Tuesday, January 22, 2008

O fósforo do Teotónio Louvadeus

“Não interessa! A Aldeia tal como se acha hoje com um atraso de muito séculos sobre o mundo civilizado, queda indiferente à aventura. Para o serrano, com a sua casa de colmo ou telha-vã, tamancos de amieiro couraçados de seteiras de ferro, metido dentro da cachupa de burel, que, espécie de saco descosido, deve ser o feio e prático manto do turdetano, isto é, do aborígene, assoando-se para o chão com o premir uma venta e depois outra, e limpando-se ao canhão da vestia, dormindo na promiscuidade de cama de barqueiro, com o pesado carro céltico de rodas fixas, panelas de barro em vez de potes de ferro, creosene em vez de luz eléctrica, o que condiz é a serra como está, Doutro modo, para ele é um contra-senso... Na minha opinião humilde e desambiciosa, opinião de quem vê o homem através da sua humanidade, o que há a fazer é plantar a civilização nas aldeias, uma civilização digna do século XX, antes de pensar ir para a serra mudar-lhe a natureza.”
...
“...è pena que Vossas Excelências queira entrever o problema somente pelo lado do aproveitamento. Ainda por este lado há muito que se lhe diga. Mas pois que o lado moral, diremos psicológico, não lhes interessa, essa ignorância é muito susceptível de lhes causar grandes amargos de boca.”
...
“Ora essa! – respondeu o Dr. Rigoberto. – A minha opinião e, salvo seja, a do meu constituinte é que a serra renderia, no futuro, economicamente dez, vinte vezes mais do que está, abandonada à lei das estações, rapada hoje pelas sacholas dos roçadores, espontada de vegetação nova, na Primavera, pelos gados. Mas havia de ser o povo, guiado pelos Serviços Florestais, assistindo em tudo do Estado, que deveria proceder arborização, sem o obrigarem a perder o sentimento de liberdade que ali se desfruta. Condicionassem o aproveitamento das madeiras e mais indústria silvícola, deixassem-no ficar, ao menos nominalmente, o dono dela. Ou, então elevassem os povos a um grau tal de desenvolvimento que essa circunstância se tornasse menos um conquista sobre a pobreza dos serranos do que uma necessidade ou encontro com uma vida melhorada e progressiva. No estado em que a população se acha, rude, penurienta, de nível de vida baixíssimo, a serra é-lhe absolutamente indispensável porque só assim corresponde ao seu atraso.”
Quando os lobos uivam - Aquilino Ribeiro


planta do projecto de florestação da Serra da Cabreira


Eu nunca tinha caminhado na Serra da Cabreira mais do que pequenos percursos. Apesar de a ter tão perto, é uma serra que não ainda conheço. No Sábado passado a caminhada com o UPB deu-me a oportunidade para lá caminhar. Tinha uma ideia do percurso e, como não gosto muito de caminhar por estradões, as minhas expectativas não eram muito elevadas. Confesso que me surpreendi e fiquei com vontade de lá voltar. A vista desde o Talefe é surpreendente. Umas das melhores sobre o PNPG.

Na caminhada duas coisa despertaram a minha curiosidade: umas ruínas de uma casa dos Serviços Florestais perto do Talefe e uma conversa no café da aldeia à hora da “sopa”. Numas chãs praticamente despidas de árvores, a casa chamara-me a atenção pela contradição. No café, na tal conversa com algumas pessoas da aldeia, confirmei as minhas suspeitas. Dois grandes incêndios, nas décadas de 70 e 80, teriam deixado aquelas chãs praticamente sem vegetação.

Recordei-me então do que li sobre a Serra d’Arga. Recordei-me do “Quando os lobos uivam” do Aquilino Ribeiro, a quem fui buscar as citações. Recordei-me das histórias da revolta dos povos do Gerês contra os Serviços Florestais nos finais do século XIX. Recordei-me do amigo que um dia me surpreendeu ao dizer-me que, para ele, a história da florestação tinha sido um erro enorme, um erro muitas das vezes vingado pelo fogo.

