Friday, October 07, 2005

Trabalho, glória e esgotamento

Recentemente cumpri um dos meus rituais anuais, ajudar a vindima de um familiar. Nasci e cresci numa quinta dentro de uma cidade da qual apenas resta uma sombra. Entre vias e prédios, não resistiu ao betão. Até aos 7/8 anos assisti às rotinas agrícolas realizadas a pouco mais de 5 minutos do centro da cidade. Exceptuando as recordações de subir às árvores de fruto para os saborear, dos animais de capoeira e dos muitos gatos que passeavam pela casa, não me restam muitas mais recordações dessa apenas aparente ruralidade.

O Miguel Torga glorificava o trabalho agrícola. De certa forma, considerava que era o único que enobreciam e desprezava os trabalhos de urbanos. Naturalmente não compartilho estes exageros literários, mas admiro-o tanto quanto ele. Quase tanto como ele.

Fiz praticamente toda a vindima ao lado de uma senhora com mais de 70 anos, que subiu e desceu a escadas continuamente, com uma resistência impressionante, mesmo que num ritmo mais lento que o nosso. Reconheci naquela senhora as heroínas de Miguel Torga. Gente anónima que se arrebentava em suor honesto.

Os tempos são outros. É bom saber que o país mudou e esses heróis e heroínas já não têm que se arrebentar nessa "glória". É bom saber que o nosso estado social, apesar das limitações, já lhes dá outras garantias. Na verdade, o esforço daquela senhora pareceu-me mais uma afirmação de ainda ser capaz fazer aquela vindima. O seu filho é o homem de confiança do meu tio e há entre eles laços mais fortes que os familiares.

Eu limitei-me terminar o dia esgotado mas não necessariamente mais nobre. Até porque fiz mais pausas das que gostava de admitir.

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