Monday, May 30, 2016

O Caminho de Santiago pela Portela do Homem (Gerês)


Quando em 2012 decidi voltar fazer o caminho de Santiago, decidi também que não voltaria a fazer o percurso que tinha feito anteriormente. Sabendo que a Geira (Via Nova ou Via VIII) foi um dos percursos medievais de peregrinação, decidi que seria pelo Gerês que voltaria a Santiago de Compostela. Estudei outras alternativas, mas passar pelo Gerês sobrepôs-se a todas as outras opções de forma natural. Mesmo com as dificuldades de logística que essa opção acrescia, pois de Lóbios a Ourense tudo me era desconhecido.

Após diversos adiamentos  conclui no passado mês de Abril esse Caminho. O percurso correspondeu ao que esperava e não tenho dúvidas que os muitos quilómetros suplementares às alternativas dos designados Caminho Português e Caminhos Português pela costa valeram a pena. Pela paisagem porque o itinerário atravessa dois parques naturais e depois porque conserva uma integridade que a faixa litoral, muito urbanizada, perdeu. Culturalmente porque possui  pequenos tesouros que por serem menos conhecidos nos surpreendem.

É verdade que este trajeto perde Ponte de Lima, Valença do Minho, Tui, Ponte de Vedra e Padrón, mas ganha a igreja visigótica de Santa Comba, Cellanova, Ourense e o mosteiro de Oseira. Sendo que no último até se pode pernoitar.

Perdi os apoios e as vantagens de não ser, ainda, um caminho Xacobeo? Sim, mas, com todas as dificuldades logísticas que isso implica, ganhei um caminho mais natural e mais próximo do que seriam as peregrinações medievais. Sobre isso recordo as palavras de Paco, um companheiro com que entrei em Santiago de Compostela, com quem conversei sobre isso - "o primeiro caminho que fiz foi o francês, porque era o que conhecia e todos faziam. Hoje de todos os que fiz é o de que menos gosto." Para ele a massificação do principal itinerário xacobeo retira-lhe parte do encanto e o mesmo pode estar a acontecer nos itinerários nacionais.

No entanto, para já, é ainda uma alternativa dura e de logística complicada. Devem também ir preparadas para altimetrias menos simpáticas do que a planura do litoral. Este é um caminho de serras e vales, mas também não é por isso que se torna mais difícil. Fica é mais intenso.

As opções de pernoita neste itinerário obriga também a etapas mais longas e aconselho que façam a sua reserva antes de se meterem ao caminho. A alimentação também deve ser toda planeada porque até Ourense nas aldeias não é fácil encontrar bares. 

Para uma próxima publicação ficam outras reflexões. Esta é basicamente para partilhar a informação que recolhi e que me tem sido pedida. Os tracks GPS, cujos links partilho, não são os meus registos. Eu não me preocupei em marcar os pontos intermédios e estes tracks, os que usei, de diversos autores, acabam por ser mais úteis. Foram de uma forma geral fáceis de seguir.


As raízes históricas
Sobre as peregrinações a Santiago pela Via Nova (Geira) há muitos testemunho e a presença dos Templários no Campo do Gerês atesta como o percurso terá até tido alguma relevância:

“Na aria em que esteve antig te a Igra. Matriz de S. João do Campo, tiverão os Romanos hu grandioso Templo, adonde veneravão os seus idilos e satisfazião os votos que lhes prometião. Estava este Templo no sitio da Veiga de S. João, alem do Rio, em distancia de 50 passos, e da aldeia ou lugar do Campo 500 passos; presume-se que este Templo foy arruynado pelos Godos, e depois reedificado, em tempo do Emp. Constantino Magno, e dedicado a S. João Baptista do Campo e dahi a na.s foy pessuido pellos Carvall.os Templarios; extinctos estes, ficou sempre permanecendo athé o anno de 1692, em que por Capp.os de Visita se mandou mudar p.a o lugar do Campo, por a d.a Igr.a estar em sitio ermo e remotta da povoação…”  Contador de Argote (séc. XVIII).
Do lado espanhol há também notícias da presença dos Hospitalários e dos Templários e na pesquisa web de informação li que no Mosteiro de Celanova, documento n º 156 de 15 de setembro do ano 1142, Tomos I e II, existe um pacto entre Pelaio abade de Celanova, e don Xerardo tenente da obediencia de San Paio de Veiga e representante dos Hospitalarios de Xerusalén, para “facer e rexer un hospital na Portela de Samuel, en terras de propiedade celanovesa”.

Fora dos livros e arquivos, a toponímia e os oragos de muitas das Igrejas ao longo do percurso são outro dos testemunhos da relevância do Caminho de Santiago pela Portela do Homem.



Em algumas das credenciais de peregrino há um mapa que ilustra de forma muito sintética o trajeto, fazendo uma ligação de Braga a Ourense, e já se encontram muitos mapas com este itinerário marcado.
Surpresa foi ter encontrado a referência a uma segunda peregrinação da Rainha Isabel de Aragão – Rainha Santa por este itinerário, que de acordo com a tradição popular terá ido a Cellanova. É por esta razão que muitos também o designam por Camiño da Raíña Santa. A referência a esta peregrinação fez parte da candidatura apresentada à Xunta da Galiza para classificação como Camiño de Santiago,  mas a Confraria da Rainha Santa não possui dados históricos que a validem. 

No entanto em Lóbios esta peregrinação foi-me referida por duas vezes. Primeiro numa conversa sobre o caminho num bar onde parara para descansar e onde a referência à rainha santa surgiu de forma espontânea. Enquanto me convidava a provar uns fantásticos cogumelos, até me deram o email de um dos responsável pela candidatura  a caminho Jacobeo.

Um pouco mais à frente, na Casa da Feira (Portaxe), o Filipe Pires, cuja presença em Lóbios conhecia e encontrei numa feliz coincidência, voltou a fazer-me a mesma referência.

Seria interessante estudar  esta tradição, mas o itinerário possui atrativos suficientes para se afirmar por si.

As peregrinações por este itinerário estariam ainda marcadas pelos culto de San Rosendo em Celanova, o culto de Santo Cristo de Ourense e, particularmente, pelo culto San Trocado (San Torcuato), primeiro em Santa Comba e depois trasladado para Celanova.
De acordo com a tradição, San Trocado foi um dos discípulos de Santiago e o Códice Calixtino diz que participou na trasladação do corpo para Santiago de Compostela. A devoção a San Trocado seria de tal forma que os peregrinos raspavam as unhas o sarcófago para levar parte do pó que se despendia e que teria propriedades milagreiras. O sarcófago ainda é possível visitar na igreja visigótica de Santa Comba (https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Santa_Comba_(Bande)), uma das joias do percurso e que Miguel Torga (Diário VII, 18 de Agosto) considerou irmã afortunada da de S. Frutuoso, em Braga.


A preparação
Tomada a decisão sobre o caminho a fazer, fiquei com duas preocupações principais: estabelecer o percurso no terreno e os pedidos familiares para não partir sozinho.
Na preparação do caminho decidi que seria uma boa oportunidade para aprender um pouco mais sobre a Geira e que tentaria ser o mais fiel possível ao traçado romano. Uma preocupação que me foi exigindo mais tempo e deixando muitas dúvidas por esclarecer.
Reli a informação que possuía várias vezes e fui sossegando os familiares com a promessa de fazer o caminho por etapas. No entanto, era complicado sossegar as preocupações falta de segurança e apoio. Os albergues julgava poder substituir facilmente por alojamentos locais, mas não podia esperar encontrar muita gente pelos locais ermos que o caminho percorre.

