Thursday, December 18, 2014

Ainda sobre o topónimo Matança

 

Abrigados junto a um penedo na vertente norte, escutámos o Manuel António a ler alguma informação retirada do blogue Garcias – Montanhas de Portugal sobre a Penameda (ver aqui) de onde tínhamos acabado de descer. O dia não fora particularmente feliz para desde o “cume [...] admirar um fantástico panorama que estende para todas as direcções”. O nevoeiro tinha coberto a montanha e apenas a espaços permitiu alargar as vistas e vislumbrar os horizontes.

A leitura foi enunciando os topónimos dos locais que em dia aberto se avistam:
«A oeste e sudoeste é visível a Serra do Soajo culminando nos seus dois pontos mais altos, a Pedrada e a Peneda. A noroeste vemos o Fojo com o seu cume relativamente planáltico com as suas torres eólicas e mais abaixo a aldeia de Bouça dos Homens. Mais ao longe, surgindo no nosso campo de visão entre a montanha do Fojo e a do Outeiro Alvo podemos ver o Cabeço do Pico.
O cume rochoso do Outeiro Alvo surge muito perto de nós (fica situado no mesmo maciço que Penameda) encimado por uma torre de pedra.
A nordeste podemos observar ao longe na serra da Peneda o Vido e mais a sul no mesmo maciço a Aguieira/ Chã da Matança e o Couto do Osso.
Por detrás deste maciço vemos a imensidão do Planalto de Castro Laboreiro culminando no cabeço do Giestoso. Em direção a sudeste podemos notar o vale do rio Lima e do outro lado deste ao longe o Larouco e alguns dos picos principais do Gerês como, de leste para oeste, o Alto de Candal, a Fonte Fria, a Nevosa, o Pico do Sobreiro, Alto da Amoreira/ Laje do Sino, Coções do Concelinho, Alto das Albas, Borrageiro e até o topo do Pé de Cabril. Finalmente a sul podemos visualizar a Cruz do Touro e a Louriça na serra Amarela.»
A pausa era para retemperar as forças e, enquanto comia o que retirava da mochila e o que os meus companheiros de caminhada comigo compartiam, a conversa foi fluindo. Sobre a leitura partilhei com os meus companheiros de caminhada que achava curioso o topónimo ”matança” pois já o conhecia em outros locais e atendendo à sua repetição deveria ter outra origem das explicações algo fantasiosas normalmente associadas a episódios guerreiros (ver sobre Matança aqui, aqui e aqui).

Alguns dias mais tarde recebi do Manuel Moutinho (Calcorreando) um link para o blogue “Um blog sobre Algodres” que abordava à explicação do topónimo da freguesia de Matança, concelho de Fornos de Algordes (ver aqui).

Mais uma vez, uma das hipóteses repetia a explicação fantasiosa e guerreira. Só que outra, mais consentânea com a frequência do topónimo apontava para uma outra origem.

«Porém, um insígne estudioso da toponímia portuguesa, o saudoso A. de Almeida Fernandes, propõe uma explicação diferente, menos ligada ao sentido imediato – quase “falante” – do termo Matança: “(...) Creio que se trata de derivado de “matto”, como Matados, Matela, Matinho, Matagosa, Matosa, etc., com seus derivados e flexões.“»
O “Um blog sobre Algordes” concluía: “As terras da Matança terão sido assim, provavelmente, densos matagais que foram arroteados e povoados na época em que se fixou este topónimo, que não terá a ver com qualquer mortandade ali ocorrida.”

Seguindo esta hipótese, verifiquei a frequência do topónimo no “Reportório toponímico de Portugal – Continente (carta 1/25.000)”, uma publicação dos Serviço Cartográfico do Exército – Ministério do Exército (Fev – 1967) que comprei num alfarrabista e que em 3 volumes compila os 165.710 topónimos das cartas militares da escala 1/25.000 de Portugal continental publicadas até 1965.

Para Matança encontrei 7 referências e uma para Mantancinha. As de Matança correspondem a: casas (1), povoação não importante (1) região (2) sede de freguesia (1) vértices de outras ordens ou auxiliares (2). A de Mantancinha corresponde a uma povoação não importante.

Encontrei ainda outros topónimos muitos semelhantes como: Matadosa; Mataduços; Matagal; Matagosas; Matagosinha; Matagueira; Matama; Matanga; Matao; Matareu; Matarães e muitas referências para Mata(s). Há ainda uma curiosidade de na carta 330 haver um Matadouro que corresponde a um vértices de outras ordens ou auxiliares.

