Tuesday, October 09, 2012

Pelo Vale do Conho a Rocalva

Há muito tempo que queria fazer este trilho, mas na saída de Braga ainda hesitava entre seguir por uma cota mais elevada indo pela alto da Corga da Giestiera. A Dorita (White Angel) tinha-me descrito com pormenor a subida pelo Cutelo de Pias, com a recomendação de só o tentar fazer em dias secos pois parte dele é feito em lage. Tinha também uns tracks de GPS que seriam parecidos com o caminho feito por ela.

Com as chuvas de Outono à porta, sabia que esta era uma das últimas oportunidades de o fazer este ano. Sabia também que todo o vale do Conho daria boas fotografias e era uma oportunidade de aproveitar a companhia do Luís para tentar aprender mais qualquer coisa. No local constatei que não tinha carregado a bateria do GPS. Um pequeno erro de preparação que apenas me impederia de registar o trilho, apesar de não conhecer a totalidade do percurso a realizar a orientação estava facilitada pela orografia.

A subida pelo Vale do Conho é, no momento, fácil. O trabalho realizado pela Associação Vezeira (Fafião) na limpeza do trilho facilitou muito a progressão. Chamam-lhe Trilho dos Pastores e segue depois até ao Rio Laço através do estreito (1).  No final do vale do Conho hesitamos se deveríamos seguir todo o trilho agora aberto em direção ao estreito, mas optamos pelo plano original de subir pelo Cutelo de Pias. O trilho até acaba por não ser muito complicado, mas deve ser evitado com as lages molhadas.  Encontrar as mariolas que indicam a subida para o Cutelo de Pias pode não ser fácil. No final do Vale do Conho, deve-se virar à esquerda, seguir a linha de água até à outra corga e depois tomar a linha de festo. As mariolas estão lá e, após serem descobertas, são relativamente fáceis de seguir. Quase no final da subida, abandonando o trilho, uma opção errada levou-nos ao topo do Cuetelo de Pias.  Um erro básico que acrescentou dificuldade ao que era simples. Digamos que foi um pequeno exercício de montanhismo num trilho que poderá ser classificado de pedestrianismo avançado.

O regresso foi feito pelo trilho da Vezeira, após uma curta paragem na Rocalva para almoçar.

(1) O trilho aberto depois do estreito desce o Rio Laço em direção à Touça (Porto da Laje) e pode ser conjugado com o Trilho da Vezeira em múltiplas variações. Voltarei a ele brevemente.
do Conho a Rocalva



































 foi por aqui, mas não era por aqui!






















Tuesday, September 11, 2012

Na incerteza destes dias

Num deserto de areia ou de incerteza
O desejo desenha.
Fantasia um fantasma, que lhe venha
Acudir.
Qualquer Preste João,
Também cristão,
Mas rico e generoso,
Que, depois do mar largo e tormentoso,
Possa abrir
As arcas da canela e da pimenta
Aos seus irmãos,
Cristãos,
Que a terra natural já não sustenta.

Miguel Torga, A miragem (Poemas Ibéricos, 1965)

Já por aqui disse que um dos meus objectivos da vida é coleccionar os livros de Miguel Torga nas edições da Coimbra. Ainda que possua alguns livros de edições recentes, é nesses livros tipografados que quero ter toda a obra do autor. Uma colecção realizada ao ritmo de colector vagaroso e de oportunidade. Talvez para o fim me apresse, mas por agora faço-a a um ritmo incerto sem me preocupar com as datas edições que compro.

Há muito que não fazia qualquer compra, mas hoje recebi pelo correio 3 livros que comprei a um preço justo. Tenho outros identificados e talvez brevemente volte a enriquecer a minha estante. Como disse não tenho pressa.

O poema que publico retirei-o de um dos livros que recebi. Escolhi-o depois de ler as notícias de hoje. Talvez o nosso erro seja esperar que o Preste João nos acuda por razão de fé, talvez já não tenha tanta canela e pimenta, talvez não seja generoso, talvez não exista e tenhamos que encontrar sozinhos uma saída deste deserto de areia e de incerteza. Talvez seja melhor enterrar os nossos fantasmas e acreditar mais em nós.

