Wednesday, September 12, 2007

Jornada dupla pelo Gerês

Fim-de-semana de jornada dupla mas as pernas não se queixaram. E no Sábado pude finalmente refrescar-me numa das pequenas piscinas do Vale Teixeira. A água, fria à entrada, é, depois, um bálsamo fantástico para o esforço.

No Sábado desci com o UPB desde os Prados da Messe ao Gerês. No grupo havia alguns iniciantes e subir a Costa Sabrosa não é fácil. Algumas paragens e num ritmo leve chegamos facilmente ao Conho, onde almoçámos. Ao subirmos para o Borrageiro encontrámos um grupo de geresianos que percorriam o trilho em sentido inverso. Deveriam ter começado na Portela de Leonte. Ficámos um pouco a conversar com alguns deles. A trocar informações sobre trilhos e plantas.

Descemos para o Vale Teixeira pela Chã da Presa. É trilho muito bonito, mas deixou algumas marcas nos menos experientes. Um bom calçado é fundamental para o conforto na montanha. As sapatilhas não são normalmente uma boa opção e a descer nem “todos os santos ajudam”. Pelo menos o “santo” dos caminheiros não ajuda muito sem um calçado aderente.

Num dos currais do Vale Teixeira encontrámos dois pastores da povoação Ermida. Estivemos um pouco a conversar sobre várias coisas. É escusado tentar fazer as pazes entre eles e o lobo. É uma coexistência que nunca será pacífica. Depois a geração deles a vezeira vai acabar, os filhos já não querem saber do gado senão no prato. Perder estas actividades tradicionais é uma das maiores ameaças que paira sobre o PNPG. Eu sei que em parte faz parte de uma dinâmica social normal. Cada vez haverá menos gente nas actividades do sector primário. Mas também não deixa de ser resultado de opções que fizeram do homem uma parte do problema e não parte da solução. Permanece uma tensão por resolver entre as populações e o PNPG. Eu, por muito que lhes reconheça a tendência para o erro, a merecer vigilância e regra, cada vez mais percebo o ponto de vista das poluções.

Saímos do Vale Teixeira directamente para o PR Trilho dos Currais por um trilho que não conhecia. Depois descer até às termas foi a pior parte da caminhada. O declive é demasiado acentuado e o piso, quase todo ele em estradão, é monótono e escorregadio. Eu apenas o tinha subido e não pretendo voltar a descê-lo.

No Gerês descobri que no dia seguinte havia uma festa de encerramento da vezeira entre os pastores. Fiz-me convidado e não me negaram – Apareça que chega para todos.


O Domingo estava destinado à exploração de uma variante de um trilho da CM Terras de Bouro para uma actividade dos Serviços de Documentação da Universidade do Minho (SDUM) no âmbito do 100º aniversário do Miguel Torga. O director dos serviços, Eloy Rodrigues, é também um entusista do pedestrianismo e não há melhor forma de homenagear o poeta que se definiu a si mesmo como “geófago”. O percurso decalca uma actividade da CM Terras de Bouro, mas importava reconhecer o terreno e verificar se seria acessível a todos.

Saímos desde as Porta do Parque em S. João do Campo e no marco miliário junto à estrada, depois cruzeiro, entramos num pequeno estradão de terra. Este caminho seria a antiga ligação de S. João de Campo a Lamas e, suponho, daí a Vilar da Veiga e Gerês. O caminho é fácil de seguir e possui parte lajeadas. Junto a uma pequena ponte vedada com arame farpado seguimos em frente. Na verdade não seguimos, mas tivemos que corrigir o erro. Num zig-zag pela serra, o caminho segue a direcção de uma linha de tensão até se encontrar com a actual estrada. Bem perto passa o estradão que segue para a Junceda. Paramos a descansar à sombra acolhedora de carvalhos milenários mas rapidamete seguimos. O almoço seria no Gerês e o apetite começava a despontar. Na estrada seguimos em direcção ao Gerês até ao entroncamento de Lamas. Aí seguimos para o miradouro da Boneca - nos primeiros sinais do PR-Trilho dos Miradouros - deve-se ter a atenção ao sentido da direcção em que estamos a caminhar.

