Monday, July 26, 2010

O nome das coisas e outras memórias - O Batateiro



Numa conversa interessante, cheia de informações sobre como era viver na zona de Lamas de Mouro os anos 50, relataram-me o que parece ser a origem do topónimo Batateiro junto à Bouça dos Homens (Peneda). O nome poderá ter tido origem numas plantações de batata feitas na zona. Assim o topónimo será relativamente recente (possivelmente do período do pós-guerra, década de 40). Terão sido ainda estas plantações que motivaram a abertura da estrada desde Lamas de Mouro, local onde eram armazenadas num curioso sistema de silos.

Nessa época, e quase até finais de 50, a rede viária seria praticamente inexistente e feita essencialmente pelos caminhos de carros de bois e trilhos de pé posto que agora percorremos. Depois os serviços florestais que foram abrindo as estradas numa política de satisfazer as suas necessidades e compensar as populações pelos montes. A minha fonte, filho de um antigo guarda-florestal, recorda que na sua infância a estrada terminava nos viveiros dos Serviços Florestais, actuais Portas do PNPG de Lamas de Mouro. Relatou-me que numa ruptura da barragem da Meadinha as águas terão destruído casas no Santuário da Sra. da Peneda e morto pelo menos 2 pessoas, mas o socorro não terá conseguindo chegar de jipe mais longe do que a Portela do Lagarto. Esta era a realidade do nosso território que todos os que posuem mais 60 anos nos podem relatar. Apesar de tudo em 3 gerações o salto foi enorme.

Wednesday, June 23, 2010

Choque

Ontem, em resultado de um pequeno acidente de viação, assisti a um convite, por uma pessoa que se dizia ser membro de uma força de segurança/autoridade, para prestar falsas declarações. A ligeireza com que o convite foi formulado e repetido junto de diversas testemunhas não pode deixar de ser preocupante e revelador da crise de valores que atravessamos. As normas éticas que julgamos serem universais são cada vez mais simplesmente suplementares. Cumprem-se se dão jeito e nada mais. O optimista que procuro ser escandalizou-se. Um amigo, menos optimista, já nem se inquietou: “não te admires muito, infelizmente é normal”. Eu prefiro acreditar que foi apenas uma “acidente” dentro do acidente. É preferível assim. O contrário seria o primeiro passo num caminho perigoso.

Friday, June 11, 2010

Vilarinho das Furnas

O convite é tardio, mas eu também só recentemente soube desta exposição. As imagens são de uma beleza impressionante e recomendo a sua visita. A exposição permanece no Museu da Imagem (Braga) até 11 de Julho.

O Grupo IF (Ideia e Forma), nasceu em 1976, "foi durante anos a maior referência de fotografia colectiva em Portugal. Realizou 11 exposições, na sua maioria de carácter interventivo e contendo na sua essência uma grande visão crítica e satírica da nossa sociedade.

Alguns dos seus membros continuam a fotografar, outros deixaram por razões de saúde e outros já morreram.

Tuesday, June 01, 2010

Lapso ou deturpação

Um dia alguém me disse: “quando uma palavra começa a ser muito usada o normal é que o seu sentido esteja a ser deturpado”. Ao longo dos tempos tenho confirmado como este “postulado” parece bater certo. Assisti também à ascensão e queda de muitos dos “palavrões” oficiais.

A “certificação”, “inovação”, “empreendorismo”, “transfronteiriço”, “internacionalização” e muitas outras que já esqueci foram, ou ainda são, vendidas como receitas mágicas para resolver todos os problemas do mundo. Seriam como uma forma adulta da palavra mágica “Perlim-pim-pum” ou então chaves diferentes para grutas de riquezas prometidas. Depois, na fase descendente, são apenas palavras repetidas por modismo, fé ou coisa pior. Os ciclos foram/são normalmente marcados pelos ciclos oficiais de candidaturas a apoios e projectos. Os consultores julgam sempre saber qual o palavrão chave em cada momento e a ciência nem é complicada. Basta estar atento aos discursos oficiais.