Estabelecer o itinerário
Partindo de Braga, o  ponto zero do caminho não poderia ser outro que a Sé e depois tentaria ser o mais fiel possível à Via Nova (Geira), a via XVIII do itinerário Antonino que  ligava Bracara Augusta a  Asturica Augusta (Astorga).
Da Sé, seguiria pela rua dos Chãos, Rua de S. Vicente, Areal, Bairro das 7 Fontes e, a partir da capela do Senhor dos Milagres (Capela das 7 Fontes), desceria até Adaúfe. Junto à igreja de Adaúfe, não podendo hoje cruzar a vau, ou em barca, o Cávado de Navarra (Braga) para Ancede (Amares), seguiria depois pela estrada nacional até à Ponte do Porto. Seria uma percurso perigoso pelo muito tráfego e pela quase inexistência de bermas onde caminhar.  Conscientemente, estaria a abandonar a trajeto da Via Nova, ou Geira, mas a travessia medieval seria esta.
Feita a travessia na Ponte do Porto, ficava com duas possibilidades: seguir pelo percurso dos peregrinos para S. Bento da Porta Aberta, pelo vale do Cávado, para depois ligar a Covide, ou ser mais fiel à via romana e retomar a Geira na milha XI em Paredes Secas, seguindo o vale do Homem.
Qualquer uma das opções seria dura e longa, mas a minha opção era a de realizar o percurso mais fiel à via romana, confiando que os agrimensores romanos tivessem escolhido o melhor itinerário. Contava fazer esta ligação numa única etapa para ir dormir a Campo do Gerês. A etapa não deveria andar longe dos cerca 42 km que milha XXVIII da Geira estabelecia até Bracara Augusta.

Seria uma etapa dura e ainda ponderei fazer a sua divisão algures em Amares. Se este itinerário vier a ser considerado caminho jacobeo oficial essa deverá ser uma das preocupações.  Na opção do vale do Homem, a divisão poderá ser feita em Caldelas, permitindo um desvio pelo Mosteiro de Rendufe. Na opção do vale do Cávado, a divisão poderá ser feita em Bouro (Santa Maria) ou na Sra. da Abadia.

Na etapa seguinte seguiria a Geira, pela Portela do Homem até Lóbios onde existe alguma oferta hoteleira. Esta etapa não ofereceria grandes dificuldades e a quilometragem estimada era de +/- 24 Km. Sabia que em Espanha o percurso está marcado até Ourense como Ruta de S. Rosendo e na web tinha encontrado diversos tracks GPS para seguir.

Na terceira etapa, com uma subida exigente a seguir à povoação de A Portaxe, terminaria em Bande após cerca de 34 km. Em Os Baños (San Xoan), a mansio de Aquis Querquennis, o percurso  deixava o traçado da Via Nova (Geira) para rumar a norte por Celanova, seguindo o que seria uma via romana secundária.

A Aquis Querquennis terá sido um importante nó rodoviário e nela confluiriam diversas vias secundárias. Uma dessas vias secundárias, talvez a mais importante, ligava a Lugo (Lucus Augusti) seguindo para norte por Ourense (Auurienis Civitas).

Em Bande para pernoita teria apenas a opção do Bar Restaurante Trébol, que possui um pequeno hostal que também funciona como albergue privado e faz um preço especial a peregrinos.

Na quarta etapa ficaria alguns quilómetros após Celanova e, em Manchica, teria que me desviar do caminho para encontrar onde dormir. A única opção que encontrei seria a Pension Casa Conde, na povoação de Merca. Seria uma etapa relativamente fácil apesar de ter novamente uma quilometragem perto dos 34 km.
Na etapa seguinte, a quinta, chegaria finalmente a Ourense onde já teria um albergue de peregrinos do Caminho Sanabrés, que continua a Via da Prata.

Depois seriam mais 4 etapas até Santiago de Compostela ao longo dos quais existem vários albergues públicos e privados que  também permitiriam a divisão das etapas em quilometragens menores.
A divisão de etapas que tinha estabelecido era:
·         Braga – Campo de Gerês (+/- 42 Km duros).
·         Campo de Gerês a Lóbios (+/- 24 Km)
·         Lóbios a Bande (+/- 34 Km)
·         Bande a Manchica (Merca)  (+/-  34 Km)
·         Manchica (Merca) a Ourense (+/- 30 Km)
·         Ourense a Cea ( +/- 22 Km) [ opção Ourense - Oseira, +/- 28 km]
·         Cea a A Laxe (+/- 37 Km) [ opção Oseira - A Laxe, +/- 29 km]
·         A Laxe a Ponte Ulla (+/- 29 Km)
·        Ponte Ulla a Santiago (+/- 22 Km)
No total, por este itinerário, contava realizar cerca de 280 kms e 9 dias de caminhada. Sendo que algumas das jornadas poderiam duras e longas. Comparando com itinerário por Ponte de Lima, contava fazer mais cerca de 90 kms.

Não havendo albergues até Ourense, tinha estabelecido a divisão das etapas pelos locais onde tinha identificado onde dormir. Contactando os ayuntamientos poderia ter encontradas outras alternativas para as pernoitas, mas não explorei essa solução.

Alguns tracks na WEB
Portugal
1.      Braga - Paredes Secas 
2.      Paredes Secas - ... http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=1657959
Camiño natural – Via Nova
1.      Portela do Homem - Lóbios  http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=3481081
2.      Lóbios - Os Baños (San Xoan) http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=3486436
Camiño da Raiña Santa
1.       Portela do Homem - As Conchas  http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=3269874
2.       As Conchas -Alto do Vieiro  http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=3276235
3.       Alto do Vieiro - Parderrubias http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=3276569

Ruta de S. Rosendo


Caminho Sanabrés ou Mozárabe (continuação da Via da Prata)

2.       Cea a Puxallos - http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=2720611
3.       Puxallos a Silleda - http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=2721124
4.       Silleda a Ponte Ulla - http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=2732631
5.       Ponte Ulla a Santiago - http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=2811178

Não partir sozinho

Aceitando o pedido para não partir sozinho e nunca se concretizando as companhias, acabei por nunca me meter ao caminho até ter notícia da iniciativa da Associação Teatro Construção (ATC). Juntei-me ao grupo a partir de Campo de Gerês e acabei por não fazer os 42 quilómetros iniciais. Desconhecia as iniciativas Xacobeas da ATC e não posso deixar de as recomendar. Com os normais problemas de gestão grandes grupos e ritmos muito diferenciados a gestão do grupo foi eficaz.

Com a ATC, em diferentes etapas, com o apoio de um autocarro, realizei o percurso desde Campo de Gerês até Pielles (7 kms depois de Cea).

Liberta da preocupação logística da dormida,  a divisão das etapas com a ATC tinha apenas como critério a de realizar uma quilometragem próxima dos 24 km por jornada.

Por razões de calendário não concluí o caminho com a ATC. Em 3 etapas, pernoitando em Cea, A Laxe e Ponte Ulla, fiz o restante caminho aproveitando um fim de semana prolongado.


A solo

Após analisar várias opções, decidi deixar o carro junto ao albergue em Cea e regressar a ele de autocarro.  Hoje ponderaria deixar o carro em Santiago de Compostela. Depender do horário do autocarro não me permitiu usufruir de Santiago de Compostela pretendia da cidade.

