Thursday, August 27, 2015

Notas sobre as brandas da Peneda

vista sobre a branda da Junqueira - Rouças (Gavieira)

A leitura de Construção do Território e Arquitectura na Serra da Peneda. Padrão (Sistelo) e as suas Brandas – um caso de estudo, reprodução, no essencial, da dissertação de Mestrado em Arquitetura de Fernando Cerqueira Barros está a ser bastante esclarecedora e esta publicação serve como revisão da matéria dada.

Já algum tempo que procurava recolher informação sobre a área do PNPG e foi com alguma sorte que descobri, com dois anos de atraso, este livro. Reservei-o para as férias e tem sido uma das minhas companhias. Não é bem a leitura que se leve para a praia, mas acompanha bem os momentos do café enquanto a Maria não me chama para outras brincadeiras.

Sendo baseado num trabalho académico a  sua leitura é fácil e recomendo-a a todos os que se interessam pela interpretação da paisagem em complemento às atividades de pedestrianismo. Percorrer a serra não deve ser apenas uma atividade física e devemos ter curiosidade pela história do território que percorremos. Ainda que compreenda a simples “voluptuosidade da fadiga”[1], dela disfrute e necessite,  entendo que deve haver um prazer intelectual a acrescentar aos restantes.

A Serra da Peneda[2], dentro do PNPG, não é um dos territórios que percorra mais vezes, mas durante alguns anos cumpri o ritual de no Natal de subir ao Alto da Predada e comer Bolo Rei na Branda da Cova. O Gerês, a Amarela e o Barroso tem a minha preferência, mas gosto também de visitar o Soajo, a Penda e o Planalto de Laboreiro. 

Por motivos vários, entre os quais a necessidade de um período de nojo pelas consequências catastróficas do incêndio de 2006, fui espaçando as visitas ao Soajo. À Branda da Chã da Cova regresso sempre com alegria, é um dos primeiros locais onde tenciono levar a Maria mal ela tenha alguma autonomia, mas ficarei para sempre órfão do caminho que partindo da branda da Travanca nos levava à zona alta através da branda de Curral Velho.
caminho da Travanca após incêndio de 2006

Quanto ao vale de Sistelo, considero-o uma das paisagens mais bonitas do Minho[3] e nunca percebi a sua não inclusão no PNPG. Pesa sobre este vale a ameaça de construção de uma mini hidroelétrica e, para já as notícias são tranquilizadoras, espero que esta paisagem consiga manter-se intocada.

No que respeita à informação que procurava, tinha, entre outras, duas grandes curiosidades: a de perceber porque as brandas na Peneda possuem sempre diversos cortelhos; os topónimos e a localização das inúmeras brandas. No livro terei encontrado a resposta para as duas questões, mas para já tratarei apenas a segunda.


Sobre as Brandas~

De acordo com o dicionário Priberam, Branda[5] é o substantivo feminino que, no Minho, designa a tapada ou pastagem no alto de uma serra, geralmente em terreno pouco inclinado e junto a um curso de água. A sua existência está intimamente ligado aos movimentos de transumância vertical durante os meses de bom tempo, quando o gado é levado até à serra.

De acordo com Fernando Cerqueira Barros, na Serra da Peneda é o nome dado aos núcleos existentes, não em continuidade com os lugares (ou aldeias), sendo complementares a estes. Tem um uso preferencialmente estival e destinam-se à prática agrícola e/ou do pastoreio e podem designar-se por brandas de gado (destinadas exclusivamente ao pastoreio), brandas de cultivo (centeio e batata, associando-se ainda a função pastoril, podendo, por isso também, ser designadas de brandas mistas) ou brandas com maior permanência.

Em Castro Laboreiro, com características próprias, é a designação dos locais habitados desde meados dos finais do mês de Março até à primeira quinzena do mês de Dezembro.

Etimologicamente a palavra branda está muito próxima de braña usado no noroeste espanhol, onde aparecem ainda as variações brañizas, brañales, pastizales, puertos altos, branizas. Na zona dos pireneus aragoneses são ainda comuns os termos estivar, estivejar, estiva, estivada, numa associação ao período estival.

É provável que derive do latin veraneam (pastos de Verão) ou do latin veranian (habitado durante o Verão), mas há autores que defendem a sua origem no céltico brakna (prado húmido)[6]. Sendo que todas estas hipóteses remetem para a estação quente ou para o uso pastoril.

