Wednesday, April 02, 2008

Crónica de um reconhecimento furado

No passado Domingo, 30 de Março, reconheci , na companhia do Tiago, o percurso da caminhada a realizar no próximo dia 6 de Abril (Domingo) com a AAEUM e o UPB. Na AAEUM, Sempre que possível, gosto de manter este procedimento . Serve para verificar as condições do percurso e estudar algumas alternativas ao programado. O UPB é um espaço mais livre. O espirito é de maior aventura, de partilha de responsabilidades, caminheiros e montanhistas mais experientes. Para esta caminhada, dada a companhia de um profundo conhecedor do percurso, o Ricardo Silva, nem era muito importante fazer o seu reconhecimento, mas também queria aproveitar para o realizar em BTT.

No sentido inverso ao da caminhada, saímos de Campo do Gerês tão cedo quanto a mudança da hora nos permitiu e lançamo-nos à Geira. O tempo estava incerto e chuviscos rapidamente se transformaram em chuva, dificultando o reconhecimento. Razão pela qual não tivemos muito tempo para apreciar e fotografar as paisagens percorridas pela Geira. Eu sou um ciclista recente e os primeiros km são sempre mais complicados. Vou ganhando confiança, em mim e na máquina, aos poucos. De certa forma, parte do interesse da exploração era também testar os meus limites.

As estradas romanas possuíam uma inclinação pequena, pelo que se percorrem sem dificuldade. Só que, para as bicicletas, algumas zonas da antiga calçada são de dificuldade técnica exigente e algo duras para os pneus. Após 4 furos, uma bomba perdida e outra com problemas, tivemos mesmo que improvisar um carro vassoura que nos socorreu, perto da milha XVII, na capela de S. Sebastião da Geira. Local onde interrompemos o reconhecimento. Foi uma enorme aprendizagem. Já não me recordava de reparar um furo. Já não me recordava de desmontar um pneu. Mas parece que não é só o andar de bicicleta que não esquece.

Não chegamos até Sta Cruz (milha XII), mas fizémos o reconhecimento de grande parte do percurso. As milhas que faltaram serão as mais alteradas e seriam até as mais fáceis de percorrer. Ficou claro que a Geira é um percurso de grande beleza e com uma dificuldade acessível a todos os públicos. Uma caminhada que permite o contacto com a nossa história e com paisagens diversificadas. Voltarei à Geira em BTT. Apesar das dificuldades técnicas de algumas zonas, é fantástica. Um cenário fabuloso para andar de bicicleta.

Monday, March 17, 2008

Sobre a voluptuosidade da fadiga e outros apontamentos


Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!
Miguel Torga - Diário
II


É a segunda vez que publico esta entrada do Diário. Publico-a novamente porque ela ilustra bem também a minha relação com a "paisagem" e o que experimentei ao percorrer mais uma vez o meu chão de eleição. O prazer de sentir a voluptuosidade da fadiga e depois descansar a olhar a paisagem ao nosso redor é coisa que não consigo explicar facilmente. Apenas os outros "geófagos", para usar a expressão do Torga, o compreendem. Os curtos minutos em que fiquei a olhar as Fichinhas e o vale do Rio da Touça foram simplesmente mágicos. Entro na montanha quase como quem entre num templo. É nela onde melhor me contemplo. É por isso que não a entendo sem estes momentos de reflexão. Depois foi descer e percorrer o mais bonito vale do PNPG. Um percurso tão bonito como duro e perigoso. Para mim a mais bonita ruga de Portugal.

Tuesday, March 11, 2008

Into the wild

auto retrato de Christopher McCandless no "Magic Bus"

Foi um companheiro de caminhadas que falou do filme. Fiquei curioso e procureio-o. É um filme belo sobre um idealismo extremo. Um filme que nos questiona de diversas formas. Realizado por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer, conta a história verídica de Christopher McCandless. Vale a pena ver e ouvir.

Friday, March 07, 2008

Ariane



Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940

Tuesday, February 26, 2008

Finalmente o Castelo de Bouro

acesso ao castelo perfeitamente delimitado pela queimada

vestígios de fundação ?

pedras soltas, vestígios de muro?

No último Domingo penso ter finalmente encontrado alguns vestígios do Castelo de Bouro. Já não tinha dúvidas sobre a sua localização, como já tinha escrito num outro post. Faltava-me era encontrar as evidências no local. Claro que nas minhas certezas há um certo grau de fé. Não sou arqueólogo e na minha convicção de as ter encontrado há muita vontade de acreditar.