A casa e a conversa levaram-me a reflectir sobre a floresta e como ela foi plantada. É verdade que após um longo processo histórico desflorestação Portugal precisou de inverter a situação. Não apenas por uma boa gestão dos recursos florestais, mas fundamentalmente para evitar os fenómenos erosivos. Nos finais do século XIX Portugal teria um coberto vegetal inferior a 25% do actual. Foi essa a preocupação que presidiu à criação dos Serviços Florestais em 1886, com o início dos trabalhos de arborização nas serras do Gerês e da Estrela em 1888. Só que o processo de arborização nem sempre foi o mais feliz. E foi muitas das vezes feito contra as populações. Não falta quem afirme que a florestação foi um processo mal concretizado, mal amado e que apenas nos deixou os montes cheios de pinheiros. Contribuindo dessa forma para o abandono dos espaços rurais. Outros salientam a dimensão da obra realizada e atribuem a maior responsabilidade da expansão do pinheiro aos pequenos proprietários. O maior equilíbrio da opinião dos segundos fará mais sentido. Mas todos concordam que temos uma floresta mal organizada, que desperdiçamos recursos e que a floresta deveria ser uma das formas de fixar as populações rurais. É por isso que me pergunto se não sabemos aprender com os erros cometidos. Seja porque continuamos a marginalizar as populações . Seja porque continuamos a não saber ordenar a floresta.

Não conseguiremos evitar todos os fogos florestais, mas poderemos evitar que o “velho Teotónio Louvadeus” do Aquilino acenda o fósforo. E sempre que não ordenamos, sempre que não limpamos, sempre abandonamos ao destino a floresta, há nisso um pouco do gesto do "Teotónio Louvadeus" a acender o fósforo. Todos somos Teotónio Louvadeus.

Monday, December 10, 2007

Serra Amarela


Sábado, 8 de Dezembro, voltei à Serra Amarela. Este ano terá sido a quinta ou sexta vez que por lá andei. A chuva e o nevoeiro foram a companhia dos 30 caminheiros do UPB, de modo que não pudemos apreciar a Serra Amarela em toda a sua beleza.

Realizada em homenagem a Miguel Torga, connosco levamos o poeta e em alguns lugares fomos lendo textos e poemas. O Diário III relata uma jornada em 25 de Julho de 1945 pela Serra Amarela que em parte procuramos refazer. Então, para visitar um velho fojo, Miguel Torga contratou um pastor como guia em Vilarinho da Furna. Esse guia, o Fecha, viria a tornar-se um dos seus amigos no Gerês. Mais tarde, no volume 5 da "Criação do Mundo", este episódio seria recordado como um relato de Fecha de forma muito interessante. Ainda que Vilarinho já não exista, a serra está lá. Praticamente igual na sua “pureza essencial e granítica”. As antenas da Louriça são das poucas marcas na paisagem. De resto continua igual. Numa outra caminhada com o UPB, tive a sorte de termos como companheiro de caminhada um natural de Vilarinho (baptizado no UPB como Furna). Foi ele que nos explicou a história do estradão que começaria junto à Louriça e seguiria até à Portela do Homem. Um estradão que parou no muro com que aldeia demarcou o seu território. Esse projecto interrompido continua na serra como símbolo da força comunitária de Vilarinho da Furna. Mantendo-a praticamente sem estradas, como terra do “sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis”.

Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga - Diário II

Thursday, November 15, 2007

Serra d'Arga


A Serra d’Arga era um local que já tinha sinalizado para uma caminhada. Os percursos que conhecia eram invariavelmente curtos, coisas para poucas horas. Percursos de quem gosta de subir à montanha e descer para comer à mesa.

O percurso que realizei com a AAEUM foi o mesmo de uma caminhada realizada pelo UPB. Caminhada na qual não participei, mas da qual recolhi opiniões muito positivas. Ao preparar esta caminhada descobri coisas muito interessantes. Já conhecia a lenda da princesa cristã que teria procurado protecção contra a ira paterna nestas serras e a baptizado de Agro. Desconhecia as outras que encontrei. As montanhas foram, e são ainda, muitas vezes associadas ao mágico e ao sagrado. As lendas e histórias sobre a serra relatam bem quanto antiga é essa ligação. Talvez por isso as montanhas minhotas estão pejadas de santuários, capelas ou simples cruzes. Como minhoto já não estranho, mas nada me podia preparar para a capela da Sra do Minho. Sem medo das palavras, devo dizer que é uma coisa feia que nunca deveria ter sido construída. A Igreja Católica deveria ter mais cuidado com os projectos arquitectónicos que autoriza. Deveríamos ter muito mais cuidado com o património que estamos a deixar para o futuro. Aquele projecto desqualifica a cultura do nosso tempo. Foi apesar de tudo a nota menos positiva numa caminhada que me deixou cheio de vontade de voltar.