O miradouro da Boneca, em conjunto com a Pedra Bela, são as duas melhores vistas sobre o vale do Rio Gerês. O miradouro da Boneca tem ainda a vantagem de permitir ver apenas o melhor das Termas do Gerês. Com excepção do Hotel do Parque, cuja degradação ofende algumas das minhas recordações de infância, o que de menos bonito existe fica fora campo de visão.

A descida para o miradouro da Fraga Negra requer alguma atenção, mas é fácil de seguir. A diferença de cotas é elevada, mas a descida não é complicada. Apenas mesmo ao chegar ao miradouro da Fraga Negra existe uma passagem um pouco mais escorregadia.

Chegamos ao Gerês um pouco mais tarde do que imaginava e já não pude ir aproveitar o “convite” para a festa do encerramento da vezeira. Também não encontramos um restaurante aberto e ficámos por umas sandes. Para quem fez os últimos metros na ilusão de um cabritinho poderia saber a pouco, mas o menu do dia tinha sido serra. Ainda que algo domesticada, tinha sido um bom “cheirinho de serra.

"Gerês, 17 de Agosto de 1958
Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, atiro-me às serranias como broa de infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase me sinto depois uma província suplementar de Portugal. Uma província ainda mais pobre que as outras, que apenas produz uns magros e tristes versos.

Miguel Torga , Diário VIII"

detalhe de uma carta antiga com caminho, a actual estrada ainda não aparece indicada

Friday, August 31, 2007

Gerês organiza circuito turístico de mini-autocarro

Os visitantes do Gerês e do concelho de Terras de Bouro podem contar com a oferta de um circuito turístico através de mini-autocarro que percorre diariamente os locais mais emblemáticos da serra do Gerês.

A implementação do circuito resulta da parceria entre a Câmara Municipal, o Parque Nacional da Peneda-Gerês e a Empresa Hoteleira do Gerês, possibilitando a visita a vários locais sem a necessidade de utilizar transporte particular e contactando directamente com a natureza uma vez que está concebido de forma que as pessoas possam entrar e sair em qualquer ponto do percurso, realizar visitas a vários locais à sua escolha, inclusive almoçar no Campo do Gerês ou vila do Gerês, visitar lagoas, passear na via romana, conhecer a fronteira da Portela do Homem, retomando o autocarro no horário que desejarem.

O circuito começa e termina na vila do Gerês, passando pelos vários locais, em horários pré-determinados, sendo também permitido que o turista possa realizar apenas parte do circuito, realizando o restante a pé, o que lhe confere alguma novidade e o torna aliciante.

Embora o circuito não possa dar resposta a quantos procuram o Gerês até 15 de Setembro, todavia, é mais uma oferta para quem gosta de deixar o automóvel e contactar directamente com a natureza e entrar em plena serra e apreciar as cascatas, lagoas, flora, etc.

As informações sobre o circuito encontram-se nos postos de turismo e nas diversas unidades hoteleiras, sendo realizado pelos autocarros da Empresa Hoteleira do Gerês, entre 2,ª e 6.ª feira, a preço simbólico, e, aos fins-de-semana, entre a vila do Gerês e a fronteira da Portela do Homem, pelo autocarro do Parque Nacional de forma gratuita.

site: CM Terras de Bouro

A primeira vez que me falaram neste circuito estranhei. O Parque parecia estar a contradizer as suas próprias orientações. O que até não seria tão absurdo, porque os técnicos do PNPG reconhecem em voz baixa que o plano de ordenamento é demasiado restritivo. E, como a revisão do plano curso está em curso, poderia ser mais um exemplo do limbo em que se encontra. Esta notícia no site da CM Terras de Bouro esclareceu-me melhor.

Ainda que não me pareça recomendável que este circuito passe pelo troço Bouça da Mó - Mata da Albergaria (Geira Romana), ainda que este circuito possa ter dado origem a alguns abusos, reconheço que é uma boa medida. E que poderá ter possibilitado que alguns turistas tenha conhecido um pouco melhor a serra.