Considerando a localização geográfica, de certa forma coincidente com o da cultural castreja; as semelhanças construtivas dos abrigos de falsa cúpula com as construções da cultura castreja;  que os castros murados seriam complementados com abrigos dispersos pelos vales e planícies utilizados, temporariamente, por pastores e cultivadores; a origem cética do vocábulo pode ser mais do que uma fantasia dos defensores da “celticidade”.

Como Fernando Cerqueira Barros recorda na “área em estudo [a Serra da Peneda], zona montanhosa, que como vimos não foi atravessada por calçadas romanas, nem ocupada de forma efetiva, podemos supor que tenha sido um dos territórios rurais onde se manteve o direito comunitário céltico sob a forma de livre pastoreio ou de baldio, com uso regulado pelo costume, cujos restos ainda chegaram aos nossos tempos, especialmente em zonas serranas.”

No entanto, é no período da reconquista com a fixação das populações nas zonas das várzeas que o modelo de lugar e branda se terá começado a organizar e compartimentar a serra.

Segundo Fernando Cerqueira Barros, “a natureza do solo, com acidentes vários no relevo e uma grande altitude, não permitiu que as populações se fixassem nas zonas centrais da Serra. Por isso mesmo, observamos um anel de povoamento fixo situado nas zonas de vale e a meia encosta, ficando assim as de maior altitude livres de qualquer aglomerado habitacional fixo. Foram estes os fatores que potenciaram a exploração, por parte dessas mesmas populações, das zonas mais elevadas. Terrenos de uso difícil (ou até mesmo impossível) no Inverno, mas que no Verão se tornam apetecíveis para a prática da pastorícia (aproveitando os excelentes pastos das chãs de altitude, numa primeira fase)”.

modelo de ocupação da montanha em anel

Se atendermos aos efeitos do que os cientistas chamam a Pequena Idade do Gelo[7], com Invernos muito mais rigorosos que os atuais, durante a qual as partes mais altas da serra estariam longos períodos cobertas de neve, será mais fácil compreender as dificuldades que, particularmente nestes territórios, o Inverno acrescentaria.


As Brandas

I - Brandas de Gado

branda da Chã da Cova - Soajo (Soajo)

As brandas terão começado por serem todas destinadas exclusivamente ao pastoreio, mas a introdução do milho “maiz” alterou o uso dos terrenos mais próximos do lugar e algumas das brandas. Estas brandas tem alguma similitude estrutural e arquitetónico com os exemplos das serra Amarela e Gerês, denominados de currais.
Estas brandas possuem normalmente diversos abrigos de pastor em falsa cúpula (os cortelhos) e bezerreiras (os muros delimitadores).
Não possuem função de habitação, existindo apenas pernoita.

Freguesia da Cabreiros
  • Vilar – Chã de Abade / Branda da Cerradinha / Carvalhal / Curromadela (Colmadela)
  • Tabarca e outros lugares – Branda de Lamelas / Branda do Arieiro
Freguesia de Gondariz
  • Lombadinha – Branda da Lombadinha
Freguesia de Carralcova
  • Vários lugares – Branda de Bostejões / Alto das Bezerreiras
Freguesia de Cabana Maior
  • Vilela das Lajes – Branda da Travanca / Curral Velho
  • Bostelinhos e Bouça Donas – Branda da Bragadela / Branda dos Bicos / Branda de Burzavô
Freguesia do Soajo
  • Adrão – Curro da Velha / Tieiras
  • Soajo (vila) – Chã da Cabeça / Chã da Cova / Chã da Matança / Felgueira Ruiva
  • Cunhas / Várzea / Paradela – Branda ou Poulo da Seida
Freguesia da Gavieira
  • Tibo – Cabeço de Runfe / Curro da Velha / Canto do Corno
  • Tabarca e outros lugares – Branda de Lamelas / Branda do Arieiro


 II - Brandas de Cultivo
Branda do Alhal - Padrão (Sistelo)

Com a chamada “revolução do milho” os terrenos mais próximos do lugar, ou eido, foram adaptados à nova cultura e, para os terrenos mais altos, inadequados para o milho “maiz” foram transferidas as outras culturas (centeio e batata numa segunda).
As brandas de cultivo são uma segunda geração de brandas que se caracterizam por serem espaços destinados a algumas culturas (principalmente milho e batata) mantendo também funções ligadas ao pastoreio.
Estas brandas situam-se normalmente próximas do lugar e a altitudes até os 550m. Nas brandas mais próximas da aldeia normalmente não existia a função de pernoita. A sazonalidade do uso destas brandas também não é constante. Os lugares de Vilarinho das Quartas e Adrão possuem brandas a cotas inferiores ao dos lugares.