Começámos a caminhar em Cerquido um pouco mais tarde do que pretendíamos. Pessoalmente sentia os efeitos do magusto do UPB do dia anterior. Tinha-me levantado com algum esforço. Por um caminho antigo subimos até à Chã Grande, o ponto mais elevado da caminhada. Deste local alcança-se uma vista única sobre o Vale do Lima. É também aqui que se encontra a capela da Sra do Minho. A subida é por uma encosta nua, que se sobe ao ritmo que as pernas permitem. Ainda que o desnível possa assustar os menos preparados, lá em cima a vista sobre o vale do Lima é fantástica. Recompensa largamente o esforço. A Serra d’Arga não é uma serra elevada, está cheia de torres eólicas, mas vale a pena caminhar por ela. É uma serra bastante despida de vegetação. A sua mata original forneceu os estaleiros de Viana do Castelo e permitiu as nossas aventuras marítimas. Na década de 40 de século passado os serviços florestais também andaram por aqui. Como em outros locais, a florestação, à base de pinheiro, provocou profundas mudanças sociais. As aldeias de Arga, viram partir as suas gentes. Incêndios na década de 80 terão afectado profundamente o coberto florestal. Diversos grupos de garranos cruzam-na em liberdade. Deve ser mesmo o local onde é mais fácil encontrar garranos. Eu nunca tinha encontrado tantos em tão pouco tempo.

Rapidamente atravessámos o planalto e fomos almoçar ao Mosteiro de S. João d’Arga. Um local que merece uma visita mais prolongada. O seu enquadramento é fantástico. As enormes árvores no terreiro mosteiro, tão integradas com as construções, são símbolos de uma comunhão com natural que perdemos. A sua fundação é muito antiga, são séculos de história que se contam naquelas paredes. Mais de 10. O mosteiro é uma construção simples de dois pisos, duas alas de hospedarias, formando dois L's opostos, com a capela no meio. Em Arga de Baixo, uma senhora falou-me sobre a festa de S. João. Já tinha escutado muito sobre esta romaria. Na universidade um colega de Caminha disse-me que trocava todos os festivais de Verão por ela. Uma noite longa e profana que atrai gente de todo o lado.

Em Arga de Cima e Arga de Baixo paramos a conversar com grupos de senhoras que se aqueciam ao sol. Trocámos pouco mais que palavras de circunstância. Com umas a admirar os galináceos em liberdade, fortes e apetitosos como poucos, e a responder sobre de onde vínhamos e para onde íamos. E com outras pedindo informações sobre outros caminhos e sobre as romarias da serra. Sempre que posso gosto de ter estes momentos de conversa. São sempre recompensadores. Há sempre alguma coisa que fica. Pequenas expressões de uma genuinidade que a cidade perdeu.

À saída de Arga de Baixo perdemos mais algum tempo a admirar uns moinhos antigos e para procurar o Pontão do Lobo. Conheço-o apenas de fotografias, mas ainda não foi desta que o encontrei. Regressámos a Cerquido pouco tempo antes do dia terminar. A caminhada não tinha sido muito exigente, mas tinha deixado em todos vontade de voltar.

Wednesday, November 14, 2007

As aventuras por Terras da Nóbrega do UPB

A ideia era fazer uma pequena caminhada como preparação “espiritual” para o magusto do UPB, pelo que procurámos um trilho pequeno e próximo do destino final: Vila Verde. O trilho escolhido, Trilho de Terras da Nóbrega, é um percurso pedestre denominado de Pequena Rota (PR) – aberto pela VALIMAR, pelo que as respectivas marcação e sinalização deveriam obedecer às normas internacionais e facilitar a caminhada. Digo deveria porque tivemos imensa dificuldade em as seguir, sinal de falta de manutenção.

Este percurso localiza-se no Monte do Castelo de Aboim, mais precisamente na aldeia de Sampriz a cerca de 6 km a Este da sede de concelho de Ponte da Barca. É um percurso de âmbito paisagístico e cultural, nos limites dos Concelhos de Ponte da Barca e Vila Verde. A primeira dificuldade foi encontrar o local de partida devido a pouca sinalização existente. Descobrir Sampriz foi a primeira aventura do dia.