Quanto à dispersão geográfica do topónimo Matança, ela abrange as cartas militares: 384;137; 2; 340; 180; 9 e 31. Sendo que na carta 31, para além do vértice Matança (ver aqui) existe ainda a Ponte da Matança.

Numa primeira conclusão, a frequência do topónimo parece confirmar a hipótese de uma origem diferente da fantasiosa referência a uma mortandade.

Continuando as pesquisas sobre o topónimo, no blogue “toponímia galego-portuguesa e brasileira” (ver aqui) comprovo que: “alguns topónimos referem-se às características bravias da vegetação. são ou foram, em geral, matas ou matagais de onde o ser humano se afastava. aí só cresce ou crescia vegetação silvestre, mais ou menos densa, mais ou menos emaranhada. estes topónimos e seus derivados são muito frequentes em toda a Península, embora mais no norte, e, por isso, também em Portugal e na Galiza

Sobre o topónimo, este último blogue considera que «Matança (Pt.)/”Matanza" (Gz.); e Matancinha - diminut. de "Matança" derivam de "Mata" e não de "matar.»

Assim, sem excluir que alguns dos topónimos possam assinalar alguma mortandade ocorrida, parece-me que na maioria dos casos, senão em todos, na origem estará a características da cobertura vegetal.

Ainda sobre Mantança/Matanza, a casa onde a poetisa Galega Rosalia de Castro viveu os últimos anos da sua vida, e hoje a sua Casa-Museu, designa-se "Casa da Matanza".


sobre a Penemeda:

sobre o topónimo Matança (Forno de Algordes)


sobre o topónimo Matança


sobre a caminhada com os Calcorreando

Friday, November 14, 2014

Mariolas, uma hipótese para o nome

mariola do Trilho da Vezeira - Fafião

O blogue Nomes do Pais sugere para os topónimos Mariola, Marta e Martim a seguinte explicação,

«Os três casos, Mariola, Marta e Martim, apresentam uma raiz IE *mar- que resulta variante do tema *mor-. Esse tema, *mor-, tem ocorrência em galego-português no substantivo morro, que significa penedio, rochedo, pequena elevação ou outeiro suave. Com *mor-, e muito provavelmente com esse significado, temos o nome de comarca do Morraço, e também Morrão, Morreira e Morreiras, como lugares com vários morros; ou ainda Morro a funcionar como topónimo, nomeadamente no Brasil, importado pelos portugueses em formas de “Morro de...”. Porém, a variante *mar- é talvez mais comum, e sobre ela aparecem formas mais variadas, como Marão, Maranhiz, Mariocos, Marofa, Marouquim, Marranços, Marrazes, Marroços e Marrotes, e também os nossos Mariola, Marta, Marim e Martim, quando Marim e Martim não forem antropónimos.» in Nome do Pais

Aceitando-a, devemos também considerá-la como uma boa pista para a explicação da designação do sistema de marcação dos trilhos usado pelo pastores. Aliás, a maioria das pessoas descreveria as mariolas como um monticulo de pedras sobrepostas e quem já caminhou com miúdos sabe que para eles são os montinhos.

fonte:
http://nomesdopais.blogspot.pt/2011/12/lugares-com-falso-nome-de-pessoa-ii.html

Toponímia do Gerês: Chã de Susana

Chã de Susama representada nas antigas cartas topográficas (carta 31)



Existem topónimos que, numa primeira análise, não suscitam grandes dúvidas sobre a sua origem. Chã de Susana, situada junto à aldeia de Xertelo- Montalegre, poderia ser um desses locais. Aqui, dir-se-ia, a curiosidade seria descobrir quem teria sido a Susana e qual teria sido a natureza da sua relação com esta chã. Seria uma antiga pastora de beleza marcante ou de feitos heroicos? Seria uma antiga proprietária? Quem seria e porque ficou imortalizada na toponímia do Gerês?

A leitura dos blogue Nomes do Pais e Toponimia Lusitana sugere uma explicação diferente e que se adequa ao local.