Na Fundación Euroski (http://caminodesantiago.consumer.es/los-caminos-de-santiago/sanabres/) encontrei a melhor informação sobre os trajetos, quilometragem, altimetria, albergues e serviços ao longo de cada etapa. Existe ainda um pequeno guia que pode ser impresso e levado para o caminho.

As fotos
Enquanto não faço uma seleção podem consultar o álbum do facebook (aqui)


Post sccriptum

Um comentário numa rede social recordou-me uma opção que ainda ponderei. José Carlos Callisxto, do blogue Por fragas e Pragas, realizou em 2014 um outro itinerário, designado de Camiño Zacobeo Miñoto-Ribeiro, passando também pela Portela do Homem. Como leio o blogue ainda troquei algumas mensagens com ele sobre o itinerário, mas acabei por optar pelo itinerário por Ourense porque julgo ter sido o mais percorrido. A opção por Ourense, possui, na minha opinião, a vantagem de oferecer menores dificuldades logísticas já que encontra o Sanabrés mais cedo e, por isso, beneficiar das estruturas (albergues) desse caminho. Ainda assim, o percurso de  José Carlos Callisxto na saída de Braga é muito interessante. Não sendo fiel ao trajeto da Geira, permite a passagem pela Igreja de S. Frutuoso, a tal irmã menos afortunada da igreja visigótica de Santa Comba, pelo túmulo de São Martinho de Dume e pelo Mosteiro de Rendufe. Esta opção permite ainda com facilidade a divisão da etapa Braga a Campo de Gerês em Caldelas (Amares), onde, devido às termas, existe oferta hoteleira a preços relativamente económicos. Será uma boa solução na homologação do(s) caminho(s) pela Portela do Homem.



Thursday, March 10, 2016

Ecce Homo
















Humanidade exposta
À varanda do mundo,
A mostrar,
Consumadas,
As horas cruciantes da paixão.
As chagas a sangrar
E as mãos atadas… 
Violência e prisão.
Semi-velado, o rosto
Não tem olhos,
Ou cobre-os o pudor
Da lucidez…
Alheio ao sol fortuito do poder
E à vencida aparência que lhe dê,
O penitente deixa-se apenas ver.
O que ele vê, não se vê… 
Miguel Torga

Wednesday, March 09, 2016

Sobre o Quinxo

vista desde o Quinxo para o Lima

Já abordei algumas vezes a questão da demarcação da fronteira Luso-Espanhola e os conflitos diplomáticos que ela envolveu. Educados com a ideia de termos a fronteira mais antiga da Europa, não temos a percepção de como a sua demarcação rigorosa é recente e que não foi assim tão consensual. 

Uma reflexão que partilhei com os meus companheiros da subida ao Quinxo no último fim de semana e depois procurei ilustrar com a informação de Finis Porttugaliae - Nos Confins de Portugal , de Maria Helena Dias (IGEOE):, sobre a definição da fronteira junto a Lindoso:

"O Juiz e mais Oficiais da Câmara do concelho de Lindoso, em seu nome e de todo o Povo, representam a Vossa Alteza Real que no ano de 1773 os moradores dos lugares de Bao, de Compostela e Ludeiros, vizinhos à raia do Reino da Galiza, cortaram a maior parte das vinhas que os moradores deste concelho possuem no sítio de S. Maria Madalena e levaram as cepas em carros para o dito Reino (…). Desde aquele tempo até o ano de 1800, têm estes pobres moradores experimentado mil ruínas, como foi queimarem­lhe as casas que de tempo imemorial possuíam naqueles montes, ou arruinarem­lhas fundamentalmente da mesma sorte, queimarem­lhe os colmeais, arrasarem­lhe as paredes e curros em que recolhiam os seus gados, etc., de que tudo, e da falta da produção das mencionadas vinhas, tem resultado aos moradores deste concelho um considerável dano que monta uns poucos de contos de reis, além dos insultos graves perpetrados em suas próprias pessoas. De tudo isto se tem dado a Vossa Alteza Real repetidas contas, por cuja causa têm vindo aqui vários Ministros, mas inutilmente (…)” (trecho de um requerimento provavelmente de 1800). Inúmeras são as exposições, requerimentos e ofícios mostrando os antigos e contínuos desacertos entre os moradores do Lindoso e os da Galiza próxima, tanto ocorridos no monte da Madalena como na serra do Quinjo (actualmente Quinxo, em Espanha). A contenda ter­se­ia iniciado por volta do começo do segundo quartel do século XV, quando o alcaide­ ­mor do castelo do Lindoso vendeu a vacaria que tinha e os gados deixaram de pastar, como sempre fizeram os dos seus antecessores, naquela parte portuguesa da serra. A desocupação desses terrenos, e a abundância de pastagens nas vizinhanças do Lindoso, deu lugar a que os galegos das aldeias próximas os ocupassem, sem oposição portuguesa. Porém, em 1538 procedeu­se ao tombo do termo de Lindoso, cujos resultados se representaram cartograficamente nos começos de Oitocentos, quando a questão se voltava a reacender, quer por Custódio José Gomes de Vilas Boas (1803), quer por Raimundo Valeriano da Costa Correia (1807). No entanto, não se conseguiu proceder então à demarcação, ora por falta de comparência dos comissários espanhóis, ora pela sua dilação. Não era só a serra do Quinjo que era motivo de discórdia, por pretenderem os galegos que o limite dos dois países passasse pelo rio Tibo ou Várzea (hoje, rio Castro Laboreiro); a questão era sobretudo nesta altura com o monte da Madalena, onde os moradores do Lindoso iam regularmente em romaria à capela aí existente e onde tinham vinhas, colmeias e campos agrícolas, mas que os vizinhos do outro lado pretendiam desalojar, estendendo o limite da fronteira para o rio Cabril. Quando, em meados do século XIX, a comissão preparou a proposta de demarcação, confrontava­se com a existência de vários limites: aquele que os espanhóis pretendiam (pelos rios Cabril, Lima e Castro Laboreiro); o marcado no tombo de 1538, que os portugueses reconheciam (que partia da Cruz do Touro, na serra do Gerês, descendo até à Pedra do Bozelo, ou Bozelho, e atravessando o Lima, subia ao Quinjo e ia paralelamente a este rio até à confluência com o de Castro Laboreiro; e, ainda, o anterior a este, abrangendo os terrenos outrora ocupados pelos alcaides do Lindoso e que os espanhóis haviam usurpado. Apesar das memórias então apresentadas e das provas irrefutá­veis, o comissário português aceitou a proposta espanhola a troco de compensações, com muitos agradecimentos de Bourman: este “era o terceiro presente” que Cabreira lhe oferecia (Vasconcelos e Sá, 1861, transcrito por José Baptista Barreiros, 1961­-1965)! A solução final para o litigioso monte da Madalena, dirimido por via diplomática, viria a dividir o terreno questionado em duas partes iguais (veja-­se o artigo 4.º do Tratado de 1864), acabando a linha de fronteira por ficar posicionada a Este da capela, e não no rio Cabril, e seguir por onde pretendiam os espanhóis, na restante parte."

Tuesday, January 26, 2016

Toponímia da Serra - Borrageiro

 panorâmica do Vale Teixeira com o Borrageiro ao fundo


Recentemente, no grupo do FaceBook Gerês - Xerés, acompanhei uma troca de opiniões sobre como distinguir os Borrageiro existentes na serra do Gerês. Um topónimo, cuja explicação julgo ter encontrado Dulce Lima [1] e era um dos que tinha intenção de abordar aqui.

