São apenas notas soltas sem qualquer compromisso de actualização. Como ao caminhar à beira mar onde os nossos passos não são mais importantes mas ficam registados entre duas ondas.
Friday, December 29, 2006
A esposa do Delfim
Tuesday, December 26, 2006
Natal UPB
A manhã estava fria, como testemunhava o gelo na estrada, que ainda me convidou a uma dança atrevida, e fui dos últimos a chegar à Travanca. Comecei a subida com um grupo mais pequeno e só encontrei os restantes mais tarde. A subida ao Alto da Pedrada foi a primeira caminhada que fiz com o UPB, e já a tinha repetido. Recordo-me da beleza do antigo caminho, em laje, que inicialmente ligaria a branda da Travanca às restantes brandas a cotas superiores. Uma subida realizada, numa primeira fase, na sombra protectora de uma mata muito bonita e depois em prado aberto. Digo recordo-me porque parte dela já não existe. O fogo de Agosto consumiu parte da mata protectora. Nos pontos de paragem, procurava nas minhas memórias as imagens de antes, mas não era fácil imaginá-las.
Com todo o grupo reunidos, que encontrámos no prado no sopé do Guidão, continuámos a subida. Ultrapassada a maior dificuldade da caminhada, uma curta mas intensa elevação, o grupo dirigiu-se ao ritmo das conversas para o destino final. O dia era de grande descontracção e dava tempo para tudo. No Alto da Pedrada, entre as fotos da praxe, o Bolo-rei e o Porto, ficámos um pouco a identificar os pontos no horizonte e a marcar os próximos destinos. Almoçámos no “Vale Encantado”, assim baptizado pelo Sherpa, uma antiga branda junto ao Guidão que suponho chamar-se Branda da Cova. Ficámos imenso tempo na conversa aproveitando o sol que se fazia sentir e no final o Águia-Real surpreendeu-nos com café.
Na descida aproveitei o facto de o fogo ter descoberto os cortiços da Branda Currais Velhos para a visitar mais demoradamente. Entrei num dos cortiços. É um dos maiores que conheço e possui uma porta de grandes dimensões. Já tinha reparado nele nas anteriores caminhadas mas agora está muito mais visível. No conjunto há muitos mais cortiços do que julgava. Esta branda é uma boa testemunha das mudanças que o plano de florestação introduziu nas populações de montanha. Os prados da zona deveriam ser baldios que foram depois florestados. Os efeitos nas populações devem ter sido enormes e as gerações mais velhas ainda devem ter disso ecos. Um amigo disse-me uma vez que essa era uma das causas ocultas dos fogos florestais. Eu não acredito. Parece-me demasiado desculpabilizante - "as populações não gostam da floresta". E o resto?
Já nos carros decidimos que procurar uma “sopa”. Recordei-me de uma das minhas experiências mais engraçadas nos Arcos de Valdevez quando vim com uns amigos da universidade “contratar” o Delfim, célebre cantador ao desafio. Sendo o mais novo do grupo praxaram-me com umas malgas de verde e “iscas” que me alegraram a viagem até Braga. Ofereci-me como guia e com algumas indicações não foi complicado encontrar a tasca do Delfim. Infelizmente não estava, mas a esposa serviu de amostra. O local é um verdadeiro laboratório social do Minho. Vale a pena visitar.
fotos da caminhada
Thursday, December 14, 2006
O Senhor Cruz
Numa das minhas buscas fui à Livraria Bertrand, que no centro de Braga ocupa agora as instalações da Livraria Cruz. Lá não consegui nenhum livro mas deram-me uma indicação. Nos andares superiores ainda existe o espólio da antiga livraria e é possível comprar livros. Basta tocar que o Sr. Cruz está normalmente lá para atender. Foi o que fiz no dia seguinte.
O Sr. Cruz é uma das figuras do Sec. XX em Braga. Tipografo, editor e livreiro é uma pessoa que vive entre livros. Acompanhou-me por diversas salas carregadas de estantes com livros, apesar da idade sabe onde estão sem a ajuda de computadores. É um símbolo de uma época que passou mas que deixa alguma nostalgia.
Na despedida a propósito das mudanças do tempos atirou-me com isto - "Na minha aldeia hoje não há uma vaca". Há neste desabafo um grito contra um tempo que gostava de contrariar. Lendo os planos para as novas superfícies a instalar em Braga percebo-o melhor. Há qualquer coisa de estranho que um país do sul tenha mais centros comerciais que os países do norte da Europa. Quem sabe se no futuro não haja quem diga - "No centro não há comércio".
Sunday, December 10, 2006
Fafião-Lagoas do Marinho
As botas ainda estavam húmidas quando as meti no carro. A caminhada do dia anterior ainda estava muito fresca mas a proposta do Medronho era demasiado atractiva para recusar. A encosta da Serra do Gerês virada para Montalegre é uma zona mais abrupta, mais despida de vegetação mas de uma beleza que começo agora a descobrir. Era uma oportunidade que não queria perder. Aparentemente as pernas também se recusavam a ceder e quase não sentia os efeitos da caminhada do dia anterior.
Encontramo-nos ao pequeno-almoço e aproveitei para me abastecer. Duas sandes, dois sumos, e os chocolates que trazia na mochila, comida a menos mas não queria ir muito carregado. Nas Cerdeirinhas encontrámos a Nogueira e uma amiga e seguimos para Fafião.
No total éramos 10. O nosso guia seria o Águia-Real - Os Manos, o Urso Solitário, que conheci com o UPB na primeira vez que fui à Rocalva, onde também estava a almoçar no meio de uma caminhada solitária, a "caloira" Bouça, uma amiga da Nogueira, e os restantes UPB's (Medronho, Passo Largo, Milhafre, Capreolus, Cebolinho, Nogueira e eu).
Começamos a caminhar pelas 10h00, algo tarde para extensão do percurso porque agora os dias são curtos. A parte inicial do caminho foi relativamente fácil, mas cumprida a um bom ritmo. O dia estava muito bom e permitia ver ao longe, na Serra da Cabreira e Pitões, como as zonas mais altas estavam cobertas por um manto branco. Provavelmente encontraríamos neve nas zonas mais elevadas da caminhada. A zona é muito bonita para explorar, mesmo a cotas menos altas há paisagens soberbas. Como a conheço mal tive alguma dificuldade em navegar depois pelas cartas e identificar os locais. É por esta razão que gostava de ter um GPS, para poder registar os percursos para memória futura. No monte normalmente é mais fácil seguir outras indicações. Mas quando tentei depois refazer o trilho do Águia-Real no IGeoE-SIG fiquei com algumas dúvidas. Percebi que subimos até às lagoas por uns vales a sul/suldeste de um pico identificado na carta como Fojo de Alcântara, mas fico com "brancas" em partes do caminho.