Partindo da Junta de Freguesia de Sampriz, iniciámos o percurso em direcção a Ventoselo. O trilho segue por um misto de caminhos empedrados, terra batida e caminhos carreteiros. Na Capela da N.ª Sr.ª do Livramento fizemos uma curta paragem para descanso e para observar a paisagem que nos rodeia. Seguimos depois em direcção ao Castelo de Aboim. O percurso marcado contorna o castelo pelo sopé, mas decidimos subir ao castelo e lá fazer a refeição. É na verdade o local do castelo que encontramos. O Castelo de Aboím é castelo medieval, do qual apenas restam as fundações, situa-se no topo do majestoso monólito, num local estratégico que goza de uma excelente visibilidade, dominando por completo a paisagem. A sua história está ligada ao inícios da fundação de Portugal. Foi um castelo roqueiro, construído por Honorigo Honorigues, que por isso recebeu algumas terras de Afonso Henriques. Com a construção do Castelo do Lindoso perdeu a sua importância estratégica. Do castelo apenas restam alguns vestígios de alicerces. No local não existe qualquer informação para interpretação, apesar de existiram dois placares em inox. Sinal que o fornecedor dos placares é muito mais rápido que os restantes fornecedores. É uma pena porque sem qualquer explicação os visitantes não percebem o local e não conseguem imaginar o castelo. Numa pesquisa sobre o castelo, encontrei um desenho que pretende representar a sua reconstrução. Ainda que desconfie do rigor, serve de ilustração.


Do castelo eram visiveis diversos fogos em zonas florestais, sinal evidente do clima seco deste estranho Outono. Com um pequeno corte no percuro marcado, retomámos o trilho e por caminhos de pé posto descemos até à estrada EN 351. Aqui o trilho atravessa um belo bosque de carvalhos por caminhos antigos, sem qualquer dúvida a parte mais bonita do trilho. No meio desse bosque encontramos vestígios de uma queimada. O chão ainda fumegava e, apesar de parecer estar apagada, ficámos preocupados com a possibilidade de ali se dar um incêndio florestal. Como “sapadores” improvisados investigámos o local. O fogo parecia ter iniciado junto a um anexo agrícola. Com terra e alguma água procurámos arrefecer os locais mais quentes do terreno queimado. O ruído provocado por algumas castanhas a estoirar aumentou a nossa preocupação e, para descargo de consciência, decidimos alertar o 117. Estranhamente estava ocupado pelo que telefonámos para o 112. Se foram lá não sabemos, mas fizemos o que deveríamos fazer. Estranho é que um número de emergência nacional dê ocupado. Do bosque o trilho deveria prosseguir para uma zona mais elevada após atravessar novamente a EN 351, mas não encontrámos a respectiva marcação. Assim, a parte final foi feita fora do trilho e por estrada.

O local merece uma visita, mas não percebo estas armadilhas criadas pela falta de manutenção dos trilhos. Quem escolhe fazer um trilho marcado deve necessitar apenas seguir as marcações e chegar ao final sem qualquer dificuldade. Abrir um trilho é apenas a primeira das etapas. Resta esperar que as coisas mudem. E já agora, formular o desejo que os placares de inox junto ao castelo não desapareçam antes que a informação apareça.

Na zona existem mais motivos de interesse, nomeadamente um fojo duplo na freguesia de Gondomar (Vila Verde) e a aldeia de Aboím da Nóbrega (Vila Verde), onde se recolheram os mais interessantes lenços de namorados. Numa próxima oportunidade pretendo voltar lá para a explorar melhor. Desta na encosta de Vila Verde.

Thursday, November 08, 2007

Ícaros sem asas


Fiz recentemente algumas caminhadas com o UPB no Parque Natural de Ordesa y Monte Perdido, nos Pirinéus Aragoneses. Descrever as caminhadas seria cansativo e fastidioso. Foram 3 dias de paisagens arrebatadoras e boa companhia. Apesar do cansaço físico a que me submeti, regressei de lá renovado e revigorado. Percebi que tenho que me preparar melhor fisicamente e que, para ir além do que faço hoje, também preciso de mais técnica. Não cumpri o objectivo de subir ao Monte Perdido, o terceiro pico mais elevado dos Pirinéus, mas isso não foi importante. Levava alguns medos de estatísticas ameaçadoras, mas desisti por um misto de cansaço e condições de logística. Tudo o que aprendi foi importante. Subi mais alto do que já alguma vez tinha subido e, pela primeira vez, estive na alta montanha. Percebi melhor a motivação de quem quer ir sempre mais alto. Ícaros sem asas que continuam a querer alcançar o sol.