Os Borrageiro


Na Serra do Gerês existem diversos locais com o topónimo Borrageiro que, por vezes, aparece designados por outras formas. Na minha opinião, as formas de Borrageira, usada por Miguel Torga, nas entradas dos seus Diários em 25 de Julho de 1945, 15 de Agosto de 1952 e 12 de Agosto de 1955, ou Alto do Borrageiro, forma usada na delimitação do Perímetro Florestal do Gerês, referem-se ao local onde se encontra o marco geodésico do Borrageiro. Em 1909, no mapa inserto em Serra do Gerez, Estudos - Aspectos – Paisagens,  Tude de Sousa usa Borrageiro para o mesmo local.

Gerês, Vilarinho da Furna, 25 de Julho de 1945 “O pé do Cabril, a Borrageira, o Altar de Cabrões, a Calcedónia parecem deuses solenes, com as cabeças divinas envoltas na fofa bruma das nuvens” Miguel Torga, Diário III 
Gerês, 15 de Agosto de 1952 – Despedida da serra. Quatro horas a trepar para chegar ao alto da Borrageira. Sobre o talefe, a 1433 metros, invadiu-me uma estranha sensação de que não estava a dizer um adeus provisório àqueles cumes, mas a perder para sempre um pedaço do mundo. Miguel Torga, Diário VI 
Gerês, 12 de Agosto de 1955 – Serra. Sempre que me encontro aqui, quando chega este dia, perco-me pelas fragas. Vou fazer anos à Calcedónia, ao Cabril ou à Borrageira – aos picos mais altos da Montanha. Que ao menos o espírito, que vai morrendo no corpo, tenha assim um vislumbre de ressurreição. Miguel Torga, Diário VII
Num relato de Camacho Pereira sobre uma excursão pela serra do Gerês, publicado no n.º 4 (Vol. II), Julho de 1935, a revista Latina, utiliza para o local a forma Borrageira,

Um novo cáos de predaria se desenrola, ao fundo na distância o Vale da Teixeira, para onde descemos; fecham o espaço o Junco e o Pé de Salgueiro; Garganta da Preza é p nome da passagem aberta ao vale. A prumo quási em frente a Borrageira para estar a um quarto de hora, porám quantas dobras de motanha!
A forma de Borrageiros (plural) seria usada para designar a região onde a cartografia mais antiga regista o Borrageiro 1º e Borrageiro 2º, onde se situam as ruínas das Minas do Borrageiro. Quanto à forma Borrageirinha, que Miguel Torga utilizou na entrada de 10 de Agosto de 1952, Rui Barbosa (blogue Carris), no Gerês-Xerés, referiu já ter escutado a referência Borrageirinho para o mesmo local. Ainda que não possa afirmar que seja referente ao cabeço junto às Minas do Borrageiro (Borrageiro 2º),  Maria Carronda (aka White Angel), a minha fonte preferida para esta área da serra, confirmou-me que conhecia as formas Borageiro 1, Borrageiro 2, do BorrageirinhoBorrageiras  ou Borrageirinhas para estes cabeços .


Se atendermos à entrada de 10 de Agosto de 1952, podemos considerar que o relato de Miguel Torga se adequa ao cabeço junto às Minas do Borrageiro:
    Gerês, 10 de Agosto de 1952 – Excursão à Borrageirinha, uma soberba meda de granito erguida numa paisagem lunar, que não descrevo. Há certos recantos da natureza para os quais não existem palavras nem tinta. Demais a mais quando as circunstâncias que nos aproximam deles são, como as de hoje, de tal modo propícias que os transformam e tornam quase irreais.
    Perfeitamente possesso da inexprimível grandeza que me envolvia, tirei-me da pequenez habitual e cometi naquele cenário imprevisto uma das loucuras mais bonitas da minha vida. Subi ao Fragão pelo seu lado menos acessível e mais perigoso. Os companheiros, aflitos escoravam-me com os olhares. Mas apetecia-me uma façanha digna de tamanha majestade. E ela do que arriscar a própria vida.
    Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalais do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali, conquistam-se nas barbas de Deus. Miguel Torga, Diário VI
A utilização de Borrageira e Borrageirinha, com apenas com 5 dias de diferença, se atendermos ao cuidado que Miguel Torga tinha na revisão dos seus livros, poderá ser também uma boa indicação que estaria a referir-se a locais diferentes. 

O topónimo


Sobre o topónimo, de acordo com Dulce Lima  [1], borrageiro, ou cabeço, são denominações locais para designar o Castle-Kopje (os "inselberg" de forma acastelada). Assim, a origem destes topónimos seriam referências ao relevo. Pequenas ilhas erguidas em oceanos de pedras.

localização dos diferentes Borrageiro na carta 31

Thursday, January 21, 2016

Notas dos currais de Vilarinho da Furna

cabana de Porto covo, com Chão de Peijoanas em 2º plano


Numa caminhada recente passei por locais que há muito queria visitar com a intenção de localizar os currais de Vilarinho da Furna.

Baseando-me na informação de Jorge Dias, em Vilarinho da Furna - Uma aldeia Comunitária, e Manuel de Azevedo Antunes, em Vilarinho da Furna - Memórias do Passado, é possível proceder a uma listagem dos currais da aldeia. Compiladas em momentos diferentes, as listagens são naturalmente diferentes, mas informação não deva ser tida por completa e devem ter existido mais currais do que o citados.

O livro de Jorge Dias resulta da tese de doutoramento apresentada na Universidade de Munique em 1944 e os trabalhos de campo foram realizados num tempo em que na aldeia se mantinha vivo o comunitarismo e a serra ainda era profusamente ocupada pelos rebanhos da aldeia.

O livro de Manuel de Azevedo Antunes é uma obra mais tardia. Uma homenagem às memórias da sua aldeia e da sua comunidade. Nascido em Vilarinho da Furna, Manuel de Azevedo Antunes já cresceu com a ameaça da barragem que a haveria de sepultar e com os efeitos das migrações. Não sendo apenas uma memória dos últimos tempos da aldeia é naturalmente marcada por eles. 

O maneio da serra por parte de Vilarinho não terá sido igual ao longo dos tempos. Era realizado de acordo com as necessidades e capacidades da  aldeia e foi também influenciado por causas externas à aldeia. Entre as últimas podemos facilmente isolar duas pelo impacto profundo, ambas do século XIX: a marcação da fronteira luso espanhola e florestação iniciada com o Perímetro Florestal do Gerês.

Para melhor compreensão da utilização dos currais, faço também uma breve explicação da organização pastoril da aldeia.

A questão da fronteira


A delimitação tardia da fronteira explica os currais situados em Espanha. As referências de Jorge Dias, prova que a aldeia a ignorou enquanto lhe foi possível e que, nas primeiras décadas do século XX,  continuava a utilizar currais em Espanha. A utilização destes prados terá terminado com a arborização das montanhas pelos serviços florestais de Espanha e foi  um golpe na economia pastoril de Vilarinho.

Ainda que nos seja atribuída uma das fronteiras mais antigas e estáveis do mundo  a sua delimitação é apenas do século XIX:
"A estabilidade da fronteira que muitos pretendem ver desde o Tratado de Alcañices foi, contudo, mais aparente do que real. As fronteiras medievais eram fluidas e imprecisas e as frequentes disputas obrigavam à interven­ção dos poderes régios. Na realidade, ao longo da História, a fronteira foi palco de múltiplos litígios entre os moradores de um e do outro lado, como múltiplas foram também as tentativas de entendimento e de demarcação territorial." Maria Helena Dias, Finis Portugalliae - Nos Confins do Mundo 
Na década de 50 do século XIX foi criada a primeira Comissão Internacional de Limites e  o Tratado de limites entre Portugal e Hespanha, seria assinado em Lisboa em 29 de Setembro de 1864 (com dois anexos de 1866, relativos aos rios limítrofes e sobre as apreensões de gados).

