Sunday, February 26, 2012

Toponímia da Serra do Gerês: Pedra Bela


Não é que tenha intenção de procurar estudar a etimologia dos topónimos da serra do Gerês, mas uma entrada do blogue Carris recordou-me que já tinha lido algures sobre o topónimo Pedra Bela. Seguindo as indicações recolhidas voltei à estante em busca dessa explicação e no Gerez (Notas Etnográficas, Arqueológicas e Históricas) de Tude de Sousa reencontrei o que pode ser uma interessante explicação. Segundo uma opinião do Padre Martins Capela, que Tude de Sousa publica, Pedra Bela seria uma corrupção de Pedra de Vela, um local onde os pastores velavam o gado.


"A tal Pedra Bela, muito conhecida nas Caldas suponho não ter jus a tal epíteto: há-de ser Pedra de Vela, donde os pastores velavam a caça ou as mandas pelo vale." Padre Martins Capela, revista Estudos sociais, nº 3, de Junho de 1910 

Thursday, February 23, 2012

Sobre a possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês

Já tratei aqui sobre uma possível origem do topónimo Matança na Serra do Gerês quando partilhei uma leitura das memórias paroquiais da freguesia de Outeiro (Montalegre). A hipótese então avançada pode ser consultada aqui e apontava para um dos muitos reencontros na altura da Restauração. Época em que Pitões da Júnia terá sido incendiada, as pontes da Geira derrubadas e durante vários anos terão existido diversos conflitos fronteiriços.

Tal como esclareci então, considero que são estas pequenas coisas que ajudam a enriquecer os que gostam de andar pela serra por razões diferentes da, usando uma expressão de Unamuno aprendida no Torga, mera voluptuosidade da fadiga. Gosto de partilhar com os companheiros de caminhada o que vou descobrindo sobre a serra e os seus segredos.

Na leitura da monografia de Pincães (ver aqui) encontrei uma outra hipótese que aponta para uma justificação diferente e muito mais anterior do topónimo Matança. Com efeito, o livro Aldeia de Pincães transcreve parcialmente um manuscrito de 1744, do Padre Diogo Martins Pereira, no qual se pode ler:

"...
34º Estes três acima repartidos no grande distrito e âmbito desta freguesia fariam guerra aos sarracenos e mouros que infesteram quase toda a Espanha, e nesta freguesia lhe era fácil a defesa junto com os mais cristão que povoaram aquelas montanhas da serra do Gerês, como em toda esta serra ainda hoje se veêm, foi antigamente cultivada tudo aquilo que podia dar fruto para sustentar os perseguidos e ainda esta casa da Freira tem naquela serra várias propriedades em que se colhia e colhe bom centeio como é o Pêro, curral das mangas, dois em Lagoa, um no Pássaro e outro em Rocalva e muitos desertos que ninguém cultiva, e naquele tempo se cultivaram para remédio dos viventes.
35º E que foi certa batalha que os cristãos ali deram aos mouros, como sediz desta batalha, tomaram o nome de Matança pelos muitos que, os cristãos ali mataram se haviam de achar, a ela, os três referidos com toda a mais cristandade que havia por aquela serra ou os seus descendentes que não havia degeneras daquela aperto dos seus antepassados, e assim serviu esta freguesia  naquele tempo de Valha Couto e baluarte da cristandade  como seria na referida batalha da Matança a qual fica vindo da parte de  Pitões para o meio do Gerês adiante, dos Currais de Lamalonga, limites desta freguesia de Cabril.
36º E seria na ocasião que o príncipe Dom Pelágio, se viu favor vindo do Céu nas Covas de Oviedo, quando as setas que contra ele aos seus atiravam os mouros, as mesmas que atiraram e se feriam e matavam e aos muito mouros que ali escapavam se viriam com esta serra em paradeiro fazendo nela redutos e cateteres no áspero da mesma serra, donde os cristãos os expulsaram e fizeram  retroceder até Matança, onde lhe deram batalha, e que por isso lhe deram o nome de Matança pelos muitos que ali mataram, donde não puderam entrar nesta freguesia, a qual tinham extremado ódio, sendo esse ódio comum contra toda a cristandade que vivia nas Espanhas, venha a ser especial contra os povos que viviam nesta freguesia tão extensa, e lhe fazia tanto dano como se viu nesta batalha da Matança e dizem que juraram os mouros vencer ou morrer como morreram os mais deles, e também dizem que deste solene juramento que fizeram no Gerês, tomara a serra este nome de Gerês, e então se não deve escrever Gerês, mas sim Jurês.
..."

Parece-me óbvio que estamos a falar do mesmo local e, sendo assim, pelo menos uma das explicações para o topónimo estará errada. Ainda que não queira tomar partido por nenhuma das possíveis explicações, devo esclarecer que me parece mais credível a que encontrei nas Memórias Paroquiais. Fundamento a minha opinião em duas grandes razões.

A primeira porque são conhecidos os muitos conflitos fronteiriços que ocorreram na Restauração, a que o manuscrito também faz referência, e me custa acreditar num reencontro entre cristão e mouros num local tão elevado e afastado dos locais naturais para atravessamento da serra. Mais ainda quando relaciona esse reencontro com Pelágio e a Batalha de Covadonga (o que situa esse reencontro por volta de 721).

A segunda porque me questionei sobre a etimologia da vocábulo Matança e descobri uma provável, apesar de não confirmada e controversa, origem árabe (ver aqui). Ora, confirmando-se a origem , seria muito estranho que os critãos nomeassem o local da batalha com um vocábulo de origem árabe (1).

Ainda assim, não quero afirmar definitivamente qualquer uma das explicações para o topónimo. Que cada um seja livre para escolher uma das duas. Ou faça como eu, relate ambas e deixe para terceiros a decisão sobre elas.

(1) há quem defenda que a origem da palavra é “matar”, do Latim MACTARE, “imolar, sacrificar aos deuses”. Aparentemente o verbo significava, no início, o ato de elevar o objeto de sacrifício ao ar, em direção ao céu. Depois se estendeu ao ato de tirar a vida da oferenda (ver aqui).


Monday, February 13, 2012

Ainda sobre o Curral do Absedo

Referência ao curral do Abessedo (Absedo) no documento

Aproveitando uma ida a Pincães (Cabril, Montalegre) enriqueci a minha biblioteca com mais um livro sobre a Serra do Gerês. O livro Aldeia de Pincães é uma monografia da aldeia, da autoria de António Fernando Machado Ribeiro Guimarães  e publicada com o apoio da Associação Dinamizadora dos Interesses dos Compartes de Pincães - ADICP. No prefácio é dito que o livro está escrito com o coração e de facto o autor  assumiu a sua ligação afectiva com a aldeia sem medo de perder  objectividade. Para já fiquei-me por uma leitura rápida e pouco aprofundada ao livro. Apenas a suficiente para referenciar alguma da informação tratada e tenciono voltar a ele com mais tempo pois encontrei diversas pistas que tenciono explorar no futuro.