Wednesday, October 31, 2007

Duas ideias da última caminhada com o UPB


A primeira

As grandes obras, no caso da barragem de Paradela, possuem sempre efeitos laterais sobre a paisagem para além dos óbvios. O que não deixa de ser uma boa oportunidade para reflectir sobre os efeitos de outras que se anunciam. Quando falamos de uma barragem pensamos logo nas terras que vão ser submergidas, nas casas que vão desaparecer, mas esquecemo-nos de reflectir nos efeitos silenciosos que essas obras terão. Não sou contra o progresso. Aceito-o e defendo-o. Recuso a hipocrisia urbana de quem quer os montes para coutada espiritual e abandona os rurais ao triste destino de se manterem pobres na terra ou participarem no êxodo. Simplesmente não compro o progresso como meramente benéfico. Fico entre Paris e Tormes, da Cidade e as Serras de Eça de Queiroz. Nem só as luzes do progresso, nem apenas o retiro edílico e bucólico.

Apercebi-me melhor desses efeitos quando fui consultar a carta antiga da zona percorrida pela caminhada. A barragem não marcou a paisagem apenas com a albufeira. Forçou ao abandono de muitos campos e prados a que se acediam por caminhos agora submersos. Não posso afirmar que a barragem tenha sido a única razão, mas com a excepção da zona junto ao lugar da Gafaria e alguns campos próximos de Sirvozelo, a margem direita da albufeira é uma zona abandonada.

A segunda

A história dos locais não se lê e aprende apenas nos livros. Lê-se e aprende-se também nos pequenos indícios, nas pequenas conversas com os pastores, na história que a senhora da aldeia nos conta, etc.. É por isso que procuro sempre falar com algumas pessoas dos locais por onde caminho.

Nesta caminhada a existência de algumas casas num lugar ermo poderia ser apenas mais uma curiosidades da montanha. O nome do local dá no entanto a pista para a sua origem, Gafaria. Este local foi uma antiga leprosaria medieval. A sua origem está perfeitamente evidenciada no nome. Na verdade a designação dos lugares é uma vezes uma das melhores pistas sobre a sua origem ou antiga função. Ainda que por vezes se deva procurar no português antigo os reais significados. Um exemplo de uma leitura não imediata: Prados da Messe = Prados do centeio.










Tuesday, October 23, 2007

Novamente o castelo de Bouro

Gosto ler sobres os locais onde caminho. É uma forma de aproveitar melhor as caminhadas que faço. Uma forma de ficar mais atento para pequenas coisas que me poderiam passar despercebidas. Numa dessas leituras fiquei com algumas dúvidas sobre a localização do castelo de Bouro. Eu já o tinha procurado numa excursão magrugadora e solitária desde a Casa dos Bernardos. E, ainda que não tivesse encontrado qualquer vestígio, confiava ter estado lá a contemplar a Serra do Gerês ao sol de Abril. Nessa manhã, sentado numa fraga a trincar uma maça, perdi-me nos recortes do horizonte. Locais que então desconhecia e que agora adoro percorrer. Quando regressei para almoçar a Campo dos Abades, ter encontrado o castelo ajudou a que percebessem melhor a excentricidade de quem madruga para percorrer os montes.

Recentemente, convencido que o Castelo e Castro seriam designações do mesmo sítio arqueológico, comecei a localizá-lo num outro local, ainda que próximo do primeiro. Uma passagem das Memórias Paroquiais de 1758 e uma descrição do castelo encontrei na web sustentavam esta minha nova certeza. Uma das fontes localizava-o sem qualquer dúvida no Piorneiro e outra descrevia um castro, designado-o também por fortaleza, no mesmo local. Escrevi isso aqui e disse-o aos meus companheiros de caminhada. Só que estava enganado.

O castelo de Bouro e o Castro são dois sítios arqueológicos distintos, ainda que muito perto um do outro. Do arqueólogo Luís Fontes, que em 2003 o estudou para a CM Terras de Bouro, recebi informação bastante clara sobre um e outro. E, como acredito que, tal como eu, muitos se interessam por conhecer os montes que caminhamos, transcrevo parte dessa informação.