A colocação dos marcos necessários e sua descrição geométrica demorou 40 anos e a  1 de Dezembro de 1906 foi, finalmente, assinada a Acta geral de delimitação entre Portugal e Espanha, após intensos trabalhos de campo e de gabinete.
“Portugal tinha, deste modo, e pela primeira vez, grande parte da sua linha de fronteira terrestre descrita científica e minuciosamente: uma linha poligonal que une pontos determinados do espaço, materializados no terreno pelos marcos fronteiriços, paralelepípedos numerados, com uma das faces voltada a Portugal, onde se encontrava inscrita a letra P, e a face oposta voltada a Espanha, onde se encontrava inscrita a letra E.” Maria Helena Dias, Contributos para a História da Cartografia militar portuguesa.
Na delimitação da fronteira na área do Lindoso, as populações nacionais reivindicavam uma fronteira, marcada no tombo de 1538, que da Cruz do Touro descia até à Pedra do Bozelo, ou Bozelho, e atravessando o Lima, subia ao Quinjo e ia paralelamente a este rio até à confluência com o de Castro Laboreiro; e, ainda, o anterior a este, abrangendo os terrenos outrora ocupados pelos alcaides do Lindoso. As populações espanholas pretendiam que a fronteira fosse estabelecida pelos rios Cabril, Lima e Castro Laboreiro. A solução final este litígio, dirimido por via diplomática, viria a dividir o terreno questionado em duas partes iguais (artigo 4.º do Tratado de 1864), acabando a linha de fronteira por ficar posicionada a Este da capela, e não no rio Cabril, e seguir por onde pretendiam os espanhóis, na restante parte. 

A questão da fronteira do Lindoso, a verde a fronteira marcada e a amarelo a reclamada. 
Maria Helena Dias, Finis Portugalliae - Nos Confins do Mundo 
"A conflituosa fronteira junto ao Lindoso, segundo a posse dos seus habitantes e os títulos antigos registados nos arquivos da Torre do Tombo e do Arcebispado de Braga, num desenho de Custódio José Gomes de Vilas Boas em 1803 (aqui destacada). Enquanto esses documentos estabeleciam os limites de Portugal e Espanha pelas cumeadas das serras, os galegos vizinhos pretendiam que a demarcação passasse pelos rios Tibo ou da Várzea (hoje, Castro Laboreiro), Lima e Cabril." Maria Helena Dias, Finis Portugalliae - Nos Confins do Mundo 

O Perímetro Florestal do Gerês


Perímetro Florestal do Gerês
mapa de Tude de Sousa - Serra do Gerez

A criação do Perímetro Florestal do Gerês em 1888 (1) altera o modo secular de usufruto da serra e dos seus recursos. A instalação da Mata e dos Serviços Florestais marcou o Gerês, a Serra, o Parque, o concelho de Terras de Bouro e as suas comunidades. Sobre este evento, José Viriato Capela em Os povos da Serra do Gerês em luta contra a Mata e os Serviços Florestais escreve que “com eles [a Mata e os Serviços Florestais] põe-se fim a um larguíssimo ciclo de uso tradicional da serra e dos seus recursos por estas comunidades serranas. Comunidades que põem todo o seu empenho na salvaguarda e defesa dos pastos dos montes onde se cria o gado que é a sua principal fonte de rendimento. A eles tudo submete e em função deles tudo organiza.”

Naturalmente que é errado não reconhecer o mérito do trabalho realizado pelos Serviços Florestais, mas do ponto de vista das comunidades locais o efeito foi devastador. Em nome do progresso estas comunidades foram prejudicadas na apascentação do gado; na fabricação de carvão; na recolha de mato para adubar as terras e no corte e apanha de lenhas secas e rasteiras. O que, até teve alguma compreensão e compromisso da Mata e Serviços Florestais quando estabeleceu acordos que deixavam sem arborização os currais, sítios de excelência de pastos da montanha geresiana. Eu  compreendendo o progresso, mas tenho sempre presente,  de Quando os lobos uivam; Aquilino Ribeiro, o discurso do advogado de defesa dos que se revoltaram contra a florestação: “Na minha opinião humilde e desambiciosa, opinião de quem vê o homem através da sua humanidade, o que há a fazer é plantar a civilização nas aldeias, uma civilização digna do século XX, antes de pensar ir para a serra mudar-lhe a natureza.”


A organização pastoril de Vilarinho da Furna


Jorge Dias faz uma descrição pormenorizada da organização pastoril de Vilarinho da Furna. O maneio do gado obedecia às decisões dos juízes do acordo e nem todos o gado era vigiado. Os cavalos e éguas eram deixados em liberdade num estado semiselvagem  e, se o tempo permitia,  acabadas as vezeiras, os bois também poderia ser deixados ao feirio por algum tempo.

Os bois e vacas formavam duas vezeiras diferentes e as zonas de pastagem estavam normalmente divididas por muros de pedra para que os animais não se encontrassem. Os bois, ainda que castrados, continuavam a ter cio e não deixavam as vacas pastar em paz. A presença dos bois poderia ainda enfurecer o toiro. Estas vezeiras começavam em Maio e duravam 5 meses.

A vezeira das vacas era a mais importante e de maior responsabilidade e com ela andava o touro de cobrição que pertencia ao lugar (Eido).

A vezeira dos bois tinha uma organização muito semelhante à das vacas e, contrariamente a outros locais, havia um certo equilíbrio entre vacas e bois. Jorge Dias via neste facto uma evidência que a aldeia se dedicava mais à engorda de animais para venda de carne e menos ao aproveitamento do leite e seus derivados.

As vacas com crias ou prestes a parir formavam a vezeira do Eido e pastavam por terrenos perto da aldeia e à noite retornavam ao Eido. Ainda hoje é fácil identificar alguns dos locais desta vezeira como, por exemplo a Chã de Cima. 

As cabras formavam a vezeira das rês. Esta vezeira era anual e saía de manhã e voltava à noite. Enquanto durassem as vezeiras das vacas e a vezeira dos bois, a vezeira das rês não podia entrar nos espaços destas de forma a não estragar os pastos.

A vezeira dos carneiros era a mais pequena de todas e os seus pastos eram todos na margem esquerda do rio Homem. São conhecidos topónimos como Chã das Ovelhas e Cabeço da Chã das Ovelhas. 

Para além destas 5 vezeiras, havia ainda o rebanho das rês de parte formada  pelas cabras de um ou dois vizinhos mais abastados. Esta vezeira era mandada com pastor próprio de forma a descongestionar  a vezeira comum, permitindo que os animais pastassem melhor. 


Os currais e cabanas de Vilarinho das Furna


Recorrendo a Jorge Dias e a Manuel de Azevedo Antunes é possível realizar uma listagem dos currais e cabanas da aldeia. Esta listagem deve ser considerada incompleta porque os autores parecem ter-se preocupado com a apascentação do alto da serra. Mais próximo da aldeia a Vezeira do Eido e a Vezeira dos Carneiros teriam também as suas zonas de pasto definidas.