Conforme íamos subindo, e vislumbrando o caminho a fazer, ficou claro que a neve esperava por nós. Um pouco antes de chegarmos às Lagoas do Marinho já enterravamos os pés e ela continuava a cair. Em certas momentos foi até um bom desafio e tivemos que ter alguns cuidados.
Almoçamos num abrigo junto às lagoas e recomeçamos a caminhar. O trilho seguia por um estradão escondido debaixo do manto de neve. Tínhamos a consciência que já era tarde e começamos a apertar o passo. Nevava e a progressão nem sempre era fácil. A uma cota mais baixa, passado o nevão, o manto de neve permitia ver as pegadas de um pequeno animal, possivelmente uma raposa. Seguimos em estradão por um vale muito bonito - o Corgo da Mão de Cavalo - até à Albufeira do Porto da Laje . Nas margens, as marcas recentes testemunham a força das chuvas de Novembro. O vale é uma enorme rede de linhas de água, dos adjacentes vales profundos e ravinosos, que alimentam o Rio Fafião e em dias de chuvas fortes devem recolher um enorme caudal.
A partir da Albufeira o trilho passou a pé posto. Um trilho de dificuldade elevada mas de enorme beleza. Num certo obstáculo senti mesmo algum receio. Abandonámos o trilho pouco tempo antes de anoitecer e fizémos parte do estradão final já sem luz. Chegámos ao café, onde nos esperavam às17h00, pelas 18h30. Um pouco mais e teriam comunicado às autoridades que estávamos a demorar. No total devemos ter feito uns 23 Kms, num misto de estradão e trilhos de pé posto. Uma caminhada de elevada dificuldade mas que me deu um enorme prazer. Uma das melhores que realizei.
O Águia-real tinha encomendado uma sopa que comemos na mesma sala onde jantavam os donos do café. O dono do café quis saber por onde andámos e fez comentários sobre outros trilhos. Contou-nos algumas histórias da sua infância, com pouco mais de 12 anos vinha com mais 20 kgs desde o Porto da Laje onde tinham colmeias. Às sopa seguiram-se os tradicionais bolos e ficámos um bom bocado a conversar. Depois de duas caminhadas sentiam-me bastante bem, só na parte final, em algumas zonas mais inclinadas do estradão, senti os músculos dos joelhos. Em dois dias devia ter feito quase 40 kms de alguma dificuldade mas não sentia grandes efeitos. Tinham sido duas boas provas para as novas botas que se revelaram confortáveis. Uma boa compra.
fotos em: Caminhadas
Ermida del Xurés-Minas das Sombras-Fronteira
Esta caminhada ficou de certa forma estabelecida na caminhada Portela-Minas. Ao fazermos o estradão em direcção à fronteira o Tiago manifestou interesse em fazer este trilho, cujo desenho na encosta oposta fomos acompanhando à distância, pensamos que também era uma oportunidade de trazer mais gente e acordamos em marcar uma data.
Por diversas razões, más previsões meteorológicas, jantares de “Natal”, "isto e aquilo", preguiça matinal e acabamos sem os novos “caminheiros”. Começámos a caminhar pelas 11h00, um pouco tarde, mas resolvemos começar já junto à capela. Sempre se recuperava algum tempo (+/- 3 km) e a subida desde Vilameá pouco acrescenta ao trilho.
O nosso objectivo era fazer a “Ruta de la mina de las Sombras”, marcada pelo Parque Natural Baixa Limia-Xurés (Espanha) e continuar até ao Pico dos Carris. Como o dia estava chuvoso e esperávamos neve nas zonas mais elevadas, antes de sair acordamos que nas minas das Sombras faríamos uma refeição rápida e avaliaríamos o objectivo inicial.
Na subida encontramos alguns obstáculos. O maior deles foi encontrar uma ponte pela metade, derrubada, imagino eu, pela força das águas. O caudal da ribeira estava forte e não ajudou a encontrar uma solução, só que ficou claro que o caminho inverso seria mais complicado. Os restantes obstáculos foram mais fáceis de passar e quase todos eles originados por linhas de água com mais caudal que o normal.
Na subida final para as minas passamos a encontrar neve. Abrigados do vento e da neve nas ruínas do Posto Gerador das Minas das Sombras, fizemos uma pequena refeição e quando quisemos avaliar o que fazer em seguida percebemos que não tínhamos relógio. Eu e o Tiago tínhamos deixado os telemóveis no carro, um erro básico. Sem puder confiar muito no relógio da máquina fotográfica não sabíamos quantas horas ainda teríamos de luz. Decidimos assumir a hora da máquina que nos daria mais umas 3h30 até ao anoitecer. Já não daria para chegar ao Pico dos Carris mas dava para chegar ao marco da fronteira e regressar em segurança.
Como a memória do trilho ainda estava muito fresca não foi complicado, só que muita da navegação foi mesmo por memória porque a neve e o nevoeiro escondiam as mariolas. No marco da fronteira encontrámos um nevoeiro que tudo escondia e mesmo que estivéssemos com tempo não aconselhava tentar chegar até ao Pico dos Carris.
Descemos o mais rápido que os necessários cuidados recomendavam. Nas zonas mais expostas ao vento quase que não podíamos tirar os olhos do chão. Chegados às minas das Sombras comemos um chocolate e continuamos. Transpor a “ponte” no regresso foi mais complicado, espero que o Parque Natural de Baixa Limia-Xurés a recupere rapidamente porque senão o melhor é “fechar” o trilho. Chegamos aos carros com pouco mais de 20 minutos de luz.
Foi uma boa caminhada. Realizada um ritmo elevado quase sem paragens, mas com o atractivo de ter sidoo primeiro encontro com a neve. Caminhar com chuva pode ter algo de desconfortável mas permite sentir a serra de uma forma diferente. Eu gosto cada vez mais deste tempo para caminhar.
Monday, November 20, 2006
Minas a Minas