O Castro

"Nas plataformas superiores, definidas por paredões que fecham as aberturas entre penedias e dos quais se conservam vestígios, recolhem-se fragmentos de cerâmica grosseira e observam-se aglomerações de pedras, que poderão corresponder a ruínas de construções.Trata-se dos vestígios de um povoado de altura, que se pode considerar grosseiramente fortificado e cuja ocupação, pela sua tipologia formal e pela ergologia dos materiais cerâmicos, por se vincular com uma exploração de recursos de modelo pastoril e possuir como contexto arqueológico as mamoas de Chã da Nave, se poderá situar entre os IV e II milénios a.C.. Alguns autores situaram aqui, erradamente, o castelo medieval de Bouro.

Escolhido como marco para limite do couto do mosteiro de Santa Maria de Bouro, o “Castro mao”, como aí é referido, faz parte do imaginário colectivo das populações vizinhas, que o apreendem como algo estranho, misterioso, relacionado com uma ocupação longínqua com a qual não se identificam,originando efabulações em torno da sua inacessibilidade e dos riscos da sua escalada - a este propósito é notável a descrição feita pelo pároco de Chamoim,José Coelho da Silva, em resposta ao questionário de 1758 (vulgo MemóriasParoquiais)."


Como uma das minhas leituras, que erradamente interpretei, foi a "notável a descrição feita pelo pároco de Chamoim", logo que me seja possível procurarei publicar-la em conjunto com a gravura que a acompanha.


O castelo de Bouro

"O Castelo, como é conhecido localmente, é a elevação que remata o esporão do maciço do Piorneiro que se estende mais para nascente, sobranceiro ao profundo vale do Ribeiro de Freitas. Com 890 metros de altitude, o monte é coroado porum denso caos de blocos graníticos de grandes dimensões, que no topo se sobrepõe formando abrigos e lapas naturais. Separado do volume maior da serra pela Chã do Castelo, a Oeste, e praticamente inacessível por qualquer outra das vertentes, possui uma implantação de grande espectaculosidade, proporcionada pela visão esmagadora do imponente maciço da serra do Gerês, que lhe fica fronteiro. Daí se domina uma ampla paisagem sobre o curso alto do Rio Homeme sobre todo o vale do Ribeiro de Freitas, que estabelece a ligação natural entreas bacias dos rios Homem e Cávado.

Na mais ampla plataforma superior, circuitada por uma cerca formada por paredões que fecham as aberturas entre penedias e dos quais se conservam vestígios significativos, recolhem-se fragmentos de cerâmica doméstica e observa-se o resto dos alicerces de uma construção de planta quadrangular,encostada à massa rochosa.

Trata-se dos vestígios de uma fortificação que, pela tipologia formal e pela ergologia dos materiais cerâmicos, e ainda pela sua estreia ligação ao caminho carreteiro, perfeitamente estruturado, que liga Seara a Covide e lhe dava acesso, se pode classificar como castelo roqueiro, característico dos primórdios da nacionalidade. Considerando as suas características construtivas, a implantação geo-estratégica e localização relativa e as fontes medievais que lhe fazem referência, seria este o castelo de Bouro.

Para a aceitação de que o castelo de Bouro corresponde ao local e vestígios acima descritos concorrem, não só as características tipológicas, comuns a tantos outros castelos que se ergueram nos cumes dos montes do Entre Douro-e-Minho, mas também o facto de as população das aldeias próximas assim o designarem, distinguindo-o claramente da elevação do Crasto, que lhe fica a Sudoeste, e sobretudo o contexto histórico-arqueológico em que se insere, em que releva o estar fora do couto do mosteiro de Santa Maria de Bouro e ser servido por uma via própria.

A sua edificação deverá datar do século XII, ao tempo das primeiras iniciativasde Afonso Henriques para afirmar a independência do reino de Portugal. Nas Inquirições de 1220 e 1258 já é amplamente referenciado, evidenciando-se as pesadas obrigações e encargos de praticamente todas as freguesias do Julgado de Bouro relativamente à manutenção do castelo.