Segundo essa explicação, o topónimo Susana não seria um nome próprio e teria origem na localização da chã a uma cota superior,
«"Jusão" e "Jusã" provêm do lat. tardio e significam "o/a de baixo". "Susão", "Susana" e "Susã" vêm do lat. da mesma época e significam "o/a de cima". estão muito representados na Galiza e em Portugal, com variantes.» in toponimialusitana.blogspot.pt
Assim, validando a proposição, a origem de Chã de Susana não será mais do que "chã de cima" e não é afinal, necessário andar à procura da tal Susana e fabular outras explicações.O que comprova que por vezes, as coisas evidentes escondente a sua verdadeira origem.

fontes:

Friday, November 07, 2014

Ainda sobre os topónimos Gerês e Geira


Uma conversa numa caminhada fez-me recordar que tinha pendente a questão da origem topónimos Gerês e Geira e voltei ao rascunho onde tinha interrompido a questão. Em minha defesa devo dizer que o adormecimento desta questão se deve essencialmente ao facto da informação compilada se ter tornado demasiadamente académica e árida. Digamos que tive receio de parecer um papagaio a repetir coisas que não compreendia.

Em "A Criação do Mundo", o romance autobiográfico de Miguel Torga, o poeta faz uma descrição de uma namorada que o lia sem o entender. Uma descrição que recordei quando comecei a pensar se esta questão não seria “muita areia para a minha camioneta”. É que, sem conhecimentos de etimologia, filologia e latim para ter uma leitura crítica das fontes, temi ficar pelo redondo das letras. É que, volto a dizer, pela enésima vez, nestas coisas sou apenas um curioso com prazer de descobrir pequenos segredos.

Ainda assim arrisco afirmar que nas fontes que consultei há um certo consenso quanto à origem dos topónimos Gerês e Geira a partir de um topónimo pré-romano. O estudo da inscrição epigráfica da ara votiva de S. João de Campo e dos topónimos Aquae Ocerenses, ou Aquae Originae (Aquis Originis), atribuídos à mansione da via romana XVIII de Braga a Astorga, situada em Baños de Río Caldo (Lobios, Ourense), parecem confirmar esse facto.

Arrisco ainda dizer que a hipótese da origem latina proposta por José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2003) e a hipótese de origem árabe proposta por Frías Conde, em “O elemento árabe en galego”, Revista Galega de Filoloxía, não devem ser consideradas.

Da mesma forma devemos desconsiderar a fantasiosa explicação que o Padre Diogo Martins Pereira deixou registada no seu manuscrito. Aliás a documentação medieval do Mosteiro de Celanova permite estabelecer que no sec. XI a serra seria designada por Ugeres.

Sem me atrever a tratar a informação compilada sobre a questão, transcrevo da excelente monografia editada pela CMTB em 2013 "A Via Nova na Serra do Gerês - Trajecto entre as milhas XII e XXXVIII (Bracara Augusta - Aquis Originis",

"Entre o conjunto de vias, que formavam a rede viária do Nordeste da Hispania destaca-se a Via Nova, entre Bracara Augusta e Asturica Augusta. Também é designada por Via XVIII, devido ser esta a sua ordem no testo da edição holandesa do Intinerário de Antonino, impressa por P. Wesseling, em 1735, sob o título de Vetera Romanorum Itineraria. Geira ou Jeira. [...] O nome Geira teve origem na possível designação proto-histórica da Serra do Gerês, tendo ambas as palavras derivado de Ocaere, um teónimo registado numa ara recolhida em Campo do Gerês."

Quanto à ara votiva de S. João de Campo gostava de a ver exposta no Museu da Geira. Além do simbólico regresso ao local do seu achamento, a sua exibição permitiria fazer a explicação dos topónimos Gerês e Geira aos visitantes. Atrevo-me a dizer que no mínimo o museu deveria ter uma réplica em exibição. Espero que um dia a CM de Terras de Bouro e os herdeiros do Dr. Manuel António Braga da Cruz possam chegar a um entendimento para o seu empréstimo, ou cedência.




Nota: para os que desejarem aprofundar este tema deixo algumas das fontes consultadas

Wednesday, July 16, 2014

No topo da Rocalva

prado e Rocalva
“Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali conquistam-se nas barbas de Deus.” – Miguel Torga; Diário VI, 10 de Agosto de 1952.

