Thursday, December 15, 2005

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."

Miguel Torga - 1962

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in "Cancioneiro de Natal"

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
...
Álvaro Campos - Aniversário


No meu aniversário em lembrança de todos os que me fazem falta.

Marretas

Wednesday, December 14, 2005

Lições do passado

"A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro"
Miguel Cervantes - "Dom Quixote"

Frequentar um curso de história sobre a minha cidade foi uma das melhores decisões que tomei nos últimos tempos. Já reaprendi e reformulei muitas ideias que tinha por seguras. O mais engraçado é verificar as origens mais recônditas de muito dos problemas do presente. Portugal não conhece a sua história. No ensino, se exceptuarmos os períodos da Fundação e Descobrimentos, quase todo foi história universal. Como querem que haja cidadania se não nos conhecemos.

Tuesday, December 13, 2005

Debates

Ontem acompanhei parte do debate Manuel Alegre-Francisco Louçã, mais uma vez foi um debate sem grande interesse. Confesso que tenho alguma simpatia pelo candidato Manuel Alegre, não que vá votar nele mas há qualquer coisa de insegurança, de contraditório que o torna real. Falta-lhe, no entanto, a consistência de grande estadista. Pelo contrário, no Francisco Louçã, como no seu oposto Paulo Portas, há um evidente prazer pela retórica que me faz desconfiar da convicção das suas teses. Nas suas respostas há sempre sinais de deslumbramento pelo argumento, de cálculo e prazer pela forma da resposta. O seu ar de superioridade moral irrita-me. Aparece-me um seminarista que quer ser padre porque gosta dos rituais da igreja mas que nunca se interrogou sobre a sua fé.

Friday, December 09, 2005

A ideia de um mito











Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Miguel Torga, Requiem
Barragem de Vilarinho da Furna, em 18 de Julho de 1976


A história é uma ciência extremamente ideológica. Isto pode parecer uma heresia, mas cada vez mais acredito neste facto. Ideológica, não no sentido de teses políticas mas sim na concepção e defesa de uma ideia.

Os jornais de hoje, em notícia da festa religiosa da sua padroeira, agora situada em S. João do Campo, voltam a contar a história de Vilarinho da Furna como a Aldeia Mártir do desenvolvimento. A ideia romântica que se tratou de de uma luta entre duas sociedades, entre o comunitarismo e a sociedade de consumo, nunca se apagará.

A aldeia , amostra de um passado pré-romano, representante de uma cultura castreja em Portugal, e, nas profundidades do tempo, da cultura dos povos pastores e ganadeiros indo-europeus, que graças ao isolamento dos grandes centros e, mais que tudo, ao condicionalismo geográfico que favorecia o pastoreio, subsistiu até ao seu abandono como organização comunitária e tornou-se um mito. Um mito de uma «espécie de estado independente com governo e legislação próprios» sob o regime de «democracia representativa», sem propriedade individual e, por consequência, sem classes, com uma alma introvertida de clã solidário e um conceito de vida assente na moral fraterna.

Estou certo que o «estado independente» de Vilarinho da Furna não resistiria ao progresso e à mudança. É irónico que a albufeira que a submergiu e condenou lhe tenha dado uma posteridade que possivelmente nunca gozaria de outra forma. Tal como o túmulo do soldado desconhecido, Vilarinho da Furna descansa como um símbolo.

A ideia de uma aldeia sem propriedade individual não tem qualquer fundamento, já que na realidade não era a propriedade que era comum mas sim o trabalho. E a sociedade representativa era na realidade muito autocrática com normas herdadas do direito romano que hoje já ninguém aceitaria. Só que permanece a ideia. Uma ideia que lhe suavizou os contornos e a glorificou como mártir em que parte de mim gostava de poder acreditar.

Tuesday, November 29, 2005

O Livro




A todos, nas suas diversas formas, já nos foi feita a pergunta sobre o livro, o filme, etc., da nossa vida. Eu confesso que nunca sei responder. Como escolher um entre tantos? É complicado. Recentemente escutei uma resposta que me fez pensar um pouco. Não se trata de nomear o melhor, dizia, mas sim nomear aquele que mais nos marcou. Aquele que marca uma fronteira entre qualquer coisa. Só que como estamos sempre entre duas coisas, é normal que também as marcas dessa passagem mudem. Que fronteira é a mais importante? A primeira? A última? Não sei responder. A única resposta possível é que são muitas as respostas. E a que damos é sempre a do momento. Momento que pode ser mais ou menos longo, mas é sempre isso. Um momento.

Tanta coisa para quê? Para dizer faz uns meses me reencontrei com um desses livros. Os contos de Miguel Torga “Bichos”. Já não me recordo se o li primeiro, ou depois, dos “Contos da Montanha” e dos “Novos Contos da Montanha”. Não me recordo se cheguei a ele por um acaso, ou se pela pista das leituras obrigatórias, mas guardei-o na memória. Há qualquer coisa no autor com a qual me identifico sem que a consiga perceber correctamente. Uma comunhão de interesses, uma nostalgia de tempos mais simples, algo mais, não sei? Talvez uma comunhão espacial, em tempos diferentes, porque partilho com ele a alegria de percorrer o Gerês.

Há nos seus livros qualquer coisa de menos que os engrandece. Histórias simples de um país que já não existe. Pequenas histórias do dia-a-dia de gente pequena. Depois, há os livros editados daquela forma simples. Capas banais, sem gravuras e impressas em velhas tipografias. A beleza dos seus livros é serem simples. Livros que valem pelas palavras que as suas letras formam.

Adoro abrir os cadernos com a ajuda de uma faca. O que para muitos é uma chatice, a mim aumenta-me o prazer táctil da leitura. É a certeza que aquele livro é meu. Saber que aquelas letras são pela primeira vez minhas. É um prazer egoísta? Seja, mas no prazer não devemos ser todos um pouco egoístas?

O livro que tenho hoje, comprei-o numa feira, com mais uma série de outros livros do mesmo autor. De “Bichos” comprei mais do que um exemplar para também oferecer. Sei que os contos são considerados literatura menor, mas eu também não tenho paciência para muita da dita maior. E depois há um conto em especial. Um conto que me fez compreender porque gosto de gatos e porque não gosto de algumas pessoas que gostam de gatos. Um conto em que me revejo no que fiz e no que não fiz.

Monday, November 21, 2005

O país esquecido

foto tirada no concelho de Terras de Bouro numa aldeia perto de Brufe
Sair das cidades, entrar nas estradas perdidas, que parecem terem sido abertas para trazer e não para levar, é encontrar um país esquecido. Um país que anda a outra velocidade e se vai despovoando ano após ano. Um país rural sem agricultura porque esta apenas serve primeiro de complemento a outras profissões e depois como ocupação de reformados. É este país esquecido que estamos a perder e que a apenas se torna notícia nos incêndios de Verão. É este país que temos de descobrir.