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Wednesday, November 24, 2010

Presença histórica do urso em Portugal 8

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)


PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

Anexo I. Registos documentais posteriores ao séc. XVII, apresentados por ordem cronológica
 
Doc. 1

1728 – [Padre José de Matos FERREIRA, Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez, Braga, 1728] Edição fac-similada da Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1994.

“Neste sitio (…) estão algũas Alverices redondas, feytas de muyto boa pedra, e bem ajeitada, e passão de ter vinte palmos de alto; principião em bayxo em circuito pequeno, e acabão em mayor âmbito, e assim estão as sua paredes muyto empenadas para fora, sem por ellas poder sobir cousda algũa, ainda que as pedras não estiverão tão ajustadas, como estão. Estas Alverices fizerão os antigos para guardar as suas colmeas, pois erão único abrigo que tinhão para escaparem à fereza dos ussos que erão tantos naquele tempo que sobião as paredes e, entretanto dentro pegavão nos cortiços das abelhas e os levavão a donde havia agoa, e tirando os tampos dos cortiços, metião-nos na agoa, e afogadas as abelhas, e comião livremente o mel.”

“A este feroz e porfiado animal fazião render os caçadores pondo em o tronco de hũa arvore hũm pouco de mel com um masso, e hum certo engenho, que quando hia a comer do mel davalhe na cabeça, e elle tanto mais porfiava de gostar, athe que o masso o fazia render, e ficava de vencido. Hoje se não acha no Geres tal casta de animal por causa dos grandes fogos que sempre continuamente os lavradores andão lançando nos montes, e o ultimo que se matou, conforme referem os velhos da terra, foy pouco mais ou menos no anno de 1650, na Quelha da Ursa, que fica para a Chã da Fonte, junto à Casa da Neve”.

Doc. 2

1736, Junho, 09 – [António AFONSO – “Notícia da freguesia de S. João do Campo que mandou o Dr. Vigário-Geral aos 9 de Junho de 1736”, Cadernos de Cultura 4, Terras de Bouro, Território Museu da Montanha, Câmara Municipal de Terras de Bouro, 2001, p. 20]

“A demais caça são águias reays, javalizes, lobos, cabras bravas que parecem veados, corças, lobos cervais. Ursos já hoje não apparecem por cauza dos fogos que cada passo se lança nos montes”

Doc. 3

1744 – Códice dos Casais de Pincães. P.e Diogo Martins Pereira [transcrição de cópia de 1813, por António Martinho BAPTISTA]

“FAFIÃO – “Entendendose hir a extinguindose [os lobos cervais] como se extinguirão os ursos pelo cui[da]do que os moradores tem de os preceguir, e caçar andando de dia e de noute athé os matar, ou fazer fugir p[ar]a os montes da Irmida e Villar da Veiga, donde também os perseguem com notável cuidado (…)” [fl. 13]

Doc. 4

1758 – Na memória paroquial da freguesia de Outeiro. [Rogério BORRALHEIRO, Montalegre Memórias e História, Montalegre, 2005]

(...) Há quem se lembre de hum homem da freguesia de Cabril que matou no ditto Gerês um urso. Certifica havê-los nesse tempo por se verem de presente sinaes de muros de colmeas sobre pedras altas para se livrarem delles”.

Doc. 5

Séc. XVIII - [Padre João BARROSO PEREIRA, pároco de Seara, Antigas Histórias de Salto, século XVIII] Versão dactilografada de data e autor desconhecido.

“É muito abundante de caça: perdizes, coelhos, martuxos, fuinhas, aves bastantes, muitos lobos, raposas, porcos bravos, corças, veados, ursos e tantos outros que amolestam os lavradores para os defenderem das vastas colheitas”

“(…) grande quantidade de ursos, que destruíam as colmeias e para sua defeza faziam muros fechados.”

Doc. 6

1835 – [Jornal manuscrito bragançano de 2 de Março de 1835] Pesquisa de João Manuel Neto Jacob publicada na Revista “Brigantia” e na Revista “Montesinho”.