Freguesia de Sistelo
  • Porta Cova – Branda de Crastibô / Branda da Lapinheira / Branda do Furado
  • Padrão – Branda do Alhal / Branda da Gêmea
  • Sistelo – Branda do Braçal / Branda do Rio Covo
Freguesia de Cabreiro
  • Lordelo – Branda do Rodrigo / Branda do Real
  • Avelar – Branda de Avelar (ou Avelar de Cima)
Freguesia de Gondariz
  • Lombadinha – Branda de Bostejões
Freguesia Carralcova
  • Vários lugares – Branda de Bostejões
Freguesia do Soajo
  • Adrão – Branda da Bordença / Branda da Assureira
  • Soajo (vila) – Branda de Murço / Branda de Lapas / Branda de Ínsuas / Branda da Trapadela / Branda de Reigada / Branda de Lume na Eira
  • Cunhas – Branda do Ramil
  • Várzea ­– Branda das Ínsuas
  • Paradela – Branda de Rendufe
  • Vilar de Suente – Sedas


Brandas com maior permanência


branda da Junqueira - Rouças (Gavieira)

Nestas brandas há uma função habitacional que entre os Maio a Novembro que se torna em estadia. Neste período, a maior parte da população do lugar para lá se deslocava com o gado e se ocupava do cultivo de centeio e da batata. É possível estabelecer algumas semelhanças com as brandas de Castro Laboreiro, mas na freguesia de Gavieira a mudança nunca é total e são apenas uma estrutura complementar do lugar. Ao contrário de Castro Laboreiro a melhor habitação não se situa nas brandas e era no lugar onde se plantava o milho. Há ainda a particularidade de as referências históricas às brandas serem normalmente muito anteriores à dos lugares.

Freguesia da Gavieira
  • Rouças – Branda de Gorbelas / Branda da Junqueira
  • Gavieira – Branda Busgalinhas / Branda de S. Bento do Cando
  • Peneda e Beleiral – Branda da Bouça dos Homens
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[1] “De resto, faz parte do meu ritual subir aos altos, sentir a voluptuosidade da fadiga, como diz Unamuno, e depois olhar.” – Miguel Torga, Diário II – 26 de Outubro de 1942
[2] Há quem se ofenda se não se diferenciar a Serra do Soajo da Serra da Peneda, mas porque na obra em questão se utilizou a Serra da Penada como designação mais abrangente será assim que a utilizarei.
[3] Designado na WEB por Pequeno Tibete, mas nunca percebi a origem desta comparação. Pessoalmente julgo que faria mais sentido estabelecer a semelhança com a paisagem peruana. Até porque, de certa forma, são ambas parcialmente resultado da adaptação ao milho.
[4] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/branda [consultado em 26-08-2015]
[5] http://mas.lne.es/toponimia/index.php?leer=154&palabra=bra%F1aseca
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Pequena_Idade_do_Gelo


Nota: todas as fotos foram são minhas e foram realizadas ao longo das diversas caminhadas que realizei pela zona.

4 comments:

Célitos said...

Olá jorge, obrigado é simplesmente fantastico
força amigo e um grande abraço
Teixeira

joca said...

Obrigado, tenho encontrado muita coisa do Célitos no wikiloc por esta zona que me está a ajudar a complementar a leitura. A listagem das brandas está inevitavelmente incompleta, mas o livro do Fernando Cerqueira Barros é uma leitura fantástica para quem gosta da zona.

Fernando Manuel Cerqueira Barros said...

Obrigado pelos comentários e pelas nota de leitura sobre o trabalho que publiquei.

joca said...

Fernando Cerqueira Barros, os que gostam de percorrer as serras é que devem agradecer a ajuda na sua interpretação.