No livro encontrei também um documento, a que chamarei "O regime de pastagens das vezeiras da Serra do Gerês segundo os usos e costumes antigos"  que partilho parcialmente aqui. Já tinha lido referências a este documento no blogue Cabra do Gerês e essa foi uma das razões pelas quais procurei este livro. O documento pode esclarecer que vezeira que utilizava o Curral do Absedo (Abessedo ou Abecêdo) e com isso resolver a questão do nome. O documento poderá ainda ajudar a perceber os usos e costumes das vezeiras do Gerês Oriental nele citadas e esta é umas das pistas futuras que tenciono explorar.

O Curral do Absedo, na grafia de Tude de Sousa, que já tratei neste blogue aqui,  desperta a curiosidade de muitos dos apaixonados pela serra por diversos motivos. Para não repetir o Rui Barbosa, aconselho a leitura do que blogue Carris escreveu obre este curral. Situado numa das zonas mais inacessíveis da serra, encaixado numa pequena chã a uma cota de aproximadamente 1290 metros, qualquer que seja o trilho escolhido para visitar este curral obriga primeiro a subir  aos 1400 metros. Um esforço que não deve ser menosprezado pelos que conhecem menos bem a zona, exigente para os dias curtos de Inverno e de temperaturas elevadas, sem água, nos dias de Verão.

De acordo com este documento, o curral do Absedo seria utilizado pela vezeira dos bois de Pincães (Pincães, S. Ane, S. Lourenço, Chelo, Fontainho, Vila Boa e Cavalos) . Informação que esclarece a expressão de "monte dos bois" que ouvi  em Agosto último a uns pastores nas Lagoas do Marinho. Iam esses pastores em busca de umas vacas que por lá andavam e que deveriam ser as que eu encontrei mais tarde, já no final do Verão, na última vez que passei pelo Absedo.

Naturalmente que esta informação não esclarece definitivamente o seu nome e a utilização deste curral por esta vezeira pode ser posterior ao abandono do curral pelas gentes de Vilarinho. Há ainda a hipótese de se tratar de um curral utilizado por mais do que uma vezeira e ter diferente designação para as gentes de Vilarinho e para as gentes de Pincães.  Seja como for todas as fontes documentais parecem indicar que o curral se chama Absedo, Abessedo ou Abecêdo.
pormenor do documento "O regime de pastagens das vezeiras
da Serra do Gerês segundo os usos e costumes antigo"

Wednesday, January 04, 2012


Desde que soube da existência de umas ruínas de uma casa das neves na Serra Amarela me interessei pela sua localização. Mais tarde, quando preparava uma caminhada para a AAEUM, tive a sorte de obter essa informação da CMTB e, finalmente, visitei-a.  Depois no blogue voltei a tratar a Casa da Neve para partilhar as fontes onde tinha sabido da sua existência.
Volto novamente a este assunto porque encontrei na minha leitura actual (O Gerês: de Bouro a Barroso, de Rosa Fernanda Moreira da Silva) uma interessante e mais completa informação sobre este tema. Que para a autora serve essencialmente para enquadrar o clima da área do estudo e da existência de “little ice age".  Saber Serra Amarela estaria 6 meses com neve, ajuda a interpretar de forma diferente aquele territórioa e a nossa perspectiva da serra é necessariamente diferente.


O local da casa da neve possui ainda outro interesse. É perto dela que Matos Ferreira refere que terá sido morto um dos últimos ursos no Gerês: "[...]Hoje se não acha no Geres tal casta de animal por causa dos grandes fogos que sempre continuamente os lavradores andão lançando nos montes, e o ultimo que se matou, conforme referem os velhos da terra, foy pouco mais ou menos no anno de 1650, na Quelha da Ursa, que fica para a Chã da Fonte, junto à Casa da Neve”. (1)


Julga-se que o urso terá sido extinto no PNPG mais tarde e há notícias bem mais recentes de avistamentos na Galícia que fazem pensar que continuaria a frequentar a área mais a norte do PNPG e nas Memórias Paroquiais de 1758 da freguesia de Outeiro (Montalegre) é dito: "[...] Há quem se lembre de hum homem da freguesia de Cabril que matou no ditto Gerês um urso. Certifica havê-los nesse tempo por se verem de presente sinaes de muros de colmeas sobre pedras altas para se livrarem delles”. (2)

Ainda que já estivessem por essa altura dados como extintos: [...] “FAFIÃO – “Entendendose hir a extinguindose [os lobos cervais] como se extinguirão os ursos pelo cui[da]do que os moradores tem de os preceguir, e caçar andando de dia e de noute athé os matar, ou fazer fugir p[ar]a os montes da Irmida e Villar da Veiga, donde também os perseguem com notável cuidado […]” [fl. 13] (3)

Finalmente, da minha prenda de Natal, sobre a casa das neves da Serra Amarela: [...] Numa visão comparativa em relação à Serra Amarela recorda-se a Notícia da Freguesia de S. João de Campo onde se afirma: “[…] Na Serra Amarela conserva-se a neve 6 meses em cada ano. Na Portela da Serra Amarela, na conhecida Chã da Fonte, existiu a chamada Casa da Neve, propriedade de Arcebispos de Braga”.


Na proximidade da Casa da Neve da Serra Amarela existe a Fonte Fria e vários manuscritos afirmam que: “[…] a água dessa fonte era tão fria que metendo-se a mão por alguns minutos, ela paralisava”.


Para matos Ferreira “[…] a Casa da Neve da Serra Amarela foi mandada construir pelo arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos Noronha, que a não concluiu por ter entrado na prisão em virtude da conjura contra D. João IV. Em 1680 estava parcialmente demolida e assim ficou até 1684, altura em que o Arcebispo de Braga D. Luís de Sousa, entre 1687 e 1690, a mandou reedificar e encher de neve”.


As diferentes notícias referentes ao negócio da neve e os inúmeros episódios de conflito de interesse estenderam-se entre 1623 e o século XIX, sem nunca incluir a Serra Amarela. Em 1728 a Casa da Neve encontrava-se novamente arruinada.


O entanto, as actuais ruínas denunciam uma sólida estrutura em granito e reúnem factores locativos ideais como a orientação, altitude, proximidade em relação à Fonte Fria, ou seja, existiam todas as condições para o sucesso de um pólo de armazenamento de neve. Infelizmente, a ausência de escavações lançam múltiplas dúvidas sobre o número e a dimensão dos poços onde seria despejada a neve e o seu posterior armazenamento. Recorda-se que o armazenamento da neve exigia, pelo seu valor, um permanente acompanhamento e vigilância.