“Os off.es do Regim.to de Inf.ª N. 9 nomearão huma comissão p.a que esta empregue todo o desvelo a apprezentar na 1.ª occazião de paceio Militar os meios q. julgar mais eficases p.ª huma caçada de Urços, q. tencionão fazer neste dia; paresce q. a Comição p.ª satisfazer aos seus Collegas tem reunido a si hum Militar Cidadão interessado neste género de caçadas, esperámos do zello do S.r Baroso (?) de Toenique (?), Presidente desta comissão q não desprese as ideias emitidas pelo Sr. Pote (?) a Comição reunindo asi este Cidadão nós lhe afiançámos o bom rezultado da caçáda.”

Doc. 7

1893 – [Gabriel PEREIRA, Estudos Eborenses – As caçadas, 2ª Parte, Évora 1893]

“Pouco vulgar, julgo, em lugares praticáveis, porque nos ermos montanhosos do norte do país o urso viveu até aos tempos modernos. Em Inverneiras de muitas neves há 50 anos, mais ou menos, ainda os pequenos ursos das Astúrias chegavam às montanhas do Minho e Trás-os-Montes”.

Tuesday, November 23, 2010

Presença histórica do urso em Portugal 7

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)


PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

Bibliografia


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Monday, November 22, 2010

Presença histórica do Urso em Portugal 6

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)


PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

3. Discussão e considerações finais


"Com base nos registos obtidos, o urso terá ocorrido nas serras do Norte de Portugal até meados do século XX, muito para além de 1650, data anteriormente apontada para a sua extinção em Portugal. O carácter agreste das serras fronteiriças ao longo dos séculos XVIII e XIX, com extensos matagais, reduzida acessibilidade e escasso povoamento humano (p.e. BORRALHEIRO, 2005), pode ter permitido a sobrevivência de uma população residual de urso e, simultaneamente, levado a que esta fosse escassamente documentada por parte de naturalistas e letrados. Consequentemente, face à reduzida disponibilidade de fontes documentais locais, a ocorrência da espécie passou facilmente despercebida. A ocorrência do urso no Norte de Portugal até ao inicio do século XX poderá ter tido origem em movimentos dispersivos de animais provenientes de núcleos reprodutores residuais bem documentados em Espanha, situados a menos de 50 km da fronteira portuguesa, como sejam a Serra da Queixa (centro da Província de Ourense), a Serra do Faro (limite das Províncias de Pontevedra, Ourense e Lugo) e a região de Caurel/Sanábria/La Cabrera (limite das Províncias de Ourense, Zamora e Leão) (NORES & NAVES, 1993; GRANDE DEL BRIO et al., 2002). Os ursos machos apresentam um acentuado comportamento errático durante a época do acasalamento, podendo percorrer distâncias superiores a 40 km da sua área de presença habitual (CLEVENGER & PURROY, 1991). Como resultado deste comportamento, ainda recentemente (p.e. 2006) tem sido confirmada a presença ocasional de ursos provenientes da população cantábrica, na região de Sanábria/La Cabrera situada a pouca mais de 20 km a Norte da Serra de Montesinho (GRANDE DEL BRIO et al., 2002). Desta forma, não é de estranhar a presença de ursos ao longo da primeira metade do século XX nas Serras do Gerês e do Larouco, se considerarmos que a Serra da Queixa, situada a menos de 30 km da fronteira portuguesa, albergou um núcleo reprodutor de urso até à década de 1930 (NORES & NAVES, 1993; JUSTO MÉNDEZ, 1993; GRANDE DEL BRIO et al., 2002). Porém, um dos registos documentais recolhidos aponta para a aparente reprodução do urso em 1920 na Serra do Larouco. Face a esta evidência, será necessária uma maior investigação através da recolha de fontes documentais ou de testemunhos orais, que permita avaliar se a presença de ursos no início do século XX nas serras fronteiriças se limitaria a incursões esporádicas de indivíduos provenientes de núcleos reprodutores situados em Espanha, ou se, pelo contrário, constituíam os últimos exemplares de uma população residual ainda com reprodução.