Os últimos tempos políticos parecem ter juntado “ética” ao rol. È que não me recordo de ouvir tantas vezes a palavra ética no discurso político. Tendo é conta o “postulado” acho que temos razões para ficar preocupados. Um exemplo do postulado parece ser a recente invocação da “ética da responsabilidade” de forma aparentemente contraditória em dois momentos diferentes e por políticos diferentes.

O presidente invocou-a para justificar que foram as circunstâncias que se impuseram. Como quem diz, ele, se exercesse a “ética de convicção”, teria decidido diferente. Tal como Max Weber explicava, parece ter ficado prisioneiro do dilema entre “convicções pessoais e adopção de comportamentos orientados pelas circunstâncias”.

O Primeiro-Ministro invocou-a para justificar a necessidade de apoiar um candidato. Ou seja, apoia mas contra as crenças e suposições pessoais. Só que de seguida, afirmou o apoio em nome dos valores e convicções. Será a denegação implícita uma contradição premeditada. Ou, por hipótese mais benigna, será um lapso ou deturpação?

Friday, May 28, 2010

O humor é uma arma


De tudo que ouvi e li, este cartoons são uma das melhores críticas à acção directa do senhor deputado.

Tuesday, April 27, 2010

Cabreira



Depois de uma tentaiva frustada voltei à Serra da Cabreira guiado pelo Rui França. O meu plano original foi completamente alterado para evitar os estradões. Uma caminhada muito interessante e que valeu ainda pela descoberta de alguns lugares para uns bons banhos de Verão.

Monday, April 26, 2010

Mãe

Em homenagem à dor de um amigo.

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

Wednesday, March 31, 2010

Lenda do Rio Ave



Não vou à procura das lágrimas da linda cabreira, mas a minha próxima caminhada será para conhecer mais uns segredos da Cabreira.

"Há muitos anos, há mesmo muitos, muitos anos, dezenas ou centenas de anos, chegou à Serra da Agra uma jovem, com um rebanho de cabras, vinda da Galiza. Sem ligar a fronteiras que, naquele tempo, não tinham a importância que hoje lhes damos, por ali andava a cabreira guardando o seu rebanho e admirando a paisagem que seduzia e encantava.

Por encostas e vales a jovem cabreira, bonita e formosa, ia contemplando a beleza local: os mantos verdes da vegetação, o azul transparente do céu, o amarelo cintilante do sol…. Nesta Serra do norte de Portugal, com 1200 metros de altitude, na passagem da província do Minho para a de Trás-os-Montes, reinava a paz. Os sons emitidos pelo rebanho, o chilrear das aves e o relinchar dos pequenos cavalos, os garranos, que habitavam a serra, eram uma melodia que sublimava as lindezas da natureza.

Mas um dia instalou-se a confusão. Cães que ladravam, cavalos que galopavam, homens que bradavam, trombetas que tocavam, setas e mais setas que assobiando cortavam o ar. Andavam caçadores pelas redondezas e a linda cabreira foi vista por um cavaleiro, também ele jovem, bonito e encantador. Deslumbrado com a sua formosura, o cavaleiro parou, admirou-a e com um grande sorriso, disse-lhe:


- Olá linda cabreira! Estou seduzido pela tua beleza. Os teus cabelos são como raios de sol, o teu olhar tem o brilho das estrelas e a tua doçura o reflexo do luar. Ela sentiu o mesmo encanto pelo cavaleiro e, envergonhada, respondeu-lhe:

- São os vossos olhos que me vêem assim. Senhor! Não mereço tanta admiração e o que me dizeis faz-me corar.

Vencido pela atracção que por ela sentia, o cavaleiro desceu da montada e deixou a caçada.

- Ouve, por ti, e só por ti, deixo os meus amigos e fico nesta serra só para te adorar!

E foi assim que começou, entre eles, uma linda história de amor. O cavaleiro e a cabreira esqueceram-se dos dias. Ali, sozinhos e felizes, sonharam, brincaram e fizeram juras, como se só eles existissem no Mundo. Mas, um dia, o cavaleiro sabendo que tinha trabalhos importantes a fazer e assuntos urgentes a tratar viu-se obrigado a partir.