O prado da Rocalva é uma das maiores chãs da Serra do Gerês. A cabana e prado pertencem à vezeira de Fafião e será um dos prados com melhor enquadramento paisagístico que conheço no PNPG. Será complicado afirmar que é o mais bonito porque não é fácil comparar prados tão diferentes entre si, mas é certamente um dos mais belos. Situado nos 1200 metros, é relativamente fácil chegar a este prado e há muitos trilhos possíveis para o fazer. Pode-se chegar partindo de Fafião, da Cascata do Arado (Ermida), da Tribela (Ermida) ou da Portela de Leonte (Vilar da Veiga). No entanto todos eles são exigentes fisicamente e não há outra marcação que as velhas mariolas. Há ainda o Trilho da Vezeira, um trilho circular com início em Fafião, cuja informação se pode encontrar na site da associação Vezeira (este trilho por opção dos promotores não possui marcação internacional). Um trilho que qualquer “geresista” deve fazer e que tem na Rocalva o seu ponto mais elevado.

prado e Roca Negra

O prado fica encaixado entre dois grandes afloramentos rochosos, a Roca Negra e a Rocalva de quem tomou nome. A primeira assemelha-se a um enorme casco ungulado e a segunda é uma rocha granítica polida de enorme fotogenia, com um formato cónico, que se eleva até aos 1355 metros e domina a paisagem. É fácil adiantar uma hipótese para a origem dos topónimos. Uma será a contração de roca alva e a outra será um caso de topónimo por oposição. Apesar da altitude é um prado com bastante água e lamacento, mas a fonte da cabana esta muitas das vezes sem água.

Rocalva

Desde a primeira vez que vi a Rocalva exerceu em mim um enorme fascínio. Haveria forma de ir lá cima? O topo seria apenas para os praticantes de escalada? Em conversa com pastores e habitantes de Fafião soube que haveria forma de a subir. Percebi até que a rocha tinha até uma espécie de função iniciática entre os jovens pastores. Um pastor disse-me que em jovem se entretinha a ver quem a subia e descia em menos tempo, mas que agora já “não teria idade para isso”. Deu-me ainda algumas indicações sobre onde procurar o local de subida.

Em pelo menos uma das minhas caminhadas pela zona vi um vulto no topo e fui tendo notícias de montanhistas que a escalavam. Só que as palavras do pastor acalmaram a minha curiosidade. Até porque a escalada nunca me exerceu grande fascínio. Assim, apesar de partilhar a admiração de Torga pela gente que "gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo", esqueci a vontade de a subir até à semana passada. Até receber um convite para ir até ao topo da Rocalva e com a promessa de ajudas (cordas).

a cabana vista do topo

Foi assim que, sem me crescerem “as asas de Nietzsche”, me vi no topo da Rocalva com a preciosa ajuda dos companheiros de caminhada. E valeu a pena. A vista desde o alto é fabulosa.

O trilho que fizemos até ao prado foi, curiosamente, o primeiro que fiz até à Rocalva. Seguindo pelas cabanas Vezeira da Ribeira desde a Cascata do Arado. No início da Giesteira derivámos à direita por um pequeno trilho que nos leva à cabana da Corriscada, cabana do Arrocela e desta seguimos até à Rocalva pelo curral do Cando. No regresso descemos ao vale do Conho pelo sopé do Cutelo de Pias. Um dia excelente que teve ainda um banhito fresquinho no poço azul e o avistamento de dois corços.

o grupo que subiu à Rocalva

A citação do Torga é para homenagear os amigos que me levaram ao topo. O triunfo é deles. Eu fui apenas uma testemunha.

Monday, June 30, 2014

Inaugurado o Trilho Interpretativo da Serra Amarela - GR34

No passado dia 28 de Junho foi inaugurado o Trilho Interpretativo da Serra Amarela(GR34)que tem como entidade promotora a Câmara Municipal de Ponte da Barca e a Câmara Municipal de Terras de Bouro.

O Trilho Interpretativo da Serra Amarela GR34 tem uma extensão de 34.916 metros com um grau de dificuldade elevado que poderá ser percorrido num só dia ou por várias etapas.

Para mais informações sobre o trilho poderás consultar a sua ficha étnica e etapas através do seguinte link: Trilho Interpretativo Serra Amarela - GR34

Wednesday, June 18, 2014

A ara de S. João do Campo (Gerês)


Enquanto não trato a informação sobre o topónimo Gerês, partilho um interessante texto de Manuel Braga da Cruz, que descobri em Histórias de Braga (2014, Cruz Editores), originalmente publicado em Revista de Guimarães, vol LXXXII (1972).

O texto, para além do interesse de tratar da inscrição epigráfica na base de uma das hipóteses para a interpretação do topónimo, tem ainda o interesse de esclarecer sobre as voltas que a ara deu desde a sua descoberta. 