No âmbito desta investigação não tivemos oportunidade de concretizar trabalhos de arquivo que nos esclarecessem o volume de neve armazenada, o trabalho de neveiros e os locais de consumo dessa neve e gelo. Portanto, não nos é possível retirar qualquer conclusão relativamente à importância desta Casa da Neve, ainda em ruínas. Contudo, as actuais ruínas permitem idealizar uma razoável capacidade de armazenamento e uma acessível ligação a Brufe, vale do Cávado e, finalmente, a Braga e Guimarães.


Se pensarmos na azáfama relacionada com os trabalhos de frecolha da neve, do seu armazenamento e de vigilância até ao seu transporte para o local de consumo, somos conduzidos a admitir que essa actividade não se coadunava com as especificidades de um território raiano, ou seja, com as ligações impostas pelos frequentes períodos litigiosos e pela participação dos terrabourenses na defesa das Portelas do Homem e da Amarela.


Segundo nossa opinião, o efémero historial desta casa da Neve foi determinada pela localização em plena Serra Amarela. Todavia no sentido de se aferir a sua importância à escala local e regional impõem-se a concretização de estudos de Arqueologia, o recurso a outros registos para assegurar o cruzamento e a confrontação de informação. (4)

Brevemente voltarei a este local para recolher fotografias. A minha actual leitura sera ainda motivação e pretexto para muitas caminhadas e explorações.
 
(1) 1728 – [Padre José de Matos FERREIRA, Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez, Braga, 1728] Edição fac-similada da Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1994.
(2) 1758 – Na memória paroquial da freguesia de Outeiro. [Rogério BORRALHEIRO, Montalegre Memórias e História, Montalegre, 2005]
(3) 1744 – Códice dos Casais de Pincães. P.e Diogo Martins Pereira [transcrição de cópia de 1813, por António Martinho BAPTISTA]
(4) 2011 - [Rosa Fernanda Moreira Silva, O Gerês: De Bouro a Barroso - Singularidades Patrimoniais e Dinâmicas Territoriais] Afrontamento

nota: lobo cerval é uma designação local para o lince

Saturday, December 10, 2011

Algumas fotografias de Vilarinho da Furna


Estas fotografifias eram do meu pai. Desconheço a sua história e como as recebeu. Encontreia-as há algum tempo quando remexia fotografias antigas e outras papeladas. Imagino lhe tenham sido oferecidas por alguém sabendo que tinha visitado a aldeia de Vilarinho da Furna em momentos próximos dos retratados. Partilho-as no primeiro aniversário da sua morte em recordação do que gostava em vida.

Friday, December 09, 2011

Uma boa notícia: Câmara Municipal de Ponte de Lima cria "Casa de Montanha"



Só recentemente soube desta notícia e não posso deixar de lhe dar o destaque merecido. É uma iniciativa feliz e que poderia servir de exemplo para recuperar parte do património dos antigos Serviços Florestais. Naturalmente que nem todas as casas poderiam ser assim recuperadas, mas este é apenas um dos modelos possíveis e seria aplicável em muitas das casas abandonadas pelas serras. 

Câmara Municipal aprova “Casa de Montanha – Centro de Acolhimento e Núcleo Patrimonial – Cerquido” - Reunião de Câmara de 14 de Novembro
 
A Câmara Municipal de Ponte de Lima em reunião, realizada no dia 14 de Novembro, aprovou a abertura de procedimento concursal, mediante Concurso Público da empreitada de "Casa de Montanha - Centro de Acolhimento e núcleo Patrimonial - Cerquido".

O projecto consiste no restauro de uma casa agrícola serrana, adquirida pelo Município de Ponte de Lima, conferindo-lhe uma nova função, de índole sociocultural, através da sua reconversão numa instalação polivalente, aberta à comunidade e aos visitantes.

Ao implementar este projecto, o Município de Ponte de Lima pretende definir uma estratégia de divulgação do património material e imaterial. Considerando os valores patrimoniais existentes no núcleo do Cerquido, o referido projecto inclui as seguintes áreas funcionais: - espaço de acolhimento, intitulado "Sala dos Amigos da Casa"; espaço "Eventos e Momentos", consistindo num micro-auditório polivalente; cozinha de apoio à realização de mostras e workshops gastronómicos; "Sala de Aprendizagem", concebida enquanto espaço para a dinamização de acções formativas especializadas, especialmente no domínio do artesanato; oficina "Artes à Moda da Serra", destinada à demonstração de artes e ofícios e exposição de artesanato; espaço expositivo para o acolhimento de exposições permanentes e itinerantes.

Este equipamento multifuncional será o ponto de partida ou chegada de uma rede de itinerários culturais, suportada por painéis informativos e uma mesa interpretativa, expandindo no espaço envolvente o conceito e a função do Centro de Interpretação.

Assim, o turista será guiado no seu percurso de descoberta do território quer através de suportes representativos, textuais, gráficos ou multimédia, quer através da observação directa e da vivência sensorial do espaço físico.




Wednesday, November 30, 2011

Sobre as Cabras Selvagens


Seguindo uma indicação do Rui Barbosa acabei a leitura de "A Cabra-Montês do Gerês - Da extinção à reintrodução, Um novo desafio", da autoria de Miguel Dantas da Gama e editado pelo FAPAS. O livro é uma actualização de uma anterior publicação do mesmo autor e, além dos testemunhos históricos da antiga presença da cabra-montês, regista com detalhe os primeiros passos do seu regresso e debate as questões que condicionam o futuro desta nova população.

No entanto a expressão “reintrodução” faz presumir uma acção objectiva e deliberada que não existiu e não reflecte bem o acaso deste regresso. “Chassez le naturel, il revient au galop” recordou-nos o Miguel Torga a 6 de Agosto de 1948 e a história deste regresso parece confirmar que a natureza possui uma vontade instintiva que não é fácil controlar.

Em completemento a leitura do livro recomendo a leitura do seguinte estudo.

Tuesday, October 25, 2011

A VEZEIRA DA RIBEIRA

Recentemente encontrei um artigo publicado na revista GeoPlanUM, publicada pela Associação dos Estudantes de Geografia e Planeamento da Universidade do Minho. O artigo trata a vezeira da Ribeira, uma das vezeiras em actividade na Serra do Gerês e deu-me oportunidade de pensar sobre a razão histórica da sua existência. Sabia desta vezeira e já me tinha interrogado sobre as suas razões considerando as suas particularidades actuais. Uma curiosidade que nunca tinha ido muito longe, mas que este artigo despertou.

Sobre o artigo publico-o como o li, sem fazer qualquer comentário para além desta pequena introdução. Os que conhecem a serra sabem que parte do território indicado como pertencente à vezeira da Ribeira é hoje tido como da vezeira de Fafião. Uma disputa antiga entre as vezeiras que tanto julgo saber terá tido origem numa alteração da demarcação dos territórios administrativos, uma vez só modernamente o Rio Fafião passou a demarcar os limites de Fafião. Uma questão que julgo estar actualmente encerrada por acordo entre as partes e que procurarei esclarecer numa outra oportunidade.