O problema é que os mesmo princípios de que validam a existência deste circuito deviam validar a possibilidade de ao longo do ano ser possível "entrar em plena serra e apreciar as cascatas, lagoas, flora, etc". Aliás, os que fora do período estival procuram a serra até a procuram com motivações não exclusivamente turísticas. Mas é a estes, que destingem a serra de uma qualquer praia fluvial, que não fazem lixo, que apreciam a serra, que até animam economicamente a zona fora dos períodos de Verão, a quem, aparentemente, mais se pretende restringir.

Eu concordo que o PNPG possa estabelecer regras, que possa controlar o acesso à serra. Não posso concordar que o ICN não possa distinguir uma actividade sem fins lucrativos de uma actividade empresarial. Temo que ultrapassadas as limitações de um plano de ordenamento caduco as actividades de montanha fiquem proibidas a muitos dos grupos informais que as praticam. Apenas porque não podem cumprir com requisitos próprios de actividades empresariais. Não defendo a não existência de regras. Não defendo regras que só alguns possam cumprir.

nota: a motivação para esta refexão foi o conhecimento de casos concretos

Thursday, August 30, 2007

Lobos e outras histórias


Avistar um lobo era algo que desejava há muito. Sabia que as probabilidades eram reduzidas. Os lobos são animais muito inteligentes e raramente se deixam avistar. Numa actividade da Ecotura, percorri o Planalto de Castro Laboreiro com Pedro Alarcão e a Anabela Moedas, autores do documentário sobre o Lobo da RTP. Nessa ocasião escutei algumas das histórias sobre o lobo e sobre a gravação do seu documentário. Fiquei a conhecer um pouco melhor o lobo, a sua organização social, os mitos e a sua relação com o homem. Aprendi também a respeitá-lo mais. No último ano oor diversas vezes encontrei vestígios de lobo nas caminhadas. E numa caminhada da AAEUM um colega avistou um lobo, mas estava muito distante para também o ver. Sábado passado a minha sorte mudou.

Numa caminhada de reconhecimento do planalto de Castro Laboreiro, com um pequeno grupo do UPB, vi o meu primeiro lobo. A nossa ideia era apenas reconhecer um terreno fácil para uma caminhada nocturna, mas aproveitámos também para subir ao Giestoso. No regresso, em terreno aberto, um colega dá o alerta. Um pouco à frente, um lobo juvenil tinha saltado e fugia velozmente. Acompanhei-o por entre o mato até desaparecer numa lomba do terreno. Nunca o vi por inteiro. Apenas o deslumbrei por entre a vegetação. Mas o dia já estava ganho.

No planalto também avistámos o voo de duas aves que nos pareceram águias. As fotos que tirei não permitem a sua identificação.

O pré-programa da caminhada nocturna metia uma feijoada oferecida por um casal do UPB , o Coura e a Tília. A festa prometia ser rija. No final da tarde a chuva parecia querer estragar a programa. O jantar, que seria na zona de lazer de Lamas de Mouro, foi transferido para um café de uns senhores simpáticos que nos abriram as portas. A meio do jantar já agradecia a chuva porque me parecia impossível caminhar depois da feijoada. Só que chuva parou e a vontade de colocar as botas no trilho foi superior. Escolhemos um trilho mais fácil e fomos caminhar pelos estradões do planalto. No único momento de hesitação valeu-nos encontrar um jipe que percorria o planalto. Algumas indicações e rapidamente nos orientámos. No final ainda ficámos um pouco à conversa até o cansaço nos aconselhar a regressar.

Chegar a Braga foi mais complicado. O cansaço era grande. Eu inicialmente tinha decidido pernoitar em Lamas de Mouro, mas a chuva fez-me mudar de planos. Cheguei a casa com a luz do dia.

Friday, August 24, 2007

Miguel Torga e o Minho

Miguel Torga não gostava do Minho. Esta afirmação possui algum fundamento, pois por diversas vezes ele o escreveu. São diversas as entradas no seu Diário que reflectem esta antipatia. Só que foi claramente uma relação de amor/ódio.

Miguel Torga era um homem da montanha. Um homem com raízes nas fragas e dava-se mal com o verde o Minho. De certa forma foi uma relação marcada pelo eterno conflito do homem da montanha com o homem da ribeira. Para ele as "cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro", as festas "encandeavam a lucidez dos sentidos" e não partilhava da religiosidade de um povo "a cantar o Avé atrás do cura da freguesia".