Atendendo-se à vasta bibliografia que refere a ara de S. João de Campo, já o era 1972, e comprovando-se a importância da ara para interptretar os topónimos Gerês e Geira, este caso deve servir  para reflexão sobre a importância relativa a que dámos às coisas. Afinal, uma "pedra"  pode ser muito mais do que isso. Razão para não perceber os argumentos, alegadamente, invocadas pela AFURNA para não permitir a salvaguarda  da pedra que será parte de um marco miliário da milha XXIX (1).

 Texto de Manuel Braga da Cruz,

«Foi na raina freguesia de S. João do Campo, do concelho de Terras de Bouro, a qual abrange a conhecida "Portela do Homem" bem como o lugar de Vilarinho da Furna, que, no século XVIII, apareceu esta curiosa ara. Ali a vi, há cerca de 30 anos, no quintal do proprietário Sr. Manuel Pires de Freitas que, posteriormente, ma ofereceu, encontrando-se actualmente no átrio da minha residência, depois de ter demorado vários anos no parque dum dos Hotéis do Gerês.

É vasta a bibliografia relativa à inscrição desta pedra granítica mas, por falta de uma exame directo, que dadas as condições de isolamento do local em que se encontrava, em vários casos foram consideradas reproduções mais ou menos deturpadas.

Contador de Argote, em 1974, nas suas Memórias da História Eclesisástica do Arcebispado de Braga (tomo III, pag XX), descreve assim o seu aparecimento: "... no ano de 1742, reedificando-se a Sacristia da Igreja Matriz de S. João do Campo, se descobriu no alicerce da esquina da dita Sacristia uma pedra quadrada de dous palmos de largo, em cada face, e quatro de alto, com seu friso e moldura..." Reproduz a inscrição mas inclui nela um ponto (.) entre o C e o A de OCAERE, que nela não se enontra,  e que levou a uma interpretação defeituosa da sua leitura.

Levy Jordão, o futuro Visconde de Paiva Manso, em 1859, na sua obra Portugalliae Inscriptiones Romanas (pág. 33 nº97) reproduz a inscrição com o mesmo erro de Argote. Emílio Hubner, pág. 96 das Notícias Arqueológicas de Portugal, escritas em 1861 e publicadas (em português) em 1971; e em 1869 no II vol, do Corpus Inscriptionum Latinarum (pág 345, nº 2458) estudou também a inscrição. Modificou-a por sua conta, na 1ª linha apresentando ARQUII onde estava ARQULI mas, na parte que respeita à divindade, fez  obra positiva, arfimando: "In OCAERE nomem dei ignotur  videtur latere, quamquam interpositum est formulae dedicatoriae vocabulis admodum insolenter", isto é, OCAERE parece esconder o nome de uma devindade desconhecida, conquanto, absolutamente contra o costume, tenha sido interposto nas palavras da fórmula votiva.

Leite de Vasconcelos ocupa-se da ara no vol. II de Religiões da Luisitânia, publicado em 1905, a pág. 344, divulgando o ponto de vista apresentado por Hubner. Ao reproduzir a inscrição põe SOMVIT em vez de SOLVIT.

A inscrição da ara de S. João do Campo foi também considerada nas obras seguintes: no tomo VI (1933-34), a pág. 355, dos Arquivos do Seminário de Estudos Galegos; por Vicente Risco, a pág. 22 da sua História de Galicia (1952); por Cuevillas, a pág. 437 da sua obra La Civilizacion Celtica en Galicia (1953); por Blasquez Martinez, no 1º vol. de Religiones Primitivas de Hispania (1962) a pág. 214; e ainda, por José de Encarnação, na sua tese de licenciatura com o título Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal, em 1969, a pág 208.

A ara e a sua inscrição estão, duma maneira geral, bem conservadas. Uma das faces adjacentes à da inscrição foi regularizada a pico, possivelmente na ocasião de ser incorpurada na parede da Igreja onde foi encontrada, mas sem prejudicar a inscrição.

O "focus" foi também alterado, aumentando-se as suas dimensões para que pudesse comportar plantas decorativas; assim mo arfimou o anterior proprietário da ara, confessando ter sido o autor desta operação.

A inscrição, como se pode verificar na gravura, é a seguinte:
ANICIU // S. ARQULI // VOTUM // OCAERE // SOLVIT

e a interpretação mais provável parece ser:
ANICIUS (filho de) ARQUILIUS DEDICOU (a ara)  COM SATISFAÇAO A OCAERE (deusa?).