Verifica-se, mais uma vez, que determinados locais mudam a sua designação de acordo com as fontes. O curral de Entre Águas parece corresponder ao Poço Verde e o aqui referido como curral do Conho, diferente do outro mais a norte e mais conhecido, recebe o nome da linha de água vizinha. Fico ainda com algumas dúvidas se o Curral do Cando, não referido, não será utilizado também por esta vezeira. Embora só conheça um acesso a este curral por cotas mais elevadas seguindo a cumeda da Corga das Giesteiras. Os currais referidos acabam por ser a quotas substancialmente mais baixas dos das outras vezeiras.

O artigo não esclarece as razões da existência de uma vezeira no concelho de Vieira do Minho na Serra do Gerês e eu julgo ter uma explicação. Hoje pode parecer estranho  que a vezeira atravesse a albufeira de Caniçada numa barcaça (julgo que cedida pela EDP como compensação) e suba à serra  para aproveitar os pastos de altitude  no concelho de Terras de Bouro, mas sem sempre isso foi assim. Se sobre a albufeira o artigo deixa claro que é uma barreira moderna, pelo que antes o gado passava o rio Cávado sem problemas, não explica os direitos históricos da vezeira da Ribeira na Serra do Gerês.

Eu atrevo-me a avançar com uma hipótese. Uma hipótese contida na designação da vezeira. É que as freguesias que hoje integram a a vezeira pertenceram a um antigo concelho chamado Ribeira do Soaz. Um concelho de que também fazia parte a freguesia de Vilar da Veiga. Ora, Ermida é hoje um lugar de Vilar da Veiga e já o era então. Pelo que julgo ser esta a justificação dos direitos históricos da vezeira da Ribeira. A extinção do concelho da Ribeira do Soaz não extinguiu os direitos de pastagens e o gado contiuou a subir à serra sem olhar aos limites administrativos. Tal como os direitos de Fafião se mantiveram no concelho de Terras de Bouro.












A VEZEIRA DA RIBEIRA*
Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira**

Resumo

A pastorícia constitui, nas áreas de montanha, uma prática secular e a Vezeira da Ribeira não é uma excepção à regra, pois realiza-se há mais de dois séculos na região do Parque Natural da Peneda-Gerês. Estas tradições rurais tendem a desaparecer, quer devido ao abandono das áreas rurais por parte das populações mais jovens, quer pelo facto de a criação de gado em regime livre ser um negócio cada vez menos lucrativo. Apenas sobrevivem graças ao esforço de algumas pessoas que se sentem realizadas pelo facto de continuarem a fazer com que o costume não seja ultrapassado nem esquecido lutando para manter um hábito que muitos teimam em ver extinto.

A Vezeira da Ribeira viu-se envolvida, nos últimos anos, numa “batalha” que a opôs à direcção do Parque Nacional Peneda-Gerês. Este passou a integrar a rede europeia PAN-Parks, e para tal necessitava de cumprir um conjunto de requisitos obrigatórios, nomeadamente possuir uma área virgem de 10.000 hectares completamente desprovida de acção humana. A única área possível era a ocupada por esta e outras Vezeiras da região.

Neste artigo pretendemos expor alguns conceitos necessários à compreensão desta temática, bem como apresentar a Vezeira da Ribeira, o seu percurso e as suas principais problemáticas.

* Artigo baseado no trabalho “A Vezeira da Ribeira” realizado na Unidade Curricular de Geografia Física de Portugal II e orientado pelo Doutor Bento Gonçalves
** Alunos do 3º Ano de Geografia da Universidade do Minho no ano lectivo de 2008/09

1. Pastoreio em Áreas de Montanha

Desde os tempos mais remotos que as populações das áreas rurais dependem dos recursos que o solo lhes dá. O Homem foi-se adaptando e ultrapassando as dificuldades apresentadas pelo relevo, recorrendo a diversas técnicas e sempre a um grande espírito de entre-ajuda e cooperação. Desta forma, conseguiu elaborar estratégias para a resolução dos seus problemas agrícolas e de pastoreio. Este equilíbrio foi alcançado com base na sustentabilidade e conservação dos sistemas produtivos que compunham todo o território serrano.

As aldeias destas áreas têm uma forte ligação com a montanha e, ao longo dos séculos, os seus habitantes foram aprendendo a tirar proveito desta localização. Assim sendo, a principal actividade das aldeias serranas, na maioria dos casos única, assentava numa agricultura de subsistência baseada na produção animal em regime extensivo e em práticas comunitárias muito fortes. Desta forma, a complementaridade entre as áreas agrícolas e as áreas serranas são fundamentais para a produtividade dos sistemas agrários e para a sobrevivência da população. A criação de gado dependia, fundamentalmente, da produtividade das pastagens serranas, visto que o alimento disponível para o gado nas áreas agrícolas era, na maioria dos casos, insuficiente para a sua alimentação ao longo do ano.

As pastagens serranas são compostas sobretudo por áreas de matos e prados naturais ou semi-naturais de montanha e ainda de sub-bosques. As que estão localizadas a menor altitude suportavam o gado na maior parte do ano, sendo que de Maio a meados de Outubro o gado permanecia na serra sob vigilância de pastores.

Geralmente estes permaneciam no interior das brandas, que são a implantação de núcleos habitacionais localizados no cimo da serra para onde as populações se deslocavam no Verão levando consigo os seus animais para pastarem durante toda a época estival, realizando, também, algumas tarefas agrícolas adaptadas à altitude e ao clima aí existente nessa época do ano. No restante período do ano para contornar os Invernos rigorosos as populações desciam com o gado para núcleos habitacionais situados nos vales, local onde passavam toda a época fria. Esta prática é designada de Inverneiras.

Um outro tipo de movimento do gado em área serrana é a chamada Vezeira, que consiste numa prática comunitária de pastoreio do gado, em que cada pastor guarda “à vez” o rebanho de toda a aldeia. De acordo com o número de cabeças de gado pertencente a cada agricultor, são-lhe atribuídos dias de vigilância ao rebanho comunitário. Terminados esses dias a tarefa transita para outro pastor e assim sucessivamente até que todos os pastores pertencentes à Vezeira cumpram a sua obrigação de guardar a manada.

2. As Vezeiras

Desde tempos remotos, e ainda na actualidade, a posse de terra e de gado servia de base para a diferenciação social, assim, possuir uma junta de vacas era um símbolo de riqueza. Considerava-se que quem possuísse vacas tinha que ter, obrigatoriamente, recursos para as sustentar. Assim sendo, teria de ser proprietário de um considerável património, que garantisse a pastagem e a produção de feno suficiente para alimentar o gado durante o Inverno. Neste sentido, e tendo em conta que nem todos conseguiam ter gado, as comunidades viam-se obrigadas a rentabilizar ao máximo os recursos disponíveis e a criar estratégias de cooperação para aceder aos recursos essenciais, com custos mínimos, de modo a tornar sustentável a posse de gado mesmo por aqueles que tinham poucos recursos.