No documentário que a RTP exibiu António Barreto disse que tinha conhecimento que o Miguel Torga teria dito coisas boas sobre Coimbra, onde escolheu viver, e sobre a Universidade de Coimbra, onde se formou, mas que nunca as tinha escutado ou lido. Pelo contrário, são conhecidas algumas opiniões bastante azedas sobre ambas. Do Minho sabemos que por cá passou diversas temporadas e que o percorreu. Um dos maiores capítulos do seu livro Portugal é mesmo sobre o Minho. Maior somente o capítulo sobre o seu Reino Maravilhoso: Trás-os-Montes.

Como minhoto teria naturalmente preferido escritos mais simpáticos, mas há que reconhecer que pelo menos em parte teria razão.

Como convite à leitura fica um pequeno excerto do Portugal de Miguel Torga:

"Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.

A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.

Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quandochegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.

– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.

– É legitimo este cão?
– É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...

– A Peneda?

A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram- se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso.Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.

Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes. As pernas de granito dum velho fojo abriam-se num grande V, como as dum gigante no sono da sesta. E saltou-me vivo à lembrança o instantâneo de Joaquim Vicente Araújo, quando no seu Diário Filosófico da Viagem ao Gerês fala duma batida aos lobos, que presenciou, e em que toda a população masculina do lugar colaborara: «Era cousa de ver a má catadura duns e a presteza de todos, que descalços, outros de socos, armados desciam pelas fragas». Sem a coragem dos avós, agora os habitantes comunitârios de Vilarinho da Furna atacavam as alcateias a estricnina e caçavam corças furtivamente. Mas mesmo assim nao faziam má figura ao lado do rio Homem, que, talvez a querer justificar um nome que a etimologia lhe nega, parecia um lavrador numa leira de pedras, tenaz em todo o percurso, e sempre límpido, a espelhar o céu. Na margem de lá, o Pé do Cabril, solene, esperava a abraço duma ascensão. E coma a desafiar aquela pétrea majestade, arrogante e lustroso, o toira do lugar roncou de uma chã. Símbolo tangível da virilidade e da fecundação, nenhum outro deus, ali, tinha forças para o destronar. Plenitude encarnada do instinto natural de preservação da seiva capaz de se multiplicar em cada acto de amor, era ele o pólo de todos os cultos cuItos e desvelos. Rei já no tempo das casarotas megalíticas que me rodeavam, continuava a sê-lo ainda no presente por exigência e graça da própria vida.

Atravessada a ponte em corcova, galgados os muros ciclópicos da Calcedónia, numa erudiçao feita à custa dos pés, e guiado pelos miliários imperiais, segui a geira romana até chegar à Portela do Homem, onde as legiões invasoras pareciam aquarteladas. Mas foi a guarda fiscal, vigilante, que me recebeu.

A uma sombra tutelar, pouco depois, num minuto de descanso, a Historia recente da Pátria avivou-se.

– Uma das incursoes monarquicas foi por aqui...
– Tentaram... Tentaram...
– Este Minho! Este Minho!...
– Tem uma costela talassa, tem...

Mas recusei-me a reintegrar, por simples razões partidárias, aquelas viris penedias no planisfério verdurengo de onde a própria natureza as libertara. Tranquei as portas da memória e, pela margem do rio, subi aos Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos e carvalhos centenários acompanharam-me quase todo o caminho. Só desistiram quando me aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raizes, tenta levantar voo.

Agora, sim! Agora podia, em perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a portuguesa Galiza percorrida. Pano de fundo, o mar de terras baixas era apenas um cenário esfumado; à boca do palco reflectiam-se nas várias albufeiras do Cávado a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia também dentro de mim. Embora através da magia agreste dos relevos, talvez por contraste, impunha-se-me com outra significação a abundância dos canastros, o optimismo dos semeadores e a própria embriaguez que anestesiava cada acto, no fundo necessária à saúde dos corpos individuais e colectivos. Integrava o alegrete perpétuo no meu caleidoscópio telúrico. Bem vistas as coisas, se ele não existisse faria falta no arranjo final do ramalhete corográfico português.

Em acção de graças por esta conclusão pacificadora, rezei orações pagãs no Altar de Cabrões, antes de subir à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria a experimentar como se tremem maleitas em pleno Agosto.