V. Risco, na obra e passagem atrás citadas, refer como um dos "dioces de los clanes o de los castros" a divindade OCERE, o que me levou a admitir a existência doutra inscrição. Porém, nenhum dos vols. já publicados das Inscriptiones Romanas de Galicia refere OCERE ou OCAERE. Posteriormente, recebi informação idónea de que a citação de V. Risco se referia à ara de S. João do Campo.

O exame das anomalias que possam notar na inscrição (dativo em E por AE, etc) não é para mim, mas para quem, com mais conhecimentos de latim e de epigrafia se queira dedicar ao seu estudo.

A mim só me resta agradecer aos Ex.mos Srs. Coronel  Mário Cardoso, Doutor d'Ors, e Dr. José Cardoso, os auxílios que me prestaram para elaborar esta notícia."


(1) após a publicação da descoberta neste blogue (aqui) dei a notícia à CMTB e à AFURNA e foi-me dito depois que a AFURNA não autorizava que a deslocação da pedra que estará novamente submersa.

Thursday, June 05, 2014

Pouco a pouco, vamos ficando sós

"Pouco a pouco, vamos ficando sós,
Esquecidos ou lembrados
Como nomes de ruas secundárias
..."
Miguel Torga, Solidão

Ontem foi dia de romagem a Chaves para uma última despedida a uma testemunha da minha infância. Parte da felicidade da infância é não ter consciência de haver na mesa lugares vazios, mas naturalmente eles sempre estiveram lá. Só que agora somos nós que os sentimos e Chaves começa a revelar demasiados lugares vazios, mas devo às minhas memórias a homenagem de voltar.

Tuesday, June 03, 2014

O topónimo Gerês – uma fantasia e duas hipóteses



 Cutelo de Pias - Serra do Gerês

Uma publicação recente do Rui Barbosa no blogue Carris relativamente ao topónimo Matança na Serra do Gerês republicou uma passagem de um manuscrito de 1744, do Padre Diogo Martins Pereira, que se encontra numa biblioteca particular de uma casa da aldeia de Pincães, na freguesia de Cabril – Montalegre.

A explicação do topónimo parece-me algo fantasiosa e já a tinha tratado aqui em 2012 para a contrapor com uma outra explicação em considero mais credível encontrada nas Memórias Paroquiais.

No entanto a publicação do Rui Barbosa fez-me refletir sobre a explicação do topónimo Gerês que o Padre Diogo Martins Pereira relacionada com o episódio em causa.

«...E seria na ocasião que o príncipe Dom Pelágio, se viu favor vindo do Céu nas Covas de Oviedo, quando as setas que contra ele aos seus atiravam os mouros, as mesmas que atiraram e se feriam e matavam e aos muito mouros que ali escapavam se viriam com esta serra em paradeiro fazendo nela redutos e cateteres no áspero da mesma serra, donde os cristãos os expulsaram e fizeram  retroceder até Matança, onde lhe deram batalha, e que por isso lhe deram o nome de Matança pelos muitos que ali mataram, donde não puderam entrar nesta freguesia, a qual tinham extremado ódio, sendo esse ódio comum contra toda a cristandade que vivia nas Espanhas, venha a ser especial contra os povos que viviam nesta freguesia tão extensa, e lhe fazia tanto dano como se viu nesta batalha da Matança e dizem que juraram os mouros vencer ou morrer como morreram os mais deles, e também dizem que deste solene juramento que fizeram no Gerês, tomara a serra este nome de Gerês, e então se não deve escrever Gerês, mas sim Jurês

Uma explicação do topónimo Gerês que tenho muita dificuldade em aceitar por a considerar igualmente fantasiosa.

Recordei-me então do que tinha lido no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa aquando de uma polémica sobre o topónimo Geira que segundo José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2003) terá origem no latim Caesaria:

«Do lat. Caesaria, -area, "imperial", "de César". O nome-título figura, como de costume, nos marcos miliários, o que levaria a popularizar a designação. Cf. top. esp. Jerez Caesaris, genitivo de Caesar. O top. port. Gerês terá a mesma origem. O s.f. port. jeira, tal como o cast. jera, deve-se ao lat. diaria [...].»
Existindo no entanto outra proposta de Amílcar Guerra ("Algumas questões de toponímia pré-romana do Ocidente peninsular"

«relaciona Geira e Gerês com as formas pré-romanas atestadas na epigrafia latina Ocaera e Ocaerensis, respetivamente (o resultado medieval da segunda forma aparece atestado como «alpes Ugeres» ou «Ogeres»). É, pois, possível que Geira [e Gerês] tenha origem numa língua indígena pré-romana.»