Em regiões onde existiam imensos constrangimentos, nomeadamente características físicas do terreno adversas e condições sócio-económicas débeis, as populações locais tiveram a necessidade de responder a estas adversidades de modo a minimizar os seus esforços e a rentabilizar a sua actividade. Para tal, entre outras acções, organizou o pastoreio de acordo com: o tipo de animais, a natureza dos pastos, e as condições específicas de cada comunidade. Estas, embora sejam diferentes nos diversos locais, correspondem a uma diversidade de esquemas de vigilância, que por sua vez correspondem a um modo de vida que é o silvo pastoril comum.

Foi neste âmbito, que apareceram diversas estratégias tais como o “Boi do Povo” e a vezeira. A primeira, o Boi do Povo, consistia na associação dos vários lavradores de uma aldeia para a compra, manutenção e sustento de um ou mais touros reprodutores. A quantidade destes animais dependia do número de vacas existente na povoação. Deste modo, aqueles eram propriedade comum dos diversos lavradores e tinham como principal função a reprodução. Por norma, a manutenção do Boi estava a cargo do conjunto de lavradores, utilizando, entre eles, um sistema de rotatividade, em que cada um ficava com o animal por um período de tempo proporcional à quantidade de vacas que possuía.

A segunda estratégia, a vezeira, é uma velha prática comunitária de pastoreio em que num só rebanho, ou manada, se juntam as cabeças de gado de 10, 15, 20 ou mais proprietários (Santos Júnior, 1980:422). Estas manadas comuns eram levadas para as pastagens pelos diversos proprietários, num sistema rotativo sempre de acordo com o número de cabeças que cada um possuía. Assim sendo, o número de dias atribuídos a cada proprietário variava de aldeia para aldeia, dependendo, principalmente, do tamanho e da quantidade de manadas existentes. Deste modo, poderia ser estabelecido que cada proprietário teria de efectuar um dia de vezeira, por cada cabeça de gado, ou então, um dia por cada cinco ou dez animais. Estas Vezeiras podiam ser permanentes, ou seja efectuadas diariamente durante todo o ano, ou então, serem sazonais, isto é, realizadas durante um determinado período do ano, que poderia corresponder a determinada estação do ano ou a épocas de maior trabalho.

Este método de pastoreio está a desaparecer aos poucos. Esta situação deve-se, fundamentalmente, à desertificação populacional destas áreas, provocada pelo aumento da emigração e imigração, bem como à florestação de extensas áreas de baldios que tem levado a uma redução drástica das áreas de pastagem. De forma a preservar o crescimento das árvores, passou a ser proibida a pastorícia, principalmente de cabras, nas áreas florestadas.

Situações como estas têm vindo a fomentar a venda dos animais, tornando progressivamente inviável a realização de vezeiras.

3. A Vezeira da Ribeira

As freguesias da Vezeira da Ribeira pertencem a Vieira do Minho, no entanto, as suas pastagens encontram-se já no concelho vizinho, ou seja, em Terras de Bouro. Esta, em outros tempos, permitia o atravessamento do rio Cávado por parte de centenas de cabeças de gado, este número, na actualidade, reduziu para dezenas de unidades. Vieira do Minho é um concelho do Norte de Portugal, em termos administrativos este insere-se na NUT II – Norte, mais concretamente na NUT III – Ave. Este concelho é constituído por vinte e uma freguesias, sendo que, a Vezeira em estudo, serve as freguesias de Louredo, Ventosa e São João da Cova.

Como já foi referido, este concelho situa-se na proximidade da serra do Gerês, o que faz com que em termos físicos, herde bastantes características deste maciço. É, deste modo, um concelho que ainda apresenta algum relevo granítico.

Trata-se de um concelho bastante rural, que apresenta uma população muito tradicional e algo dependente da agricultura. Em tempos, a agricultura constituía fonte de rendimento e era indispensável para a sobrevivência destas populações. Assim, as actividades agro-pastoris eram parte integrante do dia-a-dia das populações locais. Deste modo, grande parte das famílias destas freguesias viviam dependendo da terra e do gado, que constituía, em simultâneo, fonte de riqueza e de alimento. Estes estabelecem os dois pilares que garantem a reprodução socio-económica da população local (Taborda, 1932:131). Assim, a criação de gado assumiu um papel preponderante nas regiões de montanha, terras onde as condições extremas, nomeadamente, o rigor do clima e os solos muito fracos tornaram difícil a vida da população. Neste sentido, podemos dizer que, desde tempos remotos, a agricultura tem andado de mãos dadas com a pastorícia.

Será, ainda, pertinente referir que nesta área predomina o gado bovino, nomeadamente de raça Barrosã, no entanto, também se verifica a presença de algumas espécies caprinas e, muito raramente, ovinos Bordaleira. Uma outra espécie que se tornara uma importante fonte de rendimentos para os agricultores locais é o Garrano (equinos). Este encontra-se no Gerês, no entanto, já fora da área em estudo. Estes animais são muito importantes, quer pelo seu desempenho em trabalhos agrícolas, pela adubação e fertilização dos solos, quer enquanto produtores de carne para consumo próprio ou para venda. Como é evidente, um factor muito importante para a criação destas espécies é a existência de pastos naturais muito ricos, denominados de lameiros.

A Vezeira da Ribeira pode ser observada no concelho de Vieira do Minho, e em tempos, servia a população de cinco freguesias, no entanto, e como já foi referido anteriormente, actualmente limita-se às freguesias de Louredo, Ventosa e São João da Cova. Estas são freguesias ribeirinhas do rio Cávado, encontrando-se, todas elas, na margem esquerda do mesmo. Têm uma densidade populacional muito baixa (Louredo, Cova e Ventosa com respectivamente 0,63; 0,76 e 0,94 hab/ha), tal como as restantes freguesias do Concelho de Vieira do Minho, que varia dos 0,17 (Campos) aos 3,18 (Vieira do Minho) hab/ha.

Neste caso concreto, a vezeira consiste na travessia e subida do gado para a Serra do Gerês. Esta é uma tradição que integra a vida comunitária da região há mais de duzentos anos. Esta vezeira consiste na passagem do gado pela barragem da Caniçada, através de uma barcaça, saindo da freguesia de Louredo, do concelho de Vieira do Minho, para o lugar da Ermida no concelho de Terras de Bouro. Depois da travessia da albufeira, o gado sobe para a Serra do Gerês onde vai pastar durante os três meses seguintes.

A Vezeira da Ribeira e outras existentes no Parque Nacional da Peneda-Gerês, encontram-se envoltas numa problemática, pois os responsáveis pelo parque pretendem acabar com tudo o que seja brandas e vezeiras, isto porque pretende aderir à rede PAN-Parks, uma rede que junta os principais parques naturais europeus. Para alcançar este objectivo aquele parque tem de possuir no mínimo 10.000 ha de área sem qualquer intervenção humana, ou seja, uma área completamente virgem em que não se verifique qualquer actividade humana. Nesta questão reside a maior preocupação, pois dentro desta área de protecção total existem terrenos comunitários que pertencem aos baldios e às vezeiras de gado.