Os resultados obtidos para o Norte de Portugal evidenciam ainda a necessidade de estudos adicionais que permitam detectar evidências da presença do urso nos últimos séculos em outras regiões do país, e assim esclarecer a evolução da sua área de ocorrência. A pesquisa de fontes documentais de carácter local, em território nacional ou nas regiões espanholas fronteiriças, revela-se como uma das principais abordagens que deverá ser realizada. No entanto, o inventário, caracterização e cronologia do património construído associado a este carnívoro, em particular das silhas, poderá constituir uma fonte de informação complementar. A aparente restrição e coerência geográfica das áreas de edificação de silhas a nível nacional poderá reflectir a existência de importantes núcleos populacionais de urso, tal como parecem indicar as fontes documentais obtidas para o Noroeste e Nordeste do país. Adicionalmente, o bom estado de conservação das silhas poderá estar relacionado com a ocorrência recente desta espécie, face ao esforço humano que implica manter estas estruturas nas suas dimensões originais e   facto da protecção face ao urso aparentar ser a principal razão que assim o justifica. Tal é evidente em determinadas regiões da Galiza, como as Serras da Queixa, Caurel e Faro, onde a espécie estava presente há menos de um século. De forma coincidente, a identificação de silhas em excelente estado de conservação nas Serras do Gerês e Larouco, foi corroborada no presente trabalho através de vários registos documentais que atestam a sobrevivência do urso durante o século XIX e início do século XX. Assim, outras áreas do país onde estas estruturas apresentem um estado de conservação próximo do original, como por exemplo na bacia do médio Tejo (HENRIQUES et al., 1999; RODRIGUES & NEVES, 2002), deverão ser alvo preferencial para a pesquisa de fontes documentais de carácter regional, de forma a esclarecer a área de ocorrência de urso em épocas recentes."

Sunday, November 21, 2010

Presença histórica do urso em Portugal 5

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)


PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

2. Presença histórica e extinção do urso em Portugal

"A ocorrência histórica do urso por todo o território nacional é comprovada pela toponímia, quer integrando o vocábulo osso, ou utilizando uma grafia actualizada[4]. No que respeita a fontes documentais, os registos mais antigos relativos à presença da espécie em Portugal encontramse nos forais do século XI e XII, e relacionam-se com o facto de a caça grossa estar sujeita ao tributo de condado ou montaria. Este tributo obrigava os caçadores a entregar, ao rei ou seu representante, a parte mais nobre de cada peça de caça maior abatida: regra geral, do javali ou porco-montês davam o corazil ou espádua; do veado, corço ou cabra-brava entregavam a perna, e do urso as mãos[5]. Nas inquirições de 1258, que, basicamente, pretendem apurar os direitos devidos ao rei, ficou consignado esse imposto medieval aplicado à caça ao urso, em várias freguesias do Noroeste do país (AZEVEDO, 1977; GONÇALVES, 2006).

Figura 4. Representação de um pezugo asturiano, armadilha
destinada à captura de urso (retirado deBouza, 2002).
O urso, juntamente com outras espécies como o javali, possuía desde o início da Idade Média um lugar de destaque como alvo de uma caça de entretenimento e, em simultâneo, de preparação guerreira, por parte dos monarcas e da classe mais nobre. Desta forma, e ao contrário por exemplo do lobo (DOMINGUES, 2005a), o urso foi, desde cedo, alvo de alguma protecção por parte da monarquia. São frequentes os documentos que fixam coutadas, em favor do rei ou de algum nobre poderoso, e onde se condiciona a caça, não só ao urso, mas também ao javali, veado e até a caça miúda como o coelho, a lebre e a perdiz.