Vilarinho da Furna - Uma aldeia Comunitária
Jorge Dias

Currais das Vacas
  • Prados Caveiros [Prados Coveiros em outras fontes, localização conhecida]
  • Albergaria [localização conhecida]
  • Chão do Vidoal [localização conhecida]
  • Chão do Ramisquedo [localização conhecida]
  • Chão de Peijoanas [localização conhecida]

Currais dos Bois
  • Chão de Separros [Ceparros em Manuel de Azevedo Antunes, localização provável conhecida]
  • Chão dos Toiros [localização provável indiciada por topónimo]
  • Chão do Porto Covo [localização conhecida]
  • Chão da Fonte [localização conhecida]
  • Chão de S. Miguel [localização conhecida]

Currais das Éguas (2)
  • Mouroas (ES) [localização desconhecida]
  • Chão Galego (ES) [localização desconhecida]
  • Lama do Picão (ES) [localização desconhecida]
  • Costa do Girico (ES) [localização desconhecida]
  • Costa de Negrelas (ES) [localização desconhecida]
  • Cabecinha de Pinheiro (ES/PT) [localização desconhecida]
  • Curral de Palas (ES) [localização desconhecida]
  • Rio Calvos (ES) [localização desconhecida]
  • Porta Ribeiro (ES) [localização desconhecida]
  • Chão de Fojos (ES) [localização desconhecida]
  • Onde Morreu Martinho (ES) [localização desconhecida]
  • Chão de Toiros (Fronteira) [localização sugerida por topónimo] 
  • Banhadoiro (Fronteira) [localização desconhecida]
  • Uêlo (Fronteira) [localização desconhecida]
  • Chão de Calvos [localização sugerida por topónimo] 
  • Chão de Carvalho [localização sugerida por topónimo] 
  • Chão de Pocinhas [localização desconhecida]
  • Cabeço de Palheiros [localização sugerida por topónimo] 
  • Carvalha 36 (Fronteira) [localização desconhecida]
  • Palheiros[localização sugerida por topónimo] 
  • Corga das Cabanas [localização desconhecida]
  • Gramelas [localização sugerida por topónimo] 
  • Corisco [localização sugerida por topónimo] 
  • Chão dos Cesteiros [localização desconhecida]
  • Chão Terrão [localização desconhecida]
  • Portela do Homem [localização sugerida por topónimo] 

Vilarinho da Furna - Memórias do Passado
Manuel de Azevedo Antunes (3)

  • Vidoal Vidoal [localização conhecida]
  • Chão do Muro [localização conhecida]
  • Chão da Fonte [localização conhecida]
  • Ramisquedo [localização conhecida]
  • Peijoanas [localização conhecida]
  • Chão do Carvalho [localização provável conhecida]
  • Ceparros [Separros em Jorge Dias, localização provável conhecida]
  • Chão dos Touros [localização provável indiciada por topónimo]
  • Calvos[localização provável indiciada por topónimo]
  • Rio D'Home [localização desconhecida]
  • Albas [localização provável indiciada por topónimo]
  • Abrótegas [localização conhecida]
  • Amoreiras [localização conhecida]
  • Palheiros [localização provável indiciada por topónimo]
  • Varziela [as cartas 30 e 31 assinalam locais com estes topónimos]
  • Prados Caveiros [Prados Coveiros para outras fontes, localização conhecida]
  • S. Miguel [localização conhecida]
  • Albergaria [localização conhecida]



(1) Limites circunstanciados do perímetro florestal da Serra do Gerês,

1. Limite sul caminhando de oeste para Leste: marco geodésico do Escuredo; marco triangulado do Françoz; marco geodésico da Pedra Bella.

2. Limite a nascente caminhando do sul para norte: marco geodésico da Pedra Bella; marco geodésico do Veregeiro; marco geodésico do Junco; marco triangulado do Pé de Salgueiro; desde o ´Pé de Salgueiro até ao marco do Borrageiro, águas vertentes do rio do Gerês; marco geodésico do Borrageiro; marco geodésico das Albas; marco triangulado do Cabeço Cova da Porca; marco geodésico da Cidadelhe; marco triangulado da Cesta do Pássaro; marco triangulado do Alto do Pássaro; marco triangulado de Lamas do Homem; marco triangulado dos Carris; marco triangulado da Cabreirinha; marco triangulado do Altar dos Cabrões.

3. A norte caminhando par oeste pela raia de Espanha: marco triangulado do Altar dos Cabrões; marco triangulado do Outeiro da Meda; marco triangulado da Lage do Sino; marco triangulado do Lajão; marco triangulado da Lage da Cruzes; marco triangulado da Bella Ruiva; marco triangulado da Cruz do Pinheiro; marco triangulado do Alto de Negrellos; marco triangulado da Portela do Homem; marco triangulado de Chão de Calvos; Marco triangulado de galo de Calvos; marco triangulado do Alto do Salgueiro; marco triangulado da Cruz do Touro;  marco geodésico das Eiras.

4. A nascente caminhando de norte para sul: marco geodésico das Eiras, águas vertentes pelo talweg [i] do Rio Parrade; Rio Parrade até ao seu encontro com o Rio Homem; Rio Homem em direção à sua foz até ao Rio Tirliron ou Águas de Mós; Talweg do Rio Tirliton até ao marco geodésico Pé de Cabril; marco geodésico de Mesas; marco geodésico de Junceda; marco geodésico de Lamas; marco geodésico do Escuredo.


[i] talweg (talvegue):a linha na qual o último veio d’água seguiria no leito completo de um rio caso este estivesse em seca gradual até finalmente desaparecer completamente.»

[fonte Manuel de Azevedo Antunes, Vilarinho da Furna - Memórias do Passado]

(2) Atendendo que as éguas e cavalos andavam ao feirio a existência de curral/cabana seria desnecessária. Assim, Jorge Dias estaria a fazer uma indicação de zonas de pasto. No entanto, como a listagem Manuel Azevedo Antunes,  que se terá essencialmente preocupado com as cabanas, refere alguns destes locais não deve ser excluída a existência de cabanas em alguns deles.

(3) Atendendo ao que parece ter sido o critério de listar apenas os currais com cabanas, mesmo quando o topónimo não deixa dúvidas sobre a localização, são estão considerados como "localização conhecida" não é conhecida a existência de cabana.

Thursday, January 14, 2016

Notas sobre o socorros de 3 pessoas na Serra do Gerês - Minas dos Carris



Nos últimos dias li muito sobre o socorro de 3 pessoas que "querendo ver a neve" se meteram à serra no meio de uma tempestade e compreenderam da pior maneira que a natureza é muito mais que partilhas no face book.  Nessas leituras encontrei abordagens de muitos temas interessantes [a questão da visitação  do PNPG, com a esquizofrénica diferença entre a situação "de facto" e a situação "de jure" na visitação criada pela conjugação do POPNPG e taxas do ICNF; a falta de cultura desportiva de montanha; as questões de segurança na pratica de atividades de montanha; ...] e os habituais comentários críticos e insultuosos. Só que nestas notas apenas quero abordar a questão da organização do socorro.

É que, admirando os operacionais que subiram a serra para resgatar a vitima  em hipotermia (julgo saber que foi comunicado à proteção civil que havia uma pessoa em hipotermia), faço parte dos que não compreendem os 80 homens e 14 viaturas mobilizadas e se questionam sobre a gestão e coordenação da proteção civil.

Sobre as circunstâncias do resgate, no blogue do Rui Barbosa existe um bom relato e recomendo a sua leitura para a contextualização do caso.