Sendo que Jorge de Alarcão em “Notas de arqueologia, epigrafia e toponímia – VI” considera que «a leitura Ocaere não só é segura, como explica os nomes da serra do Gerês e da estrada da Geira.»

Assim, parece óbvio que a explicação do Padre Diogo Martins Pereira não seria mais do uma fantasia. Eventualmente iniciada com o objetivo de estabelecer uma ligação legitimadora do povoamento da serra do Gerês com Pelágio e a Batalha de Covadonga.

Aceitando as explicações científicas, o topónimo Gerês terá origem no vocábulo latino «caesaria», na explicação etimológico, ou em «Ocaere» de uma língua indígena pré-romana, na explicação dos arqueólogos. Explicações que certamente serão muito menos atrativas de contar junto ao crepitar de uma lareira.

Em tempo:
Sobre o topónimo Gerês/Xurés já descobri mais informação, mas vou precisar de tempo para a tratar a toda a informação recolhida. Em futuras entradas darei notícia dessas informações.

Notas do fundo do baú


Quando procurava um ficheiro perdido encontrei nas pastas ligadas às caminhadas e montanha o que na altura chamei de "pequeno argumentário". Julgo que o terei escrito quando preparava com os restantes conjurados do Movimento Natureza para todos uma reunião que tivemos no Ministério do Ambiente em Julho de 2012. Como o tempo continua a passar sem que o raio da nova portaria, à qual só faltariam as assinaturas, veja a luz do dia resolvi publicar o que escrevi então. É que de lá para cá, com excepção da proposta da Carta de Desporto, nada se alterou e os visitantes do PNPG continuam a ser empurrados para a clandestinidade. Sobre a Carta de Desporto seria bom lembrar que já se passaram mais de 5 meses desde encerramento da consulta pública sem notícia da sua versão final e publicação.

A cobrança de taxas pelos pedidos de autorização para actividades desportivas e recreativas não está prevista na Portaria 138-A/2009. O enquadramento destes pedidos em outros serviços é ilegítimo porque as taxas para actividades desportivas estão previstas na tabela da portaria e um estudo comparado da evolução das portarias que regulamentaram a taxação dos serviços do ICNB permite comprovar que houve uma deliberada intenção de desonerar de taxas estas autorizações.

A Tabela de Taxas no ponto 2 do capítulo I - Declarações, pareceres, informações ou autorizações, estabelece quais as actividades desportivas e culturais são taxadas. O capítulo VI — Prestações de outros serviços não previstos aplica-se aos actos e serviços prestados pelo ICNB, I. P., que não se encontrem previstos na tabela anexa. Ora, é errado dizer que a taxação das actividades desportivas e culturais não se encontra previstas porque ela está efectivamente prevista. No entanto, apenas se aplica a:
  •  Actividades motorizadas organizadas, concursos e competições desportivas (2.1);
  • Espectáculos, feiras, mercados e outros eventos que não se enquadrem na excepção prevista na alínea j) do n.º 1 do artigo 2.º (2.2.1);
  • Festivais de música (2.2.2).

O enquadramento das actividades de desporto da natureza (pedestrianistas e outras) em actividades desportivas e culturais decorre do POPNPG:

«Desporto de natureza», a actividade desportiva ou recreativa não motorizada, cuja prática aproxima o Homem da natureza de uma forma saudável e seja enquadrável na gestão das áreas protegidas e numa política de desenvolvimento sustentável.(in Artigo 4.º Definições)

Caso a alteração da portaria venha a considerar taxar estas actividades, há que ter em atenção que o cobrado aos pedidos de autorização é uma taxa administrativa.

“Paralelamente, com vista a dissipar os equívocos suscitados pela Portaria n.º 1245/2009, de 13 de Outubro, foi evidenciada a exclusão do âmbito de aplicação da presente portaria das taxas devidas pelo acesso e visita às áreas integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas, cuja cobrança visa contribuir para o financiamento da conservação da natureza e da biodiversidade e para regular o impacte da presença humana em áreas particularmente sensíveis, conforme definido no artigo 35.º do Decreto –Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho, que isenta os residentes dos concelhos abrangidos e prevê a sua regulação em portaria autónoma. Tratam -se manifestamente de taxas diversas das previstas na presente portaria, que respeita às taxas devidas pela contraprestação de serviços, como sejam a atribuição de uma autorização, a emissão de um parecer ou a cedência da utilização de espaços ou infra –estruturas sob gestão do ICNB, I. P” (in Preâmbulo da Portaria 138-A/2010)

O ICNB não pode cobrar o acesso a áreas protegidas cuja titularidade não lhe pertence.