Monday, July 30, 2012

De volta pela Serra

Recentemente interrompi a "licença" parental para partilhar com um amigo e convidados, todos praticantes de BTT, uma das minhas paisagens preferidas dentro do PNPG. A caminhada para além desse objectivo procurava demonstrar a impossibilidade de ligar o Porto da Laje a Fafião em BTT. Aceitando a minha opinião de que tal não era possível, dizia-me o meu amigo que no meio dos "bttistas" se falava nessa ligação e até haveriam relatos e notícias de traks pela net. Como não era fácil contrariar a vontade de fazer a "descoberta" dessa ligação, acabei por considerar que seria uma boa oportunidade para voltar a caminhar. Ainda que tivesse fundamentadas dúvidas sobre as minhas capacidades físicas actuais e noção que a conjugação da dificuldade do terreno e calor não me seria a mais favorável. Acrescido à falta de forma, o meu maior receio eram o excesso de formas acumuladas nestes meses de descoberta da parentalidade. Algo que a serra, como professora exigente, me recordou e castigou. Ao longo da caminhada os meus companheiros de jornada foram-se deliciando com a paisagem e concordando com minha opinião relativa à ligação em BTT. Ficaram com vontade de voltar e fazer a totalidade do trilho marcado pela Vezeira de Fafião, ou outros que fui mencionando. Seguindo o programado, a  partir da Touça abandonamos o trilho através do Rio Laço em direcção à cabana da Amarela e ponte da Matança.


















nota: Encontrei um dos tracks dos bttistas. Não era mito. Carregaram as bicletas ao longo de 3 kms. Eu que defendo a partilha de informação não deixo de me assustar com as coisas que se encontram na net. É verdade que o aviso estava lá - na partilha, mas a Pandora também recomendaram que não abrisse a caixa. Partilhar tudo será um bom critério?

Tuesday, April 03, 2012

Maria



Benvinda sejas
À grande casa solar
A este tempo finisecular
Hoje é o teu dia de estreia
Olha à volta tens a casa cheia
Há estrelas e rios na plateia

Tudo isto é teu
Aquém e além do horizonte
A brisa que afaga o amieiro
E a água na fonte
Benvinda sejas, maria
Benvinda sejas, maria

Por ti as águias velam
No cimo dos montes
E a lua rege
O orfeão das marés
À noite os poetas
Decifram os lunários
Para ver se conseguem
Descobrir quem és

Tudo isto é teu
A terra é tua serventia
Mas vais ter de lutar
Por ela e por ti em cada dia
Benvinda sejas, Maria
Benvinda sejas, Maria

Sunday, February 26, 2012

Toponímia da Serra do Gerês: Pedra Bela


Não é que tenha intenção de procurar estudar a etimologia dos topónimos da serra do Gerês, mas uma entrada do blogue Carris recordou-me que já tinha lido algures sobre o topónimo Pedra Bela. Seguindo as indicações recolhidas voltei à estante em busca dessa explicação e no Gerez (Notas Etnográficas, Arqueológicas e Históricas) de Tude de Sousa reencontrei o que pode ser uma interessante explicação. Segundo uma opinião do Padre Martins Capela, que Tude de Sousa publica, Pedra Bela seria uma corrupção de Pedra de Vela, um local onde os pastores velavam o gado.


"A tal Pedra Bela, muito conhecida nas Caldas suponho não ter jus a tal epíteto: há-de ser Pedra de Vela, donde os pastores velavam a caça ou as mandas pelo vale." Padre Martins Capela, revista Estudos sociais, nº 3, de Junho de 1910 

Thursday, February 23, 2012

Sobre a possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês

Já tratei aqui sobre uma possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês quando partilhei uma leitura das memórias paroquiais da freguesia de Outeiro (Montalegre). A hipótese então avançada pode ser consultada aqui e apontava para um dos muitos reencontros na altura da Restauração. Época em que Pitões da Júnia terá sido incendiada, as pontes da Geira derrubadas e durante vários anos terão existido diversos conflitos fronteiriços.

Tal como esclareci então, considero que são estas pequenas coisas que ajudam a enriquecer os que gostam de andar pela serra por razões diferentes da, usando uma expressão de Unamuno aprendida no Torga, mera voluptuosidade da fadiga. Gosto de partilhar com os companheiros de caminhada o que vou descobrindo sobre a serra e os seus segredos.

Na leitura da monografia de Pincães (ver aqui) encontrei uma outra hipótese que aponta para uma justificação diferente e muito mais anterior do topónimo Matança. Com efeito, o livro Aldeia de Pincães transcreve parcialmente um manuscrito de 1744, do Padre Diogo Martins Pereira, no qual se pode ler:

"...
34º Estes três acima repartidos no grande distrito e âmbito desta freguesia fariam guerra aos sarracenos e mouros que infesteram quase toda a Espanha, e nesta freguesia lhe era fácil a defesa junto com os mais cristão que povoaram aquelas montanhas da serra do Gerês, como em toda esta serra ainda hoje se veêm, foi antigamente cultivada tudo aquilo que podia dar fruto para sustentar os perseguidos e ainda esta casa da Freira tem naquela serra várias propriedades em que se colhia e colhe bom centeio como é o Pêro, curral das mangas, dois em Lagoa, um no Pássaro e outro em Rocalva e muitos desertos que ninguém cultiva, e naquele tempo se cultivaram para remédio dos viventes.
35º E que foi certa batalha que os cristãos ali deram aos mouros, como sediz desta batalha, tomaram o nome de Matança pelos muitos que, os cristãos ali mataram se haviam de achar, a ela, os três referidos com toda a mais cristandade que havia por aquela serra ou os seus descendentes que não havia degeneras daquela aperto dos seus antepassados, e assim serviu esta freguesia  naquele tempo de Valha Couto e baluarte da cristandade  como seria na referida batalha da Matança a qual fica vindo da parte de  Pitões para o meio do Gerês adiante, dos Currais de Lamalonga, limites desta freguesia de Cabril.
36º E seria na ocasião que o príncipe Dom Pelágio, se viu favor vindo do Céu nas Covas de Oviedo, quando as setas que contra ele aos seus atiravam os mouros, as mesmas que atiraram e se feriam e matavam e aos muito mouros que ali escapavam se viriam com esta serra em paradeiro fazendo nela redutos e cateteres no áspero da mesma serra, donde os cristãos os expulsaram e fizeram  retroceder até Matança, onde lhe deram batalha, e que por isso lhe deram o nome de Matança pelos muitos que ali mataram, donde não puderam entrar nesta freguesia, a qual tinham extremado ódio, sendo esse ódio comum contra toda a cristandade que vivia nas Espanhas, venha a ser especial contra os povos que viviam nesta freguesia tão extensa, e lhe fazia tanto dano como se viu nesta batalha da Matança e dizem que juraram os mouros vencer ou morrer como morreram os mais deles, e também dizem que deste solene juramento que fizeram no Gerês, tomara a serra este nome de Gerês, e então se não deve escrever Gerês, mas sim Jurês.
..."

Parece-me óbvio que estamos a falar do mesmo local e, sendo assim, pelo menos uma das explicações para o topónimo estará errada. Ainda que não queira tomar partido por nenhuma das possíveis explicações, devo esclarecer que me parece mais credível a que encontrei nas Memórias Paroquiais. Fundamento a minha opinião em duas grandes razões.

A primeira porque são conhecidos os muitos conflitos fronteiriços que ocorreram na Restauração, a que o manuscrito também faz referência, e me custa acreditar num reencontro entre cristão e mouros num local tão elevado e afastado dos locais naturais para atravessamento da serra. Mais ainda quando relaciona esse reencontro com Pelágio e a Batalha de Covadonga (o que situa esse reencontro por volta de 721).

A segunda porque me questionei sobre a etimologia da vocábulo Matança e descobri uma provável, apesar de não confirmada e controversa, origem árabe (ver aqui). Ora, confirmando-se a origem , seria muito estranho que os critãos nomeassem o local da batalha com um vocábulo de origem árabe (1).

Ainda assim, não quero afirmar definitivamente qualquer uma das explicações para o topónimo. Que cada um seja livre para escolher uma das duas. Ou faça como eu, relate ambas e deixe para terceiros a decisão sobre elas.

(1) há quem defenda que a origem da palavra é “matar”, do Latim MACTARE, “imolar, sacrificar aos deuses”. Aparentemente o verbo significava, no início, o ato de elevar o objeto de sacrifício ao ar, em direção ao céu. Depois se estendeu ao ato de tirar a vida da oferenda (ver aqui).