No mapa assinalei o que julgo terem sido os percursos dos bombeiros de acordo com a s informações que recolhi. Assinalado a verde marquei o possível percurso pedestre desde a Lagoa do Marinho realizado pelos bombeiros até á vitima.  A vermelho o  percurso de evacuação desde as minas até à estrada florestal de acesso à fronteira. Sei que o socorro da vítima obrigou a um transporte em maca e que as outras duas pessoas desceram pelos seus próprios meios. Os 3 montanhistas que deram o primeiro apoio, ajudaram também na evacuação e, pudendo andar mais rápidos, com eles desceu o mais jovem dos 3 em dificuldades. Com os bombeiros desceu, de maca, a vítima em hipotermia e o outro membro do grupo. Na fase final, não sei onde foi o ponto de encontro, os GIPS apoiaram os bombeiros no transporte da maca.

Sobre a coordenação do resgate tenho a dizer:


Eu percebo que tenham começado o resgate com carros e homens a partir das Lagoas do Marinho (Montalegre) [ponto 2 no mapa], que se situa a +/- 6 kms das minas) e que tenham chamado os bombeiros mais próximos (de Salto -Montalegre?). Percebo que se tenha optado por levar a vitima pelo Vale do Homem desde o abrigo [ponto 1] até ao [ponto 3], pois de lá seria mais fácil e rápido o transporte para hospital de fosse necessário. Percebo, portanto, a mobilização de alguns meios de Terras de Bouro. Percebo que descer o vale do homem no meio de uma tempestade, de noite, a carregar uma maca deve ser uma tarefa complicada e demorada. Percebo que no transporte da maca fosse feita a substituição da equipa de transporte, pois na descida foram mais de 10 kms e com uma parte inicial muito dura. Percebo que os bombeiros estivessem exaustos na parte final e aceitassem com agrado ser substituídos no transporte pelos GIPS.


Percebendo tudo isto, não percebo o circo montado em torno do socorro. Como o local da vítima era conhecido, os meios necessários seriam apenas para socorro e transporte. Se fosse necessário fazer uma busca todo seria diferente. Chegados ao local os bombeiros puderam confirmar as informações e avaliar melhor a necessidade de mais meios e não consigo perceber os 80 homens e 14 viaturas mobilizadas. A emergência funciona é pacote de tudo incluído? É tudo ou nada?

Julgo saber que mobilizaram apoio psicológico, mas não tiveram qualquer preocupação em respeitar a identidade das vítimas. Como é que apareceram as tvs? Foram chamadas pelos homens perdidos?

A atuação dos GIPS e as notícias sobre a relevância da sua atuação ficam também por explicar. Parece que subiram depois do primeiro grupo, os montanhistas que fizeram o primeiro apoio na serra e o mais jovem dos perdidos, ter chegado e apenas foram substituir não transporte os bombeiros no transporte. Apareceram como os heróis da noite nas tvs e um jornal do dia seguinte diziam que até foram socorrer os primeiros os bombeiros. Admito que estejam inocentes na divulgação das notícias, mas a coisa desagradou aos bombeiros e a proteção civil fica mal no meio disto tudo.

Thursday, August 27, 2015

Notas sobre as brandas da Peneda

vista sobre a branda da Junqueira - Rouças (Gavieira)

A leitura de Construção do Território e Arquitectura na Serra da Peneda. Padrão (Sistelo) e as suas Brandas – um caso de estudo, reprodução, no essencial, da dissertação de Mestrado em Arquitetura de Fernando Cerqueira Barros está a ser bastante esclarecedora e esta publicação serve como revisão da matéria dada.

Já algum tempo que procurava recolher informação sobre a área do PNPG e foi com alguma sorte que descobri, com dois anos de atraso, este livro. Reservei-o para as férias e tem sido uma das minhas companhias. Não é bem a leitura que se leve para a praia, mas acompanha bem os momentos do café enquanto a Maria não me chama para outras brincadeiras.

Sendo baseado num trabalho académico a  sua leitura é fácil e recomendo-a a todos os que se interessam pela interpretação da paisagem em complemento às atividades de pedestrianismo. Percorrer a serra não deve ser apenas uma atividade física e devemos ter curiosidade pela história do território que percorremos. Ainda que compreenda a simples “voluptuosidade da fadiga”[1], dela disfrute e necessite,  entendo que deve haver um prazer intelectual a acrescentar aos restantes.

A Serra da Peneda[2], dentro do PNPG, não é um dos territórios que percorra mais vezes, mas durante alguns anos cumpri o ritual de no Natal de subir ao Alto da Predada e comer Bolo Rei na Branda da Cova. O Gerês, a Amarela e o Barroso tem a minha preferência, mas gosto também de visitar o Soajo, a Penda e o Planalto de Laboreiro. 

Por motivos vários, entre os quais a necessidade de um período de nojo pelas consequências catastróficas do incêndio de 2006, fui espaçando as visitas ao Soajo. À Branda da Chã da Cova regresso sempre com alegria, é um dos primeiros locais onde tenciono levar a Maria mal ela tenha alguma autonomia, mas ficarei para sempre órfão do caminho que partindo da branda da Travanca nos levava à zona alta através da branda de Curral Velho.
caminho da Travanca após incêndio de 2006

Quanto ao vale de Sistelo, considero-o uma das paisagens mais bonitas do Minho[3] e nunca percebi a sua não inclusão no PNPG. Pesa sobre este vale a ameaça de construção de uma mini hidroelétrica e, para já as notícias são tranquilizadoras, espero que esta paisagem consiga manter-se intocada.

No que respeita à informação que procurava, tinha, entre outras, duas grandes curiosidades: a de perceber porque as brandas na Peneda possuem sempre diversos cortelhos; os topónimos e a localização das inúmeras brandas. No livro terei encontrado a resposta para as duas questões, mas para já tratarei apenas a segunda.


Sobre as Brandas~

De acordo com o dicionário Priberam, Branda[5] é o substantivo feminino que, no Minho, designa a tapada ou pastagem no alto de uma serra, geralmente em terreno pouco inclinado e junto a um curso de água. A sua existência está intimamente ligado aos movimentos de transumância vertical durante os meses de bom tempo, quando o gado é levado até à serra.

De acordo com Fernando Cerqueira Barros, na Serra da Peneda é o nome dado aos núcleos existentes, não em continuidade com os lugares (ou aldeias), sendo complementares a estes. Tem um uso preferencialmente estival e destinam-se à prática agrícola e/ou do pastoreio e podem designar-se por brandas de gado (destinadas exclusivamente ao pastoreio), brandas de cultivo (centeio e batata, associando-se ainda a função pastoril, podendo, por isso também, ser designadas de brandas mistas) ou brandas com maior permanência.

Em Castro Laboreiro, com características próprias, é a designação dos locais habitados desde meados dos finais do mês de Março até à primeira quinzena do mês de Dezembro.

Etimologicamente a palavra branda está muito próxima de braña usado no noroeste espanhol, onde aparecem ainda as variações brañizas, brañales, pastizales, puertos altos, branizas. Na zona dos pireneus aragoneses são ainda comuns os termos estivar, estivejar, estiva, estivada, numa associação ao período estival.

É provável que derive do latin veraneam (pastos de Verão) ou do latin veranian (habitado durante o Verão), mas há autores que defendem a sua origem no céltico brakna (prado húmido)[6]. Sendo que todas estas hipóteses remetem para a estação quente ou para o uso pastoril.