Pelo exposto, podemos dizer que esta problemática se apresenta como um pau de dois bicos. Pois, se por um lado se pode perder a oportunidade de aderir a uma rede europeia que Ao longo do percurso desta vezeira existem pequenas “cabanas”, apelidadas de Fornos, que estão disponíveis para os vezeiros pernoitarem enquanto acompanham o gado na subida. Podem integrar esta vezeira homens ou mulheres com idade superior a dezasseis anos.

Figura 1 – Enquadramento Geográfico da área em estudo.

Fonte: Worldwide shaded relief by ESRI using GTOPO30, SRTM, and NED elevation data from the USGS

As vezeiras nas últimas décadas têm sido bastante afectadas com o êxodo rural, as populações em busca de melhores condições de vida têm sido forçadas a abandonar estas freguesias mais remotas. A indústria é praticamente inexistente nestes locais e a agricultura apenas é utilizada na sua vertente de subsistência. Os poucos habitantes que continuam a viver nesta zona têm os seus empregos nas cidades mais próximas, Braga, Póvoa de Lanhoso e Vieira do Minho e por isso encaram a agricultura como uma segunda actividade. Para além de serem menos os habitantes, os actuais proprietários de gado possuem menos cabeças que noutras décadas, dada a dificuldade que existe em tratar dos animais.

Actualmente a Vezeiras da Ribeira conta com 16 sócios proprietários e um total de 23 cabeças de bovinos, na sua maioria de raça Barrosã e Galega. Em Junho e em Setembro, desde há longos anos, acontece o ritual da vezeira, o gado é então transportado de canoa (Barcaça) para a outra margem da barragem (a barragem foi construída em meados do séc. XX, antes disso o gado atravessava o rio a pé ou a nado) e de seguida é levado até ao topo da montanha onde vai passar três meses no pastoreio. Neste período estival, os proprietários, cada um pela sua vez, terão de vigiar o gado e garantir a sua segurança e pasto.

Nas zonas mais elevadas encontram-se alguns prados que conservam o alimento durante o período de maior calor e seca, graças à riqueza do seu solo e abundância de água. Na sua passagem e estadia pela Serra o gado alimenta-se, essencialmente, de fenos e ervas dos prados, assim como, matos como a urze que se encontram entre as rochas das encostas. Os prados, para além do alimento, disponibilizam as poucas sombras para os dias mais quentes e abrigos nas noites mais frias, assim como a água. Depois da passagem para as zonas altas da Serra do Gerês, os bovinos de diferentes proprietários pastam, em conjunto, entre Junho e Setembro, altura em que descem novamente as montanhas e regressam ao concelho de Vieira do Minho.

A Vezeira da Ribeira é regida por normas que ditam direitos e obrigações dos sócios, esta é chefiada por um Juiz, na actualidade pelo Sr. António Campos, cujo cargo é renovado anualmente através de eleições que são realizadas no dia do chamado. Como nos foi explicado pelo Juiz, (…) em tempos, era tudo muito mais rígido e seguido. Hoje em dia o cargo de Juiz já não é tanto uma honra, mas mais um encargo de grandes responsabilidades e que não dá qualquer lucro (…).

Todos os anos, há dois “chamados”, um antes da subida da vezeira, no penúltimo domingo de Maio, e a outra antes da descida da vezeira, no penúltimo domingo de Agosto. Nesse momento todos os sócios devem estar presentes, pelas 14 horas no lugar de Costarela (local de chamada), ou fazer-se representar por uma pessoa maior de idade. Como já foi referido, embora já tivessem tido um maior número, actualmente, esta sociedade tem cerca de 16 sócios que pagam uma cota de 25€ por ano. O “chamado”, que se realiza junto a um carvalho monumental, ainda se efectua como antigamente. Neste “chamado” ainda existe a tradição oral, ou seja, as questões são resolvidas na base da palavra, que funciona como uma espécie de escritura. É neste encontro que, entre outras coisas, se realiza a eleição de um novo Juiz e de dois Vogais.

Esta sociedade pode levar o gado, para a Serra do Gerês, a partir de 1 de Junho a 8 de Setembro. Cada sócio é livre de levar as cabeças de gado que quiser, no entanto, estas são previamente examinados para ver se estão bem de saúde e não têm qualquer tipo de doença com que possam contagiar outros animais, ou impossibilite o seu desempenho neste período de pasto livre.

Como já foi referido o pastor da vezeira assume o cargo de forma rotativa, tendo de ser avisado com uma antecedência de três dias para ir guardar a vezeira. Uma vez ao serviço não pode abandonar o gado sem justa causa. Este deve pernoitar junto do local onde está o gado, pois caso falte algum bovino será da sua inteira responsabilidade. Se por ventura algum animal adoeça, o pastor tem o dever de avisar o juiz, pois fica ao encargo da sociedade as despesas de transporte, veterinário e medicamentos.

Devido ao desconhecimento, por parte de autarquias e entidades, da existência da vezeira, esta não tem qualquer tipo de ajuda por parte de alguma delas. Assim, já há anos que se tenta angariar fundos para o restauro dos Fornos, de modo a permitir melhores condições de pernoita, potenciando, de certa forma, este acto como uma possível rota turística. No entanto, existe um entrave ao turismo que é o facto de alguns destes Fornos estarem em áreas protegidas.

Todos os anos a vezeira parte com grandes festejos e juntam grandes multidões que se deslocam aquele local para assistir a uma tradição que já é rara e está cada vez mais em perigo de extinção. No dia da subida da vezeira há convívio entre a população em geral, que sobe juntamente com aquela, levando couves, feijões e carne, essencialmente de porco, para confeccionar o típico prato desta vezeira “Feijões com couves”.

Foto 1: Barcaça da Vezeira da Ribeira

Após a partida, a Vezeira da Ribeira terá pastagens em comum com outras vezeiras, no entanto, duas vezeiras nunca podem estar no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Em tempos idos, antes da construção da Barragem da Caniçada, os animais conseguiam atravessar o rio a pé ou a nado. Com a sua construção, em meados do Século XX, para realizar esta passagem, foi disponibilizada uma Barcaça que leva entre 8 e 10 cabeças de gado. Actualmente, com o número de espécimes que a vezeira possui, não é necessário realizar-se mais do que duas travessias.

A vezeira parte cerca das 7 horas da freguesia de Louredo para o lugar da Ermida em Terras do Bouro, acompanhada dos seus proprietários.