Com a Portela da Amarela e a Portela do Homem, o castelo de Bouro constituíao vértice de um triângulo de vigilância e defesa da importante via decomunicação de origem romana que penetrava no interior galego, a célebre“Jeira” (ou Geira), a via XVIII do itinerário de Antonino que se manteve em usoaté bem entrada a Época Moderna.

O castelo, uma construção elementar aparentemente estruturada à base de madeira, que tinha que ser refeita praticamente todos os anos, terá conhecido uma ocupação recorrente mas não permanente, servindo sobretudo em períodosde conflito. Nunca foi, portanto, um castelo residencial, onde habitasse o senhorda Terra, mas antes uma instalação estritamente militar, de ocupação eventual, relacionada com um sistema regional de defesa da fronteira com a Galiza. Comos desenvolvimentos modernos da arte da guerra, nomeadamente a difusão do uso da artilharia a partir do século XVI, o castelo de Bouro deixou de ter qualquer importância militar, devendo datar desse período o seu abandono."

Thursday, October 18, 2007

PR2 - Trilho do Castelo (Terras de Bouro)


O dia amanheceu em tempo de Verão tardio. O Sherpa foi o primeiro a chegar a Terras de Bouro. O Passo Largo, a Senhora do Monte, o Quarto Crescente, a Lua Nova (a mais nova UPBotista a caminhar) e o Louro (o escrevedor nomeado voluntário) chegaram um pouco mais tarde ao pequeno-almoço. A Nogueira, depois de resolver um pequeno contratempo pneumático já tinha seguido para Santa Isabel do Monte e já nos esperava em Campos Abades.

Pelas 10h00 começamos a caminhar. À frente o Quarto Crescente ia anunciando as marcações. Era sempre o seu olhar atento o primeiro a descobrir as marcas do PR, um campeão no jogo do “Xacobeo”.

Primeiro por uma paisagem rural de enorme beleza. Entre as aldeias de Campos Abades e Seara, o trilho percorre velhos caminhos entre bosques e campos de lameiro. Pouco depois da Casa dos Bernardos, uma antiga granja dos frades Bernardos recuperada para turismo rural pela CM Terras de Bouro, um cão de uns caçadores resolveu juntar-se a nós. E, apesar de termos tentado que regressasse ao seu dono, só quando entendeu é nos deixou. Na saída da aldeia de Seara encontrámos algumas marcações vandalizadas, “apagadas” com tinta verde. É complicado compreender a motivação para tal, mas não foi complicado seguir o caminho.

Depois a paisagem foi de chãs elevadas, zonas de pastos percorridas por pastores e cavalos em liberdade. O Castelo que baptiza o trilho seria um castelo roqueiro há muito abandonado. A sua existência está documentada e terá sido importante no início da nacionalidade.

Almoçamos no coreto de Covide e no final deu tempo para um cafezinho. O percurso seguiu depois pela encosta a este. Primeiro por antigo caminho e depois por caminhos de pé posto. Um caminho com umas vistas fantásticas sobre a Calcedónia e vale do S. Bento da Porta Aberta. Nesta parte do percurso as marcações nem sempre foram fáceis de seguir, mas é a zona mais bonita do trilho. Novamente em Seara, novamente as marcações vandalizadas. Junto a um moinho de água foi preciso ter alguma atenção para não perder o percurso. O trilho seguiu depois por um bosque e levou-nos de regresso a Campos Abades pela antiga escola. Agora abandonada. Ao seu lado existe uma construção mais moderna, mas provavelmente da mesma forma vazia de alunos.

Regressámos aos carros e terminámos no Tosko, em Covide, a comer a bolo de chocolate da Nogueira. Uma grande caminhada, com o recorde de idades UPBotistas largamente rebaixado e com um grande campeão de “Xacobeo”.

texto publicado em Um Par de Botas

Wednesday, October 17, 2007

Na montanha com Miguel Torga

Os Serviços de Documentação da Universidade do Minho (SDUM) realizaram no passado Sábado uma caminhada que me deu um enorme prazer. Realizada em ritmo de passeio, num percurso curto entre Campo do Gerês e a vila do Gerês, a caminhada associou a leitura de textos de Miguel Torga à montanha que ele percorreu.