Estava exausto, mas o corpo recusava-se a parar. Pitões acenava-me lá longe, de tectos colmados e de chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os ossos nos tomentos de Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer. Quem me garantia a mim que, mesmo alcandorado nos carrapitos doirados da Borrajeira, não voltaria a ter pela noite fora um pesadelo verde?"

Dois objectivos

Recentemente percorri dois dos locais que mais desejava conhecer no PNPG: A travessia Pitões-Portela e a cumeada da Encostado Sol. Em ambas as ocasiões foram dias de forte calor mas a beleza dos locais compensou. São zonas duras, de uma beleza muito longe das paisagens bucólicas como muitos imaginam o Gerês. A maioria das pessoas que visitam o Gerês conhece-o junto às estradas, não imagina como é longe delas. A serra é dura, despida, por vezes seca mas pura. Eu gosto de ambas. Gosto do fresco das matas e a autenticidade das fragas. Prefiro perder-me nas segundas mas sentiria a falta das primeiras.

A travessia é uma experiência dura e um bom exercício de orientação. Os antigos percursos estão esquecidos. A zona é uma sucessão de corgos e quase não há mariolas para nos orientar o caminho. Particamente não há vegetação alta. Alguns currais esquecidos onde pastam livremente grupos de garranos. A área do PNPG pertencente a Montalegre é também umas das zonas onde me sinto mais livre.

Subir à cumeada da Encosta do Sol não é fácil, mas a perspectiva sobre o vale do Homem compensa largamente o esforço. Conhecia diversos relatos. Finalmente cumpri também este objectivo.

O sinal negativo em ambas foi ter que descer o estradão de acesso aos Carris. Nada me é tão penoso como caminhar naquele leito de pedras roladas. Pior só a confusão estival nas lagoas da Portela do Homem.

Não percebo porque o PNPG que é tão restrivo com certas coisas permite esta situação. É verdade que não consigo imaginar uma razão para impedir que as pessoas se banhem nas lagoas. Recordo-me é de muitas que justificariam que um guarda do Parque impedisse o depositar de lixo junto ao caminho.


Sunday, August 12, 2007

Legado











O que eu espero , não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado
De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegase
O teu pai do Brasil,
A tua mãe, do céu,
O teu melhor amigo, da cadeia.
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abraçar toda a luz que te rodeia.
Não perguntes por que tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver
Uns têm a sina de sonhar a vida,
Outros a de a colher


Miguel Torga, Cântico do Homem

Wednesday, July 04, 2007

O Castelo de Bouro

Quem já fez o PR2 da CM de Terras de Bouro 'Trilho do Castelo' começa com alguma ilusão de encontrar na serra os vestígios do Castelo de Bouro. Eu, apesar de nunca os ter encontrado, fiquei convencido de ter estado no local. Sabendo de que se tratava de um "castelo roqueiro" abandonado desde o século XVI, atribuí aos meus poucos conhecimentos de arqueologia não conseguir confirmar a sua localização. Recentemente, numa publicação da CM de Terras de Bouro - "Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo", de José Viriato Capela, li uma interessante descrição do castelo pelo abade de Chamoin de 1758 e percebi que poderia ter procurado no local errado. Ainda que apenas apoiado em fontes bibliográficas, estou convencido que o local indicado no mapa do trilho não corresponde à localização do Castelo. Numa próxima caminhada pela zona espero poder confirmar a minha suspeita.



Uma descrição do castelo de Luis Fontes (arqueólogo):