Num local que identifiquei na carta como perto da Torrinheira, com a Fichinhas, a Rocalva e Sombrosa em frente o dia abriu mostrando uma paisagem magnífica. É por paisagens como aquelas que me considero um privilegiado por fazer estas caminhadas, é a justa recompensa por sair das estradas. Quem acha que o Gerês é bonito sem o conhecer assim não teria palavras para elogiar. Aquela é a montanha de que eu gosto. "Um nunca mais acabar de espinhanços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto dum postigo, acolhedor e fraterno", como Miguel Torga descreveu as paisagens serranas da Peneda a Pitões.
Monday, November 13, 2006
Brandas da Gavieira

Iniciámos a caminhada em Roucas, com uma subida acentuada até à branda de Gorbelas. Esta parte inicial da caminhada está marcada pela Adere-PG como Trilho das Brandas, um percurso de ir e voltar de 8 km e com uma ascensão de 600 metros. Eis a descrição do trilho:
“Este trilho realiza-se em plena Serra da Peneda e leva-nos a conhecer o modo de vida das populações pastoris da montanha. Partindo do lugar de Roucas, freguesia da Gavieira, tomando um caminho ladejado que ascende pelo lugar da aldeia. Seguindo as marcações de cor amarela e vermelha, vamos deixando a aldeia para trás a povoação e penetrando a montanha, subindo passo a passo, gradualmente e vencendo os desníveis.
Por este carreiro passavam os carros de bois de raça barrosã que ligavam o lugar de Roucas à Branda de Gorbelas. Após alcançarmos o estradão de terra viramos à esquerda e continuando a subir, para alcançarmos a Branda de Gorbelas, rodeada por campos de centeio fechados por belos muros de pedra solta. Desde aqui seguimos por um caminho de lajes que se abre entre a penedia, vencendo fortes declives e que nos conduzirá ao Poulo da Seida.
Trata-se de uma velha branda de gado, esquecida no tempo e na memória, a qual permitia uma pernoita mais segura aos pastores e aos rebanhos, de modo a protege-los do frio da noite e da ameaça do lobo. Daqui seguimos para o fojo do lobo, localizado entre o Alto da Pedrada (o ponto mais alto da Serra Peneda) e Lamas do Vez (o local onde nasce o Rio Vez).”
No Poulo da Seida, onde almoçámos, o grupo separou-se em grupos menores. Eu segui até à Corga do Enforcado/Lamas do Vez e acompanhei depois, a meia encosta, o muro do fogo. Junto ao fojo encontrámos um grupo de Roucas em pleno trabalho comunitário(melhorias numa fonte de água que abastece a Branda de Gorbelas). Trocámos algumas palavras sobre o fojo e sobre os lobos. Nos últimos dias teriam morto dois animais na zona. Alí perto, uma carcaça comprovava uma das mortes. Dissera-nos que no incêndio de Agosto teriam morrido alguns lobos na Mata do Ramiscal, mas acredito que tenham abandonado o vale antes do fogo o alcançar.
Após o almoço descemos a Gorbelas onde abandonámos o trilho em direcção à branda da Junqueira. Esta parte já não pertencia ao trilho da Adere-PG e tinha algumas zonas fechadas pela vegetação. Em Junqueira encontrámos um pastor com um bezerro com uns 3 dias, tinha nascido no monte sem a sua assistência pois julgava tardar mais alguns dias para o parto. Junqueira, como a anterior, é uma branda de cultivo e pasto com uma bonita envolvente, mas sem a beleza dos campos em solcalco de Gorbelas.
Seguimos para a Branda da Busgalinhas onde a nossa caminhada voltou a coincidir com um trilho da Adere-PG, o “Pertinho do Céu”. Busgalinhas, mais uma branda de cultivo e pasto, de todas é a que tem um casario mais bonito. Na Branda de S. Bento do Cando, famosa pela romaria, abandonámos o trilho da Adere e descemos até Gavieira, e dai até Roucas, por antigos caminhos rurais. O grupo estava cansado, uma das colegas apresentava dores num joelho, as sombras avançava rapidamente e a tarde arrefecia.
Em Roucas estivemos a falar um pouco uma senhora que nos disse ir todos os dias até à branda onde estão os seus animais. Faça sol, chuva ou neve, são quase 8 quilómetros diários. Na Peneda, a proximidade das brandas da Peneda com os lugares fazia com que, normalmente, não fossem habitadas. O fenómeno de transumância característico de Castro Laboreiro não se repetiu aqui. Explicou-nos que tinha algum desgosto de não ser um pouco mais forte mas a sua constituição seca era sinal de uma resistência impressionante. Mais um sinal da diferença entre o urbano e o rural, ali a “gordura ainda é formosura” ser “cheiinha” é ainda um ideal de beleza. As novas gerações já não serão assim.
Nota: na madrugada de Domingo um dos colegas da caminhada teve um problema de saúde complicado. No UPB todos esperámos que se recupere depressa.
Tuesday, November 07, 2006
Um bom exemplo
O site chama-se Naturezas (http://naturezas.com/index.htm) e está repleto de informação útil como: mapas, fotos e pontos de GPS. Como os próprios afirmam o site " pretende ser o sítio onde poderemos dar a conhecer novos trilhos e dar opinião sobre os que conhecemos. Tornando assim mais fácil a chegada de novos caminheiros."
Pela minha parte agradeço e recomendo uma visista.
Monday, October 30, 2006
As mariolas também enganam
Experimentei a navegação por carta e bússola e resultou. Tirei o azimute pretendido e fui confirmando o trilho marcado pelas mariolas até ao Borrageiro. Decidimos depois tentar a descida por uma garganta que nos parecia complicada. O terreno e a carta não indiciavam que fosse uma boa opção, mas a existência de umas mariolas foi o suficiente para ultrapassar os receio iniciais e descer por lá. Puro erro, era um terreno complicado, perigoso e fechado por mato como a carta indicava. Um esforço e risco desnecessários. Como com os erros também aprendemos não foi tempo perdido.
Tuesday, October 24, 2006
A gente vai continuar
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
A gente vai continuar - letra e música de Jorge Palma
Monday, October 23, 2006
Estado bruto

Wednesday, October 18, 2006
Investigações
Monday, October 16, 2006
Workshop de Orientação
Durante o último fim-de-semana fiz uma pequena formação em Orientação. São conhecimentos que espero me venham a ser úteis nas minhas caminhadas. A cartografia é uma coisa apaixonante, permite-me fazer um reconhecimento do terreno previamente e já me foi útil algumas vezes. Ganhei o hábito de consultar o site do IGEOE antes de realizar seja o que for. Ter uma ideia do terreno, por menor que seja, é sempre melhor que o total desconhecimento.
Ainda que ofenda os mais puristas fiquei deslumbrado com o GPS. No exercício prático tentei sempre fazer a utilização da carta e bússola, só que o GPS, quando funcionava era muito mais prático.
No grupo da formação reencontrei um caminheiro que conheci junto à Rocalva (PBPG) numa caminhada do UPB, estive a falar um pouco com ele. É impressionante a “pedalada” que tem. Faz travessias enormes dentro do PNPG, conhece tudo e não tem medo de ir sozinho.
No final do exercício fomos comer um bacalhau ao Xico da Torre (Fiscal- Amares). O tasco está cada vez mais tasco mas o bacalhau sabe sempre bem. Deu-nos a provar um vinho “americano”. Não sei se é por falta de hábito mas pareceu-me muito mau. O Verde tinto também não era famoso e acabei numa cervejinha.

Monday, October 09, 2006
A Porta de Campo de Gerês

No projecto das portas do PNPG há uma fragilidade evidente que resulta do afastamento do PNPG destas estruturas. Se a ideia é orientar os visitantes na entrada no parque nacional, se a ideia é acabar com a "anarquia" actual, não faz sentido que o PNPG não esteja presente. Só que os investimentos e os salários são suportados pelos municípios e por isso percebo que os queiram gerir. Não culpo as câmaras municipais culpo o estado que não dá condições ao único parque nacional. Espero é que haja bom senso para que pelo menos na formação dos recursos humanos seja assumida pelo PNPG. Essa, é para já a falha mais evidente desta nova porta.
Ao lado as obras para o museu da Geira estão avançadas. Um amigo tem sobre isto uma posição muito particular - "As pessoas que se deslocam para o Gerês não querem visitar museus, querem visitar a paisagem". Poderá ter razão, ainda que entenda que um verdadeiro museu faz sentido. Não percebo é o local escolhido. Espero é que não retirem o património do seu lugar para o esconder em salas.
Só que mais do que tudo isto preocupa-me a pressão turística que vejo crescer na zona do Campo do Gerês. Nos últimos anos vi multiplicaram-se na zona empresas de aventura com uma ética ambiental muito discutível. Não sou fundamentalista em questões ambientais, acredito que se deve garantir às populações o conforto de que necessitam. E aqui inclui-se a necessidade de prosperar. Quando visito alguma coisa ao fim de semana procuro não esquecer que ela existe também à semana. Só não percebo é porque se permite concentrar tanta coisa numa zona tão perto de zonas importantes e sensíveis como a mata da Albergaria. Essa é mais uma razão para que o Parque tivesse tido uma intervenção superior na instalação das portas. Não duvido que quisesse, não reuniu foi as condições. Quando as coisas correrem mal, se correrem, virá disciplinador e tarde. É assim, somos educados com excessos de disciplina e pouca pedagogia. Depois somos este modelo de cidadania.
Monday, September 25, 2006
Pelas Terras do Barroso com o UPB