Aos meus companheiros de caminhada, desconfiados das explicações sobre o castelo, recordei ter estado sentado naquelas fragas a roer uma maçã com as mesmas dúvidas. Não é fácil situar ali um castelo. E foram essas dúvidas que mais tarde me fizeram situar o castelo no Piorneiro, convencido que o Castro e Castelo seriam a mesma coisa. A imagem que temos de um castelo não se adequa ao local. Primeiro temos que desconstruir essa imagem e depois imaginar o castelo roqueiro que teria existido ali.

Mas quais foram as evidências que encontrei? As fundações do que me parece ser um pequeno muro, ou de uma construção, e umas pedras soltas (restos de um pequeno muro?). Como posso afirmar que são vestígios do castelo? Não posso, mas posso e quero acreditar. Sei no entanto que foram encontrados no local vestígios suficientes para localizar ali o castelo, confirmando as fontes bibliográficas. Procurei também uns entalhes na rocha que me disseram existir, mas não os encontrei. Em Aboim da Nobrega é muito mais fácil situar o castelo. Lá as fundações são perfeitamente visíveis nos entalhes na rocha. É uma pena que o local não tenha qualquer informação. Como a maioria das pessoas que fazem o trilho nunca conseguem identificar o local, acabam com uma sensação que perderam alguma coisa. Seria um bom complemento para mais bonito PR marcado pela CM Terras de Bouro.

Propositadamente deixei o castro do Piorneiro para futuras explorações. Quero lá ir com mais calma. Tenho do local maiores evidências. Nomeadamente a gravura e descrição existente nas Memórias Paroquiais de 1758. Tenho na ideia repetir a exploração que o abade José Coelho da Silva descreve em 1758, embora não me apeteça carregar com a escada manual pela qual "se pode e com muito trabalho subir". Quero pelo menos identificar a "Lage Pinta do Castro".

Alguns extratos do que li sobre o Castelo:

"Tem esta serra muintos penedos e grandes o quoal chamam o Castello e assim se chama a dita serra e no dito penhasco no cimo delle faz um caminho à via aprazivel das partes penedos altos quazi semelhante a outro penhasco que chamam do Castro do lemites da freguezia de Santiago de Chamoim e só difere em nam ter tantos penedos e também nam ter cobertura por cima. Em hum e outro se acham muitos tejolos artificialmente feitos por naçoens barbaras antiguamente e duros como pedras."

«Memórias Paraquiais de 1758 - Covide» in Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo Edição CM Terras de , 2001



"Basta a análise das freguesias de Covide e da Cravalheira para logo concluir que o Castelo deveria situar-se próximo das duas povoações desses nomes. Mas, entre ambas, de qual estaria êle mais perto? Nenhuma dúvida temos que de Covide, e pelos seguintes motivos:
1º É na acta de Covide que se faz referência ao serviço de vela, por parte de determinadas famílias da freguesia.

2º É, também, junto a Covide, que passa a Estrada da Geira, correndo em estreita cumeada entre profundos vales de freita, a leste e da Carvalheira, a oeste.

3º E, por último, é ainda cerca de Covide que o terreno, subindo rapidamente para o cabeço do Piorneiro (cota 992), oferece em seus esporões avançados o melhor sítio para defesa da Estrada da Geira (...).

Costa Veiga - «O Julgado de Bouro, a Fronteira da Portela do Homem e o Castelo de Bouro em documentos mediavais» in Terras de Bouro. O Homem e a Serra, Câmara Municipal de Terras deBouro, nº2, 1992

Thursday, February 07, 2008

O circo e as dúvidas

foto tirada nas Minas dos Carris com o Pico da Nevosa ao fundo

Esta semana todos os que gostam da montanha foram surpreendidos com a notícia dos 3 montanheiros perdidos na Serra do Gerês. Os jornais, as tv´s e os outros órgãos de comunicação de divulgação nacional deram a esta notícia um largo destaque. Destaque que possivelmente ultrapassou em muito o interesse local da notícia. Portugal é assim, o cheiro a drama dá às mais simples coisas uma notoriedade descabida. E o pior é que esta atenção não resulta em maior qualidade da informação, apenas amplia ao absurdo as poucas informações iniciais. É o circo mediático. O pior espectáculo do mundo.

Desde a primeira hora que fiquei com sérias dúvidas sobre o que ouvia. As referências geográficas não faziam qualquer sentido. Percebi nas informações cruzadas qual a actividade que o grupo estaria a fazer, mas apenas porque sei quais os percursos normalmente realizados na zona. Nada nas primeiras notícias permitia tirar essa conclusão. Só quando a rede informal começou a funcionar a qualidade da minha informação melhorou. Começaram-me foi a surgir outras dúvidas.

Não quero abordar se os 3 montanheiros tinham experiência, ainda que saiba que os 3 são experientes e com formação em montanha. Tão pouco me interessa a questão se poderiam estar ali, pois estas questões, ainda que pertinentes, induzem ruído sobre aquilo que ninguém do circo percebeu ou questionou.

A questão é que os 3 montanheiros informaram às 16h00 a sua localização em coordenadas GPS, o que os geo-referenciava com um pequeno erro. Na montanha os 3 até poderiam não conseguir localizar as coordenadas numa carta ou mapa, mas a equipa de resgate desde essa hora teria uma localização muito aproximada do grupo (Pico da Nevosa 1500 metros). E se alguma dúvida existisse os 3 estiveram sempre contactáveis por telemóvel. Tanto que pelos vistos um jornalista conseguiu ligar com o grupo perto das 23h00. Ou seja, a equipa de resgate sempre soube que o grupo estaria a menos de uma hora das minas dos Carris (1450 metros). Local servido por um estradão de apenas 9 kms até à estrada Gerês-Portela do Homem. Logo seria sempre o melhor local para centrar o socorro. A razão porque optaram por centrar o socorro nas Lagoas do Marinho (1150 metros), a umas 3 horas do local é demasiado estranha. Até porque até ao local teriam que subir os 350 metros de diferença de cota por terrenos certamente alagados. A verdade é que no Gerês conhecendo-se a localização desde as 16h00 de um grupo, por muito mau que esteja o tempo, não se compreende a razão de os obrigar a uma pernoita naquelas condições. E muito menos se percebe as razões de terem mobilizado um helicóptero, um meio caro e completamente inadequado para o as condições meteorológicas.

Tenho para mim que o que este caso evidenciou foi uma total impreparação para estes socorros. Coisa que não estranha, porque na emergência tudo deve estar planeado e testado em simulacros. Desconheço se o PNPG possui planos de emergência e teria gostado que algum jornalista se questionasse sobre isso. Propositadamente não faço aqui qualquer interpretação dos factos. Prefiro registar a(s) dúvida(s). Mas a rede informal continua a funcionar e a permitir-me tirar conclusões.

Interessante foi também ler alguns comentários às notícias electrónicas. O Portugal sentado reagiu com um furor despropositado. Exigia-se facturas, punições. Os 3 ao Pelourinho, já - pediam contra os jovens "imbecis" que se perderam. E claro que aqui o facto de um ser um "jovem" de 40 anos era irrelevante. É jovem porque faz coisas que o Portugal sentado não faz. O que diriam essas pessoas ao verem famílias inteiras a caminhar pelos Parques Naturais fora das nossas fronteiras? Como chamariam ao sexagenário que vi descer do Monte Perdido? Estrangeiros, coisas para estrangeiros - escreveria o Portugal sentado. Claro que quando quiser chamar uns turístas o Portugal à mesa do orçamento dirá que temos condições únicas para pedestrianismo. Um clima, umas paisagens magníficas - diz um Portugal que acha que isso são coisas paros outros - Uns malucos, doidos perigosos a quem não temos que pagar as asneiras.

Sobre este caso li as maiores "asneiras". Muitas delas ditas por responsáveis que deviam saber calar. Percebi, mais uma vez, na leitura cruzada das diferentes notícias a falta de rigor da informação publicada. Os jornalistas preferem citar-se uns aos outros a questionar os factos. Recordo uma expressão lida algures sobre a guerra: "na guerra a primeira vitima é sempre a verdade". Chego vezes demais à conclusão que nesta verdadeira guerra de audiências, tiragens e resultados financeiros, no campo da informação jaz uma vitima desconhecida. Aparentemente este foi mais um dos casos. Feliz ficou o Primeiro Ministro porque os telejornais mostraram os novos helicópteros. Podem ter chegado tarde para os incêndios, mas chegaram a tempo de se mostrarem num salvamento onde não faziam falta.


mapa com os pontos citados

Tuesday, January 22, 2008

O fósforo do Teotónio Louvadeus

“Não interessa! A Aldeia tal como se acha hoje com um atraso de muito séculos sobre o mundo civilizado, queda indiferente à aventura. Para o serrano, com a sua casa de colmo ou telha-vã, tamancos de amieiro couraçados de seteiras de ferro, metido dentro da cachupa de burel, que, espécie de saco descosido, deve ser o feio e prático manto do turdetano, isto é, do aborígene, assoando-se para o chão com o premir uma venta e depois outra, e limpando-se ao canhão da vestia, dormindo na promiscuidade de cama de barqueiro, com o pesado carro céltico de rodas fixas, panelas de barro em vez de potes de ferro, creosene em vez de luz eléctrica, o que condiz é a serra como está, Doutro modo, para ele é um contra-senso... Na minha opinião humilde e desambiciosa, opinião de quem vê o homem através da sua humanidade, o que há a fazer é plantar a civilização nas aldeias, uma civilização digna do século XX, antes de pensar ir para a serra mudar-lhe a natureza.”
...
“...è pena que Vossas Excelências queira entrever o problema somente pelo lado do aproveitamento. Ainda por este lado há muito que se lhe diga. Mas pois que o lado moral, diremos psicológico, não lhes interessa, essa ignorância é muito susceptível de lhes causar grandes amargos de boca.”
...
“Ora essa! – respondeu o Dr. Rigoberto. – A minha opinião e, salvo seja, a do meu constituinte é que a serra renderia, no futuro, economicamente dez, vinte vezes mais do que está, abandonada à lei das estações, rapada hoje pelas sacholas dos roçadores, espontada de vegetação nova, na Primavera, pelos gados. Mas havia de ser o povo, guiado pelos Serviços Florestais, assistindo em tudo do Estado, que deveria proceder arborização, sem o obrigarem a perder o sentimento de liberdade que ali se desfruta. Condicionassem o aproveitamento das madeiras e mais indústria silvícola, deixassem-no ficar, ao menos nominalmente, o dono dela. Ou, então elevassem os povos a um grau tal de desenvolvimento que essa circunstância se tornasse menos um conquista sobre a pobreza dos serranos do que uma necessidade ou encontro com uma vida melhorada e progressiva. No estado em que a população se acha, rude, penurienta, de nível de vida baixíssimo, a serra é-lhe absolutamente indispensável porque só assim corresponde ao seu atraso.”
Quando os lobos uivam - Aquilino Ribeiro


planta do projecto de florestação da Serra da Cabreira


Eu nunca tinha caminhado na Serra da Cabreira mais do que pequenos percursos. Apesar de a ter tão perto, é uma serra que não ainda conheço. No Sábado passado a caminhada com o UPB deu-me a oportunidade para lá caminhar. Tinha uma ideia do percurso e, como não gosto muito de caminhar por estradões, as minhas expectativas não eram muito elevadas. Confesso que me surpreendi e fiquei com vontade de lá voltar. A vista desde o Talefe é surpreendente. Umas das melhores sobre o PNPG.

Na caminhada duas coisa despertaram a minha curiosidade: umas ruínas de uma casa dos Serviços Florestais perto do Talefe e uma conversa no café da aldeia à hora da “sopa”. Numas chãs praticamente despidas de árvores, a casa chamara-me a atenção pela contradição. No café, na tal conversa com algumas pessoas da aldeia, confirmei as minhas suspeitas. Dois grandes incêndios, nas décadas de 70 e 80, teriam deixado aquelas chãs praticamente sem vegetação.

Recordei-me então do que li sobre a Serra d’Arga. Recordei-me do “Quando os lobos uivam” do Aquilino Ribeiro, a quem fui buscar as citações. Recordei-me das histórias da revolta dos povos do Gerês contra os Serviços Florestais nos finais do século XIX. Recordei-me do amigo que um dia me surpreendeu ao dizer-me que, para ele, a história da florestação tinha sido um erro enorme, um erro muitas das vezes vingado pelo fogo.