"Amplamente referenciado nas Inquirições de 1220 e de 1258, em relação ao qual praticamente todas as freguesias das cercanias tinham pesadas obrigações e encargos, o castelo de Bouro foi durante toda a Idade Média um ponto estratégico de defesa do acesso ao vale alto do rio Homem. Com a Portela da Amarela e a Portela do Homem, o castelo de Bouro constituia um triângulo de vigilância e defesa da importante via de comunicação de origem romana que penetrava no interior galego, a célebre "Jeira", a via XVIII do Itinerário de Antonino que se manteve em uso até bem entrada a Época Moderna. O castelo, uma construção elementar, aparentemente estruturada à base de madeira, que tinha que ser refeita praticamente todos os anos, foi erguido no topo do monte onde se aglomera um denso caos de blocos, a mais de 950 metros de altitude, numa implantação que, podendo considerar-se paisagisticamente espectacular, terá obedecido sobretudo a interesses geo-estratégicos. Daí se domina todo o curso do rio Homem, em particular o seu troço alto e a ligação natural ao vale do rio Cávado pelo talvegue Covide / Rio Caldo. A fortificação, de que apenas restam alguns panos muito derrubados da cerca que fechava os espaços entre os enormes blocos graníticos, deverá datar de finais do século XII e princípios do século XIII. Terá conhecido uma ocupação recorrente mas não permanente, servindo sobretudo em períodos de conflito. Pelas tipologia construtiva e de implantação fisiográfica, trata-se de um característico castelo dos primórdios da nacionalidade, igual a tantos outros que então se ergueram no Entre Douro-e-Minho no cume dos montes mais proeminentes. Com os desenvolvimentos modernos da arte da guerra, nomeadamente a difusão do uso da artilharia a partir do século XVI, o castelo de Bouro deixou de ter qualquer importância militar, devendo datar desse período o seu abandono. Do ponto de vista arqueológico o monumento está mal conservado."

Wednesday, June 27, 2007

Regresso à terra

Descansamos porque mudámos de actividade – respondeu-me um casal de galegos que encontrei perto Soajo na casa que estão a recuperar. Foram-me apresentados por um amigo comum no meio de uma caminhada de exploração na qual me servia de guia. Já não são jovens, mas permanecem joviais. Falaram com alegria e orgulho da horta biológica e da recuperação da casa. Começaram por acampar na zona e foram descobrindo aqueles montes. Fizeram amigos e começaram a procurar uma casa que pudessem recuperar. Não fiquei a conhecer muito sobre eles. Serão naturalmente pessoas com alguma capacidade económica e bom nível de vida, mas são também um exemplo daqueles que optaram por abrandar o ritmo para ganhar tempo. Procuraram no contacto com a terra a simplificação dos ritmos urbanos. Um regresso às raízes ancestrais de cavadores.

Mas você é só de quando em vez e por festa – responderam dois velhos pastores com quem um amigo meu se cruzou numa serra. Respondiam à sua afirmação de que também ele andava por aqueles montes e que os invejava. Como o casal sinto o chamamento do campo e a necessidade de fugir à Cidade, mas não sei se algum dia terei a coragem e condições de ir além da “festa”.

Thursday, May 24, 2007

A casa dos Prados da Messe


Nos Prados da Messe existem o resto de umas paredes que seriam as ruínas de uma cabana de caça que o Rei D. Carlos teria mandado construir. Foi assim que me explicaram pela primeira vez e nunca duvidei da Real origem da construção. Eram tantas as fontes que repetiam a mesma história que teria de estar correcta. Na verdade, recordando-me do Real porte do D. Carlos, e mesmo sabendo-o amante da caça, fiquei a admirar a capacidade física do D. Carlos. Ao ler o Serra do Gerez, Estudos - Aspecto - Paisagens, de Tude de Sousa , que no início do século XX foi regente florestal da Serra do Gerês, encontrei algumas razões para duvidar dessa explicação.

O Rei D. Carlos (1) nunca terá estado nos Prados da Messe e a casa será muito posterior à sua estada no Gerês. A estada da família Real no Gerês realizou-se “… nos dias 12, 13, 14 e 15 de Outubro de 1887, a família real portugueza, D. Luiz I, D. Maria Pia, D. Carlos e D. Amélia, subindo os três primeiros a Leonte, onde D. Luís e D. Carlos , com alguns dignatários de sua comitiva, tomaram parte em uma caçada aos corços, não indo mais longe em nenhum dia, nem se internando mais na serra, como o desejava o guia que havia sido escolhido para dirigir as caçadas e os monarchas, o P.e Sebastião Pires da Freitas, de Covide”.

Na mesma obra há também uma referência sobre a origem das ruínas:“… nos Prados da Messe, onde há uma pequena casa florestal construida no verão 1908,…”.Assim, contra a tradição, a casa terá sido construída depois do regicídio(2).