Ao longo do século XV o urso ainda estava presente a Norte do rio Douro e em vários locais distribuídos pelo interior do país, nomeadamente na Beira Interior (Pinhel, Trancoso e Ribacôa) e no Alentejo (Moura e Portel), onde existem referências documentais à sua caça ou abundância (BAETA-NEVES, 1967). Contudo, é a partir deste século que o urso aparenta começar a rarear em território português, principalmente na metade sul do país, devido à perseguição directa e à destruição das extensas manchas florestais onde se abrigava (BAETA-NEVES, 1967; DEVYVARETA, 1986). Como consequência, são publicados vários diplomas condicionando a sua caça, diplomas esses de âmbito genérico e promulgados pelos monarcas portugueses, e alguns deles possuindo o valor de lei ou ordenação geral do reino. A título de exemplo, D. João I, por carta de 5 de Fevereiro de 1412, proibiu a caça de ursos, porcos monteses e cervos nas comarcas de Entre-Tejo-e-Guadiana e Estremadura (BAETA NEVES, 1980). Posteriormente, seu filho D. Duarte (1433-1438), publicou uma lei que impunha uma coima de mil libras a qualquer que matasse um urso por todo o reino, sem licença de el-rei (ORDENAÇÕES AFONSINAS, 1984), no que provavelmente constitui uma das primeiras leis direccionadas à protecção de uma espécie silvestre, a nível nacional. No entanto, o povo insurge-se com frequência contra as coutadas e a proibição de caça de animais bravios, nomeadamente do urso, por estes lhe causarem avultados prejuízos nos gados e nas colheitas (BAETA NEVES, 1980).

Por isso, e apesar de condicionada, a perseguição ao urso por parte das comunidades locais continua a ser intensa, nomeadamente através da sua caça e da destruição do habitat por incêndios (documento 1, 2 e 3, no Anexo I). Como resultado, nos finais do século XVI a presença de urso em Portugal é considerada por vários autores como estando somente confinada às montanhas fronteiriças do extremo Noroeste, nomeadamente à Serra do Gerês (LEITE DE VASCONCELOS, 1936; BAETA-NEVES, 1967).

Se a presença histórica do urso em Portugal é uma realidade inquestionável, já a data da sua extinção constitui um facto deficientemente investigado. Documentos do século XVIII referem, com precisão, a morte em 1650, do que tem sido considerado o último exemplar na Serra do Gerês e, em simultâneo, em Portugal (documento 1 e 2, no Anexo I). O único estudo específico que aborda a presença e extinção desta espécie em Portugal (BAETA-NEVES, 1967), baseia-se nestes registos para apontar a data de extinção do urso em território português, a qual tem vindo a ser aceite junto da comunidade científica, em trabalhos recentes (SANTOS-REIS & MATHIAS, 1996; MATHIAS et al., 1998; CABRAL et al., 2005). No entanto, a pesquisa documental e bibliográfica, principalmente em autores espanhóis, realizada no âmbito do presente trabalho apresenta evidências da sobrevivência do urso em território português para além do século XVII e até datas surpreendentemente recentes, em particular na região fronteiriça compreendida pela Serra do Laboreiro (Melgaço), as Serras do Gerês/Larouco (Terras de Bouro/Montalegre) e a Serra de Montesinho (Bragança/Vinhais).

No que diz respeito ao século XVIII, um documento de 1744 proveniente de Pincães, parece referir ainda o urso como presente na Serra do Gerês, embora perto de se extinguir face à intensa perseguição que os habitantes locais lhe moviam (documento 3, no Anexo I). Também o Padre João Barroso Pereira, refere a presença de ursos na região de Salto (Montalegre) num documento de datação indeterminada, mas que parece corresponder ao século XVIII (documento 5, no Anexo I). Em território espanhol, FERNANDEZ DE CÓRDOBA (1964) e PIÑEIRO MACEIRAS (2000) citam várias fontes documentais do final do século XVIII, que referem ainda a abundância de ursos nas montanhas que ladeiam os rios Tâmega e Lima nomeadamente Requiás (Muíños) e Verín, situados junto ao limite dos concelhos de Montalegre e de Chaves, respectivamente.