Geralmente, entre as cabeças de gado, apenas sobe um boi reprodutor, qualquer outro macho que acompanhe a manada é castrado, deste modo evitam-se conflitos entre eles. É de salientar que este é então o chamado “Boi do Povo”, que quando a vezeira se encontra nos baixos pastos, nos estábulos dos respectivos donos, vai circulando de forma rotativa por cada casa. O número de dias que permanece em cada proprietário é proporcional ao número de vacas que cada um possui.

Esta tradição permanece viva muito graças à vontade e empenho dos donos dos animais, que continuam a fazer valer o direito ancestral do uso das zonas de pasto na serra. Ao mesmo tempo, é a prova que estas localidades ainda mantêm em uso algumas das actividades do sector primário, actividades que são forte expressão da ruralidade e tipicidade desta região minhota.

4. Percurso da Vezeira da Ribeira

O percurso que é realizado pelos pastores e respectivo gado, quando efectuam a subida da vezeira, como é evidente, é realizado em várias etapas, nas quais os pastores vão deixando o gado nas diferentes pastagens do percurso, denominadas de Currais. Quando o pasto deixa de ter alimento, o pastor desloca consecutivamente a manada para a pastagem seguinte durante toda a época estival, até que, no fim desta, voltam a descer o gado dos pastos em altitude para permanecerem durante o Inverno nos pastos mais baixos, junto às aldeias. Como já foi referido, actualmente, nesta vezeira cada pastor guarda a manada por um número de dias correspondente ao dobro do número de cabeças de gado que possui. Quando termina o seu período de guarda, este entrega a manada ao pastor seguinte, no curral correspondente à sua posição. Neste momento o pastor tem de, obrigatoriamente, ter reunido todas as cabeças de gado no respectivo curral para que se realize, na presença dos dois pastores, a contagem dos animais. A referida troca de pastor, é sempre realizada ao pôr-do-sol. Ao passar o testemunho, o novo pastor encarregue pelo gado conta-o, verifica-o e, consequentemente, torna-se responsável por ele até à próxima troca.

Nesta vezeira encontramos, essencialmente, gado bovinos da raça Barrosã, e embora em menor proporção, bovinos da raça Minhota ou Galega, verifica-se ainda a existência de alguns caprinos.

Nas últimas décadas, o número de cabeças de gado desta vezeira tem vindo a diminuir drasticamente, passando de números da ordem das centenas para, na actualidade, possuir apenas duas dezenas. No que diz respeito à alimentação do gado, este ingere essencialmente erva, no entanto, quando esta escasseia, alimenta-se também de Urzes. Não obstante este facto, e ao contrário das cabras e das ovelhas, as vacas são mais selectivas no que diz respeito à alimentação determinando e limitando assim a escolha dos pastos.

A Vezeira da Ribeira estende-se numa área de cerca de 1100 hectares e cujo perímetro é de, aproximadamente, 12 km. Actualmente, 23 cabeças de gado compõe esta vezeira, sendo que, no decorrente ano, subiram, numa fase inicial, 21, e posteriormente juntaram-se-lhes mais duas. No entanto, segundo o juiz António Campos, a dimensão da manada subiu este ano em comparação com o ano anterior. No entanto nada que se compare com o passado em que o número era muito superior. Este ano a Vezeira da Ribeira aumentou o seu número de sócios, tendo actualmente um total de dezasseis associados.

Antes de apresentarmos o percurso desta vezeira consideramos pertinente a exposição de determinados conceitos relativos a esta temática e que podem ajudar na compreensão da mesma.

Assim, podemos dizer que um Forno é um abrigo, muitas vezes rudimentar, que permite a pernoita do pastor no local, junto ao curral.

Foto 2: Forno da Giesteira
Foto 3: Interior do Forno da Giesteira

Um Curral é uma área de pasto, mais ou menos plana, que permite o agrupamento da manada.

Foto 4: Curral da Giesteira


Uma mariola é um pequeno amontoado de pedras sobrepostas, que têm por finalidade sinalizar o caminho pelo meio da serra, assim, nos dias de nevoeiro os pastores guiam-se por estas de modo a não se perderem, na imagem que se segue podemos observar uma destas mariolas.

Relativamente ao percurso, antigamente os primeiros pontos de paragem eram na Ermida, no entanto, devido ao menor uso e número reduzido de cabeças de gado que a vezeira apresenta actualmente, estes já não são utilizados. Assim sendo, o primeiro ponto a ser utilizado presentemente é a Giesteira, que se encontra um pouco acima da cascata do Arado. Assim, verifica-se que na actualidade determinados pontos, ou por terem menor interesse, ou por serem de mais difícil ou perigoso acesso, são abandonados em detrimento de outros que, pelos motivos anteriormente referidos, vão sendo suficientes para as necessidades actuais.

Não esquecendo o declínio que esta prática vive actualmente, é de destacar, a existência de pastores que passam a noite em altitude com o rebanho. Acto, cada vez mais digno de respeito, quando se tem em consideração que as condições de albergue não são as melhores, pois actualmente a maioria dos Fornos onde os pastores pernoitam apresentam-se num estado degradado, em certos casos infiltram água. Facto que se deve, essencialmente, a uma inexistente manutenção dos mesmos nos últimos tempos.

Foto5: Mariola

Podemos, ainda, referir que se verifica a existência de dois tipos de Currais, os principais em que se observa sempre a presença de um pequeno abrigo, denominado de Forno, para o pastor passar a noite e de um ponto de água. As restantes são apenas locais de pastagem, em que o pastor deixa o gado e vai passar a noite no forno mais próximo do curral.

Consideramos que é notória uma certa rivalidade entre determinadas vezeiras, no sentido que, foram notadas diversas atitudes, por parte dos seus protagonistas, que denunciavam aquilo que poderíamos considerar um certo bairrismo. A título de exemplo, observamos em determinados locais gravações que ostentavam o nome da vezeira junto aos abrigos, e quando tal acontecia estavam sempre gravados ambos os nomes, como se defendessem a posse do local.

Segundo o Sr. António Campos, actual Juiz da vezeira, a Vezeira da Ribeira é mais antiga do que a vizinha Vezeira da Ermida e por isso, sempre que estas tenham pastos comuns, à chegada da Vezeira da Ribeira a Vezeira da Ermida tem de abandonar o local, prevalecendo, assim, um princípio de antiguidade.

No que diz respeito às diferentes paragens, este percurso divide-se em vários currais, cada um deles possui um forno, ou seja, um espaço com mais ou menos condições que permite aos pastores pernoitarem nos altos pastos, e um ponto de água. Este percurso serve as freguesias anteriormente referidas e inicia a sua subida para os altos pastos num local, a que chamamos de Barcaça, pelo facto de se efectuar a travessia do rio numa barcaça, cedida pela EDP quando se efectuou a construção da barragem, como já foi referido nos capítulos anteriores.