1) D. Carlos iniciou o seu reinado em 19 de Outubro de 1889 pelo que esteve no Gerês como príncipe herdeiro na companhia de seu pai D. Luiz I, com a idade de 24 anos.
(2) D. Carlos morreu em 1 de Fevereiro de 1908 na consequência de um atentado no Terreiro do Paço.

Barragem de Vilarinho da Furnas


Duas fotos da construção da Barragem de Vilarinho das Furnas (1968/1969), inaugurada 1972.


"Manuel Antunes, sociólogo e presidente da AFURNA, Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna, foi o último a sair da povoação. «Aproveitei as férias do Natal e vim para aqui. A minha tia estava a viver na aldeia e passámos a passagem de ano de 70 para 71. Éramos os únicos que estávamos na aldeia. No dia seguinte pegámos na trouxa às costas, as últimas coisas que ela tinha, e viemos». Nesse ano, em 1971, a aldeia já fica submersa, apesar da barragem ter sido somente inaugurada a 21 de Maio de 1972. Acabou Vilarinho da Furna.

João Barroso, técnico auxiliar do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, lembra-se de ir «lá à Páscoa, às festas, íamos tomar banho à ponte, ao rio Homem». Lembra-se que tudo mudou quando apareceu o pessoal para trabalhar na barragem. «As pessoas do Campo (aldeia de São Martinho do Campo do Gerês) tinham todas rebanhos e venderam tudo com medo de que lhes roubassem as coisas. Em cada corte dos animais estava uma família a viver, quatro ou cinco indivíduos que vieram para aqui em condições sub-humanas».

Manuel Antunes recorda que quando era pequenino — nasceu em 1946 — já se falava «que vinha uma barragem. Com essa história, nós brincávamos no rio a fazer barragens, mal sabíamos que era uma barragem que ia destruir a aldeia».Nos anos 50 tudo começa a tomar forma. Estudavam-se os terrenos, faziam-se furos. A barragem estava aí. Começa a ser construída em 67. Fecha em 71. Morre Vilarinho da Furna." retirado de http://www.serra-do-geres.com/


barragem já concluída


BARRAGEM DE VILARINHO DAS FURNAS
UTILIZAÇÕES
- Energia / Derivação

LOCALIZAÇÃO
DADOS GERAIS
Distrito - BragaConcelho - Terras do BouroLocal - S. João do Campo

Bacia Hidrográfica - Cávado Linha de Água - Rio Homem
Promotor - CPPE, Cª. Portuguesa de Produção de Electricidade, SADono de Obra (RSB) - CPPE
Projectista - Hidro Eléctrica do Cávado

Construtor - MAGOPEPAno de Projecto - 1966
Ano de Conclusão - 1972
CARACTERÍSTICAS HIDROLÓGICAS
Área da Bacia Hidrográfica - 77 km2
CARACTERÍSTICAS DA ALBUFEIRA

Área inundada ao NPA - 3460 x 1000m2Capacidade total - 117690 x 1000m3
Capacidade útil - 116080 x 1000m3
Nível de pleno armazenamento (NPA) - 569,5 m
Nível de máxima cheia (NMC) - 570 m
CARACTERÍSTICAS DA BARRAGEM
Betão - ArcoAltura acima da fundação - 94 m
Altura acima da fundação - 94 m
Cota do coroamento - 570 m
Comprimento do coroamento - 385 m
Fundação - Granito
Volume de betão - 294 x 1000 m3
DESCARREGADOR DE CHEIAS
Localização - Margem direita
Tipo de controlo - Controlado
Tipo de descarregador - Afogado lateral em poço
Comportas - 2 comportas vagão
Caudal máximo descarregado - 280 m3/s
Dissipação de energia - Trampolim
DESCARGA DE FUNDO
Localização - Talvegue
Tipo - Através da barragem
Secção da conduta - D 2,60
Caudal máximo - 180 m3/s
Controlo a jusante - Sim
Dissipação de energia - Jacto oco
CENTRAL HIDROELÉCTRICA
Tipo de central - Céu aberto
Nº de grupos instalados - 2
Tipo de grupos - Francis
Potência total Instalada - 125 MW
Energia produzida em ano médio - 225 GWh

fontes: http://www.serra-do-geres.com/ e http://cnpgb.inag.pt/