Monday, February 13, 2012

Ainda sobre o Curral do Absedo

Referência ao curral do Abessedo (Absedo) no documento

Aproveitando uma ida a Pincães (Cabril, Montalegre) enriqueci a minha biblioteca com mais um livro sobre a Serra do Gerês. O livro Aldeia de Pincães é uma monografia da aldeia, da autoria de António Fernando Machado Ribeiro Guimarães  e publicada com o apoio da Associação Dinamizadora dos Interesses dos Compartes de Pincães - ADICP. No prefácio é dito que o livro está escrito com o coração e de facto o autor  assumiu a sua ligação afectiva com a aldeia sem medo de perder  objectividade. Para já fiquei-me por uma leitura rápida e pouco aprofundada ao livro. Apenas a suficiente para referenciar alguma da informação tratada e tenciono voltar a ele com mais tempo pois encontrei diversas pistas que tenciono explorar no futuro.

No livro encontrei também um documento, a que chamarei "O regime de pastagens das vezeiras da Serra do Gerês segundo os usos e costumes antigos"  que partilho parcialmente aqui. Já tinha lido referências a este documento no blogue Cabra do Gerês e essa foi uma das razões pelas quais procurei este livro. O documento pode esclarecer que vezeira que utilizava o Curral do Absedo (Abessedo ou Abecêdo) e com isso resolver a questão do nome. O documento poderá ainda ajudar a perceber os usos e costumes das vezeiras do Gerês Oriental nele citadas e esta é umas das pistas futuras que tenciono explorar.

O Curral do Absedo, na grafia de Tude de Sousa, que já tratei neste blogue aqui,  desperta a curiosidade de muitos dos apaixonados pela serra por diversos motivos. Para não repetir o Rui Barbosa, aconselho a leitura do que blogue Carris escreveu obre este curral. Situado numa das zonas mais inacessíveis da serra, encaixado numa pequena chã a uma cota de aproximadamente 1290 metros, qualquer que seja o trilho escolhido para visitar este curral obriga primeiro a subir  aos 1400 metros. Um esforço que não deve ser menosprezado pelos que conhecem menos bem a zona, exigente para os dias curtos de Inverno ou de temperaturas elevadas, sem água, nos dias de Verão.

De acordo com este documento, o curral do Absedo seria utilizado pela vezeira dos bois de Pincães (Pincães, S. Ane, S. Lourenço, Chelo, Fontainho, Vila Boa e Cavalos) . Informação que esclarece a expressão de "monte dos bois" que ouvi  em Agosto último a uns pastores nas Lagoas do Marinho. Iam esses pastores em busca de umas vacas que por lá andavam e que deveriam ser as que eu encontrei mais tarde, já no final do Verão, na última vez que passei pelo Absedo.

Naturalmente que esta informação não esclarece definitivamente o seu nome e a utilização deste curral por esta vezeira pode ser posterior ao abandono do curral pelas gentes de Vilarinho. Há ainda a hipótese de se tratar de um curral utilizado por mais do que uma vezeira e ter diferente designação para as gentes de Vilarinho e para as gentes de Pincães.  Seja como for todas as fontes documentais parecem indicar que o curral se chama Absedo, Abessedo ou Abecêdo.
pormenor do documento "O regime de pastagens das vezeiras
da Serra do Gerês segundo os usos e costumes antigo"

Wednesday, January 04, 2012

Ainda sobre a Casa das Neves


Desde que soube da existência de umas ruínas de uma casa das neves na Serra Amarela me interessei pela sua localização. Mais tarde, quando preparava uma caminhada para a AAEUM, tive a sorte de obter essa informação da CMTB e, finalmente, visitei-a.  Depois no blogue voltei a tratar a Casa da Neve para partilhar as fontes onde tinha sabido da sua existência.
Volto novamente a este assunto porque encontrei na minha leitura actual (O Gerês: de Bouro a Barroso, de Rosa Fernanda Moreira da Silva) uma interessante e mais completa informação sobre este tema. Que para a autora serve essencialmente para enquadrar o clima da área do estudo e da existência de “little ice age".  Saber Serra Amarela estaria 6 meses com neve, ajuda a interpretar de forma diferente aquele territórioa e a nossa perspectiva da serra é necessariamente diferente.