Na Figura 2 podemos observar os diferentes percursos existentes, a linha amarela representa o trajecto aproximado entre a Barcaça e o início dos percurso de altitude. Representamos esta parte do percurso de cor diferente porque não foi realizada pelo grupo. A vermelho temos os percursos de altitude que foram registados através de marcação GPS. Podemos, deste modo, ter uma percepção das distâncias percorridas pelos pastores e pelas suas manadas, deslocamento que é realizado a pé por zonas que, em certos casos, oferecem precárias condições de progressão.

Assim, como é possível observar, o gado pertence as freguesias da margem Sul do rio. No dia da subida os diferentes proprietários reúnem-se junto à Barcaça para a travessia do rio. De seguida inicia-se a ascensão para os pastos de altitude, numa caminhada de cerca de quatro horas até chegar a uma zona central, denominado de Tribela, em que os percursos se dividem. A partir deste ponto existe varias opções possíveis, que podemos apresentar em três percursos alternativos. Um primeiro que junta os pastos da Tribela à Giesteira e Malhadoura. Um segundo que parte da Tribela para Pinhô, seguindo para Entre Águas e Conho. Por último, um terceiro que parte na mesma de Pinhô, mas desta vez em direcção a Pousada e Bicos Altos. Existem ainda mais dois pequenos percursos que ligam a Tribela ao pasto da Corriscada e outro à pastagem de Viseu. Em tempos passados, em que as manadas eram de maiores dimensões, os pastos faziam-se poucos e, por isso, os pastores eram obrigados a percorrer a totalidade dos percursos durante a época estival. Actualmente, tendo em conta o número reduzido de cabeças de gado que formam as manadas estes percursos são usados de forma alternada de ano para ano.

Na Figura 3 podemos observar os diferentes percursos e os diferentes currais anteriormente referidos. É possível também verificar uma orientação generalizada para Norte em direcção às cotas mais elevadas e uma progressão dos percursos da Vezeira da Ribeira ao longo dos vales de altitude que apresentam entre si um certo paralelismo, talvez devido à existência de fracturas presentes neste maciço granítico. A deslocação da Vezeira é sempre realizada num sentido ascendente e circundados pelos cimos deste Maciço.

Figura 2: Enquadramento e percurso da Vezeira

Figura 3: Localização dos Fornos e percursos de altitude
 
Notas conclusivas


Em termos de conclusão podemos dizer que a vezeira ou “pastoreio à vez” é uma forma de criação de gado, assente em fortes ligações comunitárias que persistem na região, rompendo o individualismo reinante nas sociedades de consumo cosmopolitas. Estas representam tradições agrícolas cuja dimensão cultural poderia ser comparada a outras práticas como por exemplo o Boi do Povo, as Inverneiras, as Brandas e outras. São práticas que estão a entrar em desuso quer pelo facto de se verificar nas últimas décadas uma grande desertificação populacional das áreas rurais levando, deste modo, à diminuição da mão de obra disponível e por isso ao abandono das práticas agrícolas. Também podemos referir como causa a falta de rentabilidade económica que está ligada à agricultura tradicional dos nossos dias. Assim, podemos dizer que estas práticas sobrevivem pela insistência de um punhado de Homens que lutam, com o seu arduo trabalho, pela sobrevivência destas práticas ancestrais que forjam o nosso passado e as nossas raízes e que são parte integrante de uma cultura típica das zonas serranas.

Este abandono conduz a uma outra problemática que se discute muito na actualidade e que se relaciona com o desenvolvimento de diversos problemas das nossas áreas montanhosas, nomeadamente, os incêndios florestais. Assim, podemos dizer que o abandono destas práticas leva também a uma redução da protecção e da vigilância natural, pois, as serras “habitadas” tinham uma vigilância permanente realizada pelos locais. Já sem referir a questão das limpezas das matas realizadas pelos gado durante a pastagem e, também, pelos pastores que as efectuavam para permitir uma mais fácil utilização dos espaços.

É evidente que estas problemáticas não afectam apenas a Vezeira da Ribeira mas sim todo tipo de práticas agrícolas similares. Consideramos que talvez fosse pertinente um maior apoio por parte das autarquias e até o seu aproveitamento para fins turísticos que poderia tornar rentável uma prática centenária que já há muito deixou de o ser.

Bibliografia
CARVALHO, E. (2006). Lima Internacional: Paisagens e Espaços de Fronteira, Vol. 1; Tese de Doutoramento em Geografia, Ramo de Geografia Humana. Universidade do Minho.
GONÇALVES, A. BENTO (2006). Geografia dos Incêndios em Espaços Silvestres de Montanha – Caso da Serra da Cabreira. Tese de Doutoramento em Geografia, Ramo de Geografia Física e Estudos Ambientais. Faculdades de Letras, Universidade de Coimbra.
MEDEIROS, A. C. (2000). Geografia de Portugal, Ambiente Natural e Ocupação Humana, Uma Introdução. (5.ª edição). Lisboa: Editorial Estampa.
VIEIRA, L. J., (2004). Raça Bovina Cachena, Associação de Criadores da Raça Cachena. II Jornadas Técnicas de Raças Bovinas Autóctones, 5 e 6 de Maio de 2004. Escola Superior Agrária – Castelo Branco
CASTRO et al (2009). A Vezeira da Ribeira. Departamento de Geografia. Universidade do Minho., Guimarães.
Gravações Áudio efectuadas pelo Grupo na entrevista com o Juiz da Vezeira.
Jornal de Noticias; 2 de Janeiro de 2009. Novo plano do Gerês restringe pastorícia.
Jornal de Noticias; 19 de Janeiro de 2009. Residentes recusam fim de pastagens e da caça.


Wednesday, October 19, 2011

Tesouro escondido em Vilarinho da Furna?





 No Domingo passsado pude caminhar pela parte da aldeia de Vilarinho da Furna a descoberto. Uma experiência estranha e repleta de emoções contraditórias até que uma pedra chamou a minha atenção num muro. Primeiro foi pela forma perfeitamente talhada, depois pelo que me pareciam ser vestígios de antigas inscrições. Não ficaria surpreendido se viessem a descobrir que aquela pedra é parte de um marco miliário, possivelmente retirado das milhas mais próximas da antiga aldeia ( as milhas XXIX ou XXX). Uma "descoberta" que acrescentou emoções à emoção de passear pelas antigas ruas de Vilarinho.

Aparentemente a comprovar as minhas suposiçoes encontrei em «Thesouro de Braga descuberto no Campo do Gerez» - um levantamento da Geira realizado em 1721 pelo Padre José Matos Ferreira e que, apesar parciaçmente trancrito em outras obras, só em 1982 seria publicado pela CMTB - um relato interessante .

 Escreveu Matos Ferreira sobre a milha XXIX: «...dizem os moradores da freguesia do Campo que hum do lugar de Vilarinho o fizera em pedaços e que delle fizera pesos de lagar e outras obras semelhantes, e que deste mesmo sitio e de outro fica adiante, levara dous padrões que tinha hua choupana, servindo-lhe de esteios...».









Friday, September 23, 2011

Sei um Ninho

















Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga