do primeiro dia em que nos conhecemos?
– Claro.
– E recorda-se do que me chamou quando eu neguei que era contrabandista?
– Quis espicaçá-lo…
– Reparou que eu não disse mais palavra de aí em diante. É que ia a magicar: dou cabo dele ou não? À hora do almoço, assentei que sim, que o sangraria logo a seguir num sítio azado. Mas Deus teve mão em mim. Não, Feixa, pareceu-me ouvir, quando ia mesmo a perder-me. O homem só disse a verdade. És mesmo um covarde. Que outro nome merece quem se envergonha da sua condição? Cada qual é o que é e deve confessá-lo honradamente. Resolvi então contar-lhe tudo. E não me arrependi. O senhor era de confiança.
– E se não fosse?
– Voltava tudo ao princípio…Santa paciência…”
Ontem estive algum tempo a navegar por cartas antigas que me arranjaram, retratam a paisagem que Torga conheceu. Tentei imaginar que caminho teria feito para chegar ao Fojo saindo de Vilarinho da Furna. Nos próximos tempos vou tentar reconstruir esse caminho e aproveitar para conhecer um pouco melhor a Serra Amarela.

Friday, February 09, 2007

A estratégia

Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez de alguns padres,
mas como não sou religioso,
também não liguei.

Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.

Bertolt Brecht

Este poema veio-me à memória quando escutei na rádio a notícia de que o Governo pretende reduzir as funções nucleares do Estado à defesa, segurança e diplomacia. Estou absolutamente convencido que a gestão da informação pelo actual Primeiro-ministro é um dos maiores exemplos eficiência. Em Portugal não deve haver um político tão hábil na gestão da informação. E não me admirava que no futuro a sua estratégia de comunicação fosse tema de teses universitárias.

A forma como gere a informação, na maioria das vezes a falta de informação, é absolutamente brilhante. Foi anterior governo que quis criar uma central de informação, mas foi este que a criou. E o episódio da trapalhada da anterior tentativa é bem paradigmático da eficiência de comunicação. É que uma coisa dessas não se anuncia.

E porque falo em eficiência? Porque os ciclos são geridos cirurgicamente. A informação é disponibilizada quando produz maior efeito ou menos dano. E lançar esta informação debaixo do "ruído" da campanha do referendo não é por simples acaso. É o momento escolhido para libertar a informação.

O poema é pelo "modus operandi" desta e doutras medidas. A táctica é simples e usada pela maioria dos predadores. Escolhe-se o alvo, procede-se ao seu isolamento e finalmente ataca-se. Foi assim com as farmácias, com os juízes, com os professores, etc.. Primeiro estimulou-se e promoveu-se os sentimentos de "mau vizinho" como a inveja e a mesquinhez. E depois lançaram-se os ataques esperando os restantes fiquem a assobiar para o lado ou mesmo a aplaudir a coragem.

O problema é que na busca da eficiência perde-se a noção do desígnio global. O projecto não nos é explicado porque a gestão da informação, na prática a falta dela, é vital para a estratégia. Vai-se é ficando com a impressão que o primeiro ataque é simplesmente para fazer correr a presa e a cansar. Só depois se dá o ataque.

Wednesday, February 07, 2007

Quase Carris


Recentemente subi aos Carris saindo de Xertelo numa caminhada do UPB. Mais uma vez, o nosso guia foi o Águia-Real que conhece como poucos a zona de Montalegre do PNPG. A caminhada coincidia em parte com o percurso de outra que fiz com os Monte-Acima, mas desta vez tinha a vantagem de estar um tempo mais razoável e não ter que carregar com os mais de 15 kg.

A nossa expectativa era encontrar muita neve. No ano passado um grupo do UPB tinha encontrado locais com mais de 70 cm de neve, numa daquelas caminhadas que de tão extremas se tornam mitos. E havia em todos nós a esperança de reencontrar essas condições. Claro que foi uma esperança que se foi esvanecendo à medida que a semana ìa avançando. Até ficar claro que seria diferente. Ainda assim, a uma caminhada anunciada com muito difícil, apareceram 24 "botistas".

Começamos a caminhar e fui ficando para trás, não de uma forma forma propositada mas porque me apetecia um ritmo calmo e porque tinha sentido umas pontadas num tendão que queria proteger. Razão pela qual a subida acabou por ser feita um pouco em "solitário", afastado do grande grupo, que só reencontrei numa paragem no Espigão da Lama de Pau, para o "perder" pouco depois do marco do Castanheiro, distraído, com o Tiago, com umas pegadas de lobo. Nunca tinha encontrado prova tão visível da existência de lobos e, aparentemente, seriam de mais do que um.
A ideia original seria cruzar a Ribeira das Negras, contornando a norte o Pico da Mantaça, e subir aos Carris pelo Pulo do Lobo. Junto à Ribeira das Negras percebemos que o grupo subia para os currais da Ribeira das Negras e continuámos a segui-los a uns 7/8 minutos. Aparentemente teriam optado por evitar o Pulo do Lobo subindo pela Ribeira das Negras. Para trás ficavam ainda o J Preguiçoso (Jota) e a Cenourinha com os quais íamos mantendo contacto visual. Mais perto percebemos que a ideia seria subir por um trilho que o Tiago já me tinha referenciado. O grupo ia subindo com cuidados e a visão era impressionante, aparentemente não parecia existir caminho. O trilho ficava numa encosta à sombra e parecia haver gelo debaixo da neve. Com o Tiago, que já tinha subido por aquele local, preferi continuar pela Ribeira das Negras. O Jota e Cenourinha, que entretanto tinham chegado, foram connosco. Pouco depois tentámos subir pela ribeira do açude da Mina dos Carris. Um erro. A ribeira desce por uma garganta que se tornou complicada e começamos a pensar de valeria a pena continuar. O Jota subiu mais um pouco e procurámos um local mais resguardado do frio para comer qualquer coisa. A Cenourinha acabou por seguir o Jota, deixando-nos um pequeno sentimento de culpa por não os seguirmos. Nenhum de nós faziam questão de visitar a Mina e já se estava a tornar tarde. Subir pela Ribeira das Negras implicaria descer o Pulo do Lobo, optamos por descer e esperar o grupo no Corgo de Lamalonga.

O Corgo de Lamalonga deve ser a paisagem mais alterada pela mina. O que, não devendo ter existido no local grande actividade mineira, pode parecer estranho. Só que as águas do edifício da lavagem da mina corriam para aquele vale e, por acção da erosão dos terrrenos, ou por efeito químico das águas, o planalto ficou transformado numa imenso deserto. E não seria assim como o atesta a existência de diversos currais. Num desses currais constatei como os pastores calafetavam os currais cobrindo-o com terra que colmatava as fendas.

Descemos seguindo um trilho de mariolas em direcção à Lage dos Bois e Lage dos Infernos. A subida pelo Castanheiro é bem mais suave e percebi porque o Águia-Real tinha medo de apanhar gelo na Lage dos Bois. Com gelo teria sido uma descida muito complicada e difícil, a obrigar a muita atenção. Chegamos a Xertelo já sem luz e corremos para o restaurante da ponte de Cabril onde nos serviram uma excelente sopa. Há uns anos, nesse mesmo restaurante, comi numa quente noite de Agosto, na varanda sobre o pequeno braço da albufeira de Salamonde, uma das melhoras trutas da minha vida. E Cabril ficou para mim com esse sabor.