O local da casa da neve possui ainda outro interesse. É perto dela que Matos Ferreira refere que terá sido morto um dos últimos ursos no Gerês: "[...]Hoje se não acha no Geres tal casta de animal por causa dos grandes fogos que sempre continuamente os lavradores andão lançando nos montes, e o ultimo que se matou, conforme referem os velhos da terra, foy pouco mais ou menos no anno de 1650, na Quelha da Ursa, que fica para a Chã da Fonte, junto à Casa da Neve”. (1)


Julga-se que o urso terá sido extinto no PNPG mais tarde e há notícias bem mais recentes de avistamentos na Galícia que fazem pensar que continuaria a frequentar a área mais a norte do PNPG e nas Memórias Paroquiais de 1758 da freguesia de Outeiro (Montalegre) é dito: "[...] Há quem se lembre de hum homem da freguesia de Cabril que matou no ditto Gerês um urso. Certifica havê-los nesse tempo por se verem de presente sinaes de muros de colmeas sobre pedras altas para se livrarem delles”. (2)

Ainda que já estivessem por essa altura dados como extintos: [...] “FAFIÃO – “Entendendose hir a extinguindose [os lobos cervais] como se extinguirão os ursos pelo cui[da]do que os moradores tem de os preceguir, e caçar andando de dia e de noute athé os matar, ou fazer fugir p[ar]a os montes da Irmida e Villar da Veiga, donde também os perseguem com notável cuidado […]” [fl. 13] (3)

Finalmente, da minha prenda de Natal, sobre a casa das neves da Serra Amarela: [...] Numa visão comparativa em relação à Serra Amarela recorda-se a Notícia da Freguesia de S. João de Campo onde se afirma: “[…] Na Serra Amarela conserva-se a neve 6 meses em cada ano. Na Portela da Serra Amarela, na conhecida Chã da Fonte, existiu a chamada Casa da Neve, propriedade de Arcebispos de Braga”.

Na proximidade da Casa da Neve da Serra Amarela existe a Fonte Fria e vários manuscritos afirmam que: “[…] a água dessa fonte era tão fria que metendo-se a mão por alguns minutos, ela paralisava”.

Para matos Ferreira “[…] a Casa da Neve da Serra Amarela foi mandada construir pelo arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos Noronha, que a não concluiu por ter entrado na prisão em virtude da conjura contra D. João IV. Em 1680 estava parcialmente demolida e assim ficou até 1684, altura em que o Arcebispo de Braga D. Luís de Sousa, entre 1687 e 1690, a mandou reedificar e encher de neve”.

As diferentes notícias referentes ao negócio da neve e os inúmeros episódios de conflito de interesse estenderam-se entre 1623 e o século XIX, sem nunca incluir a Serra Amarela. Em 1728 a Casa da Neve encontrava-se novamente arruinada.

O entanto, as actuais ruínas denunciam uma sólida estrutura em granito e reúnem factores locativos ideais como a orientação, altitude, proximidade em relação à Fonte Fria, ou seja, existiam todas as condições para o sucesso de um pólo de armazenamento de neve. Infelizmente, a ausência de escavações lançam múltiplas dúvidas sobre o número e a dimensão dos poços onde seria despejada a neve e o seu posterior armazenamento. Recorda-se que o armazenamento da neve exigia, pelo seu valor, um permanente acompanhamento e vigilância.

No âmbito desta investigação não tivemos oportunidade de concretizar trabalhos de arquivo que nos esclarecessem o volume de neve armazenada, o trabalho de neveiros e os locais de consumo dessa neve e gelo. Portanto, não nos é possível retirar qualquer conclusão relativamente à importância desta Casa da Neve, ainda em ruínas. Contudo, as actuais ruínas permitem idealizar uma razoável capacidade de armazenamento e uma acessível ligação a Brufe, vale do Cávado e, finalmente, a Braga e Guimarães.

Se pensarmos na azáfama relacionada com os trabalhos de frecolha da neve, do seu armazenamento e de vigilância até ao seu transporte para o local de consumo, somos conduzidos a admitir que essa actividade não se coadunava com as especificidades de um território raiano, ou seja, com as ligações impostas pelos frequentes períodos litigiosos e pela participação dos terrabourenses na defesa das Portelas do Homem e da Amarela.

