São apenas notas soltas sem qualquer compromisso de actualização. Como ao caminhar à beira mar onde os nossos passos não são mais importantes mas ficam registados entre duas ondas.
Wednesday, December 31, 2008
Manifesto Anti Qualquer Coisa num dia de balanços
É que:
"Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!"
Talvez seja tempo de começar a dizer:
"Morra o Dantas, morra! Pim!"
http://www.triplov.com/almada_negreiros/Manifesto.mp3
Tuesday, December 16, 2008

A partir de ontem tenho completa a colecção do Diário de Miguel Torga nas edições da Coimbra. Faltavam-me 3 livros que já tinha procurado em diversos locais. Recebi-os ontem como prenda e já estão, junto aos outros, na estante. Um deles é uma primeira edição. Pode não ser um livro dito raro, mas para mim era porque me faltava. Ainda que ter uma primeira edição seja uma alegria suplementar à de completar a colecção. Outro, mais antigo e já amarelecido pelo tempo, chegou-me às mãos ainda com os cadernos fechados - que eu valorizo ainda mais que as primeiras edições. Completar a colecção integral das obras de Miguel Torga, nas edições do autor, aquelas de capa de cartolina branca, é um dos projectos da minha vida. Algo que quero ir fazendo ao ritmo das descobertas de livros, cada vez mais raras e caras. Sei que não vai ser fácil, mas ontem alguém me ajudou a completar uma etapa. Um acto de amor.
Tuesday, October 07, 2008
Nevosa
Mais tarde, num dos inúmeros prados, uma companheira de montanha, guia de serviço, desafiou-nos a uns exercícios de Yoga (não sei se com ou sem acento - já me explicaram que é muito diferente, ainda que não tenha percebido em quê - mas para o caso não é importante). Foram apenas curtos exercícios de respiração, mas souberam muito bem. A massagem também ajudou.
Os momentos mais altos foram, no entanto, o avistamento de fauna normalmente mais esquiva. Ainda que mantivessem as distâncias seguras, por momentos senti-me num episódio da BBC Vida Selvagem.

Thursday, September 25, 2008
Um Parque (des)Nacional

Tuesday, September 09, 2008
O gato pardo
Wednesday, August 27, 2008
A Casa das Neves da Serra Amarela
(1) Não posso garantir, mas julgo que este livro pode ser comprado nas Portas do Parque em Campo do Gerês.
(2) Outros trajectos alternativos não devem alterar muito esta estimativa.
Tuesday, July 22, 2008
Porto Bike Tour

Tuesday, July 15, 2008
Caminhada na Serra Amarela
No último Domingo (1) voltei à Serra Amarela repetindo a caminhada que idealizámos para homenagear Miguel Torga. Em 2007 as condições climatéricas reduziram a caminhada a um pequeno grupo de corajosos caminheiros. Nessa ocasião fizemos toda a cumeada debaixo de um denso nevoeiro e só o bom conhecimento do trilho (e o seu registo no GPS) não nos fez regressar. Nasceu assim o desejo de voltar num dia melhor. Depois com o UPB não tive melhor sorte. Desta vez o dia estava claro, excelente para caminhar e aproveitar a paisagem a que Torga chamou "Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica".