O valor/custo do serviço é irrisório, padronizável e os processos/procedimentos são aplicáveis a pedidos semelhantes.

Recorda-se que o preâmbulo do regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade estabelece o princípio de justa e equilibrada remuneração dos serviços prestados. É duvidoso ele esteja a ser cumprido e estaremos disponíveis para travar esta luta no futuro. Trata-se de uma simples aplicação dos critérios estabelecidos no POPNPG e o custo administrativo é simplesmente desprezável em face do valor de controlo e ordenação. É para todos evidente que um custo de autorização elevado, associado a um território de difícil fiscalização e escassez de meios resulta em visitação regulada. Ora se o objectivo das autorizações estabelecidas no POPNPG é ordenar as taxas não serão simplesmente contrárias ao objectivo? O que é preferível? Saber quantas pessoas visitam as AP’s ou entrar num jogo de “rato e o gato” com os visitantes?

Se todo os discurso político está construído na valorização da educação ambiental. Se a recente alteração do POPNPG foi num sentido de valorizar a visitação ao acabar com o conceito de áreas santuário (agora a visitação da área de protecção total é possível) porque insistir em medidas que contrariam os objectivos de promover a educação da conservação da natureza?

As estratégias de gestão mais rígidas (introdução de regulamentação, zonamento, etc.) apenas serão eficazes se forem complementadas por técnicas de gestão mais flexíveis, pois só as mudanças de comportamento dos visitantes asseguram bons resultados.

A gestão de visitantes deve ter como objectivo eliminar o uso inadequado do visitante, bem como para melhorar a experiência do visitante e sua compreensão do destino enquanto sustentação da qualidade de recursos turísticos. Seu objectivo final é promover um sentido de participação cívica, responsabilidade e orgulho na protecção dos recursos.

Fazer do visitante um clandestino é educar contra a conservação da natureza. Os vigilantes e outros profissionais do ICNF deixam de ser um apoio para ser um inimigo. Alguém a evitar a todo o custo. Em vez de promover a educação, está-se a promover um desprezo pelo ICNF.


É falsa a ideia de que os pedidos de autorização apenas se aplicam à presença humana na Zona de Protecção Total, uma vez que eles são ainda obrigatórios para todas as actividades de visitação que integrem mais de 15 participantes, impliquem pernoita ou não venham a ser enquadradas pela futura Carta de Desporto da Natureza (CDN) do PNPG. Pelo que o âmbito desta questão não está circunscrito a actividades numa determinada área restrita.

A necessidade de solicitar pedidos de autorização não se restringe apenas à zona de protecção total. Aliás, no PNSAC – Parque Natural Serra de Aires e Candeeiros não existem zonas de protecção total e nem por isso os seus visitantes estão isentos destas taxas.

No PNPG e em muitas outras AP´s falta ainda a publicação da Carta de desporto da Natureza. Assim, ainda não é totalmente conhecido o enquadramento da visitação. Exercícios de aplicação de CDN já publicadas ao PNPG fundamentam os receios de maiores restrições no futuro.

Recorda-se que a obrigatoriedade da elaboração de uma Carta de Desporto de Natureza (CDN) para as Área Protegidas decorre do Artigo 6º, do Decreto Regulamentar n.º 18/99, de 27 de Agosto." . Ou seja, em Agosto deste ano decorrem 13 anos desde que a obrigatoriedade legal foi estabelecida. Treze anos sem que tenha sido publicada ainda que sejam conhecidos trabalhos realizados. A argumentação de desculpabilização é que só com a recente publicação do POPNPG foram criadas as condições para a sua elaboração e posterior publicação. Um argumento falso porque desde 1995 existia um POPNPG e, ainda que a recente revisão do POPNPG obrigasse à revisão da CDN, é sabido que ela esteve em elaboração e até terá sido apresentada num congresso.

Não se compreende no Parque Transfronteiriço do Gerês/Xurés a prioridade não seja a harmonização do ordenamento. O ICNF, pelo menos dentro do parque transfronteiriço deveria procurar harmonizar as condições de visitação dos dois parques.

Muitos dos visitantes do PNPG desconhecem a diferença de ordenamento e facilmente podem incorrer em infracções ambientais graves. Se a vontade é afirmar o parque transfronteiriço a prioridade deveria ser a harmonização do POPNPG e PRUG do parque espanhol.