Para o século XIX, NORES & NAVES (1993) refere que a obra de 1866 de Fernando Fulgosio, “Cronica de la província de Orense”, atesta a presença do urso na vertente espanhola da Serra do Laboreiro e da Serra do Gerês no primeiro quartel do século XIX. Também TABOADA CHIVITE (1971) menciona que, em 1825, um habitante de San Pedro de la Torre (Sierra do Laboreiro) reclamou ao Concelho Real os prejuízos efectuados pelos ursos, ao que lhe foi concedida uma autorização para os matar. GRANDE DEL BRIO et al., (2002) apresenta evidências documentais de vários ursos abatidos na vertente espanhola da Serra de Montesinho, durante o final do século XIX. Para o território português, encontramos outras referências documentais que indicam também a presença de urso no decorrer do século XIX. Na região de Bragança, foi publicada em 2 de Março de 1835, no jornal manuscrito “Choronica de Bragança”, uma notícia que aparentemente alude à programação de uma caçada ao urso na Serra de Montesinho (documento 6, no Anexo I). Além disso, e a corroborar os registos atrás mencionados, Gabriel Pereira refere que até meados do século XIX ainda os ursos ocorriam, de forma irregular, nas montanhas do Minho e Trás-os-Montes (documento 7, no Anexo I).

Porém, as últimas referências ao urso na região fronteiriça do norte de Portugal datam do início do século XX. GRANDE DEL BRIO et al., (2002) menciona evidências documentais da sua presença em 1905 e 1920 na região de Lubián e Sanábria (Zamora) respectivamente, ambas situadas a menos de 10 km da fronteira portuguesa na Serra de Montesinho. JUSTO MÉNDEZ (1993), apesar de não citar as fontes documentais ou orais em que se baseia, refere que desde inícios do século XX até 1930 ainda subsistiam alguns exemplares na zona fronteiriça constituída pelas serras do Gerês e Larouco. Em particular, menciona que em 1915 eram ainda avistados ursos com alguma frequência na zona de Portela do Homem (Serra do Gerês), e que em 1920 “fue muerta una osa, acompañada de dos crias, que los cazadores sorprendieron en la sierra de Larouco, entre Baltar y Villamayor de Gironda”, junto à fronteira portuguesa. O último registo confirmado de urso nas montanhas fronteiriças do Noroeste de Portugal, é todavia mais recente e diz respeito ao abate de um urso, em Junho de 1946, por Camilo Lloves Gonzalez, habitante de Couceiros na Serra do Laboreiro, a menos de cinco quilómetros da fronteira portuguesa de Melgaço. Este facto, publicado no jornal “Pueblo Galego” de 17 de Junho de 1946 e frequentemente citado em fontes bibliográficas posteriores (e.g. FERNANDÉZ DE CÓRDOBA, 1964; TABUADA CHIVITE, 1971; PIMENTA, 2001, DOMINGUES, 2005b), foi confirmado por um dos autores do presente trabalho (F. Álvares) através de uma entrevista a Camilo Lloves em 4.10.1996, o qual, apesar dos seus 80 anos de idade, relatou em pormenor os acontecimentos. O urso abatido era um macho com 102 kg (possivelmente sub-adulto) e, na altura, dizia-se que nessa região andariam três ursos que com frequência destruíam colmeias e silhas, e dos quais um foi o que veio a ser abatido."