As Terras do Barroso são um território do maravilhoso, Éden transmontano como lhe chamava uma revista de viagens. – “Isolada pelas montanhas, barricada atrás de lagos sucessivos, abandonada pelas vias rápidas, envolta em nevoeiro, chuva e neve. A região do Barroso é um território de florestas misteriosas, onde os uivos do lobo não são um mito; de bruxas e feiticeiros que se juntam em encruzilhadas e estranhas. Não é terra para homens, mas também lá existem.”
Em Vilar de Perdizes o Padre Fontes terá pretendido dar relevo a este património cultural mas nos últimos tempos, por força de uma errada mediatização, perdeu terreno para os charlatães das tv´s e revistas. Abastardamento de que é exemplo o inqualificável Bruxo Alexandrino, presente na última edição do congresso de medicina popular como proto-candidato presidencial. É pena que assim seja. Apesar de descrer de misticismos, respeito os conhecimentos da "alquimia" popular e Vilar Perdizes podia ter um papel importante no estudo e divulgação desses conhecimentos, um diálogo entre o saber popular e o desenvolvimento da ciência
Pitões das Júnias não fica muito afastada do litoral, são uns escassos 90 km de Braga e 145 km do Porto. Só que, como toda a região transmontana, foi a uma região esquecida e isolada. Aldeia da raia seca, a fronteira unia-a mais do que separava da Galiza, por sua vez também abandonada por Espanha. Até às extinções das ordens religiosas em Espanha era o Mosteiro de Osseira (Espanha) que se responsabilizava pela paróquia. Hoje ainda é possível identificar muitos sinais desta relação, ainda que envenenada por episódios durante a Restauração. Encontrar, no centro de Pitões um bar/café chamado "Taverna Celta" é um testemunho claro desse relacionamento. É também um sinal da cultura de "druidas" que Vilar de Perdizes talvez tivesse podido festejar antes de derivar para a cultura de "doidos e doidas" mais interessados em tarot e amuletos.
Ao procurar informação da capela de S.João da Fraga, encontrei no "Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal uma pequena preciosidade sobre Pitões das Júnias: "Os costumes dos habitantes são geralmente bons, mas visinhos dos hespanhoes, aprenderam com elles a rogar medonhas pragas, contra os filhos, contra os animaes, e contra tudo que incommoda; são muito inclinados à gulla, no comer e no beber, seguindo-se por consequência necessária, a sensualidade desenfreada, que ali se nota em grande escala. Em razão d’esta freguezia ser curada por padres espanhoes, que pouco cuidavam dos deveres próprios do seu elevado ministério, viviam os fieis d’esta freguezia n’uma crassa ignorância da doutrina christan, e do cumprimento dos preceitos da nossa Santa Egreja ...". Fantástico, como nada mais se pudesse dizer, culpa-se os vizinhos das consequências do abandono. Fiquei é a perceber melhor a t´shirt de um colega de Montalegre dos tempos da universidade, que apunha, na simplicidade de umas letras garrafais, o orgulho da condição de "Touro Barrosão". Resquícios de uma "inclinação para a gula" é o que era.
Da Capela de S. João da Fraga não encontrei muita informação, mas acredito que alguém com mais conhecimentos poderia relacionar a sua existência no local onde se encontra, assim como estar dedicada a S. João Baptista, com cultos mais antigos do sol e do fogo celebrados pelo solstício de Verão. Mais um sinal de um certo "paganismo" tornado oficializado.
Também não encontrei muita informação de uma povoação antiga junto a Pitões das Júnias, Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez . que não tive tempo para a visitar. Fica para outra oportunidade. Quem sabe se para uma fria tarde de Inverno depois de comer um cozido na Casa do Preto. Pitões têm ainda as ruínas de um Mosteiro que vale a pena visitar. Originalmente Beneditino, mais tarde da Ordem de Cister, remonta ao século XII. Foi lá que, num dia calor,avistei um sardão com um porte e cores fantásticas que nunca esquecerei e só tenho pena de não ter fotografado.
A ideia da caminhada era explorar a ligação de Pitões às Minas de Carris pelos prados e corgos junto à capela. Tínhamos vários relatos de caminhadas idênticas mas desconhecíamos em absoluto o terreno. Era a aventura por completo. A zona é magnífica e transmite uma sensação única de liberdade e pureza. Em poucos lugares de Portugal haverá montanha tão pura.
As previsões meteorológicas eram muito desfavoráveis, ameaçando chuva forte e trovoada. E esta última assustava. Caminhar e trovoadas não ligam. Só que o dia não cumpriu totalmente as previsões.
O local de encontro foi o café do costume em Braga, de onde partimos em direcção a Pitões. A estrada aconselhava algumas cautelas na condução e retardou a hora de início da caminhada. Acordámos avançar até às 14h00 e nessa altura iniciar o regresso Pitões. Era importante garantir luz para regressar.
Começámos a caminhar em direcção à capela de S. João e logo um cão se juntou a nós. Aparentava ser novo, brincalhão e muito curioso, um companheiro inesperado e divertido. Nos cursos de água que atravessámos entretinha-se com um estranha brincadeira, quase como se estivesse a pescar, abocanhando a água.
Sinto um prazer que não sei explicar em caminhar à chuva, prazer que descobri partilhar com mais gente que gosta de caminhar. Há certas paisagens que só se revelam em toda a sua força e beleza quando as águas rebentam. Linhas de água e cascatas que nos mostram uma natureza fora do período de adormecimento estival. Os dias quentes são bons para uma banhoca numa lagoa, não são os melhores para caminhar. Exigem de nós um esforço suplementar que não compensa.
Caminhámos por entre mato, subimos, descemos e poucas vezes encontrámos trilhos abertos. À hora acordada não estávamos longe do Pico da Nevosa e dos Carris mas havia ainda o caminho de regresso para fazer.
Regressamos por um caminho diferente, mais curto e mais fácil. A navegação estava facilitada porque, para além do conhecimento do terreno adquirido, a capela de S. João da Fraga era um óptimo ponto de orientação. A capela é uma pequena construção rústica caiada de branco no cimo de uma fraga imponente. Acede-se a ela por uns degraus talhados na rocha que depois desci a medo devido à chuva. Lá em cima a vista é avassaladora.
No final da caminhada retemperámos forças na Casa do Preto. Sopa, presunto e um tinto transmontano sem pedigree mas de bom paladar. Antes de voltar a Braga comprei no forno comunitário da aldeia uma broa de centeio acabada de cozer. A padaria da aldeia, que distribui até Braga e por Espanha, coze lá todos os dias.
O objectivo da caminhada não tinha sido cumprido mas poucas caminhadas me deram tanto prazer. Tinha as botas encharcadas, mas nada disso importava pois tinha experimentado uma sensação de liberdade única. Citando um transmontano a quem uma companheira de caminhadas chama poeta padroeiro do UPB: “Se há gente que eu entenda, é aquela que gasta a existência a escalar os Himalaias do mundo. Abismos invertidos em direcção ao céu, para os amar é que é preciso ter asas de Nietzsche. Os triunfos, ali conquistam-se nas barbas de Deus.” – Miguel Torga; Diário VI, 10 de Agosto de 1952.
ver fotos da caminhada
Monday, September 18, 2006
O Minho e outras histórias