- Ouve, minha princesa, eu vou ausentar-me, mas voltarei o mais depressa possível. Já não posso nem quero viver sem ti.

Suspirando de tristeza, a cabreira apenas confessou:

- Nem sei sequer quem és, nem tão pouco como te chamas.

O cavaleiro sorriu e abraçou-a, procurando dar-lhe confiança.

- Pouco importa, sou o homem de quem tu gostas e que também gosta muito de ti.

Mas digo-te que sou o Conde de uma vila próxima e em breve virei buscar-te para o meu palácio. Espera por mim!


Como numa jura, ela prometeu:

- Esperarei até ao fim da minha vida.

E esperou….

Os dias passaram, uns atrás dos outros, e a cabreira aguardava, impaciente, o seu amado. Recordava os dias felizes vividos com ele e não o vendo chegar ia entristecendo. Então, pensava:

- Preciso de o encontrar, de o ver, abraçá-lo, brincar e sonhar de novo… nem que para isso tenha de me transformar numa ave para sobrevoar as vilas mais próximas.

O tempo corria e o cavaleiro não voltava. Cada vez mais triste, quase morta de cansaço a cabreira começou a desesperar. As lágrimas inundaram-lhe os olhos e chorou. Chorou tanto, tanto, que as lágrimas foram formando um rio. As suas águas, que eram a dor e a mágoa da linda cabreira, percorreram as terras das redondezas.


Para ajudar este rio, a encontrar o cavaleiro, outros, mais pequenos vieram ao seu encontro. Da margem direita chegou o rio Pelhe que percorreu 20 quilómetros e o Este 52 Km. Da margem esquerda ocorreu o rio Selho que caminhou 21 quilómetros e o Vizela 47, trazendo consigo os rios Ferro e o Bugio.

Todos juntos, rios e riachos cobriram uma área de 1390 quilómetros quadrados. Correndo de nordeste para noroeste, o rio de lágrimas calcorreou 94 quilómetros. Com os rios mais pequenos banhou terras de Vieira do Minho, Povoa de Lanhoso, Fafe, Guimarães, Vizela, Santo Tirso, Lousado, Ribeirão e Trofa, espraiando-se em Vila do Conde, a terra do cavaleiro que jamais foi encontrado.

O povo comovido e entristecido com a malfadada história da jovem e linda cabreira, não quis que ela fosse esquecida. Assim passou a chamar-se à serra onde a cabreira e o cavaleiro se conheceram – Serra da Cabreira e ao rio de lágrimas – Rio Ave – Já que ela queria ser ave e voar.

Um dia, se puderes, visita a Serra da Cabreira e faz o percurso do Ave. Quem sabe … talvez ainda descubras as lágrimas da linda Cabreira."

Fonte: Livro "A Lenda do Rio Ave e da Serra da Cabreira"

Tuesday, March 30, 2010

O Belo


Numa caminhada o Rui do blogue Carris chamou-me a atenção para alguns topónimos curiosos que existem na Serra do Gerês. Quando depois voltou a referir-se a eles no seu blogue e referiu a existência de uma casa que é referência mundial reavivou-me a curiosidade. Sobre o topónimo Adpropeixe nada descobri, mas a citada casa é qualquer coisa. Independentemente das questões da sua construção - em PNPG e junto da Albufeira de Caniçada, é a arquitectura que quero saudar. Somos educados e formados para procurar o prático, mas é o belo que nos surpreende.

Friday, March 26, 2010

Construir a natureza

The Berg - construir uma montanha

Nos tempos da universidade um amigo meu, na pré-história do stand-up, brincava com os construtores de montanhas e com os políticos que construiam pontes para as quais depois "inventavam" rios. O absurdo da ideia soltava as gargalhadas. Construir a natureza era apesar de tudo mais absurdo. Infelizmente a ideia de inventar "rios" para justificar "pontes" já não nos pareciam tão inverosímil.

Foi por isso que ao descobrir uma proposta em se discute em Berlim não consegui deixar de soltar um gargalhada e recordar esses momentos.

Sobre a proposta nem sei o que pensar.