Margot Dias, Miguel Torga, André Rocha, Jorge Dias(2) e José Fecha(3) fotografados nos montes de Vilarinho
Em 25 de Julho de 1945 Miguel Torga percorreu a Serra Amarela na companhia de um habitante de Vilarinho da Furna porque queria ver um fojo de que tinha tido notícia. Procurou um guia e foi-lhe indicado José Fecha, pastor, contrabandista e profundamente conhecedor da serra. A jornada está perfeitamente descrita no Diário e na Criação do Mundo. Dois relatos perfeitos sobre o carácter do poeta e do seu amor pela serra e pelos serranos
No Domingo iniciámos a caminhada em Brufe, porque Vilarinho da Furna já não existe, e procurámos os locais visitados em 25 de Julho de 1945. Aos fojos, às casarotas, às vezeiras, juntamos as silhas, o muro de Vilarinho, a Louriça de onde decidimos descer para Vilarinho. Desta vez tivemos ainda a sorte de conseguir visitar a famosa "Casa das Neves", que os Arcebispos de Braga fizeram construir no alto Serra para abastecimento de gelo, da qual já tinha lido algumas referências mas nunca tinha encontrado elementos suficientes para a localizar. Dela não restam mais que 3 paredes enterradas numa chã, mas foi a "cereja em cima do bolo" desta caminhada. Como o poeta gosto de descobrir os "recados do passado". Descoberta que não teria sido possível sem a colaboração da CMTB e que não posso deixar de agradecer
Deixo para outra oportunidade informações sobre as Casarotas, a Casa das Neves e Vilarinho da Furna. Na preparação desta caminhada descobri ainda uma evidência de Miguel Torga ter caminhado mais do que uma vez pela Serra Amarela. As fotos que ilustram o artigo de Jorge Dias sobre as casarotas (1946), apesar da má qualidade das cópias que possuo, identificam claramente o Miguel Torga junto das construções. E como elas não terão sido realizadas em 25 de Julho de 1945, comprovam que pelo menos outra vez voltou lá. Possivelmente na mesma data em que Jorge Dias e Miguel Torga foram fotografados na companhia das esposas e José Fecha perto de Vilarinho. Da monografia de Jorge Dias tenciono ainda utilizar outras informações. As férias estão a chegar e terei algum tempo para os escrever.
(1) A caminhada foi organizada no Domingo pela AAEUM com aparticipação do UPB. No dia anterior o UPB fez praticamente a mesma caminhada em sentido inverso
(2) Jorge Dias, etnólogo português autor de "Vilarinho da Furna, uma aldeia comunitária" (tese de doutoramento de 1944) e de "As Casarotas na Serra da Amarela: construções megalíticas com uma inscrição"(1946)
(3) Habitante de Vilarinho da Furna, guia de Miguel Torga em 25 de Julho de 1945
fotos da caminhada
Monday, May 26, 2008
Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez
Encontrei-a, finalmente, na tarde do último Sábado. O dia tinha amanhecido chuvoso e depois do pequeno-almoço ficámos na Taberna Celta à lareira. Lá fora, dia não estava para caminhadas e foi difícil abandonar o conforto do fogo. Em volta da lareira, tivemos ainda a sorte e oportunidade de trocar informações com um cliente habitual da taverna. Sobre o carvalhal havia um denso manto de nevoeiro que apenas a espaços abria. Pousadas numa mesa, umas cartas militares da zona permitiam-me recordar as caminhadas que já fiz por ali, mas essencialmente recordavam-me as por fazer e a aldeia por descobrir.
ruínas de uma casa de planta quadrangular
vestígios da limpeza efectuada recentemente
Na zona mais elevada da aldeia encontrámos sinais de uma limpeza recente conforme nos tinham referido na aldeia. Como foi feita pelos bombeiros, julgo que terá sido feita como prevenção contra incêndios. No entanto pode ser também sinal que a sua visitação está mais próxima. O tempo chuvoso não nos deixou apreciar toda a beleza da aldeia, mas subimos ao alto dos blocos de granito que serão o chamado castelo. No alto encontramos a famosa cruz de pedra e umas inscrições. Não ficamos muito tempo, as nuvens sobre a capela de S. João anunciavam a chuva que rapidamente nos alcançou. Espero voltar lá com mais tempo e investigar outros caminhos.
pequena cruz de pedra no alto do castelo
entalhes na rocha da pequena atalaia (?)
Descrição arqueológica* : Povoado abandonado com arruamentos lajeados e vestígios de cerca de 40 casas, de planta geralmente quadrangular e paredes de blocos graníticos mais ou menos aparelhadas, muitas ainda com umbrais e soleiras das entradas. Poderá tratar-se da aldeia medieval de Sancti Vincencii de Gerez referida nas "Inquirições Afonsinas" de 1258, provavelmente abandonada no século XV, tempo de fomes, pestes e guerras. Nunca mais seria reocupada, podendo aceitar-se que tenha sido substituída pela aldeia de Pitões das Júnias. O lugar encontra-se actualmente coberto por um frondoso carvalhal espontâneo, com a vegetação a conferir às ruínas uma beleza pouco vulgar. No extremo setentrional do povoado, no topo de um pequeno outeiro coroado por caos de blocos graníticos, a que a população chama "castelo", identificam-se alguns rasgos que desenham uma planta quadrangular com cerca de 2 metros de lado, vestígios que poderão corresponder a uma pequena atalaia. Um pouco mais longe, cerca de 1,5 km para Sudeste, fica o mosteiro de Santa Maria das Júnias. Em termos arqueológicos conserva-se tudo em bom estado.
Interesse : Trata-se de um monumento de inegável significado histórico regional e excepcional valor científico e patrimonial, cujo estudo é fundamental para o conhecimento da evolução do povoamento medieval na vertente nascente do maciço geresiano. As ruínas desta aldeia abandonada enriquecem-se ainda com a paisagem envolvente, marcada por exuberante cobertura vegetal e relevos vigorosos. No Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi proposta a classificação do "Povoado de Juriz" como Monumento Nacional.
Wednesday, May 21, 2008

Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me entenderia?
Friday, May 09, 2008
Boicote

Existem outras formas de condenar a violência no Tibete? Um boicote de cidadãos aos produtos chineses não seria mais eficaz?
Wednesday, April 02, 2008
Crónica de um reconhecimento furado

No sentido inverso ao da caminhada, saímos de Campo do Gerês tão cedo quanto a mudança da hora nos permitiu e lançamo-nos à Geira. O tempo estava incerto e chuviscos rapidamente se transformaram em chuva, dificultando o reconhecimento. Razão pela qual não tivemos muito tempo para apreciar e fotografar as paisagens percorridas pela Geira. Eu sou um ciclista recente e os primeiros km são sempre mais complicados. Vou ganhando confiança, em mim e na máquina, aos poucos. De certa forma, parte do interesse da exploração era também testar os meus limites.
As estradas romanas possuíam uma inclinação pequena, pelo que se percorrem sem dificuldade. Só que, para as bicicletas, algumas zonas da antiga calçada são de dificuldade técnica exigente e algo duras para os pneus. Após 4 furos, uma bomba perdida e outra com problemas, tivemos mesmo que improvisar um carro vassoura que nos socorreu, perto da milha XVII, na capela de S. Sebastião da Geira. Local onde interrompemos o reconhecimento. Foi uma enorme aprendizagem. Já não me recordava de reparar um furo. Já não me recordava de desmontar um pneu. Mas parece que não é só o andar de bicicleta que não esquece.
Não chegamos até Sta Cruz (milha XII), mas fizémos o reconhecimento de grande parte do percurso. As milhas que faltaram serão as mais alteradas e seriam até as mais fáceis de percorrer. Ficou claro que a Geira é um percurso de grande beleza e com uma dificuldade acessível a todos os públicos. Uma caminhada que permite o contacto com a nossa história e com paisagens diversificadas. Voltarei à Geira em BTT. Apesar das dificuldades técnicas de algumas zonas, é fantástica. Um cenário fabuloso para andar de bicicleta.
Monday, March 17, 2008
Sobre a voluptuosidade da fadiga e outros apontamentos
Miguel Torga - Diário II
É a segunda vez que publico esta entrada do Diário. Publico-a novamente porque ela ilustra bem também a minha relação com a "paisagem" e o que experimentei ao percorrer mais uma vez o meu chão de eleição. O prazer de sentir a voluptuosidade da fadiga e depois descansar a olhar a paisagem ao nosso redor é coisa que não consigo explicar facilmente. Apenas os outros "geófagos", para usar a expressão do Torga, o compreendem. Os curtos minutos em que fiquei a olhar as Fichinhas e o vale do Rio da Touça foram simplesmente mágicos. Entro na montanha quase como quem entre num templo. É nela onde melhor me contemplo. É por isso que não a entendo sem estes momentos de reflexão. Depois foi descer e percorrer o mais bonito vale do PNPG. Um percurso tão bonito como duro e perigoso. Para mim a mais bonita ruga de Portugal.
Tuesday, March 11, 2008
Into the wild
Friday, March 07, 2008
Ariane

Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940
Tuesday, February 26, 2008
Finalmente o Castelo de Bouro



Thursday, February 07, 2008
O circo e as dúvidas
Desde a primeira hora que fiquei com sérias dúvidas sobre o que ouvia. As referências geográficas não faziam qualquer sentido. Percebi nas informações cruzadas qual a actividade que o grupo estaria a fazer, mas apenas porque sei quais os percursos normalmente realizados na zona. Nada nas primeiras notícias permitia tirar essa conclusão. Só quando a rede informal começou a funcionar a qualidade da minha informação melhorou. Começaram-me foi a surgir outras dúvidas.
Não quero abordar se os 3 montanheiros tinham experiência, ainda que saiba que os 3 são experientes e com formação em montanha. Tão pouco me interessa a questão se poderiam estar ali, pois estas questões, ainda que pertinentes, induzem ruído sobre aquilo que ninguém do circo percebeu ou questionou.
A questão é que os 3 montanheiros informaram às 16h00 a sua localização em coordenadas GPS, o que os geo-referenciava com um pequeno erro. Na montanha os 3 até poderiam não conseguir localizar as coordenadas numa carta ou mapa, mas a equipa de resgate desde essa hora teria uma localização muito aproximada do grupo (Pico da Nevosa 1500 metros). E se alguma dúvida existisse os 3 estiveram sempre contactáveis por telemóvel. Tanto que pelos vistos um jornalista conseguiu ligar com o grupo perto das 23h00. Ou seja, a equipa de resgate sempre soube que o grupo estaria a menos de uma hora das minas dos Carris (1450 metros). Local servido por um estradão de apenas 9 kms até à estrada Gerês-Portela do Homem. Logo seria sempre o melhor local para centrar o socorro. A razão porque optaram por centrar o socorro nas Lagoas do Marinho (1150 metros), a umas 3 horas do local é demasiado estranha. Até porque até ao local teriam que subir os 350 metros de diferença de cota por terrenos certamente alagados. A verdade é que no Gerês conhecendo-se a localização desde as 16h00 de um grupo, por muito mau que esteja o tempo, não se compreende a razão de os obrigar a uma pernoita naquelas condições. E muito menos se percebe as razões de terem mobilizado um helicóptero, um meio caro e completamente inadequado para o as condições meteorológicas.
Tenho para mim que o que este caso evidenciou foi uma total impreparação para estes socorros. Coisa que não estranha, porque na emergência tudo deve estar planeado e testado em simulacros. Desconheço se o PNPG possui planos de emergência e teria gostado que algum jornalista se questionasse sobre isso. Propositadamente não faço aqui qualquer interpretação dos factos. Prefiro registar a(s) dúvida(s). Mas a rede informal continua a funcionar e a permitir-me tirar conclusões.
Interessante foi também ler alguns comentários às notícias electrónicas. O Portugal sentado reagiu com um furor despropositado. Exigia-se facturas, punições. Os 3 ao Pelourinho, já - pediam contra os jovens "imbecis" que se perderam. E claro que aqui o facto de um ser um "jovem" de 40 anos era irrelevante. É jovem porque faz coisas que o Portugal sentado não faz. O que diriam essas pessoas ao verem famílias inteiras a caminhar pelos Parques Naturais fora das nossas fronteiras? Como chamariam ao sexagenário que vi descer do Monte Perdido? Estrangeiros, coisas para estrangeiros - escreveria o Portugal sentado. Claro que quando quiser chamar uns turístas o Portugal à mesa do orçamento dirá que temos condições únicas para pedestrianismo. Um clima, umas paisagens magníficas - diz um Portugal que acha que isso são coisas paros outros - Uns malucos, doidos perigosos a quem não temos que pagar as asneiras.