Inserida nas actividades dos SDUM por ocasião do Centenário de Miguel Torga, a caminhada decalcou numa anterior realizada pela CM Terras de Bouro. O percurso acessível permitiu a participação caminheiros menos experimentados, mas não defraudou os mais experientes. Em locais determinados, com a colaboração do Sindicato da Poesia de Braga, foram lidos poemas e textos retirados do Diário de Miguel Torga. Escutados naquele enquadramento os textos ganharam uma outra dimensão. Não é segredo que Torga é o meu escritor favorito. Poeta era como ele se considerava, mas a sua obra é muito mais que poesia. A sua prosa não é inferior à sua poesia. O seu Diário, que comecei a ler mais tarde, é extraordinário. Reflexões diversas sobre quase tudo e com uma actualidade impressionante. A Criação do Mundo, ainda que na primeira pessoa, é um impressionante retrato de um país. Um retrato que nem sequer escondende algumas das contradições pessoais. Obra de um canibal, como chega a reconhecer. Miguel Torga amou como poucos a paisagem de Portugal. Amou-a com os seus defeitos e misérias. Não a amou porque a idolatrava, mas porque sentia que a ela pertencia. Não a venerava no altar da história e das glórias pátrias. Amava-a carnalmente.

Foram muitos os textos lidos e não posso transcrever todos. Deixo apenas dois que ilustram bem o que pretendi salientar.


"Castro Laboreiro, 6 de Agosto de 1948

Não, não terei a hipocrisia de dizer que seria aqui o meu paraíso, aqui que não há papel, nem tinta, nem cinema, nem livrarias, nem cafés, nem nehum dos tóxicos de que necessito. O homem põe, mas a vida dispõe. A cidade é como prostitutas: o seu amor é falso, mas vence o de qualquer mulher honrada. Agora que estas pedras, estes gados, estas alturas que vivem recalcadas no meu sangue, não há dúvida. Aquele desgraçado Boileau, que pouco ou nada sabia de poesia, disse uma verdade imorredoira:

Chassez le naturel, il revient au galop.

Mal apanho uma aberta, sou como um galgo pelos montes acima. Não posso dizer o que sinto, nem o que procuro. Mas as pedras parecem-me fofas debaixo dos pés. A parte mais íntima de mim encontra-se e expande-se. Citadino e perdido, sou na verdade uma montanha comprimida."


"Coimbra, 7 de Dezembro de 1949

Não é por nacionalismo que seria uma tolice. É por funda necessidade cultural que peregrino a pátria. A realidade telúrica dum país, descoberta pelos métodos dum almocreve, é muito mais instrutiva do que trinta calhamaços de história, botânica ou economia. Sem acrescentar que é com o seu próprio corpo que o homem mede o berço e o caixão...

Eça falhou n'A Cidade e as Serras porque nunca calcorreou as serras. Camilo é muito mais autêntico porque atolava os pés no barro que moldava.

Temos que conhecer a nossa terra. Mas conhecê-la por dentro, sem preconceitos de nenhuma ordem. Amá-la, sim, mas objectivar-lhe tanto quanto possível os defeitos e as virtudes, para que o nosso afecto seja fecundo e progressivo.

Portugal tem sido visto ou por arqueólogos ou por obececados. São horas de tentar compreendê-lo doutro modo. Nem o cisco dos cacos, nem o delírio histórico. Uma radiografia profunda, que revele a solidez do esqueleto sobre o qual todo o corpo se mantém."


Há caminhadas que simplesmente me atraem como actividade física. Ir mais longe, mais alto. Há caminhadas que valem pela companhia, por uma vista, por uma pedra. Esta valeu por ter escutado Miguel Torga como não saberia ler.

Tuesday, October 09, 2007

O novo período albufeirozoico

Barragem da Paradela, Outubro de 2007

"Paradela do Rio, 1 de Julho de 1956

Estes tempos de barragens são uma verdadeira era nova do mundo. Qualquer dia na escola, o mestre aponta o mapa e diz:

- Antes do período Albufeirozoico aqui era o Barroso.

Miguel Torga - Diário"


Passaram mais de 50, mas o recente anúncio do novo Plano Nacional de Barragens demonstra-nos como as receitas de hoje se parecem com as receitas do Portugal de ontem. O que interessa é anunciar a "era nova" com toda a pompa. Parece que estamos condenados a ter todas as barragens possíveis e uma torre eólica no cimo de cada monte sem fazer um debate sério sobre as opções energéticas. Antes de afogar o país em albufeiras devia haver coragem para promover esse debate.