Considerando a localização geográfica, de certa forma coincidente com o da cultural castreja; as semelhanças construtivas dos abrigos de falsa cúpula com as construções da cultura castreja;  que os castros murados seriam complementados com abrigos dispersos pelos vales e planícies utilizados, temporariamente, por pastores e cultivadores; a origem cética do vocábulo pode ser mais do que uma fantasia dos defensores da “celticidade”.

Como Fernando Cerqueira Barros recorda na “área em estudo [a Serra da Peneda], zona montanhosa, que como vimos não foi atravessada por calçadas romanas, nem ocupada de forma efetiva, podemos supor que tenha sido um dos territórios rurais onde se manteve o direito comunitário céltico sob a forma de livre pastoreio ou de baldio, com uso regulado pelo costume, cujos restos ainda chegaram aos nossos tempos, especialmente em zonas serranas.”

No entanto, é no período da reconquista com a fixação das populações nas zonas das várzeas que o modelo de lugar e branda se terá começado a organizar e compartimentar a serra.

Segundo Fernando Cerqueira Barros, “a natureza do solo, com acidentes vários no relevo e uma grande altitude, não permitiu que as populações se fixassem nas zonas centrais da Serra. Por isso mesmo, observamos um anel de povoamento fixo situado nas zonas de vale e a meia encosta, ficando assim as de maior altitude livres de qualquer aglomerado habitacional fixo. Foram estes os fatores que potenciaram a exploração, por parte dessas mesmas populações, das zonas mais elevadas. Terrenos de uso difícil (ou até mesmo impossível) no Inverno, mas que no Verão se tornam apetecíveis para a prática da pastorícia (aproveitando os excelentes pastos das chãs de altitude, numa primeira fase)”.

modelo de ocupação da montanha em anel

Se atendermos aos efeitos do que os cientistas chamam a Pequena Idade do Gelo[7], com Invernos muito mais rigorosos que os atuais, durante a qual as partes mais altas da serra estariam longos períodos cobertas de neve, será mais fácil compreender as dificuldades que, particularmente nestes territórios, o Inverno acrescentaria.


As Brandas

I - Brandas de Gado

branda da Chã da Cova - Soajo (Soajo)

As brandas terão começado por serem todas destinadas exclusivamente ao pastoreio, mas a introdução do milho “maiz” alterou o uso dos terrenos mais próximos do lugar e algumas das brandas. Estas brandas tem alguma similitude estrutural e arquitetónico com os exemplos das serra Amarela e Gerês, denominados de currais.
Estas brandas possuem normalmente diversos abrigos de pastor em falsa cúpula (os cortelhos) e bezerreiras (os muros delimitadores).
Não possuem função de habitação, existindo apenas pernoita.

Freguesia da Cabreiros
  • Vilar – Chã de Abade / Branda da Cerradinha / Carvalhal / Curromadela (Colmadela)
  • Tabarca e outros lugares – Branda de Lamelas / Branda do Arieiro
Freguesia de Gondariz
  • Lombadinha – Branda da Lombadinha
Freguesia de Carralcova
  • Vários lugares – Branda de Bostejões / Alto das Bezerreiras
Freguesia de Cabana Maior
  • Vilela das Lajes – Branda da Travanca / Curral Velho
  • Bostelinhos e Bouça Donas – Branda da Bragadela / Branda dos Bicos / Branda de Burzavô
Freguesia do Soajo
  • Adrão – Curro da Velha / Tieiras
  • Soajo (vila) – Chã da Cabeça / Chã da Cova / Chã da Matança / Felgueira Ruiva
  • Cunhas / Várzea / Paradela – Branda ou Poulo da Seida
Freguesia da Gavieira
  • Tibo – Cabeço de Runfe / Curro da Velha / Canto do Corno
  • Tabarca e outros lugares – Branda de Lamelas / Branda do Arieiro


 II - Brandas de Cultivo
Branda do Alhal - Padrão (Sistelo)

Com a chamada “revolução do milho” os terrenos mais próximos do lugar, ou eido, foram adaptados à nova cultura e, para os terrenos mais altos, inadequados para o milho “maiz” foram transferidas as outras culturas (centeio e batata numa segunda).
As brandas de cultivo são uma segunda geração de brandas que se caracterizam por serem espaços destinados a algumas culturas (principalmente milho e batata) mantendo também funções ligadas ao pastoreio.
Estas brandas situam-se normalmente próximas do lugar e a altitudes até os 550m. Nas brandas mais próximas da aldeia normalmente não existia a função de pernoita. A sazonalidade do uso destas brandas também não é constante. Os lugares de Vilarinho das Quartas e Adrão possuem brandas a cotas inferiores ao dos lugares.

Freguesia de Sistelo
  • Porta Cova – Branda de Crastibô / Branda da Lapinheira / Branda do Furado
  • Padrão – Branda do Alhal / Branda da Gêmea
  • Sistelo – Branda do Braçal / Branda do Rio Covo
Freguesia de Cabreiro
  • Lordelo – Branda do Rodrigo / Branda do Real
  • Avelar – Branda de Avelar (ou Avelar de Cima)
Freguesia de Gondariz
  • Lombadinha – Branda de Bostejões
Freguesia Carralcova
  • Vários lugares – Branda de Bostejões
Freguesia do Soajo
  • Adrão – Branda da Bordença / Branda da Assureira
  • Soajo (vila) – Branda de Murço / Branda de Lapas / Branda de Ínsuas / Branda da Trapadela / Branda de Reigada / Branda de Lume na Eira
  • Cunhas – Branda do Ramil
  • Várzea ­– Branda das Ínsuas
  • Paradela – Branda de Rendufe
  • Vilar de Suente – Sedas


Brandas com maior permanência


branda da Junqueira - Rouças (Gavieira)

Nestas brandas há uma função habitacional que entre os Maio a Novembro que se torna em estadia. Neste período, a maior parte da população do lugar para lá se deslocava com o gado e se ocupava do cultivo de centeio e da batata. É possível estabelecer algumas semelhanças com as brandas de Castro Laboreiro, mas na freguesia de Gavieira a mudança nunca é total e são apenas uma estrutura complementar do lugar. Ao contrário de Castro Laboreiro a melhor habitação não se situa nas brandas e era no lugar onde se plantava o milho. Há ainda a particularidade de as referências históricas às brandas serem normalmente muito anteriores à dos lugares.

Freguesia da Gavieira
  • Rouças – Branda de Gorbelas / Branda da Junqueira
  • Gavieira – Branda Busgalinhas / Branda de S. Bento do Cando
  • Peneda e Beleiral – Branda da Bouça dos Homens
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[1] “De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar.” – Miguel Torga, Diário II – 26 de Outubro de 1942
[2] Há quem se ofenda se não se diferenciar a Serra do Soajo da Serra da Peneda, mas porque na obra em questão se utilizou a Serra da Penada como designação mais abrangente será assim que a utilizarei.
[3] Designado na WEB por Pequeno Tibete, mas nunca percebi a origem desta comparação. Pessoalmente julgo que faria mais sentido estabelecer a semelhança com a paisagem peruana. Até porque, de certa forma, são ambas parcialmente resultado da adaptação ao milho.
[4] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/branda [consultado em 26-08-2015]
[5] http://mas.lne.es/toponimia/index.php?leer=154&palabra=bra%F1aseca
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Pequena_Idade_do_Gelo


Nota: todas as fotos foram são minhas e foram realizadas ao longo das diversas caminhadas que realizei pela zona.