4 Rio dos Ossos (Melgaço / Lisboa / Oliveira de Azeméis); Casal dos Ossos (Lisboa); Vilar dos Ossos (Vinhais); Valdossos (Vila Nova de Famalicão); Serra da Ossa (Alentejo); Valdossa (Alijó); Osseira (Caldas da Rainha / Óbidos); Ursa (Albufeira / Alcácer do Sal / Almodôvar / Alportel / Figueira de Castelo Rodrigo / Góis / Proença-a-Nova / Santiago de Cacém / Sertã / Vila Viçosa); Cova do Urso (Arganil); Covão do Urso (Beira Baixa); Pego d’Urso (Sátão); Pia do Urso (Batalha); Pinhal do Urso (Leiria / Montijo); Vale do Urso (Fundão).
5 “si fuerit ad venationem et mactaverit porcum, dabit spatulam; de cerbo, de capra montesa, de corzo, dabit pernam; de ursso, dabit manus.”

Friday, November 19, 2010

Presença histórica do Urso em Portugal 3

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)

PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

Introdução

"A análise da área ocupada por uma espécie animal em tempos históricos e das causas que conduziram ao seu desaparecimento extravasa a órbita das ciências biológicas e envolve necessariamente uma abordagem multidisciplinar (NORES, 1986). Neste âmbito, a pesquisa e interpretação de fontes de documentação histórica constitui uma das ferramentas mais frequentemente utilizadas (NORES & VON LETTOW-VORBECK, 1992; ÁLVARES, 1997; TORRENTE, 1999; DOMINGUES, 2005a; GONÇALVES, 2006). Porém, o estudo dos sistemas de conhecimento, práticas e crenças que as comunidades humanas possuem em relação à fauna silvestre – denominado etnozoologia (REYES-GARCÍA & MARTI SANZ, 2007) – apresenta-se, igualmente, como uma importante fonte de informação, nomeadamente para espécies que possuem uma estreita relação com o Homem pelo seu interesse cinegético ou pela competição por recursos (ÁLVARES et al., 2000; BOUZA, 2002; ÁLVARES & PRIMAVERA, 2004). Este é o caso dos grandes carnívoros, e em particular, do urso-pardo (Ursus arctos).

Na Península Ibérica, o urso sofreu uma acentuada redução da sua área de distribuição devido à acção directa e indirecta do Homem, e encontra-se actualmente circunscrito às montanhas do Norte de Espanha, com populações reduzidas a menos de 100 indivíduos na Cordilheira Cantábrica e cerca de uma dezena nos Pirinéus (NAVES & PALOMERO, 1993). A presença e distribuição histórica do urso em Espanha têm sido investigadas em vários estudos (p.e. NORES & NAVES, 1993; CASANOVA, 1997; TORRENTE, 1999; PIÑEIRO MACEIRAS, 2000; GRANDE DEL BRIO et al., 2002). Pelo contrário, no que respeita a Portugal, esta temática apenas conta com o estudo monográfico de BAETA NEVES (1967), que situou a extinção desta espécie no nosso país em meados do século XVII. Porém, recentemente, surgiram evidências para uma possível sobrevivência desta espécie em território nacional em datas posteriores (PIMENTA, 2001; DOMINGUES, 2005b).

O presente trabalho pretende contribuir para o conhecimento da presença histórica do urso em Portugal e da sua relação com o Homem. Para tal, efectua-se: i) a descrição do património construído associado ao urso, a nível ibérico; ii) a análise da ocorrência desta espécie em Portugal desde a Idade Média, com base numa compilação bibliográfica e pesquisa de fontes documentais posteriores ao séc. XVII, respeitantes ao território português e a regiões espanholas fronteiriças; e iii) a discussão da provável data de extinção do urso em território nacional, com base nas novas evidências obtidas."

Thursday, November 18, 2010

Presença histórica do urso em Portugal 2

(publicação parcelar de artigo publicado no nº 3 da Revista AÇAFA)

PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS
Francisco Álvares e José Domingues

Resumo

"O presente trabalho descreve o património construído associado ao urso-pardo em Portugal e analisa a ocorrência desta espécie desde a Idade Média, com base numa pesquisa bibliográfica e documental.