A casa e a conversa levaram-me a reflectir sobre a floresta e como ela foi plantada. É verdade que após um longo processo histórico desflorestação Portugal precisou de inverter a situação. Não apenas por uma boa gestão dos recursos florestais, mas fundamentalmente para evitar os fenómenos erosivos. Nos finais do século XIX Portugal teria um coberto vegetal inferior a 25% do actual. Foi essa a preocupação que presidiu à criação dos Serviços Florestais em 1886, com o início dos trabalhos de arborização nas serras do Gerês e da Estrela em 1888. Só que o processo de arborização nem sempre foi o mais feliz. E foi muitas das vezes feito contra as populações. Não falta quem afirme que a florestação foi um processo mal concretizado, mal amado e que apenas nos deixou os montes cheios de pinheiros. Contribuindo dessa forma para o abandono dos espaços rurais. Outros salientam a dimensão da obra realizada e atribuem a maior responsabilidade da expansão do pinheiro aos pequenos proprietários. O maior equilíbrio da opinião dos segundos fará mais sentido. Mas todos concordam que temos uma floresta mal organizada, que desperdiçamos recursos e que a floresta deveria ser uma das formas de fixar as populações rurais. É por isso que me pergunto se não sabemos aprender com os erros cometidos. Seja porque continuamos a marginalizar as populações . Seja porque continuamos a não saber ordenar a floresta.

Não conseguiremos evitar todos os fogos florestais, mas poderemos evitar que o “velho Teotónio Louvadeus” do Aquilino acenda o fósforo. E sempre que não ordenamos, sempre que não limpamos, sempre abandonamos ao destino a floresta, há nisso um pouco do gesto do "Teotónio Louvadeus" a acender o fósforo. Todos somos Teotónio Louvadeus.

Monday, December 10, 2007

Serra Amarela


Sábado, 8 de Dezembro, voltei à Serra Amarela. Este ano terá sido a quinta ou sexta vez que por lá andei. A chuva e o nevoeiro foram a companhia dos 30 caminheiros do UPB, de modo que não pudemos apreciar a Serra Amarela em toda a sua beleza.

Realizada em homenagem a Miguel Torga, connosco levamos o poeta e em alguns lugares fomos lendo textos e poemas. O Diário III relata uma jornada em 25 de Julho de 1945 pela Serra Amarela que em parte procuramos refazer. Então, para visitar um velho fojo, Miguel Torga contratou um pastor como guia em Vilarinho da Furna. Esse guia, o Fecha, viria a tornar-se um dos seus amigos no Gerês. Mais tarde, no volume 5 da "Criação do Mundo", este episódio seria recordado como um relato de Fecha de forma muito interessante. Ainda que Vilarinho já não exista, a serra está lá. Praticamente igual na sua “pureza essencial e granítica”. As antenas da Louriça são das poucas marcas na paisagem. De resto continua igual. Numa outra caminhada com o UPB, tive a sorte de termos como companheiro de caminhada um natural de Vilarinho (baptizado no UPB como Furna). Foi ele que nos explicou a história do estradão que começaria junto à Louriça e seguiria até à Portela do Homem. Um estradão que parou no muro com que aldeia demarcou o seu território. Esse projecto interrompido continua na serra como símbolo da força comunitária de Vilarinho da Furna. Mantendo-a praticamente sem estradas, como terra do “sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis”.

Açor, Serra da Lousã, 26 de Outubro de 1942 – Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte, enquanto o cão abana o rabo, um tanto ao quanto perplexo dum descanso com perdizes à vista. Paciência, camarada, que são apenas dois minutos. O coração ainda puxa, mas já pede de vez em quando, pelo amor de Deus, um pouco de caridade cristã. De maneira que não há remédio. De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar. Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa sempre foi generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras e as cores do chão onde firmo os pés foram sempre no meu espírito coisas sagradas e intimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo na paisagem integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito ou do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerês. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespepeare… Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga - Diário II

Thursday, November 15, 2007

Serra d'Arga


A Serra d’Arga era um local que já tinha sinalizado para uma caminhada. Os percursos que conhecia eram invariavelmente curtos, coisas para poucas horas. Percursos de quem gosta de subir à montanha e descer para comer à mesa.

