Wednesday, August 27, 2008

A Casa das Neves da Serra Amarela

Depois da visita às ruínas da "Casa das Neves", que os Arcebispos de Braga fizeram construir no alto da Serra Amarela para abastecimento de gelo, procurei mais alguma informação sobre a construção. Fontes que não posso confirmar dizem-me que esta será das poucas "casas de neves" conhecidas em Portugal. Na verdade, eu já tinha lido sobre ela sem a conseguir localizar. E depois da visita voltei à fonte original. Sobre esta construção, em 1728 o padre José de Matos Ferreira, em “Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez”(1), referiu-se a ela da seguinte forma:”(...) nesta está hũa com tal propriedade em sua agoa, que por ser frigidissima se não pode consentir nella hua mão por espaço hũa Ave-Maria; tem tambem esta planície a Casa das Neves, que o Ilustrissimo Senhor Arce.po Dom Luis de Sousa mandou fazer para recolhimento da neve, de que muito usava no Verão e hoje grande parte desta casa está arruynada”. Pelo que já no sec. XVIII a construção estava abandonada. Como Dom Luís de Sousa, a quem identificam como responsável pela construção, foi arcebispo de Braga de 1677 até 1690, poucos terão sido os anos de utilização. Considerando que então o melhor acesso a Braga seria, pelo menos em grande parte, pela Geira, a milha mais próxima é a XXIX (descendo por Vilarinho). E da milha à casa das neves, fosse qual fosse o trajecto, deveriam ser ainda mais uns 6 kms. Assim, o gelo faria uns 52 km até à mesa do Senhor Arcebispo (2). Distância que não parece excessiva já que a corte era abastecida desde a serra da Lousã e de Montejunto.

(1) Não posso garantir, mas julgo que este livro pode ser comprado nas Portas do Parque em Campo do Gerês.
(2) Outros trajectos alternativos não devem alterar muito esta estimativa.

Tuesday, July 22, 2008

Porto Bike Tour

No último Domingo fui um dos 8500 participantes do Porto Bike Tour. Tinha curiosidade sobre este evento e fiquei supreendido pela logística envolvida. É uma ideia feliz e parece estar a ter sucesso. Em 2009 voltarei a participar.

Tuesday, July 15, 2008

Caminhada na Serra Amarela

No último Domingo (1) voltei à Serra Amarela repetindo a caminhada que idealizámos para homenagear Miguel Torga. Em 2007 as condições climatéricas reduziram a caminhada a um pequeno grupo de corajosos caminheiros. Nessa ocasião fizemos toda a cumeada debaixo de um denso nevoeiro e só o bom conhecimento do trilho (e o seu registo no GPS) não nos fez regressar. Nasceu assim o desejo de voltar num dia melhor. Depois com o UPB não tive melhor sorte. Desta vez o dia estava claro, excelente para caminhar e aproveitar a paisagem a que Torga chamou "Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica".


Margot Dias, Miguel Torga, André Rocha, Jorge Dias(2) e José Fecha(3) fotografados nos montes de Vilarinho

Em 25 de Julho de 1945 Miguel Torga percorreu a Serra Amarela na companhia de um habitante de Vilarinho da Furna porque queria ver um fojo de que tinha tido notícia. Procurou um guia e foi-lhe indicado José Fecha, pastor, contrabandista e profundamente conhecedor da serra. A jornada está perfeitamente descrita no Diário e na Criação do Mundo. Dois relatos perfeitos sobre o carácter do poeta e do seu amor pela serra e pelos serranos

No Domingo iniciámos a caminhada em Brufe, porque Vilarinho da Furna já não existe, e procurámos os locais visitados em 25 de Julho de 1945. Aos fojos, às casarotas, às vezeiras, juntamos as silhas, o muro de Vilarinho, a Louriça de onde decidimos descer para Vilarinho. Desta vez tivemos ainda a sorte de conseguir visitar a famosa "Casa das Neves", que os Arcebispos de Braga fizeram construir no alto Serra para abastecimento de gelo, da qual já tinha lido algumas referências mas nunca tinha encontrado elementos suficientes para a localizar. Dela não restam mais que 3 paredes enterradas numa chã, mas foi a "cereja em cima do bolo" desta caminhada. Como o poeta gosto de descobrir os "recados do passado". Descoberta que não teria sido possível sem a colaboração da CMTB e que não posso deixar de agradecer