Sobre este caso li as maiores "asneiras". Muitas delas ditas por responsáveis que deviam saber calar. Percebi, mais uma vez, na leitura cruzada das diferentes notícias a falta de rigor da informação publicada. Os jornalistas preferem citar-se uns aos outros a questionar os factos. Recordo uma expressão lida algures sobre a guerra: "na guerra a primeira vitima é sempre a verdade". Chego vezes demais à conclusão que nesta verdadeira guerra de audiências, tiragens e resultados financeiros, no campo da informação jaz uma vitima desconhecida. Aparentemente este foi mais um dos casos. Feliz ficou o Primeiro Ministro porque os telejornais mostraram os novos helicópteros. Podem ter chegado tarde para os incêndios, mas chegaram a tempo de se mostrarem num salvamento onde não faziam falta.
mapa com os pontos citados
Tuesday, January 22, 2008
O fósforo do Teotónio Louvadeus
Na caminhada duas coisa despertaram a minha curiosidade: umas ruínas de uma casa dos Serviços Florestais perto do Talefe e uma conversa no café da aldeia à hora da “sopa”. Numas chãs praticamente despidas de árvores, a casa chamara-me a atenção pela contradição. No café, na tal conversa com algumas pessoas da aldeia, confirmei as minhas suspeitas. Dois grandes incêndios, nas décadas de 70 e 80, teriam deixado aquelas chãs praticamente sem vegetação.
Recordei-me então do que li sobre a Serra d’Arga. Recordei-me do “Quando os lobos uivam” do Aquilino Ribeiro, a quem fui buscar as citações. Recordei-me das histórias da revolta dos povos do Gerês contra os Serviços Florestais nos finais do século XIX. Recordei-me do amigo que um dia me surpreendeu ao dizer-me que, para ele, a história da florestação tinha sido um erro enorme, um erro muitas das vezes vingado pelo fogo.
A casa e a conversa levaram-me a reflectir sobre a floresta e como ela foi plantada. É verdade que após um longo processo histórico desflorestação Portugal precisou de inverter a situação. Não apenas por uma boa gestão dos recursos florestais, mas fundamentalmente para evitar os fenómenos erosivos. Nos finais do século XIX Portugal teria um coberto vegetal inferior a 25% do actual. Foi essa a preocupação que presidiu à criação dos Serviços Florestais em 1886, com o início dos trabalhos de arborização nas serras do Gerês e da Estrela em 1888. Só que o processo de arborização nem sempre foi o mais feliz. E foi muitas das vezes feito contra as populações. Não falta quem afirme que a florestação foi um processo mal concretizado, mal amado e que apenas nos deixou os montes cheios de pinheiros. Contribuindo dessa forma para o abandono dos espaços rurais. Outros salientam a dimensão da obra realizada e atribuem a maior responsabilidade da expansão do pinheiro aos pequenos proprietários. O maior equilíbrio da opinião dos segundos fará mais sentido. Mas todos concordam que temos uma floresta mal organizada, que desperdiçamos recursos e que a floresta deveria ser uma das formas de fixar as populações rurais. É por isso que me pergunto se não sabemos aprender com os erros cometidos. Seja porque continuamos a marginalizar as populações . Seja porque continuamos a não saber ordenar a floresta.
Não conseguiremos evitar todos os fogos florestais, mas poderemos evitar que o “velho Teotónio Louvadeus” do Aquilino acenda o fósforo. E sempre que não ordenamos, sempre que não limpamos, sempre abandonamos ao destino a floresta, há nisso um pouco do gesto do "Teotónio Louvadeus" a acender o fósforo. Todos somos Teotónio Louvadeus.