A relação das comunidades rurais com o urso originou um legado cultural constituído por engenhos armadilhados dedicados à sua caça e por muros apiários de construção robusta destinados à protecção das colmeias contra as suas investidas.

Com base nos registos obtidos, o urso ainda ocorria nas serras fronteiriças do Norte do país durante o século XIX e até meados do século XX. Desta forma, esta espécie esteve presente muito para além de 1650, data anteriormente apontada para a sua extinção em Portugal. A presença de ursos em território português durante o século XX deverá ter resultado, maioritariamente, de incursões esporádicas de indivíduos provenientes de núcleos reprodutores situados em Espanha. No entanto, existem evidências que poderiam ter constituído os últimos exemplares de uma população residual ainda com reprodução. Por fim, evidencia-se a necessidade de estudos adicionais que permitam avaliar a possível presença de urso em épocas recentes, noutras regiões de Portugal."

Wednesday, November 17, 2010

Presença histórica do urso em Portugal 1

Na preparação de caminhadas que pretendo realizar em datas próximas encontrei diversa informação que espero tratar nos dias frios que se aproximam. Nos últimos tempos entretive-me com um artigo de Francisco Álvares e José Domingues, publicado no nº 3 da Revista AÇAFA: "PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS". Por me parecer interessante em próximas entradas farei a sua publicação parcelar.

Monday, November 15, 2010

Notas sobre o Urso

Silha - Trilho Silha dos Ursos (PNPG)

“Neste sitio (…) estão algũas Alverices redondas, feytas de muyto boa pedra, e bem ajeitada, e passão de ter vinte palmos de alto; principião em bayxo em circuito pequeno, e acabão em mayor âmbito, e assim estão as sua paredes muyto empenadas para fora, sem por ellas poder sobir cousda algũa, ainda que as pedras não estiverão tão ajustadas, como estão. Estas Alverices fizerão os antigos para guardar as suas colmeas, pois erão único abrigo que tinhão para escaparem à fereza dos ussos que erão tantos naquele tempo que sobião as paredes e, entretanto dentro pegavão nos cortiços das abelhas e os levavão a donde havia agoa, e tirando os tampos dos cortiços, metião-nos na agoa, e afogadas as abelhas, e comião livremente o mel.”

“A este feroz e porfiado animal fazião render os caçadores pondo em o tronco de hũa arvore hũm pouco de mel com um masso, e hum certo engenho, que quando hia a comer do mel davalhe na cabeça, e elle tanto mais porfiava de gostar, athe que o masso o fazia render, e ficava de vencido. Hoje se não acha no Geres tal casta de animal por causa dos grandes fogos que sempre continuamente os lavradores andão lançando nos montes, e o ultimo que se matou, conforme referem os velhos da terra, foy pouco mais ou menos no anno de 1650, na Quelha da Ursa, que fica para a Chã da Fonte, junto à Casa da Neve”.

[Padre José de Matos FERREIRA, Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez, Braga, 1728] Edição fac-similada da Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1994.

O ano 1650 é normalmente referido como o da extinção do urso no Gerês ainda que alguns ambientalistas deêm hoje como certo que ele terá continuado a existir durante mais anos. Até porque há fontes espanholas que dão conta sua da existência no loutro lado da fronteira. As "alverices" referidas por José de Matos Ferreira são as estruturas que hoje são vulgarmente denominadas de silhas, mas que também podem ser designadas por colmeais, muros ou alvarizes. Curiosamente em Espanha são conhecidas por colmenales, alvarices ou cortinos. A técnica de caça descrita é conhecida nas Asturias por pezugo.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 (freguesia de Outeiro) pode ainda ser encontrada uma outra referência ao urso na região do PNPG:

(...) Há quem se lembre de hum homem da freguesia de Cabril que matou no ditto Gerês um urso. Certifica havê-los nesse tempo por se verem de presente sinaes de muros de colmeas sobre pedras altas para se livrarem delles”.

pezugo austuriano