Deixo para outra oportunidade informações sobre as Casarotas, a Casa das Neves e Vilarinho da Furna. Na preparação desta caminhada descobri ainda uma evidência de Miguel Torga ter caminhado mais do que uma vez pela Serra Amarela. As fotos que ilustram o artigo de Jorge Dias sobre as casarotas (1946), apesar da má qualidade das cópias que possuo, identificam claramente o Miguel Torga junto das construções. E como elas não terão sido realizadas em 25 de Julho de 1945, comprovam que pelo menos outra vez voltou lá. Possivelmente na mesma data em que Jorge Dias e Miguel Torga foram fotografados na companhia das esposas e José Fecha perto de Vilarinho. Da monografia de Jorge Dias tenciono ainda utilizar outras informações. As férias estão a chegar e terei algum tempo para os escrever.

(1) A caminhada foi organizada no Domingo pela AAEUM com aparticipação do UPB. No dia anterior o UPB fez praticamente a mesma caminhada em sentido inverso
(2) Jorge Dias, etnólogo português autor de "Vilarinho da Furna, uma aldeia comunitária" (tese de doutoramento de 1944) e de "As Casarotas na Serra da Amarela: construções megalíticas com uma inscrição"(1946)
(3) Habitante de Vilarinho da Furna, guia de Miguel Torga em 25 de Julho de 1945
fotos da caminhada

Monday, May 26, 2008

Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez

vista sobre o carvalhal que esconde a aldeia

Foi numa pesquisa sobre Pitões das Júnias que soube da existência da Aldeia Velha do Juriz. A vontade de a procurar foi imediata, mas nem sempre as caminhadas por aquela zona me permitiram abandonar o percurso. Por duas vezes aventurei-me sozinho em rápidas incursões pelo carvalhal de Beredo. Por duas vezes não a encontrei, apesar das cartas militares identificarem um local como castelo. Na segunda tentativa ainda deslumbrei a cruz de pedra que os populares de Pitões me davam como referência, mas atrás chamavam-me para o trilho.

à lareira na Taverna Celta

Encontrei-a, finalmente, na tarde do último Sábado. O dia tinha amanhecido chuvoso e depois do pequeno-almoço ficámos na Taberna Celta à lareira. Lá fora, dia não estava para caminhadas e foi difícil abandonar o conforto do fogo. Em volta da lareira, tivemos ainda a sorte e oportunidade de trocar informações com um cliente habitual da taverna. Sobre o carvalhal havia um denso manto de nevoeiro que apenas a espaços abria. Pousadas numa mesa, umas cartas militares da zona permitiam-me recordar as caminhadas que já fiz por ali, mas essencialmente recordavam-me as por fazer e a aldeia por descobrir.


ruínas de uma casa de planta quadrangular

Após o almoço tardio o tempo parecia querer abrir e, após uma rápida visita ao pólo de Ecomuseu de Barroso, decidimos procurar a aldeia. O caminho começa perfeitamente marcado mas desaparece depois no meio da vegetação. Após algumas hesitações, fomos avançando e finalmente encontrámos a aldeia. Percebi então que tinha estado muito perto dela nas pesquisas anteriores. Numa delas teria estado a menos de 50 metros. Da aldeia pouco mais resta que alguns muros e vestígios de arruamentos. Só que a sua integração no carvalhal transmite uma certa magia ao local. Espero que o Ecomuseu a torne visitável e facilite a sua interpretação. É um património que merece ser valorizado e conhecido. Mesmo estando já em pleno PNPG não se compreenderá que fique escondido. Se, como diz o arqueólogo Luís Fontes, a aldeia é fundamental para conhecer a evolução do povoamento medieval do maciço geresiano devem ser criadas as condições que permitam a sua visitação.


vestígios da limpeza efectuada recentemente

Na zona mais elevada da aldeia encontrámos sinais de uma limpeza recente conforme nos tinham referido na aldeia. Como foi feita pelos bombeiros, julgo que terá sido feita como prevenção contra incêndios. No entanto pode ser também sinal que a sua visitação está mais próxima. O tempo chuvoso não nos deixou apreciar toda a beleza da aldeia, mas subimos ao alto dos blocos de granito que serão o chamado castelo. No alto encontramos a famosa cruz de pedra e umas inscrições. Não ficamos muito tempo, as nuvens sobre a capela de S. João anunciavam a chuva que rapidamente nos alcançou. Espero voltar lá com mais tempo e investigar outros caminhos.

pequena cruz de pedra no alto do castelo

entalhes na rocha da pequena atalaia (?)