Este fim-de-semana reencontrei-me com amigos numa descida de rafting no do Rio Minho. Ainda que tenha uma auréola radical esta descida é essencialmente um momento de lazer. Foi a terceira vez que desci, ainda que desta vez num percurso ligeiramente diferente dos anteriores devido ao baixo caudal do rio. Por uma estranha coincidência fiz sempre a descida com o mesmo monitor. Um antigo marinheiro brincalhão e muito sabedor nos relacionamentos. No meu raft desceram 3 participantes que não conhecia mas antes de entrarmos na água já funcionávamos como equipa.
Na descida, entre dois rápidos, aproveitava para nos dar informações sobre o Rio Minho. É impressionante verificar como o homem interagiu com a natureza durante séculos mantendo os ecossistemas em equilíbrio. As margens do Rio Minho são testemunhas privilegiadas dessa relação. Perde-se a conta às pesqueiras existentes nas suas margens para a pesca da lampreia, sável e salmão. Não sei quantas delas são ainda usadas mas aprendi que essas construções são prédios rústicos, com donos conhecidos que delas pagam taxas e outros impostos. Eu que sempre julguei serem património colectivo.
O dia tinha começado com chuvas fortes mas quando o sol abriu transformou-se numa manhã magnífica. Só que na margem espanhola as águas dessa chuva testemunhavam o drama dos incêndios de Verão. Com elas arrastavam para o rio cinzas que sujavam a margem direita e, por incrível que pareça, conseguimos, num momento, sentir o cheiro a queimado. Já terá sido pior disse-nos o monitor, mas confesso que foi uma surpresa ter ali mais um testemunho dos incêndios florestais.
O momento mais radical da descida foi um salto para a água de uma altura de 7 a 8 metros. Mais uma vez não resisti ao desafio inicial. Lá em cima, depois de olhar o abismo, hesitei. Só que depois de subir ao penedo não havia outro remédio que não fosse precipitar-me para o Minho. Um segundo de angústia, um outro de inconsciência, seguido pela percepção de, já no ar, alguém gritar - Agora fecha. E eu acho que fechei os braços. Apenas um pouco antes das águas me receberem e de o colete me ter devolvido à superfície. Este salto é bem maior, e mais assustador, que o do percurso a montante. Sou Minhoto, e o salto é mais que um salto para um rio, é um salto para o Minho. É também esse lado simbólico que me faz aceitar sempre o desafio e vencer o medo.
O dia foi também pretexto para recordar velhas histórias. Pequenas patifarias inocentes que correram bem. É engraçado o monte de recordações que acumulámos e como nos admirámos quando contámos os anos que já se passaram. A propósito dos ritmos do tempo um dos meus amigos disse-me algo espantoso – Nada nos esclarece melhor da passagem do tempo como assistir ao primeiro ano de um filho. O ritmo das mudanças é tão grande que nos chama atenção para as nossas e da nossa errada percepção que estamos na mesma.

Sunday, September 10, 2006
Caminho de Santiago

Ontem fez 4 anos que completei o Caminho Português de Santiago. Parti de Braga e demorei 7 dias até Santiago em etapas de diferentes distâncias.
Do grupo que começámos a formar partimos três e concluímos dois. As nossas motivações foram essencialmente de lazer e culturais, mas caminhar, dias seguidos, em direcção a algo transforma-se sempre uma experiência também espiritual. Mais tarde ofereceram-me o livro do Paulo Coelho sobre o Caminho de Santiago, não gostei. Nunca mais pretendo ler nada dele, é muita fantasia, um misticismo de que não partilho nem consigo perceber.
Concluir, chegar a Santiago de Compostela, foi uma enorme sensação de superação. Retirei alguns ensinamentos mas ninguém se transforma no caminho. Quanto muito pode conhecer-se melhor durante caminho. Chegar mais dentro de si. Admito que cada um viva a experiência de formas diferentes. Há diferentes pontos de chegada e diferentes pontos de partida. Entre eles, existem muitos caminhos possíveis.
Thursday, September 07, 2006
Bancada lateral

Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar
Quando tu me vires no music-hall
estarei no palco
cabeça do sol
ao sol da noite das luzes
à espera dum outro sol
e que os teus olhos os uses
como quem usa um farol
não me olhes só dessa frisa lateral
desce pela cortina e acompanha-me em cena
vamos dar à perna como gente que se ama
e até não se poder maisvamos bailar
Quando tu me vires na televisão
estarei no écran
pés assentes no chão
a fazer publicidade
mas desta vez da verdade
mas desta vez da alegriad
e duas mãos agarradas
mão a mão no dia a dia
não me olhes só desse maple estofado
desce pela antena e vem comigo ao programa
vem falar à gente como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos cantar
E quandoà minha casa fores dar
vem devagar
e apaga-me a luz
que a luz destrouta ribalta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta
às vezes não me seduz
às vezes não me faz falta.
Sérgio Godinho - Espectáculo
O futebol é uma coisa engraçada. Num momento em que os jornais relatam o lado mais negro, um dos rostos de uma geração aceita dar a cara enquanto adepto. Acho que não faz falta perguntar "que força é essa, amigo".
É uma pena que esta força esteja prisioneira de tantos interesses. Para já fico na bancada lateral, esperando o remate que nos liberte desta sede.
Wednesday, September 06, 2006
O trilho de S. Bento