O percurso que realizei com a AAEUM foi o mesmo de uma caminhada realizada pelo UPB. Caminhada na qual não participei, mas da qual recolhi opiniões muito positivas. Ao preparar esta caminhada descobri coisas muito interessantes. Já conhecia a lenda da princesa cristã que teria procurado protecção contra a ira paterna nestas serras e a baptizado de Agro. Desconhecia as outras que encontrei. As montanhas foram, e são ainda, muitas vezes associadas ao mágico e ao sagrado. As lendas e histórias sobre a serra relatam bem quanto antiga é essa ligação. Talvez por isso as montanhas minhotas estão pejadas de santuários, capelas ou simples cruzes. Como minhoto já não estranho, mas nada me podia preparar para a capela da Sra do Minho. Sem medo das palavras, devo dizer que é uma coisa feia que nunca deveria ter sido construída. A Igreja Católica deveria ter mais cuidado com os projectos arquitectónicos que autoriza. Deveríamos ter muito mais cuidado com o património que estamos a deixar para o futuro. Aquele projecto desqualifica a cultura do nosso tempo. Foi apesar de tudo a nota menos positiva numa caminhada que me deixou cheio de vontade de voltar.

Começámos a caminhar em Cerquido um pouco mais tarde do que pretendíamos. Pessoalmente sentia os efeitos do magusto do UPB do dia anterior. Tinha-me levantado com algum esforço. Por um caminho antigo subimos até à Chã Grande, o ponto mais elevado da caminhada. Deste local alcança-se uma vista única sobre o Vale do Lima. É também aqui que se encontra a capela da Sra do Minho. A subida é por uma encosta nua, que se sobe ao ritmo que as pernas permitem. Ainda que o desnível possa assustar os menos preparados, lá em cima a vista sobre o vale do Lima é fantástica. Recompensa largamente o esforço. A Serra d’Arga não é uma serra elevada, está cheia de torres eólicas, mas vale a pena caminhar por ela. É uma serra bastante despida de vegetação. A sua mata original forneceu os estaleiros de Viana do Castelo e permitiu as nossas aventuras marítimas. Na década de 40 de século passado os serviços florestais também andaram por aqui. Como em outros locais, a florestação, à base de pinheiro, provocou profundas mudanças sociais. As aldeias de Arga, viram partir as suas gentes. Incêndios na década de 80 terão afectado profundamente o coberto florestal. Diversos grupos de garranos cruzam-na em liberdade. Deve ser mesmo o local onde é mais fácil encontrar garranos. Eu nunca tinha encontrado tantos em tão pouco tempo.

Rapidamente atravessámos o planalto e fomos almoçar ao Mosteiro de S. João d’Arga. Um local que merece uma visita mais prolongada. O seu enquadramento é fantástico. As enormes árvores no terreiro mosteiro, tão integradas com as construções, são símbolos de uma comunhão com natural que perdemos. A sua fundação é muito antiga, são séculos de história que se contam naquelas paredes. Mais de 10. O mosteiro é uma construção simples de dois pisos, duas alas de hospedarias, formando dois L's opostos, com a capela no meio. Em Arga de Baixo, uma senhora falou-me sobre a festa de S. João. Já tinha escutado muito sobre esta romaria. Na universidade um colega de Caminha disse-me que trocava todos os festivais de Verão por ela. Uma noite longa e profana que atrai gente de todo o lado.

Em Arga de Cima e Arga de Baixo paramos a conversar com grupos de senhoras que se aqueciam ao sol. Trocámos pouco mais que palavras de circunstância. Com umas a admirar os galináceos em liberdade, fortes e apetitosos como poucos, e a responder sobre de onde vínhamos e para onde íamos. E com outras pedindo informações sobre outros caminhos e sobre as romarias da serra. Sempre que posso gosto de ter estes momentos de conversa. São sempre recompensadores. Há sempre alguma coisa que fica. Pequenas expressões de uma genuinidade que a cidade perdeu.

À saída de Arga de Baixo perdemos mais algum tempo a admirar uns moinhos antigos e para procurar o Pontão do Lobo. Conheço-o apenas de fotografias, mas ainda não foi desta que o encontrei. Regressámos a Cerquido pouco tempo antes do dia terminar. A caminhada não tinha sido muito exigente, mas tinha deixado em todos vontade de voltar.