Descrição arqueológica* : Povoado abandonado com arruamentos lajeados e vestígios de cerca de 40 casas, de planta geralmente quadrangular e paredes de blocos graníticos mais ou menos aparelhadas, muitas ainda com umbrais e soleiras das entradas. Poderá tratar-se da aldeia medieval de Sancti Vincencii de Gerez referida nas "Inquirições Afonsinas" de 1258, provavelmente abandonada no século XV, tempo de fomes, pestes e guerras. Nunca mais seria reocupada, podendo aceitar-se que tenha sido substituída pela aldeia de Pitões das Júnias. O lugar encontra-se actualmente coberto por um frondoso carvalhal espontâneo, com a vegetação a conferir às ruínas uma beleza pouco vulgar. No extremo setentrional do povoado, no topo de um pequeno outeiro coroado por caos de blocos graníticos, a que a população chama "castelo", identificam-se alguns rasgos que desenham uma planta quadrangular com cerca de 2 metros de lado, vestígios que poderão corresponder a uma pequena atalaia. Um pouco mais longe, cerca de 1,5 km para Sudeste, fica o mosteiro de Santa Maria das Júnias. Em termos arqueológicos conserva-se tudo em bom estado.

Interesse : Trata-se de um monumento de inegável significado histórico regional e excepcional valor científico e patrimonial, cujo estudo é fundamental para o conhecimento da evolução do povoamento medieval na vertente nascente do maciço geresiano. As ruínas desta aldeia abandonada enriquecem-se ainda com a paisagem envolvente, marcada por exuberante cobertura vegetal e relevos vigorosos. No Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi proposta a classificação do "Povoado de Juriz" como Monumento Nacional.

*fonte: Luis Fontes

PS: após publicação deste "post" tive a informação que o acesso mais tradicional à aldeia velha não seria pelo carvalhal. Esta nova informação confirma as minhas suspeitas, que não procurei esclarecer com receio de ser surpreendido por chuva forte. É mais uma coisa a investigar.

Wednesday, May 21, 2008


Há 36 anos, 21 de Maio de 1972, foi oficialmente inaugurada a Barragem de Vilarinho da Furna. Não sou contra o progresso, mas não consigo deixar de pensar que as águas da albufeira não submergiram apenas campos e casas. Submergiu também o "o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida" que o Torga via nas suas visitas a Vilarinho. Tenho algumas dúvidas que, caso não tivesse sido submersa pelo progresso, Vilarinho permanecesse fiel a si mesma. Essa é a maior ironia da albufeira, destruiu a aldeia mas criou o mito. Como um herói, Vilarinho da Furna descansa no panteão para a posteridade. E só um herói morto é que não nos atraiçoa.

Gerês, 6 de Agosto de 1968 — Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da Furna, em vésperas de ser alagada, como tantas da região. Primeiro, o Estado, através dos Serviços Florestais, espoliou estes povos pastoris do espaço montanhês de que necessitavam para manter os rebanhos, de onde tiravam o melhor da alimentação — o leite, o queijo e a carne — e alicerçavam a economia — a lã, as crias e as peles; depois, o super-Estado, o capitalismo, transformou-lhes as várzeas de cultivo em albufeiras — ponto final das suas possibilidades de vida. E assim, progressivamente, foram riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato e colaboração. Talvez que o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida, com a correspondente cultura que ela implica, não interesse a uma época que prefere convívios de arregimentação embrutecida e produtiva, e dispõe de meios rápidos e eficientes para os conseguir, desde a lavagem do cérebro aos campos de concentração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de esperança nos outros e em mim.

Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me entenderia?
(Miguel Torga, Diário XI)

Friday, May 09, 2008

Boicote


Existem outras formas de condenar a violência no Tibete? Um boicote de cidadãos aos produtos chineses não seria mais eficaz?

Wednesday, April 02, 2008

Crónica de um reconhecimento furado

No passado Domingo, 30 de Março, reconheci , na companhia do Tiago, o percurso da caminhada a realizar no próximo dia 6 de Abril (Domingo) com a AAEUM e o UPB. Na AAEUM, Sempre que possível, gosto de manter este procedimento . Serve para verificar as condições do percurso e estudar algumas alternativas ao programado. O UPB é um espaço mais livre. O espirito é de maior aventura, de partilha de responsabilidades, caminheiros e montanhistas mais experientes. Para esta caminhada, dada a companhia de um profundo conhecedor do percurso, o Ricardo Silva, nem era muito importante fazer o seu reconhecimento, mas também queria aproveitar para o realizar em BTT.

No sentido inverso ao da caminhada, saímos de Campo do Gerês tão cedo quanto a mudança da hora nos permitiu e lançamo-nos à Geira. O tempo estava incerto e chuviscos rapidamente se transformaram em chuva, dificultando o reconhecimento. Razão pela qual não tivemos muito tempo para apreciar e fotografar as paisagens percorridas pela Geira. Eu sou um ciclista recente e os primeiros km são sempre mais complicados. Vou ganhando confiança, em mim e na máquina, aos poucos. De certa forma, parte do interesse da exploração era também testar os meus limites.

As estradas romanas possuíam uma inclinação pequena, pelo que se percorrem sem dificuldade. Só que, para as bicicletas, algumas zonas da antiga calçada são de dificuldade técnica exigente e algo duras para os pneus. Após 4 furos, uma bomba perdida e outra com problemas, tivemos mesmo que improvisar um carro vassoura que nos socorreu, perto da milha XVII, na capela de S. Sebastião da Geira. Local onde interrompemos o reconhecimento. Foi uma enorme aprendizagem. Já não me recordava de reparar um furo. Já não me recordava de desmontar um pneu. Mas parece que não é só o andar de bicicleta que não esquece.

Não chegamos até Sta Cruz (milha XII), mas fizémos o reconhecimento de grande parte do percurso. As milhas que faltaram serão as mais alteradas e seriam até as mais fáceis de percorrer. Ficou claro que a Geira é um percurso de grande beleza e com uma dificuldade acessível a todos os públicos. Uma caminhada que permite o contacto com a nossa história e com paisagens diversificadas. Voltarei à Geira em BTT. Apesar das dificuldades técnicas de algumas zonas, é fantástica. Um cenário fabuloso para andar de bicicleta.

Monday, March 17, 2008

Sobre a voluptuosidade da fadiga e outros apontamentos


Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!
Miguel Torga - Diário
II


É a segunda vez que publico esta entrada do Diário. Publico-a novamente porque ela ilustra bem também a minha relação com a "paisagem" e o que experimentei ao percorrer mais uma vez o meu chão de eleição. O prazer de sentir a voluptuosidade da fadiga e depois descansar a olhar a paisagem ao nosso redor é coisa que não consigo explicar facilmente. Apenas os outros "geófagos", para usar a expressão do Torga, o compreendem. Os curtos minutos em que fiquei a olhar as Fichinhas e o vale do Rio da Touça foram simplesmente mágicos. Entro na montanha quase como quem entre num templo. É nela onde melhor me contemplo. É por isso que não a entendo sem estes momentos de reflexão. Depois foi descer e percorrer o mais bonito vale do PNPG. Um percurso tão bonito como duro e perigoso. Para mim a mais bonita ruga de Portugal.

Tuesday, March 11, 2008

Into the wild

auto retrato de Christopher McCandless no "Magic Bus"

Foi um companheiro de caminhadas que falou do filme. Fiquei curioso e procureio-o. É um filme belo sobre um idealismo extremo. Um filme que nos questiona de diversas formas. Realizado por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer, conta a história verídica de Christopher McCandless. Vale a pena ver e ouvir.

Friday, March 07, 2008

Ariane



Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940