O Trilho do São Bento, de âmbito cultural e paisagístico, apresenta-se como um percurso pedestre de pequena rota (PR), tem uma extensão de aproximadamente 10,5 km, com um tempo de duração de 4 horas, sendo o grau de dificuldade médio, com alguns desníveis acentuados.
Este percurso estende-se ao longo da encosta sudoeste do vale do Rio Caldo sendo interceptado, em dois locais, pelo troço da E.N 304, que liga as freguesias de Rio Caldo e Covide. O seu traçado caracteriza-se por locais de interesse histórico-cultural, de cariz religioso, que despertam curiosidade ao pedestrianista e visitante. Um dos principais atractivos deste trilho são os antigos fornos de fabrico de carvão, denominados de furnas, o fojo do lobo - locais de captura do animal e as rochas graníticas com as pegadas de Santa Eufémia, representando vestígios que remetem às tradições e mitologias da freguesia de Rio Caldo. O fojo do lobo e a furna são estruturas que demonstram e confirmam a relação de coexistência vivencial, com benefícios e malefícios, entre o homem e determinados animais, inclusive o urso e o lobo.
Ao fim-de-semana, e mais ainda no Verão, há sempre muita gente em S. Bento. Como minhoto conheço bem a importância deste santuário no Baixo Minho, mais ainda porque parte das minhas raízes são do vizinho concelho de Amares.
Cresci com histórias de romagens a S. Bento e fui também várias vezes desafiado para a fazer. Fiquei sempre com a ideia que, além das questões de fé, a romaria tinha, também, uma forte carga iniciática. Tratava-se de provar já ser capaz de “ir até”.
Das histórias que escutei da minha mãe e tias ficou-me muito mais uma ideia da festa, e pouco dos sacrifícios mortificadores. Talvez por isso sempre tive dificuldade para os aceitar e perceber. Assistir aos devotos de joelhos em torno da Igreja nunca me causou grande comoção. Pelo contrário sempre me pareceu excessivo e sem sentido. Percebo pois o efeito que terá motivado Miguel Torga a registar no seu diário, em 13 de Agosto de 1966:
“Não direi como se chama, nem o nome interessa. Vale a pena, sim registar a natureza da promessa que fez: vir aqui todos os anos, enquanto tiver saúde, e deitar meia-dúzia de foguetes à chegada. Pequenino, vivaço, de cigarro acesso na mão, enquanto vagas sucessivas de romeiros, num rodopio penitente, ensanguentavam com os joelhos abertos a faixa que a compaixão canónica aplainou na aspereza do adro.”
Hoje, serão menos os penitentes mas, como pude constatar no regresso, ainda há que faça o percurso desde as pontes de Rio Caldo de joelhos.
Reunido o grupo, abastecidos de água, cautela necessário num trilho sem fontes de água, começámos a subir. O trilho, apesar da acentuada inclinação inicial, foi relativamente fácil de fazer. O calor acrescentou uma dificuldade adicional atenuada pela falsa sensação de facilidade de caminhar por estradão. Eu prefiro caminhar por caminhos de pé posto, gosto de sentir o monte não a monotonia da estrada.
Depois do fojo subimos um pouco mais até um miradouro natural sobre a encosta. Parámos a descansar e a admirar o vale que desce desde Covide até se afogar na albufeira. Ao longe identificámos no recorte do horizonte a Roca Alva, a Roca Negra, o Borrageiro, o Pico daNevosa e o Pé de Cabril. Junto a nós um rebanho de cabras pastava livremente.
Troquei algumas palavras com o pastor. É uma vida dura, acentuado com a repentina perda dos familiares num acidente deixando-lhe toda a responsabilidade de um rebanho de 300 animais. Havia uma certa mágoa contida pela ausência e solidão na forma como me contou isso, quase os culpa: “quiseram ir os 3 ver o Douro”.
Fiz-lhe algumas perguntas sobre o rebanho. Contou-me que perdera no último ano 6 animais com os lobos. Não se ofendeu quando lhe perguntei se tinha a certeza que tinham sido lobos e não cães assilvitrados . Disse-me que ainda no dia anterior lhe tinham desaparecido 3, agora restava-lhe esperar pelo seu regresso ou procurar a carcaça. Procedimento necessário para que o PNPG o compensar.
Quando lhe perguntei sobre o preço de um cabrito comprovei, mais uma vez, que poucos pastores matam os seus animais. Escolhem desde cedo os que vão morrer e os que se vão criar, só que matá-los é outra história. Eu até podia comprar o animal em carcaça mas seria outro a matar. Não ele.
Um pouco acima encontrámos um bosque que nos proporcionou uma sombra acolhedora. Apetecia mesmo ficar lá.
Na descida parámos junto ao fojo do lobo. Foi recentemente mutilado pela abertura do estradão. É um fojo de paredes convergentes que terminava num fosso de 3 metros de altura e 5 metros de diâmetro. A batida ao lobo seria feita com os batedores de Rio Caldo de um lado e do outro os batedores do lugar de Freitas, que fechando os animais no fojo eram empurrados até ao fosso. Haveria ainda um segundo fojo na zona.
Cruzada a EN304, o trilho seguiu por um bosque até a uma praia fluvial sobre o Rio Caldo onde nos refrescámos. O trilho continuava para umas antigas furnas de carvão a que resolvemos não ir por o mato estar muito fechado. Regressámos aos carros e fomos refrescar os corpos na albufeira da Caniçada. No final ainda tivemos os bolitos de chocolate dos novatos do UPB. Nesta caminhada tivemos, entre outros, dois “botistas” de Lisboa. Ficaram de voltar em novas iniciativas do UPB.
Regressei a casa depois de um dia bem passado. É um trilho engraçado, o fojo e o bosque acima merecem uma visita mais demorada. Visto na carta parecem muito perto de Campos dos Abades. É uma boa base para futuras explorações.
Nota: no dia seguinte à caminhada do UPB ardeu uma das encostas junto a S. Bento. Algumas fontes falam em fogo posto. Não consigo perceber. Simplesmente não consigo perceber.
Thursday, August 31, 2006
Trilho Castrejo

O dia começou relativamente cedo, mas as tarefas de deixar o parque de campismo e tomar o pequeno-almoço levaram o seu tempo. Quando chegámos a Castro Laboreiro já deviam passar das 10h. Estacionámos os carros e começámos a preparar as mochilas.
Na saída encontrei algumas pessoas conhecidas que se preparavam para fazer um percurso de canyoning pelo Rio Laboreiro. É uma actividade que gostava de experimentar. Aproveitei para verificar as condições de segurança da actividade. Conheço a empresa, Escola Rafting do Atlântico, assim como alguns dos monitores e monitoras, antigos alunos da universidade, que já encontrei algumas vezes nas viagens da neve da Universidade do Minho.
O Trilho Castrejo é um PR homologado, marcado originalmente pela CIMO (Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação) em 1999. O desdobrável era de 2001 e como iríamos descobrir nem sempre era fácil de seguir os “antigos caminhos que ligavam as Brandas às Inverneiras e no caso de estes estarem marcados decorre por caminhos alternativos. São caminhos que remontam à idade média dos quais ainda restam algumas pedras de calçadas, pontes de arco, antigos.”
Iniciámos o trilho, bem mais tarde do que pretendíamos, por um estradão não muito bonito de fazer (não seria errado pensar numa alternativa a esta marcação). As marcas também não são fáceis de seguir e acabámo-nos por nos desviar uns 200 a 300 metros do trilho marcado. O terreno era complicado e perdemos algum tempo. Voltámos a encontrar as marcações junto a uma pequena represa um pouco antes da inverneira Barreiro. A partir daqui seguimos numa uma calçada por bosque bonito. Encontrámos muitas casas abandonadas o que confirmava a informação que a maioria dos castrejos se fixou as suas casas das brandas, onde habitavam mais tempo. Em algumas das casas haviam ainda vestígios dos tradicionais telhados em colmo.
Tínhamos decidido almoçar na ponte depois da Assureira (inverneira), mas optámos por seguir para Curveira (inverneira) porque lá teríamos uma fonte de água. Tendo em conta a hora, depois do Bico do Patelo abandonámos o trilho em direcção a Cainheiras (inverneira), evitando as brandas Seara e Padrousouro. No regresso a casa ainda queríamos ir a umas piscinas naturais depois a Sra da Peneda, e não queríamos chegar lá muito tarde. A subida até ao Bico do Patelo é dura, e a hora a que a fizemos complicou um pouco mais. Lá de cima a vista é magnífica, vale bem a subida.
Em Varziela (inverneira), onde alguns dos UPB’s tinham ficado alojados na caminhada com a Ecotura, o trilho passa por uma ponte sobre uma ribeira que cria uma bonita piscina de águas cristalinas. Há muito tempo que sonhávamos com um pouco de água e vê-la tão perto despertou ainda mais o desejo.
Chegámos a Castro Laboreiro pelas 17h, cerca de 6 horas depois, sem muito consenso quanto aos quilómetros caminhados. O trilho terá na totalidade uns 17 a 18 km, mas não devemos ter caminhado mais do que 14 km. O dia quente, as férias e algumas hesitações no trilho justificam a média baixa. É um trilho exigente mas muito bonito, ainda que esteja mal marcado em certos locais. Não visitámos as brandas que ficam para uma outra vez.
A procura das piscinas revelou-se complicada e acabámos por nos refrescar na praia fluvial de Arcos de Valdevez. Um banho merecido. O corpo já não está a habituado a ser castigado desta forma. As férias deixam as suas marcas e o calor era muito.
Fonte: PR3 Trilho Castrejo
Fotos: http://caminhadas.myphotoalbum.com/
Tuesday, August 29, 2006
Trilho interpretativo de Lamas de Mouro