Wednesday, November 14, 2007

As aventuras por Terras da Nóbrega do UPB

A ideia era fazer uma pequena caminhada como preparação “espiritual” para o magusto do UPB, pelo que procurámos um trilho pequeno e próximo do destino final: Vila Verde. O trilho escolhido, Trilho de Terras da Nóbrega, é um percurso pedestre denominado de Pequena Rota (PR) – aberto pela VALIMAR, pelo que as respectivas marcação e sinalização deveriam obedecer às normas internacionais e facilitar a caminhada. Digo deveria porque tivemos imensa dificuldade em as seguir, sinal de falta de manutenção.

Este percurso localiza-se no Monte do Castelo de Aboim, mais precisamente na aldeia de Sampriz a cerca de 6 km a Este da sede de concelho de Ponte da Barca. É um percurso de âmbito paisagístico e cultural, nos limites dos Concelhos de Ponte da Barca e Vila Verde. A primeira dificuldade foi encontrar o local de partida devido a pouca sinalização existente. Descobrir Sampriz foi a primeira aventura do dia.

Partindo da Junta de Freguesia de Sampriz, iniciámos o percurso em direcção a Ventoselo. O trilho segue por um misto de caminhos empedrados, terra batida e caminhos carreteiros. Na Capela da N.ª Sr.ª do Livramento fizemos uma curta paragem para descanso e para observar a paisagem que nos rodeia. Seguimos depois em direcção ao Castelo de Aboim. O percurso marcado contorna o castelo pelo sopé, mas decidimos subir ao castelo e lá fazer a refeição. É na verdade o local do castelo que encontramos. O Castelo de Aboím é castelo medieval, do qual apenas restam as fundações, situa-se no topo do majestoso monólito, num local estratégico que goza de uma excelente visibilidade, dominando por completo a paisagem. A sua história está ligada ao inícios da fundação de Portugal. Foi um castelo roqueiro, construído por Honorigo Honorigues, que por isso recebeu algumas terras de Afonso Henriques. Com a construção do Castelo do Lindoso perdeu a sua importância estratégica. Do castelo apenas restam alguns vestígios de alicerces. No local não existe qualquer informação para interpretação, apesar de existiram dois placares em inox. Sinal que o fornecedor dos placares é muito mais rápido que os restantes fornecedores. É uma pena porque sem qualquer explicação os visitantes não percebem o local e não conseguem imaginar o castelo. Numa pesquisa sobre o castelo, encontrei um desenho que pretende representar a sua reconstrução. Ainda que desconfie do rigor, serve de ilustração.


Do castelo eram visiveis diversos fogos em zonas florestais, sinal evidente do clima seco deste estranho Outono. Com um pequeno corte no percuro marcado, retomámos o trilho e por caminhos de pé posto descemos até à estrada EN 351. Aqui o trilho atravessa um belo bosque de carvalhos por caminhos antigos, sem qualquer dúvida a parte mais bonita do trilho. No meio desse bosque encontramos vestígios de uma queimada. O chão ainda fumegava e, apesar de parecer estar apagada, ficámos preocupados com a possibilidade de ali se dar um incêndio florestal. Como “sapadores” improvisados investigámos o local. O fogo parecia ter iniciado junto a um anexo agrícola. Com terra e alguma água procurámos arrefecer os locais mais quentes do terreno queimado. O ruído provocado por algumas castanhas a estoirar aumentou a nossa preocupação e, para descargo de consciência, decidimos alertar o 117. Estranhamente estava ocupado pelo que telefonámos para o 112. Se foram lá não sabemos, mas fizemos o que deveríamos fazer. Estranho é que um número de emergência nacional dê ocupado. Do bosque o trilho deveria prosseguir para uma zona mais elevada após atravessar novamente a EN 351, mas não encontrámos a respectiva marcação. Assim, a parte final foi feita fora do trilho e por estrada.

O local merece uma visita, mas não percebo estas armadilhas criadas pela falta de manutenção dos trilhos. Quem escolhe fazer um trilho marcado deve necessitar apenas seguir as marcações e chegar ao final sem qualquer dificuldade. Abrir um trilho é apenas a primeira das etapas. Resta esperar que as coisas mudem. E já agora, formular o desejo que os placares de inox junto ao castelo não desapareçam antes que a informação apareça.

Na zona existem mais motivos de interesse, nomeadamente um fojo duplo na freguesia de Gondomar (Vila Verde) e a aldeia de Aboím da Nóbrega (Vila Verde), onde se recolheram os mais interessantes lenços de namorados. Numa próxima oportunidade pretendo voltar lá para a explorar melhor. Desta na encosta de Vila Verde.