Segundo nossa opinião, o efémero historial desta casa da Neve foi determinada pela localização em plena Serra Amarela. Todavia no sentido de se aferir a sua importância à escala local e regional impõem-se a concretização de estudos de Arqueologia, o recurso a outros registos para assegurar o cruzamento e a confrontação de informação. (4)

Brevemente voltarei a este local para recolher fotografias. A minha actual leitura sera ainda motivação e pretexto para muitas caminhadas e explorações.
 
(1) 1728 – [Padre José de Matos FERREIRA, Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez, Braga, 1728] Edição fac-similada da Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1994.
(2) 1758 – Na memória paroquial da freguesia de Outeiro. [Rogério BORRALHEIRO, Montalegre Memórias e História, Montalegre, 2005]
(3) 1744 – Códice dos Casais de Pincães. P.e Diogo Martins Pereira [transcrição de cópia de 1813, por António Martinho BAPTISTA]
(4) 2011 - [Rosa Fernanda Moreira Silva, O Gerês: De Bouro a Barroso - Singularidades Patrimoniais e Dinâmicas Territoriais] Afrontamento

nota: lobo cerval é uma designação local para o lince

Saturday, December 10, 2011

Algumas fotografias de Vilarinho da Furna


Estas fotografifias eram do meu pai. Desconheço a sua história e como as recebeu. Encontreia-as há algum tempo quando remexia fotografias antigas e outras papeladas. Imagino lhe tenham sido oferecidas por alguém sabendo que tinha visitado a aldeia de Vilarinho da Furna em momentos próximos dos retratados. Partilho-as no primeiro aniversário da sua morte em recordação do que gostava em vida.

Friday, December 09, 2011

Uma boa notícia: Câmara Municipal de Ponte de Lima cria "Casa de Montanha"



Só recentemente soube desta notícia e não posso deixar de lhe dar o destaque merecido. É uma iniciativa feliz e que poderia servir de exemplo para recuperar parte do património dos antigos Serviços Florestais. Naturalmente que nem todas as casas poderiam ser assim recuperadas, mas este é apenas um dos modelos possíveis e seria aplicável em muitas das casas abandonadas pelas serras. 

Câmara Municipal aprova “Casa de Montanha – Centro de Acolhimento e Núcleo Patrimonial – Cerquido” - Reunião de Câmara de 14 de Novembro
 
A Câmara Municipal de Ponte de Lima em reunião, realizada no dia 14 de Novembro, aprovou a abertura de procedimento concursal, mediante Concurso Público da empreitada de "Casa de Montanha - Centro de Acolhimento e núcleo Patrimonial - Cerquido".

O projecto consiste no restauro de uma casa agrícola serrana, adquirida pelo Município de Ponte de Lima, conferindo-lhe uma nova função, de índole sociocultural, através da sua reconversão numa instalação polivalente, aberta à comunidade e aos visitantes.

Ao implementar este projecto, o Município de Ponte de Lima pretende definir uma estratégia de divulgação do património material e imaterial. Considerando os valores patrimoniais existentes no núcleo do Cerquido, o referido projecto inclui as seguintes áreas funcionais: - espaço de acolhimento, intitulado "Sala dos Amigos da Casa"; espaço "Eventos e Momentos", consistindo num micro-auditório polivalente; cozinha de apoio à realização de mostras e workshops gastronómicos; "Sala de Aprendizagem", concebida enquanto espaço para a dinamização de acções formativas especializadas, especialmente no domínio do artesanato; oficina "Artes à Moda da Serra", destinada à demonstração de artes e ofícios e exposição de artesanato; espaço expositivo para o acolhimento de exposições permanentes e itinerantes.

Este equipamento multifuncional será o ponto de partida ou chegada de uma rede de itinerários culturais, suportada por painéis informativos e uma mesa interpretativa, expandindo no espaço envolvente o conceito e a função do Centro de Interpretação.

Assim, o turista será guiado no seu percurso de descoberta do território quer através de suportes representativos, textuais, gráficos ou multimédia, quer através da observação directa e da vivência sensorial do espaço físico.