“Este trilho interpretativo é um percurso pedestre circular que se desenvolve ao longo dos principais lugares da freguesia de Lamas de Mouro (Melgaço), em plena entrada da mais antiga e importante área protegida do nosso país – o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).
O percurso permite a compreensão da estrutura territorial desta localidade, localizada nos interstícios da majestosa serrada Peneda, bem como o reconhecimento dos seus principais valores naturais, culturais e paisagísticos.
As marcas de ocupação humana estão ainda bem presentes, destacando-se a pitoresca ponte, o histórico moinho de água, o forno comunitário e a secular igreja de estilo românico.
No coração deste trilho surge a porta de Lamas de Mouro. Trata-se de uma estrutura da Câmara Municipal de Melgaço, vocacionada para a recepção, recreio, informação e educação ambiental dos visitantes do PNPG.
Para conhecer um pouco melhor a história bem como o uso e a ocupação espacial desta multifacetada área serrana é praticamente obrigatória a visita, já na recta final do trilho, à exposição “Ordenamento do Território” patente na Oficina Temática da Porta de Lamas de Mouro.”
Fonte: Trilho interpretativo de Lamas de Mouro – Porta de Lamas de Mouro
É um trilho fácil de seguir, com uma extensão de 4,5 km e duração estimada de 2 horas. A diferença de quotas não ultrapassa os 80 metros. Um trilho para relaxar e recomeçar a temporada.
Comecei o trilho no bar/esplanada da Porta de Lamas de Mouro, instalado na antiga Casa Florestal, em direcção do antigo canil do cão de Castro Laboreiro. As marcas estão frescas e foram muito fáceis de seguir. Após cruzar a estrada (para Arcos-Gavieira) junto a uma ponte (há uma outra devoluta junto à ponte mais moderna), segui para a Ponte do Porto Ribeiro. Pouco depois, cruzada a E.M. existe um bonito Moinho de Água que deve ter sido recuperado recentemente, conforme se pode constatar pelo estado da levada.
Um pouco acima do moinho, fui ruidosamente chamado à razão por uma cadela Castro Laboreiro para que deixasse passar um rebanho de ovelhas. Sinal de que estamos em terras de lobos, a cadela usava uma coleira de pregos. Respeitosamente, deixei que o rebanho passasse e no final troquei algumas palavras com a pastora. Era uma senhora idosa e disse-me que ia levar o rebanho para uns campos e deixava-o depois entregue à guarda da cadela.
Na aldeia, o trilho seguiu pelos currais, por um relógio de sol, um forno comunitário e por uma igreja com vestígios românicos. Num sinal claro da emigração na aldeia, havia vestígios de uma festa fora do calendário. Sendo Agosto o mês de regresso, celebra-se também em Agosto o padroeiro S. João Baptista. A festa teria sido realizada na quarta, na noite de 23 para 24.
O trilho seguiu depois para uns campos da aldeia, numa zona de lameiro, em direcção à Porta de Lamas de Mouro. Junto à porta encontrei um grupo de garranos, que por estarem habituados ao homem, não se intimidaram com a minha presença. Expectantes, deixaram-se fotografar. No final do trilho visitei a exposição permanente com o tema “Ordenamento do Território". A Porta de Lamas de Mouro foi uma agradável surpresa e merece uma visita.
Porta de Lamas de Mouro

"Os visitantes do Parque Natural da Peneda-Gerês dispõem, a partir de hoje, de uma porta de entrada em Lamas de Mouro, Melgaço, que lhes disponibiliza informações sobre trilhos e riquezas naturais. A medida pretende dar uma orientação e acabar com a anarquia nas visitas. Orçada em 1,6 milhões de euros, aquela porta é a primeira de uma série de cinco que vão ser criadas em cada um dos concelhos abrangidos pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), para pôr fim à anarquia nas visitas àquele espaço natural. "O parque é anualmente visitado por milhares de pessoas mas estas, quando lá chegam, não têm qualquer estrutura que as oriente, pelo que as visitas são feitas de forma perfeitamente anárquica e é para acabar com esta situação que vão ser criadas as portas de entrada", explicou fonte do PNPG.
Monday, August 28, 2006
Noites de Verão ao Luar

Um mau cálculo do tempo de viagem, associado ao enorme cortejo de um casamento em que me vi envolvido, fez-me chegar atrasado ao local de encontro Como na zona não há rede de móvel não havia forma de me contactarem, assim como eu avisar do meu atraso. Eu queria subir ao castelo e tinha a ideia, errada, que seriam uns 2o minutos a subir.
Encontreios-os numa esplanada junto ao miradouro para o castelo. Apresentadas as desculpas, tive tempo para visitar o castelo. A subida é muito mais rápida do que eu imaginava e ainda tive a companhia da Jana. Ela queria telefonar e tinha descoberto que lá em cima tinha melhor rede. A subida demora uns 10 minutos. É fácil, ainda que tenha alguns obstáculos que não são para todas as idades. Lá em cima a vista é soberba. Um ninho de águia inexpugnável.
Encontramo-nos com o Pedro Alarcão na zona de lazer da Várzea, onde a Ecotura possui as box para os cavalos. Lá estava mais 3 participantes de Lisboa. Uma delas era uma realizadora de BD que estava a prepara uma animação sobre o lobo. Saímos, ainda nos nossos carros, para uma branda onde começamos a caminhar.
Ao longo do percurso o Pedro ia dando explicações sobre a zona e as suas tradições. Naturalmente, o lobo era uma das nossas grandes curiosidades. Foi-nos relatando pormenores do seu trabalho, episódios da gravação do documentário para a RTP e não só.
Os relatos contadas nem sempre são alegres. Já perdeu animais devido ao veneno, mas é uma pessoa empenhada em mudar pela positiva. Quer fazer com que as pessoas aceitem o lobo. Está empenhado, defende que o Ecoturismo é a grande oportunidade para a defesa da alcateia. Ele e a esposa apostaram numa mudança de vida radical.
A primeira paragem foi numa pedra com gravuras rupestres, em que o Andarilho ajudou na explicação científica. O Planalto de Laboreiro tem vestígios de ocupação humana muito antigos só que a paisagem foi pouco modificada pelo homem. Alguns muros e nada mais. É magnífico.
Ao caminhar foi-nos explicando o funcionamento das alcateias, a sua organização social, estratégias de caça, etc. É surpreendente a semelhança da sua estrutura familiar com a do homem. Explicou-nos também as razões do mito do lobo como animal feroz. Há poucos relatos de ataques de lobos ao homem, mas ele continua a ser o lobo feroz. As causas são muitas. É naturalmente um animal selvagem mas não é perigoso para o homem.
Pouco antes do local do jantar, encontrámos garranos em liberdade. Eram animais muito bonitos, em conjunto com um grupo que avistei perto do Cocões de Coucelinho (Gerês), foram os garranos mais bonitos e musculados que vi. Nada parecidos com os cavalos de ventre inchado a que associámos os garranos. O Pedro explicou-nos que isso deve-se à sua alimentação e exercício. Na sua opinião o garrano é um excelente cavalo. A Ecotura praticamente só tem garranos e num futuro próximo pretende reforçar essa aposta.
No cimo da colina a esposa de Pedro, Anabela Moedas, esperava-nos com a mesa posta. A visão foi magnífica, demorámo-nos um pouco a saborear os petiscos. Foi a primeira vez que tive uma refeição destas no meio de uma caminhada. É uma boa experiência.
Depois dos petiscos veio a”aula” de astronomia dada por Pedro e Anabela. Observar as estrelas pode ser algo engraçado. Eu não tenho esse hábito e tive alguma dificuldade em algumas constelações mas foi divertido.
De seguida visitámos mais uma anta e iniciámos o regresso. Junto aos carros ainda ficámos a conversar até depois das 3 da manhã. No regresso meti mais uma vez pela Peneda. A estrada de noite é impressionante. Avistei uma raposa e dois animais que depois identifiquei como ginetas. O regresso foi complicado por causa do sono mas valeu a pena. Numa próxima fico a dormir por lá.
Um exemplo ao contrário

Poucos dias antes do incêndio que afectaria o Mezio fiz, com alguns amigos do UPB, uma caminhada diferente. Foi um email que me fez conhecer um exemplo positivo. Um exemplo que me faz continuar a acreditar. O casal Pedro Alarcão e Anabela Moedas, são dois jornalistas que transformaram a sua vida ao iniciarem um estudo sobre o Lobo Ibérico na zona da Peneda. Hoje vivem com dois filhos em Castro Laboreiro e exploram uma empresa de ecoturísmo http://www.ecotura.com/. É pena serem um exemplo ao contrário. Largaram a capital Lisboa pelos montes de Castro Laboreiro. Uma zona tão descentrada, e tão particular que produziu uma organização territorial única de Brandas e Inverneiras.
Esta caminhada foi uma das coisas mais engraçadas que realizei nos últimos tempos. Fiquei de lá voltar para dar uma volta de garranos.
Retomar
Sobre os efeitos do fogo, e sobre o tempo para recuperar, pode-se consultar uma pequena mais brilhante polémica no blog Fauna Ibérica ( http://faunaiberica.blogspot.com) - http://faunaiberica.blogspot.com/2006/08/o-fim-da-mata-do-ramiscal.html
Nos próximos tempos voltarei a caminhar por lá perto, espero ficar com uma visão mais clara. Fiz uma vez uma parte de uma caminhada por dentro de uma mata ardida perto de Ponte de Lima. Era um cenário de guerra. Tudo negro e sem vida, como uma radiografia: reveladora mas sem alma.
Pelas fotos que vi a Mata do Ramiscal não estará assim, só como é que foi possível chegar lá o fogo? Dias a arder. Dias a avançar sem o deterem.
Wednesday, April 19, 2006
O "pecado" da carne

Por vestígios de ocupação humana, desconfio tratar-se de uma antiga branda. Entre diversas construções toscas dos pastores, umas cabanas de pedra solta, comuns nesta zona, existe uma casa em boas condições demonstrando que continua a ter ocupação. Não pude confirmar, mas penso que o local chama-se Branda de Cova e pertence ao povo de Soajo.
Junto à casa pastavam vacas e bois, penso que da raça barrosã, em liberdade absoluta. A carne de animais criados assim deve ter um sabor magnífico, um sabor a comida verdadeira. Carne para se comer na brasa, sem mais temperos dos que os necessários para nos abrir os sentidos. E apesar de ser Sexta-Feira Santa caí no "pecado da carne" por pensamentos. Se bem que o verdadeiro pecado é comer a outra carne. A dos supermercados, entenda-se.
Tuesday, April 18, 2006
Monday, February 13, 2006
De curral em curral




















"Domingo, bem cedo, ao nascer do dia, passam 30 minutos das 6 da madrugada, os populares de Fafião reunem-se no centro da aldeia carregados de mochilas, instrumentos para remover a terra e duas dezenas de carvalhos.Sai-se da aldeia em grande algazarra com a carrinha apinhada de gente e numa estrada de terra batida lá se vai em direcção a Malhadoira. A estrada acaba, mas continua-se a pé, por entre nascentes, arvore-dos e regatos mansos, carregando instrumentos, árvores e boa disposição.
Chega-se a Pinhô, depois de mais de uma hora de caminho, passando por pastores, vacas, cabras, pássaros madrugadores e a neblina macia da matina. É hora de “matar o bicho”, descansar e organizar o trabalho para o dia. Entre copas de Gerupiga e pão da terra, decidem-se em assembleia as tarefas, a hora e o ponto de encontro. Formam-se grupos de 3 pessoas, divididos pelos vários currais onde serão plantadas as árvores. O mesmo é feito para a limpeza de carreiros, caminhos e matas, prevenindo os incêndios e conservando o património que muitos dias do ano se confunde com o seu lar.Pousada, Amarela, Vidoirinho, Iteiro D’ovos, Padrolã, Rocalva, são os nomes dados aos currais por onde passa a vezeira do gado. Localizados no coração da serra do Gerês, estes lugares contam histórias deste povo nativo, que desde o início da formação da aldeia percorreu as serras agrestes do Gerês, ora pelo calor abrasador do Verão, ora pelo frio e pela neve do inverno, semeando centeio, pastoreando vacas e cabras, trazendo contrabando da vizinha Galiza...Os currais são lugares situados em zonas planas, verdejantes e quase sempre com água; autênticos oásis no meio da montanha, com cabanas construidas em granito, onde os pastores pernoitam durante a época do pastoreio. As árvores são plantadas nesses lugares e à sua volta é construida uma pequena muralha com pedras, para que os animais não lhe comam as folhas. «Os antigos faziam o mesmo, e queremos manter a tradição, para que os nossos netos não esqueçam os seus antepassados e o seu modo de vida.»
No início da tarde ouvem-se os primeiros sinais por detrás dos cumes e vales amontoados de pedra e vegetação serrana. Regressam ao ponto de encontro os primeiros populares que entoam sinais sonoros, na linguagem da serra, bem entendida pelos pastores e viajantes daqueles lados.
Chegam cansados na hora do calor, depois do trabalho e da valente caminhada. É hora de acender a fogueira e fazer o almoço para que esteja pronto quando estiverem todos.É servido o almoço e em festa e convívio caloroso, descansa-se e conversa-se até à hora de regressar, já no final da tarde. Descendo a montanha até à malhadoira, na alegria e farra que caracteriza este povo serrano, encontram-se os vezeireiros, guardando pacificamente dezenas de vacas, próximos da cabana onde estão os mantimentos. Mais dois dedos de conversa e regressa-se à aldeia, à mesma hora que os rebanhos de cabras atravessam o rio.O exemplo destes populares mostra como é possível e inevitável a preservação da natureza, mantendo os costumes e tradições comunitárias, caracterizadas pela proximidade ao meio natural, gerindo o património e tomando decisões sem intermediários."